Más notícias do país de Dilma (126)

Nos últimos sete dias, os jornais nos informaram que a confiança dos empresários do comércio registrou uma queda de 3,1% em novembro, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Que a percepção dos empresários com relação ao desempenho da economia brasileira piorou no quarto trimestre, de acordo com a pesquisa Panorama Global de Negócios. Na escala de 0 a 100, o nível de otimismo dos diretores financeiros (CFOs) das companhias pesquisas ficou em 53,3 pontos, abaixo dos 54,7 pontos do terceiro trimestre.

Que os números e as pesquisas do Banco Central mostraram que 2013 caminha para fechar com o pior desempenho do crescimento do crédito dos últimos quatro anos. E indicaram que, além da restrição da oferta, que tem afetado mais as empresas, a demanda também começa a arrefecer, principalmente pelo lado das famílias.

Toda semana é assim: números ruins na economia, más notícias de todos os lados.

No conjunto dos três anos de governo Dilma, há uma coleção de fracassos. A presidente prometia crescimento alto e inflação baixa – e chega ao fim do seu terceiro ano de governo com crescimento pífio e inflação alta.

Como escreveu o historiador Marco Antonio Villa no Globo, este é um triênio para esquecer: “Todos os programas do seu triênio fracassaram. Nenhum deles conseguiu atingir as metas. Passou três anos e não inaugurou nenhuma obra importante como um aeroporto, um porto, uma estrada, uma usina hidrelétrica. Nada, absolutamente nada.”

E ele prossegue: “Se as realizações do triênio são pífias, é inegável a eficiência da máquina de propaganda. O DIP petista deixou seu homônimo varguista no chinelo.”

O mais lamentável de tudo é a presidente da República e seus ministros acreditam no diz a propaganda de sua própria máquina. Vivem num mundo de fantasia, um mundo cor-de-rosa que não tem absolutamente nada a ver com a verdade dos fatos.

O Estadão pegou forte em editorial nesta quinta, dia 12: “Fatos da vida podem ser chocantes, mas, com algum cuidado, alguém deveria contar à presidente da República a verdade sobre a meta da inflação: ela é 4,5%, nunca foi alcançada no atual governo e dificilmente será nos próximos dois anos. Sendo uma pessoa forte, a presidente poderia assimilar o choque rapidamente e em seguida repassar a informação a seu ministro da Fazenda, Guido Mantega.”

E vai fundo:

“Confortável em seu mundo de fantasia, o governo tem errado e continua errando em seu diagnóstico dos problemas econômicos. Insiste em estimular o consumo quando os entraves estão do lado da oferta interna. Reconhece um tanto obscuramente a necessidade de mais investimento para mais produtividade, mas é incapaz de apontar um rumo aos empresários e de oferecer segurança aos investidores. No ano passado os juros foram baixos, pelos padrões históricos, mas o investimento caiu. Impossível, para quem tem alguma percepção, desconhecer a inflação elevada, a piora das contas públicas e a maquiagem como instrumento de política. Nenhum discurso cor-de-rosa anula esses dados.”

Fernando Gabeira fez em artigo no Estadão um resumo da situação brasileira que é tão certeiro quanto chocante, apavorante:

“No Uruguai, o presidente José Mujica tem uma vida austera, anda de Fusca, recebe $ 1 mil de salário e daqui a pouco deixa o poder. Aqui a zona de conforto é mais pé na terra, mais sensual e materialista: ocupar a máquina do Estado em todas as suas engrenagens, justificar a corrupção a ponto de romantizá-la e usar o dinheiro público para financiar um grupo escolhido de empresários. Aqui há bolsa para ricos e pobres, o consumo é a nossa droga.”

Aí vai a 126ª compilação de notícias e análises que comprovam os malefícios e a incompetência do lulo-petismo como um todo e do governo Dilma Rousseff em especial. Foram publicadas entre os dias 6 e 12 de dezembro.

A presidente não se entende com os fatos, a realidade

* “Confortável em seu mundo de fantasia, o governo tem errado e continua errando em seu diagnóstico dos problemas econômicos”

“Fatos da vida podem ser chocantes, mas, com algum cuidado, alguém deveria contar à presidente da República a verdade sobre a meta da inflação: ela é 4,5%, nunca foi alcançada no atual governo e dificilmente será nos próximos dois anos. Sendo uma pessoa forte, a presidente poderia assimilar o choque rapidamente e em seguida repassar a informação a seu ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ambos continuam falando – e isso ocorreu ontem, de novo, no Encontro Nacional da Indústria – como se o alvo oficial fosse qualquer número até 6,5%, limite superior da escandalosa margem de tolerância adotada no País. Os dois apresentaram aos empresários, ao Brasil e ao mundo, como de costume, um país cor-de-rosa, com inflação controlada, contas públicas em ordem, economia saudável e puxada por investimentos e indústria fortalecida por um eficaz programa de desonerações.

“Se esse país brilha menos do que poderia, é só por causa da crise internacional e da escassez do crédito ao consumo, as ‘duas pernas mancas’ da economia brasileira, segundo o ministro Mantega. O ministro e sua chefe insistem no esforço de atribuir os problemas brasileiros principalmente a causas externas, como o baixo crescimento do mercado global e a alta de preços das commodities agrícolas, consequência de uma seca nos Estados Unidos. Mas as cotações agrícolas já se acomodaram e o nível geral de preços no País continua a subir. Outros países emergentes têm crescido bem mais que o Brasil, apesar da crise externa, mas o ministro continua discursando como se essa diferença inexistisse.

“Além de cor-de-rosa, esse mundo é muito estranho. A produção teria avançado mais, se o crédito ao consumo tivesse crescido, nos últimos meses, tanto quanto vinha crescendo? Acreditar nessa tese é insistir em viver no mundo da fantasia. Em outubro a produção industrial foi 0,6% maior que em setembro, mas a expansão ainda ficou em 1,6% no ano e em 1% em 12 meses. Não há como atribuir esses números a uma desaceleração do consumo. Da mesma forma, é preciso buscar em outros fatores a explicação dos maus resultados da indústria no comércio exterior. A questão relevante é: por que a produção industrial brasileira perde espaço dentro e fora do País?

“A resposta é conhecida até em Brasília, mas, segundo a presidente e seus ministros, tudo está sendo feito para elevar a produtividade e melhorar o desempenho do setor. De alguma forma, apesar do discurso tortuoso, a necessidade de mais investimentos é reconhecida pelas autoridades. A presidente mencionou aos industriais o programa de ampliação e modernização da infra-estrutura, além da oferta de recursos para o investimento empresarial. Mas deixou de mencionar o enorme atraso na implementação do plano de logística, os erros de concepção das licitações e os fracassos na tentativa de elevar a taxa de investimentos.

“No ano passado o País investiu 4% menos que em 2011. O aumento esperado para este ano será, na melhor hipótese, pouco mais que suficiente para neutralizar a queda de 2012. O total investido continuará, quase certamente, inferior a 20% do Produto Interno Bruto (PIB), uma proporção pífia. Nem as estatais, subordinadas à autoridade presidencial, cumprem seu papel. Até outubro, o Grupo Eletrobrás desembolsou apenas 43% do previsto para o ano. Em conjunto, as estatais investiram 75% dos R$ 111 bilhões programados. Desde 2006, a média, em dez meses, era de 82,3% da meta do ano.

“Confortável em seu mundo de fantasia, o governo tem errado e continua errando em seu diagnóstico dos problemas econômicos. Insiste em estimular o consumo quando os entraves estão do lado da oferta interna. Reconhece um tanto obscuramente a necessidade de mais investimento para mais produtividade, mas é incapaz de apontar um rumo aos empresários e de oferecer segurança aos investidores. No ano passado os juros foram baixos, pelos padrões históricos, mas o investimento caiu. Impossível, para quem tem alguma percepção, desconhecer a inflação elevada, a piora das contas públicas e a maquiagem como instrumento de política. Nenhum discurso cor-de-rosa anula esses dados.” (Editorial, Estadão, 12/12/2013.)

* Dilma falta com a verdade

“A doutora Dilma disse numa entrevista à edição em português do jornal El País que “esta semana resolveram reavaliar o PIB (Produto Interno Bruto). E o PIB do ano passado, que era 0,9%, passou para 1,5%’. Não disse quem ‘resolveram’. Há um mês, diante da notícia de que o governo pretendia inaugurar 8.685 creches, rebateu a informação e perguntou: ‘Quem foi que aumentou para oito mil?’ Ela, no seu programa radiofônico.

“Quando o IBGE informou que a revisão elevara o PIB de 2012 para 1%, a lambança deslizou para o ministro Guido Mantega e, dele, para sua Secretaria de Política Econômica, chegando a uma simples consultoria privada.

“Quando verificou-se que não existia o título de doutora que lhe era atribuído na biografia oficial da presidência, a responsabilidade rolou para um anônimo burocrata.

“No Palácio do Planalto todo mundo acredita nisso. Só no palácio.” (Elio Gaspari, Folha de S. Paulo e O Globo, 8/12/2013.)

Um triênio para esquecer

* Todos os programas do governo Dilma fracassaram

“É muito difícil encontrar na história brasileira um triênio presidencial com resultados tão pífios como o da presidente Dilma Rousseff. Desde a redemocratização de 1985, o único paralelo possível é com o triênio de Fernando Collor, que conseguiu ser pior que o da presidente. Em dois dos três anos houve recessão (1990 e 1992).

“Mas Collor encontrou um país destroçado. Recebeu o governo com uma inflação anual de 1.782%, as contas públicas em situação caótica e uma absoluta desorganização econômica.

“Dilma assumiu a presidência com um crescimento do PIB de 7,5%. Claro que o dado puro é enganoso. Em 2009 o país viveu uma recessão. Mas o poder de comunicação de Lula foi tão eficaz que a taxa negativa de 0,2%, deu a impressão de crescimento ao ritmo chinês — naquele ano, a China cresceu 8,7%.

“No campo da ética, o triênio foi decepcionante. Nos dois primeiros anos, a presidente bem que tentou assumir um discurso moralizador. Seus epígonos até cunharam a expressão ‘faxineira’. Ela iria, sem desagradar a seu criador, limpar o governo de auxiliares corruptos, supostamente herdados de Lula.

“Fez algumas demissões. Chegou até a entusiasmar alguns ingênuos. Logo interrompeu as ações de limpeza e, mais importante, não apurou nenhuma das denúncias que levaram às demissões dos seus auxiliares. Todos — sem exceção — continuaram livres, leves e soltos. E mais: alguns passaram a ser consultores de fornecedores do Estado. Afinal, como conheciam tão bem o caminho das pedras….

“Sem carisma e liderança, restou a Dilma um instrumento poderoso: o de abrir as burras do Tesouro para seus aliados. E o fez sem qualquer constrangimento. As contas públicas foram dilaceradas e haja contabilidade criativa para dar algum ar de normalidade.

“Todos os programas do seu triênio fracassaram. Nenhum deles conseguiu atingir as metas. Passou três anos e não inaugurou nenhuma obra importante como um aeroporto, um porto, uma estrada, uma usina hidrelétrica. Nada, absolutamente nada.

