Protestar contra a corrupção é coisa da direita. Vandalismo é de esquerda

Não tenho qualquer pretensão de estar compreendendo os recentes acontecimentos – as maiores manifestações populares no Brasil desde o Fora Collor, já lá se vão 21 anos, e que têm vindo acompanhadas pela maior e mais generalizada onda de violência, vandalismo, de que tenho notícia ao longo de toda a História do país.

De tudo que já li na imprensa nas duas últimas semanas, a frase de Antonio Prata em sua coluna na Folha de S. Paulo da quarta, 19 de abril, me parece a mais sábia:

“Sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes”.

Apesar de tudo, mesmo assim, pensei em fazer algumas considerações. Nada douto, acurado – apenas algumas considerações ainda no calor dos acontecimentos. E, meu, que calor.

Basicamente, são considerações a respeito da terminologia “esquerda” e “direita”, surgida na época da Revolução Francesa, lá por volta de 1789.

Quase exatos 200 anos de 1789, lá por 1989, 1990, 1991, com o desmoronamento do Muro de Berlim e do Império Soviético, aquela bi-secular terminologia teve mais um forte abalo. Claro, já havia tido alguns fortes abalos antes – basta lembrar o namoro entre o nazista, arqui-direitista Adolf Hitler, e o camarada Josef Stálin, o grande líder das massas trabalhadores que Oscar Niemeyer morreu admirando. O namoro entre Hitler e Stálin foi expresso no papel no Pacto Molotov-Ribbentrop, em que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e o arqui-direitista do III Reich se comprometeram a não agredir um ao outro, em 23 de agosto de 1939, poucos dias antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Mas então, 200 anos após a criação da dicotomia esquerda x direita, houve novo grande abalo. O que seria, afinal de contas, esquerda, o que seria direita, num mundo pós-esfacelamento dos regimes comunistas?

O Partido Comunista Italiano, o maior que jamais existiu no Ocidente, se repensou, se aggiornou. O que havia sobrado do Partido Comunista Brasileiro depois do cisma, durante a ditadura militar, que criou o Partido Comunista do Brasil (o mesmo PCdoB do atual ministro do Esporte Aldo Rabelo e do ex-ministro dos Esporte Orlando Silva, apeado do cargo sob pesadas acusações de ladroagem), também tentou seu aggionarmento, transformando-se em PPS.

Na Grã-Bretanha, a mais antiga e sólida democracia do mundo, o Partido Trabalhista deixou de lado o viés “socialista” e partiu à procura de uma terceira via.

Mais recentemente, ao assumir o poder em qualquer nação européia, os partidos próximos do antigo socialismo, ou “de esquerda”, passaram a se comportar, ao assumir os governos, de maneira bem parecida com os tidos como “de direita”.

***

Em suma: ficou tudo muito mais confuso do que na época logo após a Revolução Francesa.

Mas eis que agora, em 2013, estamos aprendendo com um tal MPL, Movimento do Passe Livre, que “direita” e “esquerda” são ainda são noções muito nítidas.

Nos jornais desta sexta-feira, 21 de junho, aprendemos que o MPL – que aparentemente iniciou toda essa onda de manifestações que tem enchido as ruas das cidades brasileiras de manifestações, sempre acompanhadas de muito vandalismo – decidiu parar de convocar seguidores para novos atos.

Decidiu porque as manifestações estavam assumindo características “conservadoras” – “de direita”, portanto.

O Movimento do Passe Livre, pelo que mostram os jornais, surgiu em 2005, no Fórum Social Mundial, aquela coisa que reúne organizações “de esquerda” do mundo inteiro, como contraponto ao Fórum Econômico de Davos, reunião de representantes dos governos dos países ricos, banqueiros, a corja toda “da direita”.

O jornalista Carlos Brickman, ele próprio rotulado como “de direita” desde os tempos em que as mães dos atuais meninos que ocuparam as ruas do país eram criançolas, e bem informado desde aquela época, conta que “o domínio de Internet usado pelo MPL pertence a uma ONG próxima ao PT, Alquimídia, que recebe recursos da Petrobras e do Ministério da Cultura e até o início das passeatas trazia no site os símbolos governamentais”.

***

Então vejamos: o MPL surgiu no piquenique “de esquerda” de 2005. Teve, ou tinha até outro dia mesmo, o apoio de grana do governo teoricamente “de esquerda” do PT (embora o PT governe ao lado de vários dos partidos e dos oligarcas que até pouquíssimo tempo atrás eram a mais pura expressão “da direita”: Sarney, Collor, Jáder, Renan, etc.)

