Meus discos: The Stonewall Celebration Concert

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Minha filha tentou de tudo quanto é jeito fazer com que eu entendesse a beleza das canções da Legião Urbana. Tentei entender, e até gostei realmente (e gosto ainda) de várias delas. Mas só fui capaz de compreender o tamanho do talento de Renato Russo quando ele lançou, em 1994, The Stonewall Celebration Concert.

Peço humildemente perdão aos fãs da Legião – mas, para mim, Stonewall é o disco mais brilhante de todos a que Renato Russo emprestou seu talento magnífico.

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Volto atrás no tempo, para quando Fernanda me aplicava a Legião.

Não vou me lembrar em que ano foi, mas ela me arrastou até o Ginásio do Ibirapuera lotado para ouvir a Legião. (Deve ter sido 1987, 1988, 1989; não anotei, dancei.) Foi uma experiência maluca, porque a única banda brasileira que havia lotado um estádio antes tinha sido o Secos & Molhados, na primeira metade dos anos 1970 – e eu tinha visto o Secos & Molhados, antes que eles estourassem para o sucesso nacional, num pequeno teatro do Bexiga.

E ali estávamos, minha filha adolescente de uns 12, talvez 14 anos, e eu, mais umas 10 mil pessoas, talvez 15 mil, diante da banda brasiliense. E todos ali sabiam que o líder da banda era um sujeito bastante invocado, como a gente dizia duas décadas antes. Era um roqueiro meio dado a Keith Jarrett: se de repente a platéia não correspondesse às suas expectativas, ele cascava fora – simples assim.

zzstonewall4Se ainda não estou totalmente tomado pelo Alemão, naquele dia, no Ginásio do Ibirapuera, Renato Russo deu uma de Keith Jarrett e, depois de cantar “Faroeste caboclo”, tirou seu bloco do palco. Olhei pra Fernanda, tentando entender o que estava acontecendo. E percebi que ela não sabia direito. Ninguém no ginásio sabia.

A Legião não voltou ao palco. Depois de uns dez minutos de silêncio e expectativa, a moçadinha entendeu que o show tinha acabado e começou a ir embora.

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Teclo rewind de novo, volto um pouco mais atrás no tempo, e eis que sou da geração dos anos 60, quer dizer, da geração que a partir assim de 1961 ouviu os gênios todos: Dylan, Baez, Beatles, Peter, Paul & Mary, Chico, Caetano, Gil, Milton, Roberto, Nara, Bethânia, Gal, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Nana Caymmi. Minha geração é tão privilegiada que monstros como Carlos Lyra, Marcos Valle, Sidney Miller, não necessariamente foram ou são considerados de primeiríssimo time.

Fast forward para os anos seguintes. No início dos anos 1970 tivemos Fagner, Raul Seixas, Walter Franco, Novos Baianos, Gonzaguinha, Renato Teixeira. Monte de coisas excelentes – mas não os melhores, para quem tinha conhecido Chico, Caetano, Gil, Milton. Para não falar dos mais antigos, dos que vieram antes, os gênios todos dos anos 30, Noel à frente de todos.

Os únicos grandes compositores brasileiros que eu admitia, que eu admirava, nos anos 1980, eram os muito mais velhos que eu e os meus quase contemporâneos, os que haviam aparecido antes.

Foi Inês que me introduziu a Cazuza, e depois Fernanda me introduziu a Renato Russo.

Simultaneamente, Inês me introduziria a um grupo inglês chamado Police. E, nem me lembro bem como, acabei descobrindo uns tais de Dire Straits. Hoje, considero Mark Knopler e Sting dos melhores músicos que surgiram depois, de, digamos, Woodstock lá e a Tropicália aqui.

Fernanda e eu tivemos muitas coisas em que concordávamos, apesar da onipresente e talvez até necessária guerra de gerações. Dos meus grandes – Caetano, Chico, Milton, Gil –, ela sempre gostou. Do Rumo, aprendemos a gostar juntos, desde sempre. Como eu, ela nunca foi muito chegada aos Titãs; até vimos show deles, mas sem grande entusiasmo. Como eu, ela curtiu bastante o Ultraje. Por uma dessas coincidências de que é feita a vida, vibramos, os dois, com um show do Ultraje exatamente no lugar em que antigamente havia o Des Oiseaux, e onde, no início dos anos 70, Suely fez o cursinho do Equipe antes de entrar na História da USP – o mesmo Equipe em que Fernanda faria o segundo grau.

Mais tarde ainda, Fernanda tentaria me fazer entender a importância de um novo grupo chamado U2.

E muito mais tarde ainda, já adulta, e sob a sempre boa influência do Carlos Bêla, Fernanda me apresentaria o Karnak. Nesse caso específico, ela não teve que fazer esforço: me rendi à graça de André Abujamra de imediato.

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Mas aí viajandei, viajandei, e não falei nada do que era para falar.

The Stonewall Celebration Concert é um disco absolutamente brilhante. Gritantemente genial.