“O método petista de justificar a incompetência sempre foi de atribuir ao antecessor a culpa pelos problemas. É construído um discurso que sataniza o passado. Mas, no caso da presidente, como atribuir ao antecessor os problemas? A saída foi identificar os velhos espectros que rondam a história brasileira: os Estados Unidos, o capitalismo internacional, o livre mercado.

“A política externa diminuiu o tom panfletário, que caracterizou a gestão Celso Amorim. Mas a essência permaneceu a mesma. O sentido antiamericano — cheirando a naftalina — esteve presente em diversas ocasiões. Em termos comerciais continuamos amarrados ao Mercosul, caudatários da Argentina e, quando Chávez vivia, da Venezuela (basta recordar a suspensão do Paraguai). Insistimos numa diplomacia Sul-Sul fadada ao fracasso. No triênio não foi assinado sequer um acordo bilateral de comércio.

“A política de formar grandes grupos econômicos — as empresas ‘campeãs nacionais’ — teve um fabuloso custo para o país: 20 bilhões de reais. E o BNDES patrocinou esta farra, associado aos fundos de pensão das empresas e bancos públicos. Frente à burguesia petista, J.J. Abdalla, o famoso mau patrão, seria considerado um exemplo de honorabilidade e eficiência.

“A política de energia ficou restrita à manipulação dos preços dos combustíveis fornecidos pela Petrobrás. Enquanto diversos países estão alterando a matriz energética, o Brasil ficou restrito ao petróleo e apostando na exploração do pré-sal, que poderá se transformar em uma grande armadilha econômica para o futuro do país.

“A desindustrialização foi evidente. Nos últimos três anos o país continuou sem uma eficaz política industrial. Permaneceu dependente da matriz exportadora neocolonial, que gerou bons saldos na balança comercial, porém desperdiçando bilhões de reais que poderiam ser agregados ao valor das mercadorias exportadas.

“O Ministério da Defesa sumiu do noticiário. Celso Amorim, tão falante quando estava à frente do ministério das Relações Exteriores, é uma espécie de titular fantasma. Pior, continuamos sem política de defesa, e as Forças Armadas estão muito distante do cumprimento das suas atribuições constitucionais. Sem recursos, sem treinamento, sem equipamento — sempre aguardando o recebimento da última sucata descartada pelos europeus e americanos.

“A equipe ministerial ajuda a explicar a mediocridade do governo. Quem se arriscaria citar o nome de cinco ministros? Quem é o ministro dos Portos? E o da Integração Nacional? Alguém sabe quem é o ministro da Agricultura?

“A presidente recebeu o governo com 38 ministérios. Não satisfeita com o inchaço administrativo, criou mais: o da micro e pequena empresa, tão inexpressivo que sequer possui um site.

“Se as realizações do triênio são pífias, é inegável a eficiência da máquina de propaganda. O DIP petista deixou seu homônimo varguista no chinelo. De uma hora para outra, segundo o governo, o Brasil passou a ter mais 20 milhões de pessoas na classe média. Como? Tal movimento é impossível de ter ocorrido em tão curto espaço de tempo e, mais importante, com uma taxa de crescimento medíocre. Mas a repetição do ‘feito’ transformou a fantasia estatística em realidade econômica.

“Dilma Rousseff encerra seu triênio governamental melancolicamente. Em 2012, o crescimento médio mundial foi de 3,2% e o dos países emergentes de 5,1%. E o Brasil? A taxa de crescimento não estava correta. A ‘gerentona’ exigiu a revisão dos cálculos. O PIB não cresceu 0,9%. O número correto é 1%! Fantástico.” (Marco Antonio Villa, O Globo, 10/12/2013.)

Os números ruins da semana

* Confiança do comércio volta a cair em novembro

“A confiança dos empresários do comércio registrou uma queda de 3,1% em novembro, na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Indice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) divulgado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

“O otimismo do setor reduziu-se pelo quarto mês consecutivo, dessa vez derrubado pela deterioração no indicador que mede a percepção sobre as condições atuais da economia (-10,4%). Houve piora também nas expectativas para o futuro (-0,6%) e nas intenções de investimento (-0,1%).

“A desaceleração significativa ocorrida nas vendas do comércio ao longo de 2013 contribuiu  para que o empresário formas se uma percepção menos favorável sobre as condições econômicas do País. ‘O empresário olha para a loja dele e vê que as vendas estão crescendo menos, mas ele olha para a economia e vê que outros setores estão em situação ainda pior’, disse Fabio Bentes, economista da CNC.

“ Na comparação com outubro, o Icec teve uma queda de 0,6%, o primeiro recuo em quatro meses. O resultado negativo contraria um movimento sazonal de melhora no humor do empresário do setor, tradicionalmente estimulado pelas vendas do Natal. ‘Pela avaliação que os empresários fizeram, pode ser que novembro não tenha tido recuperação nas vendas, não’, alertou Bentes,

“Nos próximos meses, o comércio deve contribuir menos para a geração de vagas no mercado de trabalho, de acordo com a pesquisa. O indicador relativo à expectativa de contratação de funcionários registrou alta de 1,4% em novembro, em relação ao mesmo período de 2012. No entanto, dois em cada três empresários declararam que pretendem aumentar pouco o número de postos de trabalho. ‘De fato há uma propensão à contratação porque, afinal de contas, o comércio vai continuar crescendo. Mas vão contratar pouco, porque o comércio vai crescer pouco’, apontou o economista da CNC.

“Segundo Bentes, os setores que devem ter melhor desempenho no aumento do quadro de  funcionários são aqueles que ainda vêm expandindo as vendas de forma significativa, como o de farmácia e perfumaria e de eletrônicos.

“Em novembro, melhorou ainda a avaliação sobre a situação atual dos estoques (1,5%). Mas houve piora no nível de investimento das empresas, com queda de 3,0%. ‘Esse indicador é mais sobre investimentos em máquinas, equipamentos, informatização, obra, modernização. Nisso é que o empresário está botando o pé no freio mesmo’, disse Benttes.” (Daniela Amorim, Estadão, 6/12/2013.)

* Nível de otimismo dos empresários com economia brasileira cai de 54,7 para 53,3 pontos no quarto trimestre

“A percepção dos empresários com relação ao desempenho da economia brasileira piorou no quarto trimestre, de acordo com a pesquisa Panorama Global de Negócios. Na escala de 0 a 100, o nível de otimismo dos diretores financeiros (CFOs) das companhias pesquisas ficou em 53,3 pontos, abaixo dos 54,7 pontos do terceiro trimestre. O resultado apurado foi o menor dos últimos quatro trimestres, quando o índice começou a ser calculado.

“A queda na confiança brasileira contrasta com outras regiões do mundo. O otimismo está crescendo nos Estados Unidos e na Europa – atingiu 57,5 pontos e 56,4 pontos, respectivamente. Nos países da Ásia, o indicador oscila entre 65 pontos e 70 pontos. E, na América Latina, com exceção da Argentina e Venezuela, o índice dos demais países supera o brasileiro e está acima de 60 pontos.

“A pesquisa trimestral foi conduzida pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Duke University e CFO Magazine. O levantamento foi encerrado em 5 de dezembro e foram entrevistados 1.106 CFOs de todo o mundo, sendo 51 brasileiros. ‘O meu palpite é que esses números indicam que a economia brasileira vai continuar tendo um desempenho ruim’, afirmou Antônio Gledson Carvalho, coautor do estudo e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A pesquisa também teve a participação do professor Klênio Barbosa.

“O estudo ainda apontou que 45% dos CFOs brasileiros se tornaram mais pessimistas em relação ao trimestre anterior, enquanto apenas 12% estão com um otimismo maior.

“O desânimo com a economia já afeta a perspectiva do mercado de trabalho. No levantamento do terceiro trimestre, os executivos previam um aumento de 5,1% no emprego permanente e de 5,3% no temporário para os 12 meses seguintes. Na pesquisa atual, o crescimento deve ser de 2,6% e 0,7%, respectivamente. ‘Nas pesquisas dos trimestres anteriores, havia uma tendência de crescimento do emprego temporário, um movimento que as empresas fazem quando há incerteza em relação ao futuro. Mas, neste trimestre, se observa uma alta menor, o que faz parecer que as empresas estão realmente projetando um tempo mais difícil pela frente’, afirmou Carvalho.

“O levantamento apurou que os executivos projetam um avanço menor no investimento em relação ao terceiro trimestre – no período, a expectativa de crescimento para os próximos 12 meses passou de 7 3% para 3,5%. O mesmo aconteceu com a expectativa de alta da no lucros, de expansão de 14,4% para 10,5%.

“Outra grande dificuldade das empresas é com a manutenção da margem de lucro: 80% estão com problemas. ‘As companhias estão sinalizando uma capacidade menor de elevar os preços, ao mesmo tempo em que o salário continua subindo’, disse Carvalho. Pelo levantamento, os salários devem avançar 7,9%, mas o preço dos produtos vai subir apenas 2,4%.” (Luiz Guilherme Gerbelli, Estadão, 11/12/2013.)

* 2013 deve terminar com pior oferta de crédito em 4 anos

“O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse recentemente que a restrição da oferta de crédito pode estar sendo um fator importante para um PIB mais fraco que o esperado neste ano. Os números e as pesquisas do Banco Central de fato mostram que 2013 caminha para fechar com o pior desempenho do crescimento do crédito dos últimos quatro anos. Mas mostram que, além da restrição da oferta, que tem afetado mais as empresas, a demanda também começa a arrefecer, principalmente pelo lado das famílias.

“Em termos reais, a taxa de crescimento do crédito ao consumo e para empresas foi de 2,2% até o mês de outubro, uma das mais baixas dos últimos oito anos, segundo dados da Federação do Comércio (Fecomércio-SP). O número leva em conta o crédito com recursos livres, ou seja, sem linhas com captação direcionada como as de crédito imobiliário.

“Essa base mostra que as famílias contrataram 10% mais crédito, em ritmo inferior a anos anteriores, e o desembolso para financiamento a empresas não só não cresceu como caiu. Sem descontar a inflação, o crédito a pessoas jurídicas cresceu apenas 3,7%, em 12 meses, até outubro.

“A economista Zeina Latif, da Gibraltar Consulting, diz que os bancos, principalmente os privados, vêm restringindo o crédito desde 2011, com o objetivo de controlar a inadimplência. E isso de fato aconteceu, tanto que em 2013 o índice do crédito ao consumo caiu para 3,6%, um dos mais baixos dos últimos anos.

“A questão agora, segundo ela, é que as famílias não conseguiram reduzir a inadimplência em outras contas e por isso estão buscando menos crédito. ‘O endividamento está muito elevado, tem uma inflação incomodando e os ganhos salariais também ficaram mais modestos, então o consumidor se retrai’, diz Zeina.

“A pesquisa trimestral de crédito do Banco Central, realizada com instituições financeiras, mostra que podem ser identificados dois movimentos entre um público e outro. Enquanto para as empresas a demanda foi maior do que a oferta, confirmando em parte a percepção do ministro Mantega, por outro a demanda por crédito ao consumo começou a cair e a oferta se manteve.

“A expectativa é de que, para 2014, pelo fato de a inadimplência ter sido controlada neste ano, os bancos comecem a ampliar a oferta de uma importante linha de crédito: a de financiamento de automóveis. Esse tipo de crédito teve queda de 5% neste ano, reflexo da alta inadimplência em anos anteriores.

