Sobre suportes físicos, o amor a vida a morte

Jurássico, dinossauro, pré-antigo, cheguei hoje em casa com seis CDs. E feliz da vida.

Os CDs estão acabando. Na verdade – nos dizem todos os dias os arautos da modernidade – todos os suportes físicos estão acabando. Os CDs, essa invenção dos anos 80, os DVDs, coisa que nos chegou no final dos 90, os livros, que estão aí há bastante mais tempo. Tudo isso aí, os suportes físicos, estão acabando. Não são mais necessários. Pra quê? Está tudo na nuvem.

Carlos Bêla, filho de colecionador de suportes físicos, genro de colecionador de suportes físicos, ele mesmo até há pouco um criterioso colecionador de suportes físicos, a maioria deles importada, se desfez de quase toda sua coleção. Pra que ocupar espaço na casa nova com aquela tralha? Está tudo na nuvem.

zzsuportes1O Bado, que já posso considerar meu amigo, tem uma bela coleção de DVDs de música em seu consultório. Enquanto os pacientes, e mesmo os impacientes, abrem a boca e se entregam à tortura no consultório dele, têm ao menos o conforto de ouvir boa música. Bado tem bom gosto. Adora bossa nova. Tem Tom como o grande ídolo. Outro dia me aplicou um DVD da Nana Caymmi de que eu nunca tinha ouvido falar. Adora jazz, Grande Música Americana – já ouvi lá Ella Fitzgerald, Ray Charles. Ninguém é perfeito, e Bado, como é jovem, nunca tinha ouvido falar em Cat Stevens, e não sabia o que é folk, mas adorou o show de Bruce Springsteen no Espaço das Américas, o mesmo que Mary e eu vimos extasiados.

Pois bem: na última vez em que nos vimos, o Bado – depois que comentar sobre o show do Bruce – me disse que anda pensando em não comprar mais DVDs. “Tá tudo no YouTube!”, disse, enfático.

Tá tudo no YouTube, tá tudo na nuvem. E, no entanto, cheguei hoje em casa com seis novos suportes físicos.

Não cabe mais suporte físico na casa – mas comprei seis novos, e vim todo alegrinho.

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O que eu queria mesmo comprar não encontrei.

Entre o metrô e a casa da minha irmã para a visita semanal obrigatória, desci a Augusta pensando em comprar, na Musical Santo Antônio, a loja em frente ao Espaço ex-Nacional, ex-Unibanco, hoje Itaú de Cinema, o The Bootleg Series, Vol. 10 – Another Self Portrait (1969-1971). Tô seco pra ouvir: é uma das fases de Dylan de que mais gosto.

Não vi o disco na prateleira de pop-rock. Mas achei Tempest, que o homem lançou ano passado e que, por mais absurdo que seja, eu não tinha comprado ainda. (Acho que nunca demorei tanto para comprar um disco novo de Dylan quanto demorei com Tempest.) Já que estava comprando mesmo, dei uma olhada rápida nas prateleiras. Vi dois discos da Putamayo, o excelente selo especializado em coletâneas de world: Music from the Tea Lands (canções da China, Paquistão, Índia, Japão, Irã, Indonésia) e African Playground (canções infantis do Benin, Quênia, África do Sul, Congo, Senegal, Madagascar, Uganda, Etiópia).

Não sei Marina vai gostar. O avô vai gostar antes dela.

Alguns anos atrás, os discos da Putamayo eram bem caros, mais caros que os demais importados. Hoje, por alguma razão qualquer, os dois estavam em oferta, por apenas R$ 15 cada.

O quarto suporte físico que comprei na Santo Antônio também estava em oferta. É um disco do selo Windham Hill, coisa de californianos especializada no que foi rotulado como new age, mas na verdade é instrumentistas novos, acústicos. Chama-se Adagio, e é uma coletânea de faixas de instrumentistas tocando temas eruditos: Bach, Grieg, Brahms, Handel, Vivaldi. Claro, inclui também o Adágio de Albinoni. Gostaria de ter umas 100 gravações diferentes do Adágio de Albinoni.

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Estou ouvindo agora pela primeira vez esse disco da Windham Hill. Começa com uma versão absolutamente extraordinária da ária da Abertura nº 3 de Bach, ou Air for G String, também conhecida como Ária da Quarta Corda (BWM 1068). Checo aqui no iTunes: tenho essa peça com o Modern Jazz Quartet & The Swingle Singers e também com o conjunto Tocata Brasil. Devo ter diversas outras gravações nos suportes físicos lá na sala; vou checar depois.

A gravação nesse disco novo da Windham Hill vem com Philippe Saisse, de quem é claro eu jamais tinha ouvido falar. Philippe Saisse – vejo no encarte do suporte físico – toca piano acústico e faz a programação dos sintetizadores; os sintetizadores fazem um acompanhamento de percussão que é absolutamente incrível. Não se descaracteriza a ária de Johann Sebastian, de forma alguma; o piano sola solene a melodia que parece composta por Deus em pessoa – só que uma percussão moderna o acompanha. Parece o dia em que Johann Sebastian encontrou Naná Vasconcelos em um bar de gente fina de San Francisco.

