Sobre Nara – e o básico, o clássico, o eterno

zzzzznovanara

 

Ouvi agora, por causa de um comentário da Mary, os dois últimos discos de Nara Leão, e me lembrei da frase “You always come back to the basics”.

Nara é uma figura em tudo por tudo extraordinária. Acho que dá para dizer, sem medo de errar, que Nara é uma das artistas de maior faro, inteligência, intuição, para escolher repertório da História da música popular.

Nunca ninguém jamais teve antenas tão poderosas, tão clarividentes, tão possantes, tão certeiras quanto ela.

E Nara de fato é uma figura singular – porque sempre foi capaz de surpreender, de não seguir ondas, tendências, modismos. Muito ao contrário. Nara fugia dos modismos como o diabo foge da cruz. Nara fazia hoje o que depois de amanhã viraria moda.

Só para dar alguns exemplos: Nara ficou conhecida como a musa da bossa nova – mas em seu primeiro disco, Nara, de 1964, da gravadora Elenco (que aliás está sendo relançado agora em vinil, LP), não gravou uma única faixa de bossa nova. Muito ao contrário: naquela época em que a moda, o cool, era cantar a Zona Sul, o mar, o barquinho, o violão, Nara gravou cantores do morro que as zonas sul do país ignoravam – Zé Kéti, Cartola, Nelson Cavaquinho.

zzdezanosSó faria um disco de bossa nova quando esteve auto-exilada em Paris, Dez Anos Depois, de 1971.

Nara cantou canções latino-americanas de sua época muitíssimo antes de as canções latino-americanas da época serem conhecidas até mesmo pelas platéias universitárias daqui. Elis Regina gravaria Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui  em 1976; pois Nara havia gravado Rolando Alarcón em 1969, no disco Coisas do Mundo.

Nara gravou folk music quando praticamente ninguém no Brasil tinha idéia de que existia algo chamado folk music.

Nara foi a primeira (ou das primeiras) a gravar os então iniciantes Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, Sidney Miller, Paulinho da Viola, depois Raimundo Fagner.

Gravou o francês Georges Moustaki, o português José Afonso e o cubano Silvio Rodriguez quando ninguém sabia quem eram eles (alguém hoje sabe, além de um punhado restrito de pessoas de bom gosto?,) com as mesmas antenas sensíveis que a fizeram retirar do baú pérolas de Assis Valente, Custódio Mesquita, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Noca da Portela.

Nara foi das primeiras no Brasil a fazer discos exclusivamente dedicados à obra de um único compositor – e, para imensa surpresa dos puristas da MPB, gravou um disco só de Roberto e Erasmo Carlos, … e que tudo mais vá pro inferno, de 1978. Seu disco seguinte, de 1980, Com Açúcar Com Afeto, seria inteiramente dedicado a Chico Buarque.

Só mesmo Nara Leão para homenagear com um disco inteiro primeiro Roberto e Erasmo, e depois Chico.

Só para comparar: Nara fez o disco inteiro de Roberto e Erasmo em 1978; Maria Bethânia – a moça que substituiu Nara quando Nara deixou o musical Opinião, em 1964, o ano em que a quarta-feira de cinzas se abateu sobre o país, conforme ela havia cantado no primeiro disco – faria um disco exclusivamente com canções de Roberto e Erasmo em 1993. Quinze anos depois.

***

Pois é.

zzabraçosNos três discos de 1984 e 1985, Nara – como se pressentisse, com aquelas antenas que Deus lhe deu e não deu para mais ninguém – que estava fechando o ciclo, o círculo, gravou bossa nova. Em Abraços e Carinhos e Beijinhos Sem Ter Fim (1984), Garota de Ipanema, lançado originalmente para o mercado japonês, onde por mais estranho que possa parecer há uma multidão de fãs de bossa nova, e Um Cantinho, Um Violão, ambos de 1985, Nara foi finalmente a musa da bossa que àquela altura já era velha.

E então, nos dois discos que seriam os seus últimos, Meus Anos Dourados (1987) e My Foolish Heart (1989), Nara cantou a Grande Música Americana.

Os standards da Grande Música Americana.

Nara gravou Gershwin, Cole Porter, Rodgers Hart, Johnny Mercer, toda aquela penca de compositores geniais que criaram alguns dos maiores clássicos da música popular de todos os tempos. As canções que atravessam todas as gerações e todas as fronteiras. As canções que são reconhecidas no planeta inteiro – com a exceção, talvez, da Coréia do Norte.

“Moonlight Serenade”. “Over the Rainbow”. “As Time Goes By”. “These Foolish Things”. “My Foolish Heart”. “Misty”. “Summertime”.  “Lullaby of Broadway”. “Tea for Two”. “Night and Day” – para citar só algumas.

You always come back to the basics.

Não há nada tão básico, em toda a música popular dos últimos cem anos ou mais, que a Grande Música Americana.

zznaragrandeNara encerrou a carreira cantando os mais belos standards da Grande Música Americana – na mais pura bossa nova. Em português, em versões gostosas, divertidas, bem humoradas.

Misturou chiclete com banana, bepob com samba, tamborim com saxofone.

Que absurdo que Nara tenha morrido tão jovem.

“La vida no es noble, ni buena, ni sagrada”.

Estão aí os Sarneys, os Jáders. Esses não morrem nunca.

Nara se foi jovem. Como Suely, como Regina.

Mas na verdade não se foram. Estão aí, sempre. Grandes, imensas, lindas.

28 de novembro de 2013

P.S.: Ah, sim. O comentário de Mary que me fez ouviu direto e reto os dois últimos discos de Nara foi a seguinte:

Se Nara estivesse aqui, ia enquadrar esse povo que saiu por aí manchando sua própria biografia e defendendo censura prévia a biografias.

Outro P.S.: A frase “You always come back to the basics” é de uma extraordinária campanha publicitária do uísque Jim Beam. Uma das peças mostrava um jeans básico, clássico – e depois suas variações, atendendo aos modismos. Para, no final, mostrar que o jeans básico, clássico, permanecia e permanece sempre.

zzzbasics

4 Comentários para “Sobre Nara – e o básico, o clássico, o eterno”

  1. Não, Miltinho.
    É: Você sempre volta ao básico.
    A diferença não é pequena.
    Grande abraço!

  2. Sérgio, Sérgio!

    Se eu te disser – e estou dizendo – que me emocionei e me reencontrei lendo tudo isso, você saberá que é a mais pura verdade. Pois é.
    Bj
    Vivina

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