“O economista da LCA, Wermeson França, diz que, com o ajuste dos bancos nessas carteiras, o financiamento para automóveis tende a crescer até 7% no próximo ano. Mesmo assim, a LCA prevê que, em geral, em 2014, haverá novo aperto.

“Pelas estimativas da consultoria, feita com base nos dados do Banco Central, a expectativa é de que termine com crescimento de 15,5%, o pior desempenho desde 2009. Esse número leva em conta o financiamento imobiliário, crédito rural e BNDES.

“O resultado só não será pior do que o daquele ano porque os bancos públicos continuaram financiando a expansão com altas taxas de crescimento. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, vinha num ritmo de 40% até setembro. O Banco do Brasil ultrapassava os 20%. Mas grande parte dessa evolução se explica pelo crescimento do chamado crédito direcionado.

“O assessor econômico da Fecomércio, Altamiro Carvalho, diz que o crédito imobiliário cresceu mais de 30% neste ano e pode explicar em parte por que as famílias estão buscando menos crédito para consumo. Ele diz que os números do BC mostram que os novos empréstimos têm crescido em ritmo mais forte do que o saldo da carteira, ou seja, as famílias estão pagando contas.” (Josette Goulart, Estadão, 11/12/2013.)

A suicida política fiscal

* Os técnicos do Tesouro se revoltam contra a política fiscal

“A revolta do corpo técnico do Tesouro Nacional com a condução da política fiscal comandada pelo secretário Arno Augustin foi tratada ontem (5/12) pela presidente da República, Dilma Rousseff, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em reunião de quase duas horas no Palácio da Alvorada. As resistências na equipe do Tesouro desencadearam uma operação para abafar a repercussão negativa do vazamento da crise interna, e assim mostrar que Augustin mantêm o controle sobre os técnicos do Tesouro.

“Segundo apurou o Estado junto a um auxiliar presidencial, Dilma abordou o tema e mostrou grande incômodo com o fato de ter sido informada sobre a revolta no Tesouro por meio da imprensa. A informação foi divulgada na noite de quarta-feira pelo Broadcast, o serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, e depois na edição de ontem do Estado.

“De acordo com fonte graduada do Palácio do Planalto, a presidente não gostou de descobrir uma crise numa área sensível e crucial do governo federal, e cobrou que deveria ter sido informada da reunião que ocorreu no dia 22 de novembro no Ministério da Fazenda. Na ocasião, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, ouviu críticas sobre a política fiscal e relatos de questionamentos de investidores que têm prejudicado a atuação do governo no mercado. Todos os subsecretários e todos os 19 coordenadores-gerais estavam presentes.

“Na ocasião, os técnicos fizeram uma apresentação ao secretário sobre a condução da política econômica e da política fiscal, em especial, e apontaram dificuldades crescentes para a rolagem de títulos no mercado -por causa do mau humor de investidores, o Tesouro tem sido obrigado a pagar taxas de juros cada vez maiores nos títulos que oferece. Esse movimento encarece o perfil da dívida pública brasileira, e os técnicos temem que isso se retroalimente.

“Internamente, o movimento de revolta dos técnicos do Tesouro tem sido chamado de ‘motim’ por servidores de outras áreas. Uma fonte qualificada da área econômica afirmou ao Estado que ‘o clima está pesado’ nos corredores do : Ministério da Fazenda. Dilma cobrou de Mantega explicações sobre o fato de subordinados de Augustin estarem incomodados com a gestão dele.

“Da reunião em Brasília, Mantega partiu para São Paulo, onde defendeu a gestão de Augustin durante seminário a empresários. ‘Não há crise no Tesouro’, afirmou Mantega, para quem Augustin ‘cumpre as missões, principalmente na área de dívida pública’.

“Na força-tarefa para abafar a crise, o próprio Augustin concedeu entrevista ao Estado para negar que a reunião para aparar as arestas na cúpula do Tesouro realizada no fim de novembro tenha gerado uma turbulência na instituição. ‘Não há nenhum descontrole no Tesouro’, disse. Ele citou o ‘excelente’ desempenho dos títulos públicos ofertados ontem pelo Tesouro ao mercado. Mas o Tesouro acabou reduzindo drasticamente o volume de títulos ofertados, principalmente de longo prazo, para evitar maior volatilidade.

“Além disso, a assessoria do Ministério da Fazenda enviou uma nota à imprensa na qual os coordenadores-gerais ‘refutam’ a informação de que ‘haja clima de rebelião, confronto, ou insubordinação no relacionamento entre os coordenadores, os subsecretários e secretário do Tesouro Nacional’. A nota não foi assinada. Mas o coordenador de planejamento estratégico, Otávio Ladeira, disse que o texto foi feito por todos os coordenadores, por decisão própria.

“Mesmo diante das dificuldades para se cumprir a meta fiscal, Augustin reiterou que a forte entrada de receitas extraordinárias no caixa do governo em novembro vai assegurar a meta de poupar R$ 73 bilhões para o pagamento de juros da dívida pública, o superávit primário.” (Marcelo de Moraes, João Villaverde e Adriana Fernandes, Estadão, 6/12/2013.)

* “Em vez de cuidar da questão mais importante, a baixíssima qualidade da gestão orçamentária, o governo decidiu abafar a crise”

“Surpreendida mais uma vez por desacertos em seu governo, a presidente Dilma Rousseff cobrou do ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicações sobre a crise na Secretaria do Tesouro, descrita em outras áreas do Ministério com uma palavra muito mais forte – motim. Ela se mostrou especialmente irritada, segundo um auxiliar palaciano, por ter conhecido a história pela imprensa. O descontentamento da equipe do Tesouro foi noticiado na quarta-feira à noite pela Agência Estado, em serviço online, e apareceu no dia seguinte na edição impressa do Estado. Conhecido da presidente desde sua passagem pela política do Rio Grande do Sul, o secretário Arno Augustin foi por longo tempo um de seus conselheiros mais próximos. Na chefia do Tesouro, notabilizou-se, especialmente a partir do fim do ano passado, pelo uso de grandes volumes de receitas extraordinárias e pelo recurso à contabilidade criativa para fechar o balanço do governo central.

“A insistência nesse tipo de política – sempre com o apoio do ministro da Fazenda e a tolerância da presidente – minou a credibilidade do governo e motivou críticas de economistas do mercado financeiro e de analistas independentes no Brasil e no exterior. O uso de medidas excepcionais e dificilmente justificáveis para garantir a apresentação formal do superávit primário tornou-se conhecido internacionalmente. O risco de rebaixamento da nota de crédito do Brasil, no próximo ano, é uma das consequências mais preocupantes da inegável desmoralização da política fiscal brasileira.

“Outro resultado é a dificuldade crescente de refinanciar a dívida pública. Tem aumentado o custo de rolar os papéis emitidos em circulação no mercado e esse é um dos motivos de insatisfação alegados por membros da equipe do Tesouro, como se noticiou nos últimos dias.

“Em vez de cuidar da questão mais importante, a baixíssima qualidade da gestão orçamentária, o governo decidiu abafar a crise. O ministro da Fazenda reuniu-se com empresários, negou a existência da crise e elogiou o secretário do Tesouro como cumpridor de suas missões. Uma nota, redigida em nome dos coordenadores-gerais e subsecretários do Tesouro, foi distribuída para desmentir o desentendimento entre Augustin e seus subordinados. Ele mesmo se manifestou, em entrevista, para negar quaisquer problemas e reafirmar o compromisso de entregar, no fim do ano, um superávit primário de R$ 73 bilhões, destinado, como de costume, ao pagamento de uma parte dos juros devidos aos financiadores do governo.

“A própria meta de R$ 73 bilhões já é desmoralizante. Para fixar esse objetivo, o governo abandonou o plano original, traçado para todo o setor público, de um resultado primário de R$ 156 bilhões. Com o tempo, o alvo foi rebaixado para R$ 111 bilhões. Desse valor caberiam R$ 73 bilhões ao governo central. O resto seria a parte de Estados, municípios e estatais, mas a administração federal deveria garantir todo o resultado, se os governos subnacionais falhassem. Afinal, até esse compromisso foi abandonado.

“O poder central só se responsabilizará, enfim, por sua parte. Para conseguir esse resultado, usará um volume considerável de receitas extraordinárias, isto é, sem repetição programável de forma rotineira. Esse expediente incluirá dividendos de estatais, bônus de concessões de exploração de infra-estrutura e prestações do programa de refinanciamento de dívidas tributárias (Refis). Entre Refis e bônus o governo deverá arrecadar no mínimo uns R$ 35 bilhões, quase metade do superávit primário prometido.

“Diante desse quadro, da justificável desconfiança em relação às contas públicas e das perspectivas de baixo crescimento nos próximos anos, como estranhar a redução da oferta de títulos do Tesouro, principalmente de longo prazo? O custo da proteção contra um calote brasileiro também subiu neste ano e ultrapassou, em novembro, o do seguro financeiro dos títulos da Espanha e da Turquia. Em seis meses a situação se inverteu. O governo pode negar a crise no Tesouro e descrever como saudável o quadro fiscal. Ganharia credibilidade muito mais facilmente se reconhecesse os problemas e começasse a agir para resolvê-los.” (Editorial, Estadão, 7/12/2013.)

* “Quando o mercado começa a pedir taxas mais altas no leilão de títulos públicos é porque a percepção do risco fiscal do país está em deterioração”

“A pouco mais de um ano de concluir o mandato e já com a campanha eleitoral em curso, o governo Dilma tem na área fiscal um dos flancos mais desguarnecidos. Consta que esta fragilidade chega a causar problemas dentro da própria Secretaria do Tesouro, cujo titular, Arno Augustin, tido como o pai da ‘contabilidade criativa’, manteve pelo menos uma reunião tensa com subordinados, estes preocupados com o aumento das desconfianças em relação à política fiscal.

“Têm sido tantos os, digamos, tropeços que a insegurança em relação à dívida pública começou a se refletir em leilões de títulos, como era previsível. Na quinta (5/12), segundo o Valor Econômico, leilão feito no mercado primário de Notas do Tesouro Nacional, com taxa pré-fixada, pagou taxa de 13,18%, quando, há um ano, o mercado aceitou o título a 9,20%. Como a inflação continua no mesmo patamar, é claro que a percepção dos investidores é que aumentou o risco do país e, por isso, querem juros mais elevados. Péssimo sinal.

“Remuneração de títulos da dívida não é assunto de palanque eleitoral, mas o tema das perspectivas negativas das contas públicas, a persistir esta política fiscal, permeará a campanha da reeleição, pela ótica dos mercados e investidores. Não há qualquer catástrofe no horizonte próximo. Mas uma projeção mecânica do que acontece no lado fiscal neste fim de ano para todo o 2014 é desanimador. Não adianta tentar sombrear o sol com a peneira, usando o argumento de que os gastos fazem parte de uma ‘política anticíclica’. Afinal, o crescimento continua anêmico, e justo porque o desequilíbrio fiscal não anima os investidores a substituir os consumidores endividados como força motriz da economia.

