Quem é essa mulher?

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Deu vontade, e ouvi hoje de novo, algumas vezes, “Angélica”, a maravilhosa canção de Miltinho do MPB-4 e Chico. A melodia triste, lenta, doída de Miltinho – Milton Lima dos Santos Filho – casa-se à perfeição com os versos lúgubres de Chico, e à sua voz que enfatiza a dor da perda.

A canção trata da dor da perda de um filho, uma das piores dores que pode haver.

Perder pai e mãe é doloroso – mas é da lógica da vida. Perder filho é dor absurda.

Quem é essa mulher

 Que canta sempre esse estribilho?

 

Só queria embalar meu filho

 Que mora na escuridão do mar

 

Quem é essa mulher

 Que canta sempre esse lamento?

 

Só queria lembrar o tormento

 Que fez o meu filho suspirar

 

A Angélica da canção, todos sabem, é Zuzu Angel, e ela chora a perda do filho, Stuart Angel Jones, ativista político assassinado pela ditadura militar; o que se sabe é que os milicos teriam, como seus colegas argentinos costumavam fazer, lançado o corpo do jovem Stuart Angel no mar.

A canção foi gravada por Chico em seu disco Almanaque, de 1981, quando o país ainda vivia sob a ditadura dos generais.

Me lembrei de “Angélica” hoje por causa do belo texto de Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa. “Por que essa covardia com uma mulher de 37 anos que tem como única arma a palavra?”, pergunta Maria Helena. E, mulher porreta, lança o desafio: “Olhem bem para a foto de Yoani Sánchez e as poderosas armas que usa e depois me digam: o que é aquele bando de sujeitos e sujeitas que a segue pelo Brasil?”

***

Zuzu Angel, mulher porreta, que merece todo o respeito, lutou contra a ditadura dos milicos brasileiros que assassinaram seu filho.

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Yoani Sánchez dedica a vida a lutar – com palavras – contra uma ditadura que matou centenas, milhares de opositores.

Me lembro de outra mulher porreta, eterna ativista, eterna believer, Joan Baez, que dedica a vida a atacar ditaduras. Viajou ao Vietnã do Norte no auge da guerra; foi impedida de cantar no Chile dos milicos de Pinochet e no Brasil dos milicos de Geisel e Golbery, mas cantou também um hino de louvor a uma dissidente do então Império Soviético, Natalia Gorbaneskaya.

Para Joan Baez, toda ditadura é ditadura.

Antes de cantar “Natalia”, em seus shows de 1976 imortalizados no álbum From Every Stage, ela contava a história de Natalia Gorbaneskaya e dizia: “Eu estou convencida de que é por causa de pessoas como ela que você e eu ainda estamos vivos e andando pelo planeta.”

Para um punhado de gente, no entanto, há ditaduras boas, camaradas, companheiras, e há ditaduras ruins.

É um conceito estranhíssimo. Não consigo captar como é possível que alguém o compreenda, aceite, e lute por ele.

***

Não consigo compreender por que Chico jamais faria uma elegia a Yoani, já que ele fez a elegia a Zuzu.

Claro que não tenho o direito de falar por ela, mas para mim parece tão claro quanto a tez de Yoani que, estivesse Zuzu viva, ela estaria brigando para que Yoani fosse ouvida.

Se Víctor Jara estivesse vivo, faria canções para Yoani.

Pena que Chico, Sílvio e Pablo prefiram ditaduras às pessoas que lutam contra elas.

22 de fevereiro de 2013 

Angélica

(Miltinho-Chico Buarque)

 

Quem é essa mulher

 Que canta sempre esse estribilho?

 

Só queria embalar meu filho

 Que mora na escuridão do mar

 

Quem é essa mulher

 Que canta sempre esse lamento?

 

Só queria lembrar o tormento

 Que fez o meu filho suspirar

 

Quem é essa mulher

 Que canta sempre o mesmo arranjo?

 

Só queria agasalhar meu anjo

 E deixar seu corpo descansar

 

Quem é essa mulher

 Que canta como dobra um sino?