Como líder e letrista da Legião, Renato Russo, me parece, fez um extraordinário trabalho.

Enfatizou que é só o amor, é só o amor que faz melhor. E ainda mostrou que Brasília é um faroeste caboclo, e questionou as novas gerações com a questão gritante de que país é este.

No seu primeiro disco solo, provou-se um artista maior.

É um disco ao mesmo tempo ideológico e pessoal, planetário e umbigal. É um panfleto, um elogio à opção gay – e, ao contrário da imensa maioria dos discursos, dos panfletos, uma coisa absolutamente agradável de se ouvir.

Fez, ao mesmo tempo, uma elegia ao gaysmo e uma elegia aos amores que dão certo.

zzstonewall2No disco em que escancarou sua homossexualidade, Renato Russo demonstra, tintim por tintim, a diferença entre o homo e o veado.

Uma coisa é gostar de fazer sexo com pessoas do mesmo sexo. Outra coisa, muito diferente, é homem fingir que é mulher, ter trejeitos de mulher.

Renato Russo tem uma puta voz de homem. Acho isso muito legal, para um gay assumido.

E que voz. Como canta bem, o cara, com aquela voz poderosa, possante, potente.

Me ocorre que a voz de Renato Russo é absolutamente anti-bossa nova – e que maravilha haver na música brasileira vozes novas que são anti-bossa nova. Nada contra a bossa nova – mas tudo contra a unicidade, a necessidade de ordem unida, de centralismo democrático, de haver apenas um tipo de voz aprovado.

A voz de Renato Russo, poderosa e furiosa, nos resgata da ditadura da vozinha pequenina que estava virando padrão único na MPB. Repito: nada contra a vozinha pequenina. Mas tudo contra as ditaduras, quaisquer que sejam elas.

Não sei o que diriam os professores da Cultura Inglesa, mas na minha opinião, aluno da Cultura muito cedo, o inglês do cara é sensacional. Nem seria necessário que fosse – a gigante Nina Simone canta em francês com um sotaque que quase torna as palavras incompreensíveis, e Sandrine Kiberlain canta num inglês de sotaque fortíssimo, só para dar dois exemplos.

Mas que é bom ouvir um brasileiro cantar num inglês excelente – como, aliás, já faziam no passado cantoras como Sylvinha Telles, Maysa, Dolores Duran -, lá isso é.

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Soube escolher o que gravar. Teve um bom gosto impressionante.  São canções extraordinárias. Vinte e uma canções – era o início do formato CD no Brasil, e no CD cabiam muitos mais minutos de música que nos LPs.

São só músicas americanas. Exatos dez anos depois, em 2004, Caetano, o gigante, faria seu disco só de canções em inglês, a imensa maioria americanas, A Foreign Sound, um disco belíssimo – mas aqui Caetano, o que sempre foi à frente, veio atrás. O conceito de A Foreign Sound, Renato Russo havia antecipado dez anos antes.

A escolha do repertório indica o extraordinário bom gosto – e a cultura geral – de Renato Russo. Roqueiros costumam gostar de rock; pior ainda: roqueiros costumam demonstrar que só conhecem rock.

Renato Russo, o roqueiro mais importante que este país já teve, ao lado de Raul Seixas e Cazuza, tinha horizontes largos. Na verdade, o puto demonstra uma cultura musical maravilhosa, ampla, sem fronteiras.

Há standards bastante antigos – há Irving Berlin, “Say it isn’t so”, “Let’s face the music and dance”, há Richard Rodgers, “If I loved you”, há Hoagy Carmichael, “I get along without you very well”. Gravar só standards é fácil, e vende; todo mundo faz isso; Rod Stewart fez três discos seguidos disso.

Mas Renato Russo não fez um disco só de standards. Meteu lá “Cathedral Song”, canção então recentíssima da fascinante Tanita Tikaram, fenômeno dos anos 90. Pescou da trilha sonora de A Cor Púrpura, assinada por Quincy Jones, a canção “Miss Celia Blues”. Foi no mais que perfeito, e gravou “Somewhere”, de West Side Story, de Leonard Bernstein e Stephen Sondhein – com direito a ruídos de tiros no final. De Sondhein, solo, gravou “Send in the clowns” – uma canção que já havia sido gravada por uns cem artistas diferentes.

O cara é macho pra caralho. Fez a sua própria versão de uma das canções mais gravadas e regravadas da história, o tema principal do Pinocchio de Walt Disney, “When you wish upon a star”, de Ned Washington e Leigh Harline – e a versão dele é belíssima.

É como se Renato Russo quisesse comprovar que tinha um conhecimento amplo, enciclopédico, da música americana.

No Brasil, ele já era o ídolo de gerações como o líder da roqueira Legião. Mas ele parecia querer dizer a ele mesmo que era mais que isso.