“As manobras e ‘jeitinhos’ para melhorar o superávit primário deste ano não ajudam na intenção de resgatar alguma credibilidade na apresentação das contas públicas. Um ponto frágil para o Brasil é que muitos dos bilhões que entram neste fim de ano no Tesouro são eventuais. Só do leilão do campo de Libra são R$ 15 bilhões — e a próxima licitação no pré-sal só deverá ocorrer em no mínimo dois anos. Para melhorar as contas, o governo reabriu o refinanciamento de dívidas fiscais lançado na crise mundial (Refis) e ainda permitiu dois parcelamentos de débitos do setor financeiro. As duas medidas surpreenderam positivamente ao arrecadar R$ 20 bilhões. Com estes R$ 35 bilhões, pode ser que a meta de superávit do governo central, de R$ 73 bilhões, seja alcançada. Mas tudo é dinheiro extraordinário.

“Pelo menos, a favor do governo, foi abortada a operação de ‘contabilidade criativa’ de mais um subsídio do custo de energia, desta vez por meio da Caixa Econômica, para não configurar uma despesa primária. A alternativa foi novo lançamento de títulos — mais, portanto, uma elevação da dívida bruta, já em 60% do PIB. A margem de manobra do governo, no campo fiscal, fica cada vez mais estreita. A melhor alternativa é encarar a realidade e fazer os ajustes necessários.” (Editorial, O Globo, 7/12/2013.)

* “Para analistas, meta fiscal de 2% do PIB em 2014 é irreal. Gastos vão a R$ 1,3 trilhão em ano eleitoral”

“Se o cenário fiscal está difícil em 2013, não será muito diferente em 2014. Em pleno ano eleitoral, o governo terá pouco espaço para cortar gastos que, segundo a proposta orçamentária, subirão 8,5% e atingirão nada menos que R$ 1,298 trilhão. O comportamento da arrecadação, por sua vez, é incerto. Dependerá do desempenho da economia, que não deve crescer muito, e de receitas extraordinárias que são difíceis de prever. O Orçamento de 2014 estima um aumento de 8,9% na arrecadação total, que deve ficar em R$ 1,022 trilhão.

“Analistas crêem que a meta de superávit fiscal primário (economia para o pagamento de juros da dívida) com que o governo se comprometeu, de 2,09% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos) – já considerando um abatimento de R$ 58 bilhões, ou 1,1% do PIB, com desonerações e investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – é pouco realista.

“Estudo da Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados indica que, assim como em 2013, estados e municípios não conseguirão, no ano que vem, realizar o esforço fiscal fixado no Orçamento, de R$ 51,3 bilhões, ou 0,98% do PIB. Assim, considerando os abatimentos da União e o esforço fiscal menor dos governos regionais, o primário de 2014 cairia para 1,56% do PIB. ‘Esse é um cenário mais realista para o ano que vem’, disse um técnico da consultoria.

“Ao mesmo tempo, a equipe econômica terá que lutar para conquistar a confiança do mercado na política fiscal conduzida por Arno Augustin e que é questionada até por técnicos do Tesouro Nacional. Os críticos dizem que o governo errou ao não reduzir a meta de superávit primário em 2012 e 2013 e, em vez disso, fazer uma série de manobras – como antecipar dividendos de estatais e sacar recursos do Fundo Soberano – para fechar as contas.

“O quadro fiscal preocupa a presidente Dilma Rousseff, que tem se reunido com os ministros da Junta Orçamentária – Guido Mantega (Fazenda), Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Miriam Belchior (Planejamento) – para definir que sinalização dar ao mercado. ‘Com certeza há uma preocupação no governo com a questão fiscal. O governo sabe que tem que dar sinais ao mercado e fazer um primário crível’, disse um interlocutor da presidente.

“A proposta orçamentária de 2014 prevê gastos do governo com benefícios previdenciários de R$ 388 bilhões, o que representa alta de 9% sobre 2013, quando essa conta deve fechar em R$ 355,6 bilhões. Outras despesas vinculadas ao salário-mínimo, como abono e seguro-desemprego, foram estimadas em R$ 79,7 bilhões para 2014, contra R$ 77 bilhões deste ano.

“O governo teve que incluir no cálculo uma previsão de gastos com a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que subsidia a desoneração das contas de luz e o uso de energia térmica. O Tesouro tem feito aportes na CDE que já somam R$ 6,5 bilhões este ano e devem ficar em, pelo menos, R$ 9 bilhões no próximo.

“Do lado das receitas, apesar do fraco desempenho do PIB até agora, a equipe econômica colocou na proposta orçamentária taxa de expansão de 4%. Os técnicos da consultoria de Orçamento da Câmara explicam que essa é uma estratégia para mostrar otimismo ao mercado e justificar a alta estimada nas receitas, mas dizem que o número não é realista. O mercado estima uma taxa de 2,1%, segundo a pesquisa Focus, do Banco Central. O governo também prevê uma arrecadação com receitas extraordinárias de R$ 27 bilhões em 2014.” (Martha Beck, O Globo, 11/12/2013.)

Tudo errado na condução da economia

* O sucessor de Dilma, seja qual for, terá um 2015 caótico pela frente

“Em economia, dá-se esse nome (tempestade perfeita) à conjunção de fatores internos e externos que pode abalar um país. Com a perspectiva de reversão da política monetária fortemente expansionista do governo dos Estados Unidos através do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), e os problemas fiscais vividos pelo país, teme-se que uma ‘tempestade perfeita’ atinja o Brasil no próximo ano, exacerbada pelas questões políticas internas.

“ Justamente quando estará em disputa a reeleição da presidente Dilma, que, por isso mesmo, não terá margem de manobra para reduzir gastos públicos. Há estudos que demonstram que historicamente a utilização de políticas monetárias, fiscais e cambiais com claros objetivos político-eleitorais gera Ciclos Políticos de Negócios (CPNs), cuja principal característica é a redução do desemprego em períodos pré-eleitorais, com o objetivo de proporcionar um ambiente positivo capaz de influenciar o resultado eleitoral.

“Após esse período de crescimento, no entanto, o período pós- eleitoral é caracterizado por inflação em alta, cuja conseqüência é a adoção de políticas macroeconômicas contracionistas. No Brasil temos pleno emprego em uma economia que cresce a ritmo de pibinho, com previsão de piorar no próximo ano. E já temos inflação alta.

“Todo o esforço da presidente Dilma será atravessar o ano sem que as diversas crises previstas afetem sua possibilidade de reeleição. Seja quem for o vencedor, porém, terá um 2015 caótico pela frente.” (Merval Pereira, O Globo, 6/12/2013.)

* Os artifícios do governo Dilma para melhorar o saldo comercial não têm lógica e insultam nossa inteligência

“Em tempos de ditadura militar e de moratória da dívida externa em 1982, navios petroleiros ficavam vários dias do mês de dezembro ancorados no mar, esperando chegar janeiro e virar o ano para só então desembarcar no Brasil o carregamento de petróleo. Navio parado tem custo, mas o governo do general Figueiredo preferia pagá-lo a ver o resultado do ano da balança comercial piorar com o aumento do valor das importações. Era um artifício? Claro, mas respeitava a lei e a lógica do calendário.

“O governo Dilma Rousseff também tem recorrido a artifícios para melhorar o saldo comercial: contabiliza as importações só seis meses depois do desembarque do petróleo e registra como exportação operações de ‘venda ao exterior’ de plataformas que nunca deixaram o território brasileiro. Os dois artifícios foram criados e legalizados no governo Dilma, mas não atendem à lógica do calendário e insultam a inteligência humana: no caso das plataformas, o efeito é meramente estatístico – mesmo sem entrar nenhum centavo de dólar no País, o registro engrossa o resultado final das exportações.

“Em novembro, por exemplo, a receita de US$ 1,83 bilhão com exportação de plataformas foi crucial para a balança fechar o mês com saldo de US$ 1,7 bilhão. E, ao longo do ano, essas operações somaram US$ 6,58 bilhões. Já as importações explodiram em valor nos primeiros seis meses de 2013 com a contabilização dos desembarques de óleo efetuados no ano anterior. Entre trapalhadas e confusão, a balança global de comércio acumula inédito déficit de US$ 89 milhões até novembro, nunca visto desde o ano 2000. Para dezembro, no entanto, o governo garante um resultado melhor. E vai ser mole, basta aplicar a manobra contábil. Aliás, ela já vem sendo usada: no mês passado o déficit comercial com petróleo e derivados já foi 70% inferior ao de outubro. Em dezembro será ainda melhor.

“Não bastasse o papel decisivo que exerce no controle da inflação – que ela não criou, não é responsável nem é seu foco de negócio -, o governo também abusa da Petrobrás para aliviar o resultado comercial. É parte da desacreditada e desmoralizada contabilidade criativa de suas contas, que não engana ninguém e serve apenas para aumentar a perda de credibilidade dos investidores na gestão econômica do Brasil. Mas, como artifícios e manobras têm perna curta, a verdade logo aparece. E, neste caso, com uma agravante: administrados com incompetência, só conseguem produzir estragos. Se não, vejamos:

“Para controlar a inflação, o governo não reajusta os preços dos combustíveis e força a Petrobrás a vendê-los com prejuízo; descapitalizada, ela se endivida mais do que permite o bom senso para cumprir o plano de investimentos que o governo a obriga a assumir (entre eles o pré-sal); com o caixa em baixa, ela investe menos em expansão da produção no País e recorre à importação de derivados para suprir a demanda; este ano ela já acumula um déficit comercial de US$ 19,5 bilhões, prejudicando o resultado global da balança e contribuindo para elevar o déficit em conta corrente, que já está na perigosa marca de 3,7% do PIB.

“E não pense o leitor que o estrago atinge só a Petrobrás: as trapalhadas do governo na estatal há três anos derrubam o preço de suas ações na Bovespa (na segunda-feira, o tombo chegou a 10,37% e só neste dia ela perdeu R$ 24 bilhões em valor de mercado) e, de carona, leva em enxurrada todo o mercado de capitais.

“Tem razão o ex-ministro Delfim Netto, em discurso na última terça-feira (3/12): ‘O que Dilma fez com a Petrobrás foi uma verdadeira tragédia’.” (Suely Caldas, Estadão, 8/12/2013.)

* “Não se pode fugir ao diagnóstico: a política econômica precisa ser urgentemente ajustada”

“Até a crise de 2008/9, o governo Lula vinha pisando fundo no acelerador dos gastos públicos, na esteira do boom mundial. Em 2003-2008, eles aumentaram à incrível taxa média de 9% ao ano acima da inflação, o dobro do aumento do PIB. Como a arrecadação bruta também cresceu 9%, os superávits fiscais se mantiveram intactos. Assim, a relação dívida/PIB continuou caindo, e os credores disseram amém. Em contraste, como a carga tributária estava aumentando com toda a força em comparação com o PIB, isso pegou de frente a indústria, o primo pobre do modelo de crescimento pró-consumo adotado com entusiasmo desde 2003.

“Esse modelo é o seguinte. Gasto público corrente e crédito puxam a economia. O setor de serviços — que não sofre concorrência de importados — faz a festa. Preços e salários desse setor em geral sobem, enquanto o segmento de commodities de exportação segue sob o comando da forte demanda e da consequente robustez das cotações externas. A indústria tem de enfrentar a concorrência intensa dos chineses, e não consegue pagar os mesmos salários que os demais setores. Isso piorou quando, mais recentemente, a produtividade industrial passou a crescer menos do que os salários. Nesses casos não há alternativa. Quando o consumo é alto — ou a poupança é baixa —, a economia funciona no sentido de criar déficits externos em conta-corrente de forma a atrair poupança externa e complementar a interna. O candidato natural ao papel de ‘importador estratégico’ é o galho fraco da árvore de produção, ou seja, a indústria.

