Quando cheguei a São Paulo

Cheguei a São Paulo achando que ia fazer Cinema na ECA, e aí vendi chucks na Florêncio de Abreu.

Diacho: não me lembro direito o que são chucks.

É algum tipo de ferramenta. Como jamais soube diferenciar bem uma porca de um parafuso, vendi chucks na Florêncio de Abreu sem ter a mínima idéia de o que raios era, e para que servia, cada um dos aparelhinhos que vendia.

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A abertura aí acima me parece interessante, até com uma certa graça, mas não é muito acurada.

É uma espécie assim de lead, de abertura de texto, que privilegia a forma mais que o conteúdo.

Tem algo parecido com o que o cinema tem feito muito, e que eu chamo de narrativa-laço: abre-se a história com uma cena importante, ou impactante, ou até engraçada, e depois volta-se atrás no tempo para mostrar o que aconteceu até chegar ali.

Para dar uma explicação simples sobre a narrativa-laço: é como se o filme mostrasse primeiro, na abertura, a cena do pênalti marcado aos 43 minutos do segundo tempo. O pênalti foi marcado, a partida iria ser decidida ali, naquele momento. O pânico do goleiro diante do pênalti. O pânico do cobrador do pênalti diante da bola. Aí corta – não se mostra como o pênalti foi cobrado, se foi gol ou não.

Volta-se no tempo. Flashback, e estamos no momento em que o juiz dá o apito inicial. Mostram-se os 45 minutos do primeiro tempo, mais os três ou quatro adicionais, depois todo o segundo tempo, até chegar àquele momento fundamental, o do pânico do goleiro diante do pênalti e do pânico do cobrador de pênalti diante da bola.

Abrindo a narrativa naquele momento crucial, o roteirista enlaçou o espectador. O espectador vai querer saber se o atacante marcou, ou não. Ele vai se sujeitar a ver o filme de 90 minutos, às vezes mais, na expectativa de saber o que terá acontecido nos momentos finais do jogo.

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Gabriel García Márquez abre Cem Anos de Solidão com uma maravilhosa narrativa-laço. É tão brilhante que a gente sabe de cor.

Vamos ver. De cor, tento reconstituir:

“Muitos anos mais tarde, diante do pelotão de fuzilamento, Aureliano Buendia se lembraria do dia em que seu avô o levou para conhecer o gelo.”

(Não dá para checar como é exatamente: procuro o livro e vejo que o emprestei. É um problema essa coisa de emprestar livros. Mas o Valdir Sanches me socorreu: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendia havia de recordar  aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.”)

A abertura de García Márquez é também o mais perfeito exemplo do que é uma narrativa-laço. Quem é que não vai querer saber se Aureliano Buendia foi ou não fuzilado? Como? Por quê?

A abertura de Cem Anos de Solidão é uma das mais brilhantes que conheço na literatura. No mesmo nível dela, só o que o conde Liev Nikolaievich Tolstói escreveu no seu segundo romance jupiteriano, amazônico: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

Ou então: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada um à sua maneira.”

Esta última é a tradução assinada por João Gaspar Simões, para a Editora José Aguilar, do livro Ana Karênina. A primeira é a tradução feita por Rubens Figueiredo para a extraordinária nova edição de Anna Kariênina da Cosac Naify. Interessante: mudou-se a grafia do nome da personagem-título do colossal romance, mas não se mudou tanto a primeira frase.

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Meu lead aí acima é uma tentativa brincalhona de fazer uma abertura engraçada, interessante, da história da minha chegada a São Paulo.

O problema de uma narrativa que tenta ser engraçada, interessante, é que ela pode fica longe do acurado. E eu gosto dessa coisa de ser acurado, exato, o mais fiel aos fatos que seja possível.

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Nunca me esqueço do meu tempo na Rua Florêncio de Abreu. Mas na verdade me lembrei dela outro dia porque meu cunhado Márcio Zaidan – sujeito que, bem ao contrário de mim, sabe para que serve cada ferramenta – comentou que esteve numa loja na região da 25 de Maio e ficou absolutamente fascinado.

E aí então disse para ele: você sabia que eu já vendi ferramenta na Florêncio de Abreu?

Bem, eu não era propriamente vendedor. Era do escritório; fazia, basicamente, o controle de estoque nos velhos kardex, e também datilografava as guias de importação e correspondência em geral.

Era uma grande, quase gigantesca loja, no térreo. O escritório ficava no mezanino, e era lá que eu, dos 18 aos 20 anos, trabalhava.

Às vezes acontecia de vários dos vendedores saírem para almoçar ao mesmo tempo, e, se chegava alguém para comprar uma ferramenta qualquer, eu descia do mezanino e vendia e escrevia (a mão, como se usava naquele tempo tão distante) os dados na nota fiscal em diversas vias.