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Ao sair, zonzo, tonto, da casa da minha irmã, tive a idéia de checar se a Compact Blue do Joel, em uma galeria da Augusta uma quadra abaixo da Musical Santo Antônio, ainda estaria aberta. O Joel, pensei, seguramente tem o disco novo do Dylan.

A Compact Blue estava aberta, sim, depois das 7 da noite, e cheia de gente. Apesar disso, e de estar sozinho para atender a todos, o Joel me saudou com uma cara boa. Comentou que gostou muito da Mayra Andrade, que ele não conhecia até que eu perguntasse a ele se havia lá discos dela, na minha visita anterior à loja. Me prometeu que vai continuar tentando importar outros discos dela para mim.

Perguntei sobre o Dylan, se ele já tinha recebido. Me disse que já vendeu tudo o que havia encomendado.

Como assim?, perguntei.

Contou que tinha encomendado duas caixas de LPs de The Bootleg Series, Vol. 10 – Another Self Portrait (1969-1971), daqueles LPs de gramatura 18 sei lá quantos, caríssimos, para atender a pedido de fregueses. Como o disco ainda não foi lançado no Brasil, encomendou também cinco das versões em CD – mas vendeu todas rapidinho. “Posso conseguir pra você em dez dias”, prometeu.

Dei uma olhada na zorra que é a Compact Blue. Não consigo entender como o Joel consegue encontrar um disco naquela bagunça. Bati o olho no The Diving Board, o novíssimo do Elton John, e peguei. Joel me perguntou se eu tinha Esperanza Spalding. Diante de meu silêncio de cinco segundos, inquiriu: “Você conhece ela, né?” Respondi que sim, claro. Comentou que não gostou do último dela, e me mostrou dois outros. Peguei um, edição brasileira, mais barata.

Seis novos suportes físicos para a casa em que não cabe mais suporte físico algum.

Antes que eu saísse, o Joel comentou que, nos últimos não sei quantos meses, mil lojas de disco foram fechadas no Brasil.

E aí comentei com ele que, de todos os discos que já foram feitos pelas maiores gravadoras no País, apenas 3% estão em catálogo.

Essa informação – surpreendente, incrível, fantástica, importantíssima –, li em reportagem de Lucas Nobile, no Estadão do dia 15 de setembro. (O Estadão de papel, suporte físico, e não o portal que antigamente, quando era jornalista, e não um feliz aposentado, cheguei a dirigir.)

A rigor, é menos de 3%.

A bela matéria de Lucas Nobile não mereceu chamada de capa. Mas é absolutamente importante, acachapante.

“Somadas, Universal Music, Warner, EMI e Som Livre têm mais de 130 mil discos em seus acervos, mas apenas cerca de 3.600 são vendidos oficialmente hoje.”

Meu Deus do céu e também da terra: de 130.000, apenas 3.600 estão em catálogo!

Discos de artistas como Tim Maia, Vinicius de Moraes, Erasmo Carlos, Dorival Caymmi, Fagner, Edu Lobo, Maria Bethânia, Zé Ramalho, Nélson Cavaquinho, Cartola, entre outros – informa a reportagem – estão fora de alcance do público.

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Ah, mas tá tudo na nuvem! Tá tudo no YouTube!

Será mesmo?

A Universal Music tem 55.000 discos em seu acervo, informa ainda a reportagem de Lucas Nobile. Desses, 1.400 podem ser comprados no maravilhoso mundo novo, na loja de música da Apple. Ficam faltando só 53.400. A Warner detém os direitos (e as fitas máster originais) de cerca de 60.000 discos. A iTunes Store oferece 2.000 deles. Ficam faltando só 58.000.

Só dessas duas majors, não estão disponíveis no mundo virtual – e muito menos no mundo físico, dos suportes físicos – 111.400 discos gravados no Brasil.

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Na última vez em que me diverti escrevendo aqui asneiras sobre suportes físicos, em julho, disse que andava – para minha imensa surpresa – “me pegado pensando, às vezes, em me desfazer de parte dos meus discos. De pelo menos parte deles.”

Depois de ler a incrível matéria de Lucas Nobile no Estadão, pensei o seguinte: não vou me desfazer de suporte físico algum. Nunca.

Não tenho a menor idéia de quantos suportes físicos de música tenho – entre LPs, CDs da indústria e CDs que fiz transcrevendo meus LPs da indústria, e CDs que faço para mim mesmo e para Mary ouvir no carro. Imagino, assim, no maior chute, que tenha algo em torno de 10.000, talvez 15.000.

Tenho aqui em casa no mínimo, no mínimo, três vezes mais discos do que as quatro maiores gravadoras brasileiras têm em catálogo.

Não vou botar fora nenhum deles.

Quando passar desta para melhor, deixo o problema de o que fazer com os suportes físicos para Mary.

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Saí do metrô na Estação Sumaré com meus seis novos suportes físicos pensando em fazer uma anotação sobre tudo isso.