“O que fez, então, o governo? Sem alterar o modelo pró-consumo, elegeu a recuperação da indústria como prioridade máxima, ao criar programas compensatórios para as empresas. Navegando contra a maré, lançou mão desde o controle de preços de insumos básicos à turbinagem de empréstimos subsidiados pelo BNDES, passando por um expressivo programa de desonerações tributárias voltado especialmente para o setor industrial. Finalmente, vieram as tentativas de desvalorização forçada da moeda, cuja necessidade foi posteriormente dispensada em face do recente processo de fuga de capitais

“Na sequência, a taxa de crescimento real da arrecadação caiu bastante, devendo fechar este ano em 3%, em contraste com os 9% da média 2003-2008. Parte dessa queda deveu-se ao menor crescimento do PIB, hoje ao redor de 2% ao ano, parte às desonerações. O governo conseguiu segurar um pouco a despesa com pessoal, represando reajustes prometidos anteriormente, mas o avanço dos demais segmentos, ultrarrígidos no Brasil, inclusive pelos subsídios originados no apoio à indústria, foi tal que o gasto agregado subiu 6,1% nos últimos 12 meses acumulados até outubro. Isso representa o dobro do desempenho da receita de tributos e é, obviamente, insustentável.

“Assim, a primeira consequência desfavorável da política pró-indústria foi a queda dos superávits fiscais, que o governo tentou esconder, provocando o iminente rebaixamento da classificação de risco do Brasil nas agências internacionais. Há quem defenda que esse rebaixamento, de fato, já aconteceu… Outro subproduto foi a forte subida da dívida bruta em virtude dos vultosos empréstimos via BNDES. E, por último, a necessidade de aumentar ainda mais os tentáculos dos controles de preços, para compensar os efeitos desfavoráveis do aumento da taxa de câmbio sobre a inflação. Isso tem um cheiro de inflação reprimida do passado que já parecia ter saído do nosso radar.

“É difícil calcular o custo das desonerações, a não ser fazendo hipóteses heroicas sobre a elasticidade receita-PIB, que mostra quanto a arrecadação cresce diante de uma evolução de 1% do PIB. Se fosse igual à da fase 2003-2008, ou seja, 2, a arrecadação escalaria este ano 4%, para o esperado crescimento de 2% do PIB. Como o aumento da arrecadação deve fechar 2013 em 3%, a perda total devida às desonerações poderia ser estimada em 1%. Se aplicarmos essa taxa à arrecadação de 2012 e atualizarmos seu valor pela inflação média estimada pelo Focus para 2013 (6,2%), chega-se ao expressivo impacto de R$ 95 bilhões — algo ao redor de 2% do PIB, parcialmente repartidos com os estados e municípios. Como esses últimos reagiram muito mal à situação, o governo aumentou o volume total de empréstimos que eles poderiam captar, amenizando seu sufoco. Só que, com isso, o panorama fiscal deteriorou-se ainda mais.

“É duro chegar ao diagnóstico do qual não se pode fugir: a política econômica precisa ser urgentemente ajustada. Para começar, é imprescindível conter o crescimento real dos dispêndios públicos correntes e as desonerações, de forma a igualar a trajetória real do gasto federal total — hoje em 6,1%, em bases anuais — à caminhada da arrecadação, de 3% este ano. Ao fim de cinco anos, os dados mostram que a indústria continua estagnada, a taxa de investimento não sai da faixa de 18-19% do PIB, e este não cresce de forma sustentada acima de 2,5% ao ano. Para que, então, tanto ruído, como o causado pela política pró-indústria, se os resultados são pífios?” (Raul Velloso, economista, O Globo, 9/12/2013.)

Os combustíveis e a inflação

* Não poderia haver visão mais equivocada que a do governo sobre os preços dos combustíveis

“A espalhafatosa mobilização do governo com a concepção de uma nova política de preços para a Petrobrás acabou tendo desfecho melancólico. Depois de ter dado alento a expectativas de grandes mudanças, a montanha, mais uma vez, pariu um rato.

“O que afinal se anunciou foram aumentos de 4% para a gasolina e de 8% para o diesel, que implicaram reajustes da ordem de metade dessas taxas nos preços cobrados na bomba. Mais do que isso não foi possível. Para poder alardear que ‘a inflação está em queda’, o governo tem feito o que pode e o que não pode para manter a taxa de variação do IPCA abaixo dos 5,84% observados em 2012. E, nesse empenho, pouco importa se a queda, além de insignificante, tiver de ser obtida com repressão de preços. O que hoje se vê é um processo inflacionário cada vez mais assimétrico, em que preços livres têm aumentado a taxas anuais da ordem de 7% a 8% e preços administrados, a pouco mais de 1%.

“A expectativa de que a nova política daria início à reversão da fragilização financeira da Petrobrás revelou-se completamente infundada. As prioridades da campanha eleitoral falaram mais alto. Tal desfecho já seria deplorável, mesmo que se tratasse somente de mais uma evidência do imediatismo inconsequente que tem pautado a condução da política econômica. Mas, infelizmente, tem explicações ainda mais preocupantes.

“O que se notícia é que, nas negociações entre a Petrobrás e o governo sobre a questão, teria ficado claro que o Planalto nem mesmo está convencido de que é, de fato, desejável que preços internos de combustíveis estejam alinhados aos preços externos. Aparentemente, viceja na Presidência da República resistência doutrinária à busca desse alinhamento, calcada no argumento de que o combustível produzido no Brasil não tem nada a ver com o preço do petróleo fora do país (conforme escreveu Claudia Safatle, em 29 de novembro, no Valor Econômico). E de que o petróleo é extraído e refinado no Brasil por trabalhadores que ganham em reais (Valor Econômico, de 2 de dezembro).

“São argumentos estapafúrdios, que denotam retrocesso preocupante no entendimento da cúpula do governo sobre questões básicas envolvidas na política de preços de combustíveis. Já há muitos anos parecia ter sido clara e definitivamente entendido, tendo em conta a lógica de formação de preços de bens transacionados internacionalmente, que os preços internos de derivados deveriam ser de alguma forma vinculados aos preços externos desses produtos. Exatamente como ocorre com outras commodities — como trigo, soja, alumínio ou celulose — em decorrência do livre funcionamento dos mercados.

“É importante notar que, embora a política de alinhamento de preços internos de derivados aos preços externos tenha sido abandonada há anos, o abandono decorreu de improvisações e tentações imediatistas e populistas, e não de qualquer resistência doutrinária explícita à idéia de que, em princípio, o alinhamento era desejável.

“A vinculação dos preços internos aos externos tem a virtude de dar, a consumidores e produtores, noção clara do que de fato custa à economia tornar disponível uma unidade adicional do produto. Ao tomar decisões sobre quanto consumir de um determinado bem, cada consumidor deve estar exposto a um preço que reflita corretamente o custo para a sociedade de sua decisão de consumo. É esse custo de oportunidade que cada consumidor deveria ter em conta ao decidir quanto consumir.

“Como petróleo e seus derivados são bens transacionados internacionalmente, o custo para a economia de se tornar um barril o mais disponível é dado pelo seu preço externo. Se o barril tiver que ser importado, por razões óbvias. Se for produzido internamente, porque poderia ser exportado ou permitir importar um barril a menos, caso não fosse consumido.

“É lamentável que, a esta altura, exatamente quando o país está em vias de se tornar um grande exportador de petróleo, tenha prosperado no Planalto visão tão equivocada da política de preços de combustíveis.” (Rogério Furquim Werneck, economista, O Globo e Estadão, 6/12/2013.)

* Preços não controlados pelo governo subiram 7,3% em 12 meses

“A inflação recuou em novembro, e a taxa acumulada em 12 meses desceu a 5,77%. Com o reajuste menor que o esperado da gasolina e do diesel, é quase certo que o IPCA terminará 2013 abaixo de 5,84%, a meta informal estipulada para este ano pelo Banco Central. O congelamento de preços pelo governo ficou mais acentuado em 12 meses: os itens administrados caíram a 0,94%, a menor taxa da série. Os livres subiram 7,3%.

“O gráfico mostra como a inflação vem sendo controlada pelo governo. A alta dos administrados é muito menor que a dos preços livres, e só por isso o IPCA ficará abaixo de 5,84%, a variação do ano passado. A energia elétrica caiu 14,5% em 12 meses, os combustíveis subiram apenas 2,5%, e o transporte público, 1,75%. Os preços dos veículos também aumentaram menos que a média da inflação, 1,85%, beneficiados pelo IPI reduzido.

“‘A variação acumulada em doze meses continuou a recuar (dos preços livres), passando de 1,01% para 0,94%, atingindo o menor patamar da série histórica’, escreveu a consultoria Rosenberg Associados.

“Controlar preços na boca do caixa tem o efeito colateral de afetar as expectativas de inflação. Os bancos, economistas e empresas em geral percebem que a estratégia não é sustentável e fazem projeções mais altas para o futuro. O Banco HSBC, por exemplo, acredita que o IPCA fechará este ano em 5,7%. Mas, para o ano que vem, estima alta de 6,3%. O Boletim Focus, com a mediana das projeções das instituições financeiras, estima elevação de 5,92% para 2014.

“A composição da inflação continua ruim. O índice de difusão no mês de novembro foi de 65%. De cada 100 itens pesquisados, 65 ficaram mais caros. A inflação de serviços foi de 8,5%. Das 11 capitais onde o IBGE realiza a pesquisa, apenas Salvador está com o IPCA no centro da meta, em 4,43%. Na outra ponta, Fortaleza e Recife estão com altas acima do teto, em 6,93% e 6,75%, respectivamente, e Rio e Recife têm taxas na casa de 6%.” (Álvaro Gribel e Valéria Maniero, O Globo, 7/12/2013.)

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* Não há tendência de queda da inflação. E o que se conteve à força em 2013 vai estourar em 2014

“Embora sob alguns aspectos os dados da inflação de novembro indiquem alguma melhora em relação a meses anteriores, não há nenhum motivo para imaginar que a alta generalizada dos preços está deixando de ser um problema grave da economia brasileira, ao lado de outros que igualmente continuam sem solução à vista, como o baixíssimo ritmo de crescimento da produção e a política fiscal crescentemente leniente do governo, e que gera cada vez mais desconfianças.

“O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida oficial da inflação brasileira calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou alta de 0,54% em novembro. É uma variação menor do que a de outubro, que foi de 0,57%. Com isso, a alta do IPCA de janeiro a novembro alcançou 4,95% e o resultado acumulado de 12 meses ficou em 5,77%. É a menor variação acumulada em 12 meses desde novembro de 2012, quando o resultado foi de 5,53%.

“Também o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) calculado pela Fundação Getúlio Vargas registrou, em novembro, variação menor do que a do mês anterior (0,28%, contra 0,63%). A alta do IGP-DI nos 12 meses encerrados em novembro foi de 5,49%.

