Alma penada na fazenda do Rockfeller

A pequena floresta, que me disseram ser encantada, empurrada pelos canaviais em direção às barrancas do Rio Jacaré, já não guarda mais os mesmos mistérios dos anos 40 do século passado. Mas quando a vi pela última vez, lá pelos idos dos anos 80, ela fez minha imaginação viajar na garupa de velhas lembranças trazidas da primeira infância. Memórias que me fazem ainda e sempre reavivar a curiosidade pelo mito que virou história aos meus ouvidos de menino curioso.

Numa época em que a II Guerra Mundial arrasava considerável parte da Europa e o açúcar brasileiro era confiscado para atender às exigências decorrentes do conflito, nós, os caipiras dos cafundós do País, éramos obrigados a adoçar o café e outros alimentos com a raspa da rapadura. Aliado dos Estados Unidos, o Brasil andou distribuindo terras a personalidades ilustres daquele país, políticos e empresários que ajudaram o País a sair das garras do Eixo e juntar-se aos Aliados. De sobra, eles investiriam na produção de açúcar, o ouro branco disputado pelo mundo todo.

Foi nessa época que meu pai, procurando melhores condições de sobrevivência para a família em outras frentes de trabalho, vivia levando a família para diversos lugares do interior paulista. Sempre que ele vinha com essa decisão minha mãe concordava, pois também nutria sua alma com a ilusão de encontrar em outras fazendas uma compensação digna para o duro trabalho na roça. Puro engano. O sistema era o mesmo em todo lugar e no final do mês o ganho mal dava para a comida e raramente o empregado deixava de ficar devendo ao patrão. Aliás, parece mesmo que estou falando dos dias de hoje, pois igual situação ainda se reflete por todo canto, do Caburaí ao Chuí.

Nesse tempo, o da guerra, meu pai foi parar na Fazenda Itaquerê, banhada pelo Rio Jacaré, município de Nova Europa, região central do Estado de São Paulo. Essas terras são hoje tomadas por canaviais e abrigam uma das centenas de usinas produtoras de açúcar e de álcool do triângulo Campina-Ribeirão Preto-Araraquara, conhecido como a Califórnia brasileira. Mais tarde, já jornalista e movido pela curiosidade, fui saber que a propriedade, diziam, pertencia a um norte-americano muito rico, Nelson Rockfeller, de tradicional família de Nova York. Justamente um daqueles privilegiados pelo governo brasileiro.

Para falar a verdade, conheci muito pouco a fazenda Itaquerê. Entretanto, meus pais – Alice e Benedito – e os irmãos mais velhos – Sebastião e Laudir -, que lá passaram a pré-adolescência, me contaram que era cercada por um ambiente inóspito, que impunha muitas dificuldades aos que lá viviam e de onde tentavam extrair o mínimo possível para o sustento.

Pois foi aí, nessa fazenda, que vim ao mundo no dia 29 de abril de 1942. E nela fiquei por apenas 42 dias, até que minha mãe completasse o período de resguardo e retornássemos todos para Guatapará.

Só voltei a Itaquerê quando já trabalhava no Estadão. Um dia, ao escrever sobre o interior paulista, falei de Nova Europa, mas sem revelar que havia nascido no município. Bastou para que, em razão da matéria, me dessem o título de Cidadão Nova-europense. Numa manhã qualquer nos anos 80 foram me procurar na redação do jornal dois senhores, cujos nomes reais omitirei por razões óbvias. Um era José da Silva, vereador, autor da proposição que me agraciou com o título, e o outro, Joaquim de Souza, o prefeito. Vinham me convidar para a solenidade de entrega, pela Câmara Municipal, do tal título de cidadão. Contive o riso, peguei a carteira, retirei a cédula de RG e mostrei-lhes: Naturalidade: Nova Europa – SP.

Não houve a entrega do tal título, mesmo porque ele foi cancelado, mas mesmo assim aceitei o convite para comparecer à solenidade em que outras pessoas seriam agraciadas. Fui e aproveitei para fazer uma palestra sobre as lembranças que tinha de Itaquerê, mas todas elas muito vagas, formadas pelos detalhes que capturei das narrativas dos meus pais e irmãos.

No último dia da visita pedi que me levassem à tal floresta encantada que ocupava minhas memórias com os mistérios que guardei das conversas ouvidas na infância. Um deles: todas as noites o vulto de uma mulher deixava uma capelinha e vagava pela floresta cantando numa língua que ninguém entendia.

A capelinha ainda existia quando lá fui, embora mal cuidada, telhado e paredes ameaçando ruir, o mato quase cobrindo a trilha escondida sob capões de jacarandás, faveiros e guatambus. Abaixo do altarzinho, construído com blocos de granito, a lápide de mármore reunia um conjunto de letras, nome, sobrenomes e duas datas simbólicas: RIP, Evelyn Johnson-Scott, Y27-12-1902, U29-04-1942.

Contaram-me os que viveram naquela época que Evelyn fora trazida dos Estados Unidos pelo patrão, por quem era apaixonada, como forma de afastá-la dele em Nova York sob a desculpa que precisava da sua ajuda para administrar a fazenda Itaquerê. Na verdade fora uma exigência do clã Rockefeller para que ele continuasse usufruindo da fortuna da família. Só que com o passar dos dias o projeto da fazenda acabou sendo abandonado e Nélson foi embora, abandonando-a à própria sorte, o que a levou à loucura e ao suicídio no dia… em que eu nasci!!!

Minha mãe disse-me certa vez, falando do meu nascimento pelas mãos de minha avó materna, Regina Hoelzle, alemã, parteira famosa, que na noite em vim ao mundo ela viu nitidamente a imagem de uma mulher toda de branco parada num canto do quarto. Não tenho dúvidas de que era a alma da americana. Tanto que, no fim da visita à floresta encantada do Iraquerê, bateu-me a certeza de ter visto, por trás do tronco de um jequitibá frondoso, um rosto feminino me observando sorrateiramente até que a curva da trilha nos separasse. Agora de uma vez por todas…

O autor é jornalista em Roraima. 

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