 

Queria cantar por meu menino

 Que ele já não pode mais cantar

 

Quem é essa mulher

 Que canta sempre esse estribilho?

 

Só queria embalar meu filho

 Que mora na escuridão do mar

12 Comentários para “Quem é essa mulher?”

  1. Querer compreender porque Chico não faz um elogio a Yoani, tal como feito a Zuzu Angel,é patético. Os tucanos invejam os artistas, a poesia e a sensibilidade dos socialisatss. Apossam-se das idéias, das lutas, dos seus sonhos. Progressistas de araque que fazem apologia da indignação alheia transformadas como deles. Criam heróis de pés de barro. O punhado de gente que apóia boas ditaduras, se estas existem, fazem de peito aberto, tal como Yoani, sem se esconder suas opiniões. Errados ou certos, fazem protestos, exibem cartazes, se posicionam. O apoio a Yonai é demagogia barata e apropeiação oportunista, um factóide criado pela imprensa reacionária com deliberado intuito de atacar o Brasil e brasileiros. Dona Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza,com seu pomposo nome, nos considera animais incultos anafalbetos bárbaros e desumanos. Somos um povo inculto, aculturado, colonizado, alienado, mas não somos desumanos. Chico é prova disto ao cantar Zuzu Angel que não foi a Cuba ou EUA lutar e chorar a morte do seu filho. Não fazem, Chico e Zuzu, parte de um punhado de gente que crê em boas ditaduras, fazem parte de uma porrada de gente que faz a diferença.
    Espero que Cuba não volte a ser balneário e puteiro dos americanos cheios de dolar obtidos nas colonias de Africa, Oriente Médio e Am~erica do Sul como afirma a anti-imperialista Joan Baez. Perdoe Chico eles não sabem o que fazem.

  2. Miltinho, caríssimo amigo, você me fez lembrar uma sequência de “Roma” de Fellini. A câmara do cara perseguia Anna Magnani, mais ou menos como você persegue o que é publicado aqui no 50 Anos. Aí Anna Magnani se vira para a cãmara e diz: “Ora, vá dormire, Federico!”
    Ora, vá dormire, Miltinho!

  3. “Chico é prova disto ao cantar Zuzu Angel que não foi a Cuba ou EUA lutar e chorar a morte do seu filho. Não fazem, Chico e Zuzu, parte de um punhado de gente que crê em boas ditaduras, fazem parte de uma porrada de gente que faz a diferença”.

    É o grande mal dos lupetistas. A santa ignorância, o falar do que não sabem.

    Meu nome não é pomposo, é longo, o que é muito diferente. Nasci no Tatuapé em 1937. Casei com um imigrante português que veio para o Brasil para poder estudar, já que em Portugal, naqueles tempos, só rico estudava.
    Uso o nome de meu pai e o nome do pai de meu filho com muito orgulho.

    Quanto à Zuzu Angel, cliente que fui de sua loja, recebi a mesma carta que ela enviou ao Chico. E sei que ela foi sim aos EUA, mais de uma vez, pedir ajuda para encontrar ou ter notícias de seu filho cujo pai era sobrinho de um juiz americano.

    Sem sucesso, pobre Zuzu Angel mortalmente ferida.

    MHRRdeSousa

  4. Sergio, que linda homenagem à Zuzu. Tenho certeza que ela ficaria furiosa com esses animais que foram, com a marca registrada em seus narizes, agredir Yoani Sánchez.
    Essa gente que ama o Chávez a ponto de obedecê-lo, ia deixar a nossa grande Zuzu Angel indignada.
    Um abraço,
    MH

  5. A atenção que Yoani recebe da imprensa se deve exclusivamente à inexistência de oposição livre em Cuba. Se a divergência não fosse considerada traição na ilha, Yaoni seria tão banal quanto os milhares de blogueiros que criticam livremente seus governos mundo afora. Nas ditaduras,de esquerda ou de direita, o bacana mesmo é orquestrar uma boa campanha de demonização, quando não for possível prender ou fuzilar essa gente desagradável. Torço para que a “tolerância” de Cuba com Yaoni seja um sinal de fraqueza da dinastia dos Castro. A mesma fragilidade que Pinochet, Franco,Salazar e os ditadores comunistas da Europa Oriental demonstraram pouco antes da queda, quando não conseguiam mais eliminar ou controlar os dissidentes.
    Durma bem, Miltinho. E sonhe com um sujeito barbudo, com uniforme militar e um charutão Cohíba.

