O melhor da viagem

Confesso que sou um péssimo turista. E as grandes viagens me cansam cada vez mais. Por mais experiência que tenha adquirido, não sou mais o passageiro desinformado de antes, enfrentar as agruras de aeroportos e alfândegas, de autoridades ferozes a nos esperar depois de horas e horas de vôo e noites mal dormidas é algo que ainda me incomoda.

A legislação e os costumes são outros, a casa ficou a quilômetros e quilômetros de mim, e eu continuo a não gostar de ser estrangeiro. “Em Minas ou em Paris”, como já disse em uma canção.

Viajando mais por obrigação do que por escolha, o jeito é me concentrar nas tarefas a serem executadas.  Aí o tempo passa mais depressa.

Talvez eu esteja exagerando, por estar chegando de viagem longa e cansativa. Até enquadrar a alimentação, tomar banho generoso e dormir quase meio-dia, não fui homem de concatenar bem as coisas. Descansado, devo admitir que conheci muita gente  boa em meu andar pelo mundo, vi coisas belíssimas, aprendi muito. “Viajar é mais, eu vejo mais.”

Mas existe uma coisa que sempre me desagradou, desde adolescente com pretensões artísticas: as fronteiras. Penso que devíamos ser livres para chegar e partir, ir e vir de qualquer lugar, sem burocracia. Sei que na realidade o mundo é cruel e mais insano que o meu sonhar poético. Mas essa minha desavença com as fronteiras não parece ter fim, está  cravada em meu interior.

Acrescento o fato de que uma viagem de oito ou dez horas nos impõe uma jornada de sacrifício de mais de um dia, do lar ao destino, do destino ao lar.

É coisa para aventureiro e isso eu não sou. Se eu tivesse nascido em outros tempos eu não teria opção. Mas nos tempos dos jatos e da alta tecnologia não deveria ser assim.

Quanto ao péssimo turista que sou, confesso que não levo máquinas para fotografar os lugares por onde passo. Não fotografo há anos. Fotografava no tempo em que minhas crianças eram crianças. Hoje elas tiram fotos dos netos, o que me basta. Admiro a fotografia e ela é parte importante em minha vida, sempre foi. Tenho um prazer enorme em contemplar a obra dos gênios da fotografia. E gosto muito de ver as fotos que os amigos e familiares  me mostram. Sou um feliz espectador.

Eu nunca apreendi o jeito japonês e de tanta gente de excursionar: fotografam tudo o que está à sua frente e depois vão curtir, em casa, o que a máquina captou.

Prefiro ver e guardar na memória.

Quando o avião pousou, na manhã do último domingo, em minha cidade, quase morto de cansado, veio-me o sentimento bom de estar em minha terra. Ao passar pela alfândega e ser tratado com muita gentileza,  eu tive certeza de que o melhor da viagem é chegar.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em junho de 2013.  

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 19/06/2013 às 9:09 am | Permalink

    o texto do Brant me remete a ideia reacionária da limitação do direito consagrado e badalado de ir e vir.
    O direito de ir deve ser universal, o de vir deve ser restrito. Ir é ótimo, vir é péssimo.
    Ir leva conhecimento, vir trás aculturamento.
    Vá com o diabo que carregue, volte com deus.
    Prefiro ficar no meu clube de esquina.

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