“No entanto, só com exagerado otimismo, como o que costumam demonstrar funcionários do governo, se poderá comemorar esses números. Há anos, a inflação brasileira permanece em níveis muito altos, situação tolerada pelas autoridades, que vêm aprovando seguidamente metas muito frouxas – e, mesmo assim, as vêm descumprindo de maneira sistemática, mesmo quando, como ocorreu no mês passado, há uma variação menor do IPCA.

“A meta para a inflação brasileira, de 4,5% ao ano, vem sendo mantida sem alterações desde 2005 e valerá pelo menos até 2015. Serão, assim, 11 anos com uma meta muito alta para os padrões mundiais de inflação e também para a inflação observada em outros países latino-americanos. Mas, além de tolerar uma inflação alta demais, a política de metas inflacionárias seguida pelo Banco Central tornou-se excessivamente complacente, por ter uma margem de tolerância ampla demais.

“Observe-se que, mesmo sendo alta, a meta de 4,5% não foi alcançada em cinco dos oito anos em que ela vigorou até agora. E não será atingida em 2013. O governo chegou a anunciar que, neste ano, a inflação será menor do que a de 2012, quando ficou em 5,84%. É possível que seja. Com a captação dos efeitos da alta da gasolina, a variação do IPCA em dezembro deverá ser maior do que a de novembro. Mesmo assim, o acumulado do ano poderá ficar em 5,75%, bem acima da meta – mas, como se defenderá o governo, dentro da margem de tolerância de 2 pontos porcentuais.

“Não há, porém, indicações de que a tendência é de queda. O congelamento por muito tempo dos preços da gasolina, a contenção do reajuste das tarifas de transportes urbanos e até uma inédita redução da tarifa de energia elétrica ajudaram a manter a inflação deste ano em níveis menores do que os de 2012. Mas o que se conteve em 2013 deverá ser compensado em 2014. A conta de luz deve subir, como devem subir as tarifas de ônibus, para evitar o colapso do setor, e, provavelmente, a gasolina.

“Quando se conhecer o resultado de dezembro, o governo deverá repetir o que vem dizendo há anos, que, tendo a inflação ficado dentro da margem de tolerância, a meta foi cumprida. Haverá quem acredite nisso, como há os que entendem ser correta a política fiscal do governo do PT, que, com gastos crescentes, tenta alimentar a demanda. O resultado mais óbvio tem sido não o crescimento da economia, mas a pressão sobre os preços, que o Banco Central tenta reduzir por meio de uma política monetária mais dura, com os resultados práticos conhecidos – e lamentados pelos que querem ver o País crescer com estabilidade.

“Sem indicações de que os maus resultados do Produto Interno Bruto em 2013 poderão ser revertidos no curto prazo, em 2014 a economia deverá ter o quarto ano consecutivo de inflação alta e baixo crescimento – serão justamente os quatro anos do governo Dilma.” (Editorial, Estadão, 9/12/2013.)

O governo sufoca a Petrobrás

* Com reajustes abaixo do necessário, Petrobrás terá que captar US$ 25 bilhões; caixa cairá para menos da metade, ameaçando investimentos

“‘See you in 2015’ (‘Vejo você em 2015’). O título do relatório do Credit Suisse sobre a nova política de preços dos combustíveis da Petrobrás, anunciada no último dia 30 junto com um reajuste da gasolina (4%) e do diesel (8%), abaixo da previsão do mercado, mostra o pessimismo geral de especialistas e economistas com relação à companhia no ano que vem.

“Sem recuperar a defasagem dos preços dos combustíveis nem reajustes automáticos, a Petrobrás terá de aumentar seu endividamento para cumprir o programa de investimentos, avaliam especialistas.

“Conforme o relatório do Credit Suisse, a Petrobrás terá de tomar financiamentos de US$ 25 bilhões em 2014 para executar seu programa de investimentos de, no mínimo, US$ 40 bilhões. Vinicius Canheu, um dos autores do estudo, destaca que, mesmo com essa captação, a estatal chegará ao fim do ano que vem com um caixa de US$ 12 bilhões, menos da metade dos US$ 26 bilhões atuais. ‘ Esse volume de captação considera que o câmbio e os preços do petróleo se manterão estáveis, e que a produção nacional de petróleo crescerá 8%’, afirmou Vinicius.

“Se o câmbio ficar em R$ 2,70, a necessidade de captação pode chegar a US$ 40 bilhões.

“Sem perspectivas de reajuste de preços dos combustíveis nem de eliminar a defasagem em 2014, economistas advertem que não existe fórmula mágica para a Petrobrás: ou corta investimentos, ou faz um aumento de capital.

“Uma nova capitalização, contudo, tem sido descartada pela presidente da companhia, Maria das Graças Foster. ‘Alguma operação terá de ser feita ano que vem, se não a Petrobrás entrará 2015 sem fôlego nenhum’, alerta o advogado e especialista em petróleo e gás Cláudio Pinho.

“A economista e consultora Paula Barbosa calcula que as perdas da petroleira com a defasagem dos preços desde 2010 até agora chegam a R$ 40 bilhões. Ela diz estar preocupada porque a estatal deverá ter de aumentar ainda mais seu endividamento, que no último trimestre atingiu R$ 236 bilhões, contra R$ 196 bilhões no trimestre anterior. ‘Acho que uma capitalização em 2014 é quase impossível, pela proximidade da última, em 2010, por mais necessária que seja neste momento’, afirmou Paula Barbosa.

“Mas, se para a Petrobrás o último reajuste foi insuficiente, para os consumidores pesou no bolso. É o caso da psicóloga Adriana Rivera, que abastece seu carro em postos do Rio. ‘O aumento do combustível prejudica muito porque acaba provocando reajuste de outras coisas, como a comida’, afirma Adriana.

“Para os especialistas, a Petrobrás pode conseguir executar seu forte programa de investimentos em 2014 ao custo de aumentar seu endividamento. Por isso, argumentam, o mais preocupante é como a companhia chegará a 2015. ‘No ano que vem a Petrobrás conseguirá recursos para investir, a taxas mais elevadas. O risco é a companhia parar de investir ao longo de 2015 por incapacidade. E, com ela, são arrastados importantes segmentos da indústria brasileira, como o setor naval, que retomou suas atividades nos últimos anos’, destacou um executivo de um banco estrangeiro.” (Ramona Ordoñez, O Globo, 8/12/2013.)

Incompetência na área da energia

* Descompasso na política para o setor cria conta bilionária para as distribuidoras de energia em 2014

“Assim como nos filmes de terror, em que os personagens matam todos os zumbis para serem novamente atacados quando começam a respirar aliviados, as distribuidoras, após um 2013 desgastante, correm o risco de sofrer uma nova crise financeira em 2014. Essa analogia entre o setor elétrico brasileiro e as histórias de assustar está no relatório de novembro da PSR, consultoria que tem entre os sócios Mário Veiga, um dos mais respeitados especialistas em energia do País.

“O título do relatório dá uma noção sobre as dúvidas que pairam sobre o setor: ‘As Distribuidoras Voltarão ao Fundo do Poço Financeiro em 2014?’ As incertezas são muitas e parte da resposta, segundo a análise que se estende por 13 páginas, será dada em 17 de dezembro. Nessa data, ocorre um leilão que pretende garantir contratos de energia para abastecer as distribuidoras e vai definir o destino do caixa delas a partir do próximo ano. ‘O leilão será uma espécie de divisor de águas para o setor no aspecto financeiro’, diz Nelson Fonseca Leite, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).

“Para entender quão delicado é o momento, é preciso retroceder no tempo. O governo federal passou 2013 realizando manobras contábeis para tapar buracos no setor elétrico. Pelas estimativas da PSR, a conta total do Tesouro pode fechar o ano em R$ 17 bilhões. Pouco mais de 12% desse valor (R$ 2,1 bilhões até setembro) foi usado para uma finalidade específica: cobrir o gasto das distribuidoras com a compra de 2 mil megawatts (MW) médios no chamado mercado à vista. Nesse mercado, o preço oscila de acordo com as chuvas, o nível dos reservatórios, o número de térmicas ligadas e a demanda dos compradores. Enfim, é o lugar dos imprevistos financeiros.

“A referência da PSR ao retorno dos zumbis vem do fato de que agora, em dezembro de 2013, contratos que somam outros 4 mil MW médios vão vencer. O buraco no abastecimento, via contratos, chegará a 6 mil MW médios. É uma enorme quantidade de energia. Corresponde a mais de um terço do abastecimento de todas as residências do País. ‘A raiz dessa bola de neve é a teimosia de uma estratégia política: insistir em dar o desconto da conta de luz quando não era viável’, diz Priscila Lino, consultora da PRS. ‘O governo deveria ter recuado porque havia problemas, como o baixo nível dos reservatórios e o alto custo de ligar as térmicas por muito tempo.’

“O nível de exposição das distribuidoras varia. Alguns exemplos: Copel precisa de 1 mil MW médios, 33% de sua carga, Elektro, de 34% da carga, CEEE, 27%, AES-SUL, 25%, Light, 12%, CPFL, de cerca de 5%.

“A convivência com esse rombo é uma situação atípica para as distribuidoras – situação essa criada pelo próprio governo. Pelas regras do setor, elas sempre devem ter contratos assinados com geradoras, com preços definidos, para cobrir praticamente todo o fornecimento dos clientes. Dessa maneira, podem planejar fluxo de caixa e investimentos, e os consumidores não terão surpresas desagradáveis com a conta de luz. A regra, aliás, foi criada durante a gestão da então ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff.

“Ocorre que em 2012, quando os contratos começaram a vencer, o governo decidiu não fazer o leilão para renová-los. Isso obrigou as distribuidoras a depender do mercado à vista. Só depois, percebeu-se que elas poderiam quebrar e o Tesouro foi escalado para socorrê-las.

“O primeiro leilão feito em 2013 para atender os contratos não teve interessados. No próximo, o preço-teto é de R$ 192 o MWh. ‘O valor é atraente, mas cada gerador fará sua análise e não há como prever o resultado’, diz Priscila. Segundo levantamento da PSR, Eletronorte e Furnas, geradoras federais que aceitam preços mais baixos, têm uns 2.500 MW médios de sobra para oferecer. Mas outros 2.100 MW médios estão com Cesp, do Estado de São Paulo, e Cemig, do Estado de Minas, que buscam retornos mais altos.

“A PSR traçou cenários para o leilão. No mais otimista, as distribuidoras terão de desembolsar, no máximo, um terço da geração de caixa anual para cobrir a compra de energia no leilão e serão ressarcidas na primeira revisão da conta de luz. No segundo cenário, o leilão comercializa metade da energia prevista. Nesse caso, as distribuidoras terão de comprar parte no mercado à vista e ficarão expostas ao sob e desce do preço. Se o preço em 2014 for igual ao de 2013, o gasto será de R$ 3,4 bilhões, valor que compromete a saúde financeira do setor. Se nada for negociado, a conta (usando-se o mesmo critério anterior) vai a R$ 6,8 bilhões, um valor considerado impagável, pois consumiria 78% do caixa do setor.” (Alexa Salomão, Estadão, 8/12/2013.)