E então o MPL resolveu botar gente nas principais avenidas de São Paulo para protestar contra o aumento de 20 centavos nas tarifas de ônibus, trem e metrô.

A essa altura, qualquer tipo de lógica já foi pro brejo. O aumento deveria ter vindo em 1º de janeiro, tendo em vista a inflação que o governo Dilma não fez questão alguma de combater. Mas então Dilma fez apelo aos governos estaduais e aos prefeitos de Rio e São Paulo, Estado e cidade, para que segurassem artificialmente as tarifas.

Seguraram-se artificialmente as tarifas até o mês de junho, com evidente prejuízo para os governos estaduais e as prefeituras.

O aumento veio muito menor do que deveria ter sido – ficou bem abaixo da inflação no período.

***

Embora sem qualquer lógica, o MLP convocou manifestações para São Paulo. São Paulo – o Estado que o PT jamais governou, a única grande cidadela ainda não tomada por eles.

Aí tudo saiu do controle.

Se o MPL – apoiado e sustentado com dinheiro do PT – queria atirar em Geraldo Alckmin, pode até ter acertado no governador de São Paulo, cuja polícia cometeu atos graves na quinta, 13. Mas seu tiro virou bomba atômica e atingiu o país inteiro.

E aqui volto ao texto perfeito de Carlos Brickman:

“O movimento caiu no gosto do público e atraiu gente que não tinha nada de esquerdista: queria protestar contra a corrupção, o desperdício do dinheiro público, o custo da Copa, os gastos de parlamentares, o Mensalão, os problemas da saúde, problemas sempre associados ao Governo. O que era para ser um movimento contra a alta das tarifas virou ponto de encontro de descontentes com o Governo e o PT – a ponto de manifestantes se reunirem em frente à residência de Lula, em São Bernardo, SP, gritando insultos, a ponto de manifestantes se concentrarem diante da residência do prefeito petista Fernando Haddad, em São Paulo.”

***

E então, na quinta, 20, o MPL anunciou que não iria mais convocar novas manifestações, porque gente conservadora, “de direita”, tinha se imiscuído nos atos deles.

Contra o vandalismo, eles não se pronunciaram.

De onde se conclui (e era nisso que eu queria chegar – perdão pela demora) que:

É de esquerda brigar contra os números, os índices de inflação;

É de esquerda defender passe livre, tarifa zero – e por que não viagem à Disneylândia tarifa zero, Einstein e Sírio Libanês tarifa zero, Copacabana Palace tarifa zero?

É de direita protestar contra a corrupção;

É de direita protestar contra os absurdos gastos com os estádios para a Copa do Mundo (cuja realização no Brasil, é sempre bom lembrar, foi uma conquista do Governo Popular de Esquerda);

É de direita pedir padrão Fifa para a educação, a saúde, os transportes, a segurança.

É de direita pedir correta administração dos bilhões que o governo extrai de nós via impostos.

O vandalismo, pelo jeito, é de esquerda.

***

Legal. Temos que ir aprendendo com os meninos.

Mas aí a presidente Dilma vai à TV e diz que protestar é certo, é correto, justo, legal. Até mesmo protestar contra a corrupção, segundo o discurso que os marqueteiros escrevem para a presidente ler (e ela leu bem) no teleprompter, é certo, é correto, justo, legal.

Ah, sei não, sei não. O MPL deveria convocar um protesto contra a presidente Dilma. A pauta dela está ficando perigosamente direitista.

***

Isso aí logo acima, evidentemente, é uma boutade, uma brincadeirinha.

Mas os tempos não são muito propícios a brincadeirinhas.

Repito mais uma vez: não tenho qualquer pretensão de estar compreendendo os recentes acontecimentos.

Mas de uma coisa séria, muito séria, não podemos nos esquecer jamais. Nestes dez anos e meio de lulo-petismo no poder, um número absurdo de companheiros encontraram trabalho no governo federal, nas dezenas e dezenas de órgãos do governo federal. Não tenho idéia de quantos são, mas devem ser algo em torno de uns 50 mil. São 50 mil neguinhos mamando nas tetas do governo federal.

Eles não vão deixar as tetas sem brigar muito. Até porque, se eventualmente o PT fosse derrotado em 2014, a imensa maioria dessas pessoas não encontraria emprego algum na vida fora tetas.

Esse componente terá sempre que ser lembrado por todos os doutos cientistas que tentarem fazer o que a gente não consegue hoje – compreender o que está acontecendo, como nunca antes, neste país.