Ah, sim. Chuck é o termo inglês, que se usava nas guias de importação (chequei agora no dicionário), para bucha de torno ou para brocas. Uma vez meu irmão Geraldo perguntou como era meu trabalho, o que era a empresa, e resumi dizendo que era uma firma que importava e vendia chucks. Ele achou aquilo engraçado e repetiu a palavra várias vezes. Ficou na minha cabeça para sempre.

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Se essa narrativa fosse acurada, correta, seria necessário dar novo flashback, para explicar a situação.

Mas, se fosse para explicar tudo, eu teria que chegar à forma com que Floriano, o meu pai, conheceu Maria, a minha mãe.

Aí dá preguiça – e não teria sentido algum.

Mas me diverti em fazer aquela frase lá em cima: “Cheguei a São Paulo achando que ia fazer Cinema na ECA, e aí vendi chucks na Florêncio de Abreu.”

Há a distância entre intenção e gesto, da qual nos falam com brilho Chico Buarque e Ruy Guerra no perfeito soneto que este último recita em “Fado Tropical”. E há a distância entre o sonho que a gente tem quando é muito jovem e a dura verdade dos fatos, da vida real.

Garoto, em Belo Horizonte, que considero minha cidade natal, pois foi lá que vivi a infância e a adolescência, cheguei a ter veleidades literárias. Na mesinha de casa (na verdade, uma máquina de costura Singer que, fechada, era uma perfeita mesa), entre os 14 e os 15 anos, escrevi duas noveletas em caderninhos que naturalmente guardo até hoje, mas para os quais tenho medo de olhar. Na verdade, acho que foram três.

Tive a sorte grande – uma das muitas que tive na vida – de estudar no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Minas Gerais, um colégio maravilhoso, com professores estupendos e colegas fascinantes. Era o crème de la crême.

Via muitos filmes dos grandes autores, frequentava as sessões do CEC, o Centro de Estudos Cinematográficos, um dos primeiros e melhores cineclubes do país; fiz um ou dois cursos dados pelos melhores críticos de cinema da então terceira maior cidade do país; dei umas lidas nos Cahiers du Cinéma, depois na inglesa Sight & Sound. Uma colega me presenteou com os dois volumes da gloriosa História do Cinema Mundial de Georges Sadoul no meu aniversário de 15 anos, e tracei os dois volumes com a maior alegria.

Tive a audácia de ler Justine, o primeiro dos quatro livros do Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell aos 15 anos – em inglês.

Em suma: acho que eu me achava fodinha.

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Aí a família decidiu que eu iria morar em Curitiba, onde já estavam dois dos meus irmãos mais velhos, Floriano e Geraldo – “Minas exporta mineiros e minérios”, sempre disse, brincalhão, o primeiro. Passei em Curitiba os meus 16 e 17 anos.

E aí, no início de 1968, 18 anos recém-completados, cheguei a São Paulo, achando que iria fazer Cinema na ECA.

O que consegui foi vender chucks na Florêncio de Abreu.

Quando somos muito jovens, achamos que traçamos os caminhos da vida, mas na verdade a vida traça nossos caminhos. “Achávamos que íamos mudar o mundo, mas foi o mundo que nos mudou”, como diria Ettore Scola em Nós Que Nos Amávamos Tanto.

E então eu acabaria indo para a ECA em 1971, meu quarto ano de São Paulo, não para estudar Cinema, e sim atrás de um diploma de Jornalismo.

Em julho de 1970, durante férias na empresa que importava e vendia chucks e todos os outros tipos de ferramentas na Florêncio de Abreu, me apresentei para fazer estágio-teste na redação do Jornal da Tarde, no 5º andar do lendário prédio da Major Quedinho.

Foi outra das muitas grandes sortes que tive na vida. Quem arrumou o estágio-teste foi meu amigo Gilberto Mansur, que no mesmo ano de 1968 em que cheguei a São Paulo havia se mudado de Belo Horizonte para cá, chamado para trabalhar no JT. Trocara os três empregos em redações em Belo Horizonte por um salário muito maior que os de todos os três.

E então Gilberto Mansur convenceu o então editor de Reportagem Geral do JT, Fernando Portella, a testar um sujeito que jamais havia trabalhado em jornal algum, mas tinha um bom Português.

Naquela época fazia-se isso.

***

E então, já com seis meses de Jornal da Tarde, fiz o vestibular do então Cescea em busca de uma vaga no Jornalismo na ECA. Por uma dessas coincidências de que são feitos os livros, os filmes e a vida, fiz as provas na mesma sala da Vera que daí a algum tempo seria Vaia (os candidatos eram agrupados por ordem alfabética, e S vem perto de V), no Colégio Sion da Higienópolis.

No último dia das provas do vestibular, comecei a namorar a menina mais linda, mais interessante e mais inteligente do meu grupo de amigos da Casa Verde. Sem nenhum demérito para todas as outras. Suely Rossanez era de fato especial.

Por outra dessas tantas coincidências, Gilberto Mansur e Vivina de Assis Viana, minha professora e amiga desde sempre e para sempre, foram depois padrinhos tanto do casamento de Vera e Sandro Vaia quanto o de Sérgio e Suely.