Truques, malabarismos

* O governo desiste de um novo malabarismo financeiro. Por enquanto

“O governo desistiu de mais um malabarismo financeiro, desta vez com envolvimento da Caixa e da Eletrobrás, para facilitar o fechamento de suas contas em 2013. Sem poder recorrer a mais essa criatividade contábil, o Tesouro terá um pouco mais de problemas para alcançar os R$ 73 bilhões de superávit primário prometidos pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. A contribuição do novo malabarismo seria relativamente modesta, de cerca de R$ 2,65 bilhões, mas ajudaria a engordar um bolo formado por bônus de licitações de infra-estrutura e outras receitas extraordinárias. Para alcançar a meta fiscal, o Tesouro tem vivido de bicos e de expedientes, incluída a redução da própria meta. A alternativa mais recomendável – uma gestão orçamentária mais séria e sustentável – continua fora de agenda.

“Se a operação entre a Caixa e a Eletrobrás fosse concluída, seria possível diminuir a contribuição do Tesouro à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Essa conta, usada para cobrir os custos de geração térmica, foi sobrecarregada, neste ano, com os subsídios à redução das contas de eletricidade, um dos truques para administrar os índices de inflação.

“De janeiro a outubro o Tesouro passou a essa conta R$ 8,36 bilhões, provenientes de emissões de títulos (R$ 6,37 bilhões) e de recebíveis da Usina Hidrelétrica de Itaipu (R$ 1,99 bilhão). O governo teve de aumentar seus aportes, neste ano, porque as contribuições das fontes habituais (concessionárias envolvidas na comercialização de energia) foram insuficientes para as necessidades.

“O governo errou nos cálculos, quando tentou antecipar a renovação das concessões e impôs o corte de tarifas. Não só errou nos cálculos, como ainda misturou, de forma desastrada, diferentes objetivos de política.

“O dinheiro emprestado pela Caixa à Eletrobrás, com juros muito baixos, seria usado para quitar dívidas de subsidiárias com fundos do setor elétrico. O Tesouro ficaria fora da manobra, formalmente, embora devesse aparecer como garantidor do empréstimo.

“Em agosto, o Estado noticiou a elaboração do plano. A operação foi aprovada pelo Conselho de Administração da Eletrobrás, apesar da oposição de representantes dos minoritários. A operação foi informada à Comissão de Valores Mobiliários em 22 de novembro e na última terça-feira a manobra foi noticiada pelo jornal Valor. Diante da movimentação da imprensa e da reação de analistas do mercado financeiro, o ministro da Fazenda resolveu cancelar o financiamento da Caixa à Eletrobrás.

“Funcionários federais negaram qualquer vínculo entre a operação e as dificuldades ligadas à meta fiscal. Segundo o secretário do Tesouro, Arno Augustin, o mercado interpretou mal o sentido da transação financeira. Em seguida, anunciou a emissão, em dezembro, de mais títulos da dívida pública, no valor de R$ 1,5 bilhão, para alimentar a CDE.

“‘No momento’, a operação da Caixa está cancelada, segundo ele, porque ‘estava criando um tumulto desnecessário’. A expressão ‘no momento’ deixa aberta a possibilidade de uma retomada do plano em 2014. O secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, disse ter esperança de ver o empréstimo concretizado no próximo ano.

“A operação desmontada é mais um desdobramento das trapalhadas da política econômica. A presidente Dilma Rousseff está certa quando se preocupa com o custo da energia elétrica, um peso para as famílias e um entrave à competitividade. Mas esse é um problema de longo alcance, para ser resolvido por meio de um planejamento amplo. Não se confunde com o problema da inflação, isto é, com o desafio representado pela alta geral e persistente dos preços de bens e serviços. O desajuste das contas públicas é um dos fatores bem conhecidos de pressão inflacionária.

“Aumentar os gastos do Tesouro para maquiar os índices nunca resolverá esse problema. Ao contrário, tenderá a agravá-lo, além de reduzir as possibilidades de investir na promoção do desenvolvimento. Ao completar três anos, o atual governo parece ainda incapaz de absorver esses dados simples.” (Editorial, Estadão, 6/12/2013.)

Triste, triste país

* O PT ocupou a máquina do Estado, justifica a corrupção a ponto de romantizá-la e usa o dinheiro público para financiar um grupo escolhido de empresários

“Nas estradas, comendo poeira, não tenho mais o tempo dos analistas profissionais. No passado líamos romances e ensaios nos intervalos do trabalho cotidiano. Soterrado por gadgets eletrônicos, baterias, pilhas alcalinas, plugs P2 e XRL, é preciso tempo também para ler os manuais. Sou um mané de manuais. Alegro-me com as descobertas, intrigo-me com a lógica e, às vezes, desespero-me com o tamanho das minúsculas letras. Os escritores de manuais têm futuro com a produção incessante de novos modelos, novas funções. Futuro bem mais promissor que o de um cronista de estrada perdido em temas que desafiam os manuais.

“Há duas semanas, no Uruguai, concluí que, apesar das diferenças, havia algo semelhante ao que se passa no Brasil. Um interlocutor uruguaio me dizia: ‘O governo da esquerda é medíocre, mas a oposição não me entusiasma como alternativa’. As eleições, a julgar pelo momento, não devem alterar a balança do poder. Também em nosso país, de acordo com as pesquisas, muita gente que considera o governo medíocre não se entusiasma com a oposição como alternativa do poder.

“O governo no Uruguai legalizou a maconha pelo caminho parlamentar. Evitou o plebiscito porque talvez saiba que a maioria é contra. No entanto, uma decisão tão polêmica não mudou em nada o favoritismo de Tabaré Vázquez, o candidato da esquerda.

“Aqui, no Brasil, o resultado do júri do mensalão, e também a maneira como os condenados do PT reagiram ao serem presos, erguendo punhos de uma finada revolução bolchevique, deveriam desgastar o partido e o bloco no poder. No entanto, o prestígio de Dilma Rousseff cresce, enquanto a oposição patina. Nas corridas de cavalos tínhamos uma frase para definir o quadro, quando um dos competidores se destacava: de trás não vem ninguém.

“Essa zona de conforto é comum aos dois governos. Mas há diferenças no próprio exemplo: o governo uruguaio enfrenta a maioria com uma decisão que acredita ser uma continuidade histórica. O país sempre esteve adiante em temas como casamento gay, prostituição, divórcio, aborto e, além disso, ainda no século 19, resolveu garantir educação obrigatória, gratuita e laica a todos os uruguaios.

“São dois movimentos diferentes na mesma zona de conforto. A esquerda uruguaia desafia a maioria porque se crê dotada de uma tarefa histórica e dá um passo típico da vanguarda que aplica seu programa por achar, a despeito da opinião pública, que sabe o que é melhor para todos.

“No Uruguai, o presidente José Mujica tem uma vida austera, anda de Fusca, recebe $ 1 mil de salário e daqui a pouco deixa o poder. Aqui a zona de conforto é mais pé na terra, mais sensual e materialista: ocupar a máquina do Estado em todas as suas engrenagens, justificar a corrupção a ponto de romantizá-la e usar o dinheiro público para financiar um grupo escolhido de empresários. Aqui há bolsa para ricos e pobres, o consumo é a nossa droga.

“Não leio apenas manuais na estrada. Escolho sempre o corredor, com todo o respeito pelos simpáticos vizinhos. Esta semana viajei com Simon Critchley nas mãos. para reler seu interessante O Livro dos Filósofos Mortos. Para ele, negamos o fato da morte mergulhando nos prazeres do esquecimento, da acumulação de dinheiro e bens materiais ou, então, numa promessa de imortalidade oferecida pelas religiões antigas e as do estilo New Age. Ou se busca a transitória consolação de um esquecimento momentâneo ou a miraculosa redenção depois da vida.

“É um enredo tão poderoso que coloniza a própria política onde florescem as incursões em busca do tesouro e aventureiros religiosos. A política tem que ver com o consumo digno e alguns objetivos coincidentes com a religião. Mas não se resume nisso.

“Ao analisar a morte de muitos filósofos, Critchley disse que por meio desse roteiro mórbido tentava encontrar o sentido e a possibilidade da felicidade. A política, ao lado do amor e da amizade, é uma das respostas para esse enigma. É duro vê-la desaparecer do horizonte envolta numa nuvem de resignação e fanatismo religioso e saber que não existe resposta nos manuais.

“O ano que entra, com Copa do Mundo e eleições, é um desses anos em que o ‘nunca fomos tão felizes’ do discurso oficial é posto contra a parede.

“A oposição reclama que o governo é o único que tem visibilidade na mídia. De fato, não só visibilidade, mas instrumentos de poder, helicópteros para voar, enfim, uma campanha perfeita: não se gasta nada com o máximo de repercussão. Mas há um aspecto que a oposição precisa compreender: a importância dos fatos. Se não surgem ações nem discursos em conexão com os fatos que interessam às pessoas, a imprensa não pode fazer nada.

“Federalismo ou julgamento do mensalão? Em que planeta nós estamos? Nada contra o federalismo, mas é algo que preocupa governantes estaduais e está dentro da esfera política administrativa. O mensalão vivia nas conversas de rua, na rede.

“É fundamental ter programas e fazer propostas para todos os setores num momento como este. Contudo um programa só ganha vida quando se conecta com o interesse das pessoas reais.

“Assim não dá. Quem sabe no ano que vem?

“Nunca me esquecerei de um homem da minha cidade conhecido como ‘Antônio me abraça’. Ele entrou numa casa de apostas que irradiava uma corrida de cavalos e disse sobre o tordilho que liderava a prova: ‘Só perde se quebrar a perna’. Pois quebrou.

“Antônio dedicou os últimos anos de sua vida a obras de caridade e abandonou o ramo dos milagres. Não se pode contar com ele.

“Se não houver uma disposição de se encontrar com a sociedade, a onda pode vir novamente em 2014, sem chance de inspirar a alternativa política. De tudo fica um pouco. Mas não precisa ser tão pouco.” (Fernando Gabeira, Estadão, 6/12/2013.)

13 de dezembro de 2013

Outras compilações de provas da incompetência de Dilma e do governo:

Volume 109: Notícias de 19 a 25/7.

Volume 110: Notícias de 26/7 a 1º/8.

Volume 111: Notícias de 2 a 8/8.

Volume 112: Notícias de 9 a 15/8.

Volume 113: Notícias de 16 a 22/8.

Volume 114: Notícias de 23 a 29/8.

Volume 115: Notícias de 30/8 a 5/9.

Volume 116: Notícias de 6 a 12/9.

Volume 117: Notícias de 13 a 19/9.

Volume 118: Notícias de 20 a 26/9. 

Volume 119: Notícias de 11 a 17/10.

Volume 120: Notícias de 18 a 24/10.

Volume 121: Notícias de 25 a 31/10.

Volume 122: Notícias de 8 a 14/11.

Volume 123: Notícias de 15 a 21/11.

Volume 124: Notícias de 22 a 28/11.

Volume 125: Notícias de 28/11 a 5/12. 

2 Comentários

  1. Postado em 14/12/2013 às 10:15 am | Permalink

    CONTAGEM REGRESSIVA:
    FALTAM 383 DIAS PARA O FIM DAS MAS NOTÍCIAS!

    Mais más.
    Dilma cresce nas pesquisas!
    Oposição patina e derrapa, teve a adesão do LoboBobo e do excelente Gabeira agora assalariado do PIG. Como repórter assalariado abre muitas aspas mas não as fecha.