21 de junho de 2013

5 Comentários

  1. NOSSO MEDO
    Postado em 22/06/2013 às 12:16 am | Permalink

    O texto faz entender quem é de direita.
    Um viva a você que acordou, mas por favor, respeite a quem nunca dormiu!

  2. Davi Dias de Camargo
    Postado em 22/06/2013 às 12:38 pm | Permalink

    JURO QUE QUERIA MAS VOU POSTAR “ESSAS MAL TRAÇADAS LINHAS… DE FATO”PARA MIM MESMO COMO NECESSIDADE EGOÍSTA DE EXPRESSÃO. QUEM SABE UMA FRASE DE EFEITO NÃO ME ETERNIZE… Abraço.
    Sem pessimismos… Estou apoiando sim, mas….

    Minha empolgação é relativa à saída de um marasmo pessimista. Empolgo sim, mas não muito; sentimento de que finalmente terei o que dizer a nossos filhos e netos: “ Não desistam: faça sua parte… as coisas não são bem assim…”
    Tenho que formar cidadão… há que se ser muito jovem e muito pouco conhecedor da história ou de alguma visão histórica, desse animal, nós, que chamamos homem. O homem visto como um ser sagrado atemporal. Nasce pronto. Como um livro sagrado.
    Éramos atemporais, provavelmente… Vivíamos o instante para o bem e para o mal. Até perdermos nosso estado de direito natural por trocá-lo pelo direito de Estado/governo. Somos governados. Ovelhas, talvez dissesse… Perus engordados para o natal…
    É um refrigério para alma pessimista, emprestando essa triste palavra “refrigério” de certa tradição religiosa: uma sensação de que algo novo irá acontecer: “uma boa-nova” ;é um abandono do pessimismo em relação a mim mesmo como representante desse “ser” ou “não ser” chamado humano. Faz me sentir melhor… como o renascer de vigor após o nascimento de um neto(a)…: nós humanos não somos tão… maus…
    Estar nas ruas me dá um sentimento de bondade, de merecedor do paraíso. O bom sentimento feliz das crenças.
    Nada tem relação com slgons como “Liberdade, Fraternidade e Igualdade”. Nossas bandeiras são bandeiras da “burguesia’ no sentido histórico que eu compreendo. Mas alguma migalha há de cair da mesa para nós…
    Realmente esquerda e direita são braços do mesmo corpo (deixo o filósofo Marx de fora). Eu um dia acreditei…antes de virar ateu político…
    Democracia é extensão ou braço do Capitalismo, como a Revolução Francesa é braço da burguesia. Uma de nossas origens… ocidentais…
    “…um braço,
    Que nem um pedaço do seu pode ser…”
    F A T A L I S TA? SIM.
    Pensando em uma das origens de nosso Estado, olhei no site “Revolução Francesa”- uma das origens de nossa Democracia capitalista:
    http://www.consciencia.org/a-revolucao-francesa-1789-1799-historia-da-civilizacao-ocidental
    (Transcrição do texto original com possíveis falhas)Não recomendo a leitura integral: um porre…
    Não confirmo a aceitação unânime de aceitabilidade desses trechos e de todos esses conceito pelos historiadores, mas são ideias que representam parte do que eu penso: sobre democracia ou quaisquer sistemas que conheço – confesso que poucos. Mas se todos falam por que não posso? Afinal estamos numa Democracia à francesa…
    Abraço.
    Transcrevo ou copio abaixo, lógico…, as partes que me interessam…:

    (…)
    “A Revolução Francesa não resultou da pobreza ou sofrimentos do povo.

    Passando às causas econômicas da Revolução Francesa, devemos notar antes de tudo que o sofrimento generalizado entre as massas populares não foi uma delas. A difundida crença de que a revolução se desencadeou porque a maioria do povo curtia fome por falta de pão e a rainha disse “comam bolo” está longe de ser uma verdade histórica. A despeito da perda do seu império colonial, a França nas vésperas da Revolução era ainda uma nação rica e próspera. Havia mais de dois séculos que a burguesia francesa se locupletava com os lucros de um comércio expansionista, enquanto as classes inferiores colhiam pelo menos algumas migalhas caídas da mesa dos ricos. É mesmo opinião dos historiadores modernos que os camponeses da França no século XVIII desfrutavam uma situação superior à dos camponeses dos demais países da Europa, com exceção da Inglaterra (3). Que essa situação tendia ainda para melhorar, provam-no o declínio da servidão durante o século que precedeu a Revolução e o fato de que uma proporção cada vez maior de camponeses se tornavam proprietários de terra. Havia, sem dúvida, muita miséria entre os moradores dos bairros pobres de Paris, sobretudo durante o rigoroso inverno de 1788-89. Mas não foi essa gente que fêz a Revolução; apenas participou dela após ter sido deflagrada por outros. Nunca será demais acentuar que a Revolução Francesa foi desencadeada como um movimento da classe média. Seus objetivos iniciais interessavam principalmente à burguesia. Como os líderes dessa classe necessitassem do apoio de uma percentagem maior da população, endossaram naturalmente as c” – los camponeses ( a participação poplar, dos pobres?). Mas os proletários pobres foram pouco menos que esquecidos.
    (2) É necessário, .naturalmente, fazer uma distinção entre as verdadeiras revoluções; e as revoluções palacianas, muito comuns nos Balcãs e na América Latina, e que realidade pouco mais são do que sucedâneos de eleições.” (eu desconheço verdadeiras revoluções)

