Os faraós do nosso tempo

O caminho que leva ao cemitério de Diamantina se chama avenida da Saudade. Ali eu assisti ao maior funeral dos meus tempos de menino, o do padre diretor do Seminário.

Outra morte que me marcou foi o da mãe do Torrô, não por ela que não conheci, mas por ele, artilheiro do Oásis, que fez um escândalo chorando alto pelas ruas do Alto da Poeira. Meu entendimento na época não pôde assimilar essa cena com o fato de, no dia seguinte, ele passear com a namorada num agarro só.

Tudo que se refere à morte tem um quê de incompreensível e misterioso. Jovem, eu a via como uma derrota para o ser humano. Só mais tarde pude perceber que essa nossa fraqueza é essencialmente natural e que, apesar de quase ninguém desejar que chegue sua hora, a vida é assim e não há o que discutir. É fazer o certo e plantar boas veredas para os nossos descendentes, da mesma forma que os meus pais o fizeram, e os pais de seus pais também.

Isso me vem à cabeça ao observar que os que se alçam ao poder nas nações parecem temer mais perdê-lo do que morrer. Criam ilusões divinas, propagandeiam sua onipotência e eternidade e se esquecem que na primeira esquina pode estar o seu fim. O que fazer para se perpetuar ? Os faraós egípcios construíam pirâmides colossais e ordenavam que fossem embalsamados e lá guardados para que permanecessem eternamente.

As obras ficaram, fruto do trabalho de milhares de escravos, esquecidos por turistas e historiadores. Dar ordem é fácil, o duro é fazer.

Nos dias que antecederam a escolha do novo Papa, Francisco, que impressiona a todos pela humildade, simplicidade e sabedoria, os meios de comunicação se envolveram, acriticamente, com a morte e velório do presidente da Venezuela. O fato de nenhum jornalista questionar aquela foto de Chávez com suas filhas, uma armação explícita comprovada dias depois, mostra que a imprensa tem de melhorar muito.

No funeral que parece não ter fim, surgiu a ideia de embalsamar o corpo e deixá-lo exposto para sempre à visitação dos venezuelanos. O grupo nopoder não aceita a morte do líder e desrespeita seu lado humano. O que dele ficará é o que fez de bom para os pobres do seu país. De ruim, o autoritarismo e o que não soube realizar.

Embalsamaram Lênin, Mao e queriam fazer o mesmo com Chávez. Deveriam tê-los deixado quietos, no silêncio de suas mortes. No máximo, esculpir-lhes estátuas.

Quando se chega ao cemitério de “Auvers sur Oise”, na França, o viajante se vê diante de uma cova rasa de terra, com uma placa simples que indica seu morador: Vincent Van Gogh. Ele está lá há 160 anos. Sem ser embalsamado e sem jazigo de luxo ele é admirado em todo o mundo até hoje. A obra é que fica.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em março de 2013. 

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 26/03/2013 às 1:01 am | Permalink

    E a mãe do Torró não se sabe onde está enterrada. Com certeza plantou boas veredas.

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