  6. A atenção dada a Yoani pela imprensa é realmente excessiva, não tanto e decisiva que mereça uma música de Chico Buarque.
    Acordei de um sonho, a ilha se livrou da ditadura Castrista de mais de 50 anos, os tucanos em férias no Molecon, bebenndo na Bodeguita, assediando as putas cubanas, uma escola de samba desfilava em Varadero, Guantanamo se transformou em luxuoso Shoping, com lojas do MacDonalds e das Casas Bahia. Havana se preparava para as primeiras eleições livres. O voto agora é obrihtório na ilha, a candita Yoani, favorita nas pesquisas, promete respeito aos contratos, privatização dos canaviais, das escolas e da saúde. A Unimed e a Unilever patrocinam o volei cubano. Outdoors por toda a parte anunciam novos tempos de alegria, o consumo chegou a ilha. Agora a economia é de mercado. Pela TV, agora em HD, uma entrevista do economista brasileiro Sardenberg, no mesmo canal Sérgio Vaz discorre sobre a imprensa livre do Brasil e sobre a instalação da Agëncia Estado na ilha.
    Durmo e acordo para a realidade, no blog do Juca Kfouri vejo Chico fazendo oposição ao Marin da CBF.Torcedores do Corinthians são transferidos para presídio superlotado na Bolívia. Dilma continua presidente e a Mega vai pagar 3 milhões neste sábado.
    Sigo o conselho do Sérgio e com desejo do Luis Carlos vou dormir de novo!

  7. “Pena que Chico, Sílvio e Pablo prefiram ditaduras às pessoas que lutam contra elas.”

    Estou descontextualizado, por isso gostaria que alguém me explicasse essa frase. Chico é uma referência como músico e como poeta. Me pareceu um comentário sério de pessoas sérias.
    Todas as críticas são compreensíveis, mas.
    Tenho dificuldades de ser crítico tão- aparentemente – feroz do Chico, talvez por estar, repito, descontextualizado.
    Faço um pedido honesto.Até parece elementar, mas quero uma explicação no mínimo didática para nós que desconhecemos o assunto, laicos que somos.

  8. Caro Sérgio, só mesmo nosso querido petista arrependido Miltinho poderia tentar achar alguma pomposidade na filha do debochado entregador de marmitas João Rubinato.

  9. Caríssimo Luiz Carlos, é exatamente isso! (E ela – é impressionante, rapaz! – é uma mulher admirável, em tudo por tudo. Lá onde está, nos vendo e rindo de nós, o debochado João Rubinato deve ter imenso orgulho da filha que tem.)
    E, caríssimo Davi, você sabe muitíssimo bem que sou absoluto fã do compositor-poeta-escritor Chico. Mas você com certeza também sabe que Chico – assim como Silvio Rodrigues e Pablo Milanés, também excelentes artistas – defendem a ditadura dos Castros. É só isso – não há muito a explicar ou contextualizar.
    Um grande abraço aos dois.
    Sérgio

  10. Sérgio, belíssimo texto!

    Seu amigo Miltinho, de nome não pomposo, acha excessiva a atenção que a imprensa e os tucanos dão a uma mulher que luta – com palavras – contra uma ditadura, contra a opressão de um povo. Já eu acho excessiva a atenção que os seguidores do lulo-petismo dão a essa mesma pessoa, atacando-a simplesmente por expressar livremente suas opiniões.

    Abraço!

  11. Sérgio fico pasmo com sua acusação ao Chico de defender uma ditadura. Das duas uma, ou você está equivocado ou Cuba não é uma ditadura.
    Em tempo,não sou perseguidor de 50 anos de textos, sou seu seguidor fraterno. Creio uqe exista sutil diferençca.

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