    (…)

    As verdadeira Causas Econômicas: A ascenção da clásse média.
    Quais foram, então, as verdadeiras causas econômicas? Talvez devamos colocar em primeiro lugar na lista a ascensão da classe média a uma posição de extraordinário poder e prestígio. A emergência de um novo grupo eco-nômico com o sentimento dos agravos sofridos e a consciência da sua própria força e impor: parece ser condição necessária ao deflagrar de quer revolução. Essa classe nunca se compõe de míseros rebotalhos humanos, desgraçados, famintos e desesperados. Pelo contrário, suas fileiras devem estar imbuídas de um sentimento de confiança inspirado pelo sucesso prévio e fortalecido pela crença de que um esforço a mais trará maiores vantagens no futuro. Durante os anos de prosperidade que precederam a Revolução a burguesia francesa passara a ser a classe econômica dominante. Afora a terra, quase toda a riqueza produtiva estava em suas mãos. Controlava os recursos do comércio, da manufatura e das finanças. A” disso, parece que os seus membros cada ano se tornavam mais ric -Em 1789 o comércio exterior da França alcançou o total jamais atingido de 1153OOOO00 de francos (4). Mas o efeito principal dessa prosperidade crescente foi avivar o descontentamento dos burgueses. Por mais dinheiro que acumulasse um negociante, um industrial, um banqueiro ou um advogado, os privilégios políticos continuavam a ser-lhe negados. Não tinha quase nenhuma influência na corte, não podia partilhar das honrarias mais altas e, com exceção da escolha de alguns funcionários locais sem importância, não podia sequer votar. Além disso, era olhado como um inferior pela nobreza ociosa e frívola. De tempos a tempos, um orgulhoso conde ou duque consentia no casamento de seu filho com a herdeira de um rico burguês; mas depois, era possível que seguisse o costume de aludir a esse casamento como a “adubagem de suas terras”. À medida que a classe média se tornara mais opulenta e mais cônscia da sua própria importância, era inevitável que os seus membros passassem a melindrar-se com tais tentativas de discriminação social.
    Mas o que acima de tudo fez da burguesia uma classe revolucionária foi os grandes comerciantes, financistas e industriais pretenderem um poder político correspondente à sua posição econômica.