Muitas vezes brinquei, depois que Suely me deu Fernanda, que a partir daí eu não poderia mais ser deportado. Se São Paulo se tornasse independente, e, como país rico, passasse a ser tão refratário aos estrangeiros quanto o Império Americano, não daria mais jeito: eu tinha meu green card.

***

Tenho um imenso amor por São Paulo, esta cidade que é como o mundo todo, como diz Caetano. Muitas vezes me ocorre que melhor que viver na cidade em que se nasceu é viver na cidade que se escolheu para viver.

Não se escolhe a cidade em que a gente nasce. E é perfeitamente possível não se gostar da cidade natal. Mas uma das boas coisas da vida é optar. Uma vez namorei uma moça que dizia detestar São Paulo – mas então por que raios não cascava fora daqui? (Namorei muitas moças, mas só me arrependo de duas. Essa aí é uma delas.)

Gosto demais de ter optado por São Paulo. Esta cidade me tratou muito bem.

Quer saber? Tenho um puta orgulho de ter vendido chucks na Florêncio de Abreu.

E hoje, quando vou visitar minha neta – paulistana da gema como a mãe (que por sua vez é descendente de mineiro, paulista, português, italiano, africano), como o pai (descendente de espanhol, de italiano, lá atrás de russos) –, e vejo, além da minha filha feliz e minha neta linda, uma das vistas mais belas que há para ver em São Paulo, sinto um misto de felicidade, de orgulho, de plena satisfação e bastante de tristeza pela ausência física da avó. Embora sinta com nitidez que ela está nos olhando, e adorando ver Marina.

Junho de 2013

17 Comentários para “Quando cheguei a São Paulo”

  1. Servaz, quanto tempo sem Marina. Bom o texto de retorno, texto de redenção as compilações.
    Que tal publicar suas duas noveletas?
    Você trabalhou 18,19,20 anos vendendo chucks?
    Também vendi ferramentas, não conhecia este termo.
    Não seria durante 3 anos ? Foste pouco acurado.
    Deixou de ser fodinha, agora é fodão.
    Marinas neles!

  2. Boa, Miltinho! Obrigado pela cobrança de maior exatidão no texto. Já acertei lá. E acrescentei uma frase para explicar a coisa dos chucks.
    Valeu!
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Servaz, esse texto te redime de tudo o que você deixou de nos oferecer nos últimos tempos. Me diverti, e me emocionei.
    Miltinho, ficamos assim. Ou o Servaz publica, aqui, as noveletas, ou vamos para o vão do Masp. Comece a chamar o pessoal pelo facebook, que eu preparo os cartazes.

  4. Também me emocionei demais…
    E essa foi muito boa, Valdir! Eu a Marina vamos com você e com o Miltinho pro vão do Masp! Queremos noveletas! Queremos noveletas! :)

  5. Sérgio, meu amigo/aluno/afilhado/professor ad aeternum,

    precisava me fazer chorar? Meu consolo é o vão do Masp. Quando, hein Valdir, hein Miltinho, hein Fernanda?

    Beijos gerais e particulares
    Vivina

  6. Pessoal, mesmo que o Servaz prometa publicar as noveletas, vamos nos encontrar no vão do Masp? Eu gostaria muito de rever a Fernanda, e conhecer a Marina, a professora Vivina e o Miltinho. Depois, a gente dava uma olhada nas obras do museu, e ia em passeata até o apartamento do Servaz e Mary, jantar.

  7. Vi, Fê, Miltinho, Valdir, obrigado pelas deliciosas mensagens.
    Adorei a idéia de nos reunirmos no vão do Masp, e depois marcharmos pra um jantar.
    Agora, publicar as noveletas que escrevi entre os 14 e os 16 anos, NF, como dizia o Ruyzito nas reuniões de pauta do JT.
    Nem fo…
    Nem sob tortura chinesa!
    Abraços emocionados.
    Sérgio

  8. Companheiros em luta. Vamos pedir o apoio do Black Bloc, os anarquistas que quebram e depredam, para pichar o prédio da Rua Iperoig.
    Ou trocamos por um bate-papo família no barzinho que o Servaz descobriu perto de casa.

  9. Temos que radicalizar, ou noveletas ou nada!
    Uma constituinte exclusiva na mesa do bar, sem concessões.

  10. Por falar em medo, gostaria de registrar este recado: Obama, tudo o que eu disse aí em cima sobre ação anarquista é brincadeirinha.

  11. “Tudo será como antes, amanhã.”.
    É o que nos consola. E desconsola.
    Bjs

  12. Deliciosa brincadeira. Aprovo entusiasmado a Constituinte exclusiva em mesa de bar!
    Grande abraço!
    Sérgio

  13. Sérgio, obrigada por me incluir nessa delicia de passeio ao passado! Adorei! Ah, descobri q temos mais uma coisa em comum: eu tb já fui “kardexcista” rsrs.
    Continue nos emocionando, mas não exagere na dose, q já estamos todos bem véinhos! Bjs

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