A viagem do Dr. Antônio

Causou-me profunda tristeza a morte, no domingo à noite, aos 86 anos, do cidadão brasileiro Antônio Ermírio de Moraes. Foi a perda de um ser humano que fez parte da minha vida, mesmo sendo ele um dos mais destacados empresários do país e eu apenas um modesto jornalista.

Não usarei estas linhas para falar do comandante de um império que criou com a competência dos que sabem o que fazem e que soube viver com a humildade dos sábios, capaz de dividir com o próximo a sua capacidade de multiplicar benesses. Mas não posso, entretanto, deixar de lembrar as dezenas de anos que ele dedicou ao Hospital Beneficência Portuguesa, que administrou voluntariamente até mesmo depois de se aposentar. Ele o transformou numa referência para a saúde no Brasil e no exterior.

O que quero trazer como lembrança do Dr. Antônio, no entanto, vai além de tudo isso e alcança a minha vida pessoal. A começar pela fazenda Pantojo, em Alumínio, município de Votorantim, região de Sorocaba. Quando o conheci, ele ficou emocionado ao saber que a propriedade onde viria nascer sua maior empresa, a Companhia Brasileira de Alumínio, fora comprada ao meu avô, o alemão Emílio Hoelzle, por seu pai, o sergipano José Ermírio de Moraes,

Eu trabalhava no Estadão e ele era membro do Conselho de Administração da empresa S. A. O Estado de S. Paulo, dona do jornal. Então, sempre havia a chance de nos encontrarmos na sede do Bairro do Limão. Numa delas ele me convidou a visitar a casa grande da fazenda, construída por meu avô e que ele fizera questão de restaurar e transformar na casa de campo da família. Infelizmente os compromissos com o trabalho jamais me permitiram usufruir desse convite, que ele renovava sempre que nos encontrávamos.

Outro fato que marcou minha relação com Dr. Antônio ocorreu bem longe de São Paulo. Eu havia ido a Aracaju a convite do governo de Sergipe para o lançamento de um novo projeto turístico que englobava as praias do litoral e as cidades históricas do interior. Uma delas, Laranjeiras, foi o palco de um acontecimento que marcaria para sempre nossa amizade.

Na visita que lá fiz conheci Eliane Silveira, restauradora baiana que comandava um apertado ateliê numa das salas dos fundos da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus. Apesar do aperto, ela e sua equipe haviam restaurado centenas de peças valiosíssimas, muitas delas dos séculos XVI e XVII, encontradas nos velhos casarios das fazendas da região. Com esse trabalho acabaram fazendo do Museu de Arte Sacra da cidade o mais importante do Estado e o segundo mais importante do Nordeste, perdendo apenas para o de Salvador, onde estão coleções que levadas de Sergipe na época da sua emancipação da Bahia.

Na conversa com Eliane perguntei-lhe o porquê de o ateliê estar tão mal instalado, tendo em vista a importância do trabalho que ela e seus auxiliares faziam. Me disse que faltava apenas vontade política, pois havia casarões coloniais abandonados que podiam muito bem ser recuperados e destinados a abrigar o museu.

Foi então que me ocorreu a ideia de intermediar com seu Antônio o patrocínio que acabaria mudando a história do museu. Assim que voltei a São Paulo fiz a sugestão: o Grupo Votorantim, com profundas ligações com Sergipe, terra do pai dele, poderia comprar um dos casarões, reformá-lo e doá-lo ao museu. Ele concordou na hora. Ligou lá mesmo do Estadão para o diretor da filial do grupo em Aracaju e pediu-lhe que fizesse exatamente isso: comprasse um dos casarões e o deixasse em condições de ser doado ao governo do Estado para tornar-se a sede do Museu de Artes Sacras de Sergipe.

zzzzmuseuMeses depois chegaram à redação do jornal uma passagem aérea e o convite para eu comparecer à inauguração do museu. Fui, me emocionei com a homenagem que recebi, ganhei de presente uma imagem de terracota de Nossa Senhora do Rosário e me emocionei ainda mais com as palavras de Dr. Antônio: “Este rapaz aqui ao meu lado foi o meu guia no resgate de parte da história desta terra, terra de meu pai, José Ermírio de Moraes. Por isso quero que vocês sempre se lembrem de que se este museu está abrindo as portas hoje, é por obra dele, pelo seu tino de jornalista ao perceber que havia uma lacuna a ser preenchida na história da arte sacra de Sergipe. E que ele ajudou o Grupo Votorantim a preencher”.

Hoje, quando vou orar para Nossa Senhora do Rosário, me recolho à reflexão da minha fé para pedir a Ela e a Deus Pai que cuidem bem desse meu velho amigo, o querido Dr. Antônio, que acaba de fazer sua derradeira viagem para ir ao encontro de ambos.

O autor é jornalista em Roraima.

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 28/08/2014 às 9:55 am | Permalink

    Histórias do Brasil, empresários,jornalistas e religião.
    Os comunistas(Oscar Niemayer), os políticos (Eduardo Campos), os escritores (João Ubaldo e Ariano), os artistas (Robin Willians) e os empresários como Antonio Erminio morrem, um dia. Que sejam louvados pelos seus defeitos e virtudes.

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