    ia se desenvolviam durante os séculos subseqüentes a burguesia adquiria cada vez mais confiança na sua capacidade de se manter por si própria. Resultava daí uma tendência crescente para considerar os regulamentos mercantilistas como restrições opressivas. Os comerciantes viam com maus olhos os monopólios de que gozavam companhias protegidas e a interferência na sua liberdade de comprar em mercados estrangeiros. Os industriais irritavam-se com as leis de controle dos salários, com o tabelamento de preços e as restrições impostas à aquisição de matérias-primas fora da França e de suas colônias. Tais eram apenas algumas das mais incômodas regulamentações aplicadas por um governo que agia com o duplo objetivo do paternalismo e da auto-sufi-ciência econômica. Em tais condições, talvez não seja de espantar que viesse a classe média a encarar a pura liberdade econômica como um paraíso que merecia ser conquistado a qualquer preço. Seja como fôr, dificilmente pode haver dúvidas quanto a ter sido uma das principais causas da Revolução Francesa o desejo, por parte dos homens de negócio, de se livrarem do mercantilismo.
    3) A Sobrevivência dos privilégios
    Um terceiro fator, de caráter precipuamente econômico e que muito contribuiu para acender o rastilho da Revolução Francesa, foi o sistema de privilégios arraigado na sociedade.Antes da Revolução, a populacão da Franca se dividia em três grandes classes ou estados : a primeira se compunha do clero, a segunda dos nobres e a terceira do povo. O Primeiro Estado compreendia, na realidade, duas categorias diferentes: 1) o clero superior, composto dos cardeais, arcebispos, bispos e abades, e 2) o clero inferior, formado pelos padres das paróquias. Embora todos esses servidores da Igreja passassem por fazer parte de um grupo privilegiado, um vasto abismo separava os dois níveis. Os membros do clero inferior eram amiúde tão pobres quanto os seus mais humilde.- paroquianos e em geral tendiam para simpatizar com o homem comum. O clero superior, em contraste, vivia na abundância e privava com as rodas elegantes e alegres da corte. Não compreendendo mais que 1% da população total, possuía, não obstante, cerca de 20% de toda a terra, sem falar de enormes riquezas compostas de castelos, obras de arte, ouro e jóias. Muitos bispos e arcebispos tinham rendimentos que orçavam em centenas cie milhares de francos. Como é natural, muitos desses opulentos prelados pouco se interessavam pelos assuntos religiosos. Alguns se envolviam na política, ajudando o rei a manter o poder absoluto. Outros jogavam ou cultivavam vícios ainda mais escandalosos.’ Não se pode, certamente, afirmar que todos fossem depravados e remissos no cumprimento dos seus deveres profissionais, mas o número dos corruptos, prepotentes e viciados era bastante grande para convencer, muita gente de que a igreja estava podre até o cerne e os seus próceres roubavam o povo e dilapidavam os recursos da nação.
    O Segundo Estado, que compreendia a nobreza secular, dividia-se também em duas castas subordinadas. No alto estavam os “nobres da espada”, cujos títulos remontavam aos suseranos feudais da Idade Média. Abaixo deles colocavam-se os “nobres da toga” cujos avós tinham comprado algum cargo judicial que lhes conferia um título de nobreza e o direito de usar uma imponente beca de magistrado. Se bem que conmínente menosprezados pelos seus colegas de linhagem mais antiga. os nobres da toga formavam sem contestação possível o elemento mais inteligente e progressista das classes superiores. Vários deles se tornaram reformadores ardorosos e alguns desempenharam papel proeminente na própria Revolução. Pertenciam a esta categoria críticos famosos da ordem estabelecida como Montesquieu, Mirabeau – Lafayette. Eram os nobres da espada que realmente constituíam a classe privilegiada do Segundo Estado. Monopolizavam, juntamente com o clero superior, as principais posições do governo, delegando o verdadeiro trabalho a subordinados. Donos, embora, de vastas propriedades rurais, residiam habitualmente em Versalhes e confiavam aos seus intendentes e mordomos a tarefa de arrancar aos camponeses o suficiente para atender às suas necessidades suntuarias Entre esses perdulários de sangue azul raros eram, na verdade, os que desempenhavam alguma função útil Pareciam acreditar que os seus únicos deveres para com a sociedade fossem adular o rei cultivar os refinamentos da vida da corte e, de quando em quando proteger a arte clássica decadente. Num sentido muito real, a maioria deles eram parasitas a consumir uma riqueza que outros produziam com o suor do seu rosto.
    4) O injusto sistema tributário
    Entre os mais valiosos privilégios do clero e da nobreza contavam-se os relativos aos impostos e o iníquo sistema tributário pode ser considerado como outra cansa econômica da Revolução Francesa. Muito antes de 1789 os impostos postos tenham passado, naquele pais, a se agrupar em dois tipos principais Primeiro havia os impostos diretos, que comprendiam a “talha”, ou imposto sobre a propriedade real e pessoal e pessoal, a “capitação”, ou imposto por cabeça; e a “vintena”, ou imposto sobre a renda, a princípio na proporção de 5%, mas elevando-se continuamente e, no século XVIII, a 10 e 11%.
    Os tributos indiretos, ou taxas acrescentadas ao preço das mercadorias e pagas em última análise pelo consumidor, compreendiam mormente os direitos sobre mercadorias importadas do estrangeiro ou expedidas de uma província francesa para outra. Além disso a “gabela”, ou taxa sobre o sal, pode também ser considerada uma forma de imposto indireto. Durante algum tempo a produção do sal fora, na França, um monopólio do Estado, e cada habitante era obrigado a comprar anualmente pelo menos sete libras desse artigo nas salinas do governo. Ao custo da produção era adicionada uma taxa onerosa, donde resultava ser o preço para o consumidor freqüentemente de 50 ou 60 vezes o verdadeiro valor do sal. Embora excessivamente pesados, os impostos indiretos eram em geral distribuídos de maneira equitativa. Dificilmente poderia alguém esquivar-se a pagá-los, fosse qual fosse a sua condição social. Com a maioria dos impostos diretos, porém, o caso era bem diferente. O clero, graças ao princípio medieval de que a propriedade da igreja não podia ser tributada pelo estado, não estava sujeito ao pagamento da “talha” nem da “vintena”. Os nobres, em particular os de categoria superior, valiam-se de sua influência junto ao rei para obter isenção, praticamente, de todas as tributações diretas. Em conseqüência, o ônus principal de fornecer fundos ao governo recaía sobre o povo, ou seja o Terceiro Estado, e como os artesãos e operários quase nada possuíam que pudesse ser taxado, eram os camponeses e a burguesia os mais sacrificados.
    5) A sobrevivência do feudalismo
    Como derradeira causa econômica da Revolução Francesa podemos apontar a sobrevivência de restos do feudalismo na França, ainda em 1789. Se bem que o sistema feudal ti vesse desaparecido desde muito tempo, restavam alguns vestígios dele que serviam como úteis instrumentos para manter o poder do soberano e as prerrogativas da nobreza. Em algumas zonas atrasadas do país ainda subsistia a servidão, cujas proporções, todavia, não devem ser exageradas. A maior estimativa até agora feita do número de camponeses que viviam em condição servil é de 1 500 000, para uma população rural de pelo menos 15 000000. A grande maioria dos camponeses era formada de homens livres. Uma parte considerável era dona das terras que cultivava. Outros eram rendeiros ou trabalhadores assalariados, mas parece que a maioria eram meeiros que lavravam as terras dos nobres em troca de uma parte cia colheita, geralmente um terço ou a metade. Entretanto, apesar de serem inteiramente livres, esses camponeses estavam sujeitos a obrigações que vinham desde a época feudal. Uma das mais odiosas era o pagamento de um censo ao senhor que, em tempos passados, fora dono da terra. Outra era a doação, feita ao nobre da localidade, de uma parte do produto da vencia de qualquer pedaço de terra. Em acréscimo a tudo isso os camponeses tinham de contribuir com as “banalidades”, ou supostas compensações pelo uso de várias servidões da propriedade senhorial. Na Idade Média, cada um pagava essa taxa para poder servir-se do moinho de trigo, do lagar e do forno de pão. A despeito de muitos camponeses, no século XVIII, possuírem tais instalações e não mais aproveitarem facilidades oferecidas pelo senhor, as “banalidades” continuavam a ser cobradas na importância original.
    As mais exasperantes de todas as relíquias do feudalismo eram, talvez, a “corvéia” e os privilégios de caça da nobreza. A corvéia. outrora um compromisso de trabalhar, entre outras coisas, na construção de estradas e pontes dentro do domínio senhorial, transformara-se numa obrigação devida ao governo. Durante várias semanas de cada ano o lavrador era forcado a abandonar as suas lidas para dedicar-se à reparação das estralas reais. A nenhuma outra classe da população era exigida a execução de tais serviços. Ainda mais vexativos eram para os elementos rurais os privilégios de caça dos nobres. Desde tempos imemoriais o direito de cultivar o esporte cinegético era considerado como um distintivo de aristocracia. O homem bem-nascido devia ter plena liberdade de entregar-se a esse emocionante passatempo onde quer que lhe aprouvesse. Naturalmente, uma coisa tão insignificante como os direitos de propriedade dos camponeses não podia constituir obstáculo para ele. Em algumas partes da França proibia-se aos lavradores a capina ou a ceifa na época da procriação, para não molestar os ninhos das perdizes. Coelhos, gralhas e raposas não podiam ser mortos apesar da devastação que faziam nas searas ou entre as aves domésticas e animais novos. Acresce que o camponês devia conformar-se com ver os seus campos, em qualquer tempo, espezinhados pelos cavalos de um despreocupado bando de nobres caçadores.
    Causas Intelectuais
    Todos os grandes levantes sociais dos tempos modernos têm tido o seu fundamento de causas intelectuais. Para que um movimento possa atingir as proporções de uma verdadeira revolução é necessário eme se apoie num corpo de idéias que forneçam nao só um programa de ação mas também uma visão gloriosa da nova ordem a ser por fim instaurada. Em grande parte, tais idéias são produtos de ambições políticas e econômicas, mas a seu tempo assumem o caráter de fatores independentes. Causas originárias secundárias ou derivadas, acabam por se transformar em causas primárias, A sua realização passa a ser aceita como um objetivo em si e conquista o devotamente dos homens como o evangelho de uma nova religião. As causas intelectuais da Revolução Francesa foram, em essência, um fruto do Iluminismo. Esse movimento produziu duas interessantes teorias políticas que desde então têm exercido sua influência pelos anos em fora. A primeira foi a teoria a de Locke, Voltaire, Montesquieu e outros, a segunda foi a teoria democrática de Rousseau. Ainda que fundamentalmente opostas, tinham elas certos elementos em comum. Ambas se baseavam na premissa de que o estado é um mal necessário e de que o governo repousa sobre uma base contratual. Cada uma tinha a sua doutrina de soberania popular, embora discrepassem quanto à interpretação. E, finalmente, ambas defendiam até certo ponto os direitos naturais do indivíduo.