Gravou Eric Andersen, “Close the door lightly when you go”, quando provavelmente 0,0% das tietes da Legião tinham idéia de que Eric Andersen é um grande compositor.

zzstonewall5Para mim, no entanto – eu que sou dylanista fanático desde sempre -, a maior prova de que Renato Russo, esse gay assumido, era macho pra caralho, foi ter tido a ousadia de mudar não apenas a letra, mas o título de uma canção de Bob Dylan.

“If you see her, say hello ‘, é uma das minhas preferidas entre as, sei lá, 500 canções que o cara fez.

“If you see her, say hello”, que está no disco Blood on the Tracks, de 1975 (sangue nas faixas, cara, talvez o título de disco mais franco, mais honesto, mais doído, mais doido, de toda as muitas vidas de Dylan), é uma canção de amor, uma canção simples, básica, como há poucas entre todas as mais de 500 que ele compôs. De uma certa maneira, é uma reedição da história que ele já havia contado em “North Country Blues”. É simples, suavemente triste, nostálgica. O narrador se dirige ao amigo que está para viajar para a cidade da antiga amada, e diz o que o título da canção diz – se você a vir, diga alô por mim.

Renato Russo teve a coragem absurda de mudar o título da música de Dylan: gravou-a como “If you see him, say hello”.

A intepretação de Renato Russo na música em que ele subverteu o gênero da pessoa amada é extraordinária.

Não dá pra saber, é claro, se Dylan ouviu a versão do cantor brasileiro. Mas tenho uma certeza: se ouviu, gostou.

The Stonewall Celebration Concert é um disco maior.

***

Esta anotação já está grande demais, e o que era necessário dizer sobre o disco creio que já disse. Mas sou incorrigível, sempre quero acrescentar um pouco mais, e então é preciso acrescentar que conheci The Stonewall Celebration Concert quando eu trabalhava na revista Marie Claire.

zzstonewall3Trabalhar na revista Marie Claire foi uma das melhores experiências profissionais que tive – e não só porque quem me convidou para ir para lá foi Regina Lemos, minha ex-mulher, criadora e diretora da versão brasileira da revista. Na redação de Marie Claire conheci uma meia dúzia, uma dúzia de mulheres fantásticas, interessantíssimas, belíssimas pessoas.

Quem fazia e editava as entrevistas – longas, únicas, reveladoras, profundas, profundas – era Lucy Dias, minha amiga, espero, para todo o sempre, minha namorada por uns bons tempos. A pouquíssimas pessoas Lucy terceirizava a tarefa de fazer as entrevistas, para depois ela própria, com seu talento infindo, editar. Acho que partiu de Maria Helena Passos a sugestão feita a Lucy para entrevistar Renato Russo.

Maria Helena fez uma maravilhosa entrevista. Renato Russo se abriu como acho que jamais havia feito.

E aí, enquanto Lucy editava a matéria e eu dava uma última lida,  fiquei conhecendo o disco.

Me lembro de que, quando cheguei com o disco em casa, fiquei com ele parado no CD-player durante dias e dias e dias. Não dava para parar de ouvir.

Botei The Stonewall Celebration Concert no iPod, no iTunes do computador. É sempre uma grande alegria quando o shuffle me apresenta uma das faixas do disco. Muitas vezes volto para ouvir de novo.

Beleza de disco.

Março de 2013

5 Comentários para “Meus discos: The Stonewall Celebration Concert”

  1. Btilhante Sérgio, aula de música popular, só a referência a Sidney Miller já me havia deixado emocionado, alguém o tempo gosta do marvalihoso Sidney, que nos deixou na saudade, tal como Torquato Neto e Gonzaguinha.
    Quanta gente boa, do passado, ninguem do prersente, minha espetança é que Bêlinha, como Fernanda e Inez nos apresente novos músicos, novos poetas, novos horizontes, sem que seja necessário combate aos autoritários.

  2. O inglês impecável se deve ao tempo q Renato e sua família moraram nos EUA. E n ele n era Macho Pra Caralho ele era humano como macho p caralho nenhum pode ser.

  3. Nossa como meu coração se enche de alegria ao ler essa materia eu amo ese cd e amo o Renato esse é o meu cd prefe rido de todos o melhor ever!

  4. Nesse carnaval (2016) como ficaria em casa, fiz uma “colheita” na coleção de CDs de um amigo meu, e dentre os “colhidos” estava STONEWALL CELEBRATION CONCERT. Sou muito criticado quando digo que o som da “Legião” não me desce, mas sei reconhecer uma boa música, mas não sei o porque, mas não desce!
    Como já conhecia “EQUILIBRIO DISTANTE”, também do Renato, resolvi provar o “STONEWALL”. Achei um disco de difícil digestão, muito gritado e o cantor claramente tentando se mostrar: “Eu sou foda!”
    Mas continuei a audição até o fim do disco, tomando o cuidado de se manter longe do aparelho de som, pois a tentação de desliga-lo era enorme.
    Conheço e aprecio vários clássicos que estavam no disco. Mas na voz do Renato, pra mim não deu.

  5. Esse disco é f*, neste momento estou ouvindo Miss Cellie’s blues. Fantástico! Parabéns pela matéria.

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