Me sentia alegre, bem alegre, e então resolvi descer a Sumaré a pé, para encontrar Mary na padaria da Praça Irmãos Karman.

Na descida da Sumaré fica a 2001, e, apesar de já estar em casa com três DVDs alugados lá, entrei para pegar mais alguns suportes físicos.

Na caminhada, surgiu nos ouvidos um baita chacadum, uma britadeira, um bate-estaca. Patricia Kaas, cantando “Voyage, Voyage”. Uma delícia.

Aí, de repente, me lembrei de uma observação do Lucas, o irmão mais novo da minha filha, o segundo dos filhos que Suely teve no segundo casamento.

Tinha emprestado um dos meus iPads para a Suely, já durante a doença.

O irmão mais novo da minha filha pegou o iPad, examinou, examinou, examinou. E aí Suely me contou a conclusão dele: “Mãe, o Sérgio é muito doido. Ele tem de tudo! Mãe, ele tem até Shakira!”

Acho que contar esse caso foi o último elogio que a mãe da minha filha me fez. Não que ela tenha feito poucos; nem eu. Todos os elogios que eu fizer a Suely são poucos, pequenos.

Encontrei Mary na Sumaré ainda com “Voyage, Voyage” na cabeça. Cantei o refrão, e ela comentou: “É o Melê da Marynha!” Mary tem asinhas nos pés, adora viajar; eu tenho balls and chains nos pés.

Minha filha me conta, em mensagem moderna, destas que não têm suporte físico, que a viagem deles para Itanhaém, onde Marina amanhã vai conhecer o mar, foi ótima.

E aí me lembrei daquela frase do Fernando Rios: “A vida é bela, nóis é estrague-la”.

 4 de outubro de 2013

10 Comentários para “Sobre suportes físicos, o amor a vida a morte”

  1. Só faltou dizer, e você tinha dito que diria, que no dia de Francisco de Assis, ao invés de renunciar aos bens materiais, você preferiu comprar uns suportes físicos na Santo Antônio. Quer saber, eles que são santos que se entendam.

  2. Servaz, acho que você deveria providenciar um suporte físico para seus textos. Porque as coisas, na nuvem, acabam se perdendo – depois, quando a gente vai procurar, que é de?

  3. Que viagem, Servaz. Lembreu que, esta semana, fui ao lançamento na Livraria Cultura e, na saída, me esqueci na parte dos cds. Que maravilha ouvir os tais suportes físicos do jeito que merecem! Já me desfiz dos vinis, porque meu filho os merecia – tem um toca-discos. Dos cds, não pretendo. Na vida. Na morte, alguém saberá o que fazer deles.

  4. Oi, Sérgio, Mary, Todomundo e mais Ninguém (dois importantes personagens de Gil Vicente).
    Gostei de te achar novamente no teu saite, que anda meio lento. É a netinha?
    Gostei de ler você, novamente a falar da sua privacidade pública.
    Gostei do fato do texto ser sobre música. A gente não combina às vezes, em matéria de música, mas música é igual a alma. Alma é alma, música é música. Nessa longa vida ninguém terá tempo para conhecer todas as almas.
    Saudades. Abraços a todos.

  5. Eu não sei quantos discos tenho mas são num número considerável, entre LPs (vinil) e CDs, mas são menos do que o Sérgio tem, já vendi em tempos alguns LPs e depois arrependi-me; vendi-os porque estavam em mau estado, eram muitos ruidosos em resultado da utilização de um produto que os estragou; agora não o faria porque sei que há formas de recuperar velhos discos.
    Depois disso, já lá vão uns 20 ou 30 anos, não voltei a desfazer–me de nenhum e de livros, nem pensar.
    Quando morrer, quem cá ficar que resolva.
    E já pensaram que pode subitamente haver um fenómeno natural que impeça o funcionamento da “nuvem”; uma falha no sistema de telecomunicações… e depois? Quê da música?

  6. Más notícias do país de Dilma (119)
    Faltou-me o suporte físico semanal!
    Onde estão as más notícias?
    Os murros em ponta de faca?
    As reacionárias matérias do PIG?
    O texto do Sérgio, alternativa ao pessimismo, trouxe a esperança e valorização de antigos suportes físicos.
    Trouxe de volta a participação e interação dos velhos amigos.
    Que bom ler Jorge Telles,saudades do novo conto! Alma é alma, música é música, texto é texto. Salve Jorge.
    Aguardo pacientemente uma parte do suporte físico – a coleção dos “Pensadores”.

  7. Sabia que o Adagio de Albinoni que é um trecho
    famosíssimo não foi composto por Tomaso Albinoni, músico do peródo Barroco, mas sim por um tal Remo Giazotto um musicólogo italiano que viveu no século XX?
    Eu durante anos, décadas, pensei que era mesmo de Albinoni e só há pouco tempo soube a verdade.
    https://en.wikipedia.org/wiki/Adagio_in_G_minor

  8. Remo Giazotto encontrou o tema do Adagio em suporte físico que estava entre as ruínas e destroços da segunda guerra. Apropriação devida ou indevida?

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