    Rousseau desenvolveu uma concepção de soberania completamente diversa da dos liberais. Ao passo que Locke e os seus adeptos haviam ensinado que somente uma parte do poder soberano é cedida ao estado, permanecendo o resto nas mãos do povo, Rousseau sustentava que a soberania é indivisível e que toda ela passa à co-munidade quando se constitui a sociedade civil. Insistia, além disso, em que ao homologar cada indivíduo o contrato social, fazia entrega de todos os seus direitos à comunidade e concordava em se submeter inteiramente à vontade geral. Segue-se daí que o poder soberano do estado não está sujeito a quaisquer limitações. A vontade geral, expressa pelo voto da maioria, é o tribunal de última instância. O que a maioria decide é sempre justo no sentido político e torna-se absolutamente obrigatório para cada um dos cidadãos. O estado, que na prática significa a maioria, é legalmente onipotente. Isso, porém, não implica realmente, de acordo com Rousseau, que a liberdade do individuo seja aniquilada. Pelo contrário, a sujeição ao estado tem o efeito de fortalecer a liberdade autêntica. Ao cederem os seus direitos à comunidade, os indivíduos não fazem mais que trocar a liberdade animal do estado de natureza pela verdadeira liberdade de criaturas racionais obedientes à lei. Obrigar um indivíduo a submeter-se à vontade geral é, consequentemente, tão-só “forçá-lo a ser livre”. É preciso compreender, aliás, que quando Rousseau falava no estado não queria referir-se ao governo. Considerava o estado como a comunidade politicamente organizada, cuja função soberana é expressar a vontade gera. A autoridade do estado não pode ser representada, mas deve expressar-se diretamente através da promulgação, pelo próprio povo, de leis fundamentais. O governo, por outro lado é simplesmente o agente executivo do estado. Não tem por função formular a vontade geral mas tão-somente executá-la. Além disso, a comunidade pode estabelecer ou destituir o governo “sempre que o desejar” (9).

