A promessa

As tempestades de setembro já eram poucas e esparsas, anunciando o fim do inverno amazônico. A passarada espalhava-se pela mata, onde fruteiras generosas ofereciam abundância e variedade capazes de alimentar bandos e bandos de araras, papagaios, jandaias, tucanos, sabiás, assanhaços e tantos outros da vasta fauna que habita o extremo norte. Frutas que alimentam não apenas bichos de pena, mas também os de pelo, nas galhadas e no rés do chão, e os de escamas e de pele nas dezenas de rios e centenas de igarapés que cortam a região.

Na casa simples de taipa, coberta com folhas de buritizeiro, sob o olhar preocupado da mãe, a menina prostrava-se na cama, sem ânimo, rosto marcado pelas olheiras de noites mal dormidas. Havia dias que vinha ardendo em febre alta, que nenhum dos medicamentos caseiros fora capaz de debelar. Olhos lacrimosos e voz embargada, a mulher apelou ao marido para que fosse logo, porque cada minuto significava um risco a mais, a ponto de ela já temer pela vida da filha.

A partida foi questão tão-somente do tempo necessário para embalar as mercadorias, que precisavam estar bem acondicionada em folhas de pacova para aguentar o tempo de viagem. Beijou a filha e perguntou-lhe que presente gostaria que lhe trouxesse, recebendo o pedido de uma boneca. Prometeu-lhe que, três dias depois, na volta, traria os remédios que lhe devolveriam a saúde e o presente que faria sua felicidade de criança. Por fim, deu um abraço na esposa e pediu-lhe que fosse forte e paciente, pois não demoraria mais que o necessário.

Carregou a canoa, desatou o amarrilho, embarcou, ligou o motor rabetinha já quase no prego de tão velho e partiu resoluto Uraricoera abaixo para uma viagem da qual, sabia, dependia a vida de sua filha.

O sol já ia alto quando atravessou sob a ponte da BR-174. Aportou, pediu licença e recebeu do dono do pequeno porto autorização para deixar sua canoa por ali. Depois subiu a encosta com a mercadoria às costas e postou-se à beira da rodovia à espera de uma carona, que dinheiro para o ônibus não tinha. Não demorou muito para que um motorista caridoso parasse para socorrê-lo. Assim, uma hora depois, quase antes da hora do almoço, desceu no centro de Boa Vista. Mal acomodou-se na calçada tratou de vender o que trouxera a fim de conseguir os recursos para comprar os medicamentos que a filha esperava ardendo em febre lá longe, bem acima da ilha de Maracá.

Ribeirinho inocente de alma pura, que sempre vivera da pesca, da caça e de culturas de subsistência, como arroz, feijão, milho e mandioca, pôs-se a oferecer quatro mantas de pirarucu, que salgara na esperança de apurar o necessário para suas despesas. Mas não contava com a presença de um fiscal do Ibama. No meio da tarde, sem mercadoria, levada para incineração, e, pior ainda, sem dinheiro, viu-se trancafiado na cela de uma delegacia acusado da prática de crime ambiental.

Um defensor público foi socorrê-lo. Não foi difícil convencer o juiz ao mostrar-lhe que, dadas as atenuantes, a prisão fora desumana. Quando se viu em liberdade bateu-lhe o desespero: como comprar os remédios e a boneca que prometera à filha? O advogado condoeu-se com seu infortúnio e não só comprou o que ele viera buscar como também fez questão de levá-lo de volta ao porto do Uraricoera.

Já era quase noite quando decidiu pegar o rumo de casa. Mesmo contra as advertências do dono do pesqueiro, que o alertou para os perigos de navegar à noite e também porque uma tempestade se formava lá pelas bandas da serra de Pacaraima. Havia um motivo maior: a preocupação com a doença da filha, que sem os medicamentos poderia não sobreviver por muito tempo.

Foi com essa preocupação que penetrou na escuridão e assim foi até lá pelas tantas, quando a lua cheia subiu no horizonte, atravessou o mar de nuvens negras e se postasse num vasto campo de estrelas como uma grande bola prateada que iluminava as águas rápidas das corredeiras. Todavia, esse espetáculo não durou muito. As nuvens de novo esconderam a lua, agora trazendo relâmpagos e trovões, e não demorou para que grossos pingos começassem a castigar sua pele curtida pelo sol. De chuva passou a temporal, mas nem mesmo a violência da natureza o fez desistir. Foi indo, indo, batendo em pedras, tateando na escuridão até que uma vaga maior o arremessou para o fundo do Uraricoera.

A noite já avançava para a madrugada e na casinha de taipa, em que as paredes de barro tinham frestas por onde a luz dos relâmpagos invadia todo o ambiente, a mulher abraçou forte a filha temendo pelo pior. Atravessou as horas tentando resistir ao sono, mas não conseguiu. Entretanto, antes que seus olhos se rendessem aos encantos de Morfeu, pareceu-lhe ver a figura do marido ao lado da porta, sorriso nos lábios e uma boneca nas mãos. Acordou já nos primeiros clarões da aurora, levantou-se, abriu a porta e sob o batente encontrou uma sacola de plástico com os medicamentos e uma caixa, embrulhada para presente, embalando a promessa que o pescador fizera à filha.

Dois dias depois, no raiar da manhã, o dono do porto deu com um corpo que descia pela margem esquerda do Uraricoera, agarrando-se sem vida às moitas de canarana…

O autor é jornalista em Roraima.

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 12/09/2014 às 6:00 am | Permalink

    Os textos de Jorge Teles e Plinio Vicente são motivações semanais de “50anos”.

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