    2) A Declaração dos Direitos dos Homens
    Após derrubar os privilégios a Assembléia consagrou-se ao preparo de uma carta de liberdades. O resultado foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, promulgada em setembro de l 789. Parcialmente modelada pelo Bill of Rights dos ingleses e adotando os ensinamentos dos filósofos políticos liberais, a Declaração francesa é um. típico documento da classe média. Tanto a propriedade como a liberdade, a segurança e a “resistência à opressão” são declaradas direitos naturais. Ninguém pode ser despojado de suas posses a não ser em caso de necessidade pública, e sob a.condição estrita de ser “prévia e equitativamente indenizado”. Cumpre, outrossim, ter na devida consideração os direitos individuais. A liberdade de palavra, a tolerância religiosa e a liberdade da imprensa são declaradas invioláveis. Todos os cidadãos têm direito a tratamento igual nos tribunais. Ninguém pode ser preso ou punido de qualquer forma senão em virtude de processo judiciário. A soberania reside no povo e os funcionários do governo tornam-se passíveis de demissão no caso de abusarem dos poderes que lhes são conferidos. Não se faz qualquer referência aos direitos do homem comum a uma parte equitativa da riqueza por êle produzida, nem tampouco à proteção do estado aos incapacitados de ganhar a vida. Os autores da Declaração dos Di-reitos não eram socialistas nem estavam particularmente interessados no bem-estar econômico das massas.

    Os Frutos mais duradouros da Revolução
    A Revolução Francesa também teve outros resultados de caráter mais duradouro e mais benéfico para a humanidade em geral. Foi, antes de mais nada, ura vigoroso golpe contra a mo narquia absoluta. Daí em diante, poucos reis ousaram arrogar-se uma autoridade ilimitada. Mesmo quando, em 1 814, um Bourbon foi restaurado no trono da França, não demonstrou quaisquer pretensões à missão divina de governar como bem lhe aprouvesse. Em segundo lugar, a Revolução Francesa fêz desaparecer quase todos os remanescentes de um feudalismo em plena decadência, inclusive a servidão e os privilégios feudais dos nobres. Todas as corporações foram abolidas para nunca mais reviver. Posto que subsistissem ainda alguns vestígios do mercantilismo, os seus dias, como doutrina política acatada pelos governos, estavam positivamente contados. Embora a separação entre a Igreja e o Estado, consumada em 1794, acabasse sendo anulada por Napoleão, não deixou de fornecer um precedente para o divórcio definitivo da religião e da política, não só na França mas também em muitos outros países. Entre os restantes resultados benéficos da Revolução podem ser mencionados a abolição da escravidão nas colônias francesas, a eliminação da prisão por dívidas, o cancelamento do direito de primogenitura e uma distribuição mais ampla das terras, graças ao parcelamento das grandes propriedades. Por fim, as bases de duas das mais importantes realizações de Napoleão — as reformas educacionais e a codificação das leis — foram assentadas, na realidade, pelos chefes da Revolução.
    O legado de maus frutos
    Não se pode negar, por outro lado, que a Revolução Francesa também tenha tido os seus frutos amargos. Foi ela em grande parte responsável pelo desenvolvimento do nacio- nalismo “chauvinista” como ideal dominante. O nacionalismo, está claro, nada apresentava de novo.
    Pode ser encontrado quase que na própria origem das mais antigas ciívilizações manifestou-se na obsessão dos hebreus de ^erem o Povo Eleito e no exclusivismo racial dos gregos. Mesmo em sua forma européia moderna, tem raízes que se estendem ao século XIII. Sem embargo, o nacionalismo só se tornou uma força realmente virulenta eavassaladora depois da Revolução Francesa. Foi o orgulho do povo francês pelo que tinha realizado e a sua determinação de preservar tais conquistas que deram origem ao patriotismo fanático tão bem exemplificado pela sua emocionante canção guerreira, a Marselhesa. Pela primeira vez na história moderna, uma nação inteira se punha em pé de guerra. Em contraste com os exércitos profissionais relativamente pequenos do passado, a Convenção Nacional, em 1 793, alistou cerca de 800000 homens, ao passo que milhões de outros,, atrás das linhas de combate, dedicavam as suas energias à gigantesca tarefa de eliminar os desacordos internos. Operários, camponeses e burgueses, tocos cerraram fileiras sob o lema de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” como em defesa de uma causa sagrada. O cosmopolitismo e o pacifismo dos filósofos iluministas ficaram completa te esquecidos. Mais tarde essepatriotismo militante contaminei: is terras, contribuindo com o peso da sua influência para alimentar as idéias exaltadas de superioridade nacional e os ódios raciais. Por fim, a Revolução Francesa teve por conseqüência uma deplorável depreciação da vida humana. A carnificina de milhares de pessoas durante o Terror, muitas vezes sem que lhes pudesse ser assacada qualquer culpa, mas simplesmente como meio de infundir pavor nos inimigos da Revolução, tendeu a criar a impressão de que a vida do homem pouco ou nada valia em confronto com os nobres objetivos do partido que ocupava o poder. Essa impressão talvez contribua para explicar a relativa indiferença com que, alguns anos depois, a França aceitou o sacrifício de centenas de milhares de seus filhos para satisfazer as ambições ilimitadas de Napoleão…”

  3. Davi Dias de Camargo
    Postado em 22/06/2013 às 12:41 pm | Permalink

    Ato falho…:queria dizer “Juro que NÃO queria postar…

  4. NOSSO MEDO
    Postado em 22/06/2013 às 1:15 pm | Permalink

    A frase que eterniza Davi.”JURO QUE QUERIA MAS VOU POSTAR”. Não houve ato falho. Davi sempre quis postar. O momento deu coragem, ao Davi, a todos de postar, de manifestar nosso
    entendimento de que “A Revolução Francesa não resultou da pobreza ou sofrimentos do povo”. O povo manipulado pela burguesia.
    Queremos postar sim, queremos trazer nossas opiniões burguesas. Queremos ser de direita ou esquerda. Mostrar a cara.

  5. Davi Dias de Camargo
    Postado em 22/06/2013 às 1:31 pm | Permalink

    correção talvez para melhor legibilidade do trecho: “…para o otimismo de fato há que se ser muito jovem…

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