    MarinaS neles!

  2. Postado em 15/12/2013 às 2:40 pm | Permalink

    Temporada no inferno Miruna Genoino se divide entre a obsessão pela saúde do pai preso e a preocupação com os filhos.

    por MALU DELGADO

    A árvore de Natal tinha sido montada naquele dia e, ainda que diminuta e sem nenhuma pompa, destacava-se na sala do apartamento de 50 metros quadrados, dividindo espaço com um sofá batido pelo uso e a mesa de quatro lugares. Miruna Kayano Genoino, visivelmente exausta, cedeu aos apelos do filho Luis Miguel, de 5 anos, e resgatou a árvore na casa de seu pai, José Genoino Guimarães Neto, naquela segunda-feira, 25 de novembro. O pequeno foi com a mãe até o sobrado do avô, no bairro do Butantã, em São Paulo, mas, assustado com a movimentação dos últimos dias e semanas, recusou-se a descer do carro. Queria saber se não tinha gente à espreita – jornalistas, cinegrafistas, fotógrafos – na porta da casa do vô Genoino, como já havia ocorrido. Miruna teve queinsistir: “O vovô e a vovó não estão aqui agora, mas eles vão voltar.” Luis Miguel aquiesceu. Desceu do carro, entrou na casa vazia e ajudou a mãe a transferir o Natal do sobrado dos avós para o apartamento onde mora, no mesmo bairro.

    No dia do ritual pré-natalino exigido pelo filho mais novo, Miruna me recebeu em sua casa. Nossa conversa havia sido agendada para a quarta-feira anterior, mas, naquela data, Genoino foi levado às pressas do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, para o Instituto de Cardiologia do Distrito Federal. Tivera uma crise hipertensiva e estava com suspeita de infarto do miocárdio, diagnóstico descartado horas depois.

    Filha mais velha de Genoino, com 32 anos, Miruna permaneceu na capital federal por mais alguns dias para acompanhar o calvário do pai, o deputado federal e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores preso no dia 15 de novembro, acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha no escândalo do mensalão. Foi condenado a seis anos e onze meses de prisão, em regime semiaberto. A pena ainda pode mudar – e ser reduzida – assim que o Supremo Tribunal Federal julgar o recurso contra a condenação por formação de quadrilha, mas parte da sentença já transitada em julgado o obriga por ora a ficar na cela por pelo menos quatro anos e oito meses.

    Com os cabelos desalinhados, pés descalços, calça legging preta e blusa de malha cinza, Miruna abriu a porta do apartamento um tanto ressabiada. Mostrava ao mesmo tempo uma delicadeza e uma educação que remetiam imediatamente à sua ascendência nipônica. Depois de me acomodar no sofá e me oferecer algo para beber, ela foi até um móvel e de lá trouxe um colar. Com fala mansa, tentou reconstruir “o inferno da última semana” enquanto mexia freneticamente no colar de contas pretas como se fosse uma japamala budista. “É um martírio, do ponto de vista pessoal, você ter que passar por tantos laudos diferentes para provar uma coisa que a gente viveu na carne. A gente sabe o que é, a gente não está mentindo. E aí vira enquete na mídia: você acha que o Genoino deve ter prisão domiciliar? Como se fosse dizer quem você acha que deve sair do Big Brother. A saúde do meu pai virou Big Brother, entendeu? Tem o minuto a minuto… Mas isso não é assim. Essa é a minha vida.”

    A obsessão de Miruna é obter a prisão domiciliar para Genoino. Pergunto sobre o julgamento do mensalão, sobre a suposta culpa ou inocência do pai, mas ela se esquiva do assunto. Tampouco tem disposição para falar sobre o PT. A despeito da trajetória de Genoino, a filha não demonstra nenhuma paixão pela política. Quis se filiar ao partido antes de completar 16 anos. O pai não permitiu. Disse que ela tinha que começar primeiro a vida de eleitora, entender melhor as coisas, para só então decidir que rumo tomar. Mais tarde, militante no movimento estudantil da Universidade de São Paulo, Miruna virou petista de carteirinha. Fez muita boca de urna, atuou em muita eleição. Mas a agonia presente do pai deixou tudo isso catalogado no passado. “Não vou ficar falando agora: ‘Olha, ele é inocente.’ Não vou ficar falando do julgamento de X, Y e Z. Não quero falar disso agora. Ou sobre quem do PT apoiou, quem não ajudou. Não me importa. O que me importa é que a saúde dele seja realmente cuidada.”

    os 67 anos, Genoino foi submetido a uma cirurgia cardíaca de emergência no dia 24 de julho no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Estava em Ubatuba, na casa da cunhada, com a mulher, Rioco, e os dois netos, filhos de Miruna, quando começou a sentir uma dor lancinante no peito. A filha estava na Argentina enquanto o coração do pai quase explodia, literalmente.

    Pedagoga, ela foi aprovada num mestrado de alfabetização pela Universidade Nacional de La Plata. O “vôvis” Genoino (como é chamado por Luis Miguel e Paulinha, a filha mais velha de Miruna, de 7 anos) concordou prontamente em tomar conta das crianças na praia por uma semana para que a filha fizesse seu curso de aperfeiçoamento, semipresencial. Pouco antes de receber o telefonema do irmãoRonan sobre o estado de saúde e a cirurgia do pai, Miruna tinha publicado no Facebook: “A saudade está rasgando meu coração.” Na véspera de ser colocado numa mesa de operação no Sírio, Genoino havia escalado uma pequena serra com os netos nos arredores de Ubatuba.

    No dia da cirurgia, Rioco e Ronan foram chamados pelos médicos e avisados de que Genoino tinha poucas chances de sobreviver. A intervenção cirúrgica seria longa, de seis a oito horas. “Quando a cirurgia já durava três horas, Fábio Jatene [o cirurgião] os chamou numa salinha. Estava com uma cara tensa. Ele tinha acabado de sair da sala de operação e disse que na hora seguinte meu pai poderia morrer a qualquer momento.” Miruna falava e olhava para baixo, deixando silêncios entre as frases. Comentou que “não conseguia mais chorar”. Dois dias depois da prisão, quando foi a Brasília para dar suporte ao pai, teve uma crise nervosa e chorou compulsivamente por horas.

    Genoino recebeu alta no dia 20 de agosto. Ainda internado, teve um AVC. Foi outro susto, mas que não deixou sequelas neurológicas. “Em 2012, na época do julgamento [mensalão é uma palavra que Miruna nunca usa], ele fez um check-up. Deu uma alteração e ele se submeteu a um cateterismo. Mas ficou superbem”, recordou-se a filha. O pai de Genoino, que vive no sertão cearense, é cardiopata. Já fez várias pontes de safena. O filho Ronan, de 30 anos, foi aconselhado por médicos a fazer exames em razão do histórico familiar.

    A recaída de Genoino após a prisão fez a família reviver o drama recente da cirurgia. No curto período de duas semanas, ele já foi avaliado pelo Instituto Médico Legal do Distrito Federal, por um cardiologista particular enviado ao presídio pela família, pela junta de cinco médicos da UnB formada por ordem do Supremo para dar subsídios aos ministros sobre a necessidade ou não de prisão domiciliar e, finalmente, por um grupo de quatro médicos designados pela Câmara dos Deputados para avaliar se ele pode se aposentar por invalidez.

    enoino se entregou à Polícia Federal no dia da Proclamação da República. A mala que levaria para a prisão já estava pronta na véspera. Quando, na quarta-feira, dia 13, o plenário do Supremo determinou a execução das penas dos condenados do mensalão, antes que fossem julgados os embargos infringentes, o petista se preparou para voltar ao cárcere, mas desta vez num regime democrático. Recebeu por telefone, no próprio dia 15, a notícia de que o mandado de prisão fora expedido por Joaquim Barbosa, presidente do STF. Estava em casa com a família. Os netos estavam no parque com uma amiga de Miruna. “Por sorte”, ela diz.

    “Depois da notícia do mandado ele fez coisas práticas. Me pediu para pegar o desenho das crianças e colocar na mala”, relembrou a filha. Algumas horas depois, amigos e o advogado criminalista Luiz Fernando Pacheco chegaram ao sobrado do Butantã. Genoino pouco falava. Queria se entregar logo e encurtar o sofrimento da família.

    Neste momento, ela pega o iPhone para mostrar os sinais do que chama de “perseguição da mídia”. “Quer ver?”, perguntou, mostrando em seguida fotos que tirou de cinegrafistas parados em frente à casa de Genoino e um curto vídeo em que ela, chegando com as compras do sacolão na casa do pai, desafia um profissional da imprensa e pergunta a ele por que está enfiando a câmera pela janela. “Seu filho da puta”, grita Miruna no filminho registrado pelo celular. Depois de mostrar as provas do acampamento na porta da casa do pai, se solta num longo desabafo. “O que eu passei com os meus filhos… Porque, assim, eu entendo que meu pai seja notícia neste momento. Eu entendo aquela foto dele saindo [de casa, no dia em que se entregou à Polícia Federal, que foi estampada nas capas dos principais jornais do país]. Eu até entendo agora que queiram tirar uma foto dele, onde ele está, porque ele é a notícia. Agora, eu não entendo essa agressividade comigo, com meu irmão, com a minha mãe e com os meus filhos.”

    Por volta das 7 horas, sem saber que o pai seria preso naquele dia, Miruna levou os filhos à casa de Genoino, quase que para uma despedida. “O meu pai não é um avô de mês, de visita mensal ou de almoço de domingo. O meu pai é um avô da vida toda dos meus filhos. Ele é do cotidiano. Entende? Ele faz parte. A gente almoça duas vezes por semana lá, janta uma vez por semana.” Naquele dia, com as crianças no carro, Miruna desceu para conversar com os fotógrafos e cinegrafistas. Pediu que seus filhos não fossem filmados nem fotografados. Pouco adiantou. “Meus filhos choraram, ficaram muito nervosos”, lembrou. Antes disso, numa manhã, Luis Miguel se apressou em olhar pela janela. Respirou aliviado. Não tinha ninguém na porta. “Ele me disse: mamãe, eu rezei tanto essa noite para não ter ninguém na porta da casa do vovô”, contou Miruna. A esta altura da conversa, o colar de contas pretas já estava preso em volta do pescoço, e ela passou, então, a movimentar em semicírculos o anel de prata que fica no cordão, como um pingente.

    oi preciso buscar ajuda profissional para contar a Luis Miguel e Paulinha que o “vôvis” seria preso. A família inteira se reuniu para uma conversa. A psicóloga amiga orientou a todos que fossem sinceros e diretos. E avisou a Miruna que eles se espelhariam na reação da mãe. O julgamento no STF já havia demandado excesso de zelo com as crianças, que não assistem à tevê aberta. “Vovô, por que umas pessoas querem matar você? E por que você não mata elas também?”, indagou, num dos encontros familiares, o neto. O avô tentou mostrar que as coisas não eram assim, tão extremas, e que ficaria conversando com aquela gente para explicar que não tinha feito nada de errado.

    Depois que Genoino se entregou, Miruna disse aos filhos que aquelas pessoas convenceram o juiz de que o vovô tinha que ser preso. Mas que ele era um herói, apressou-se em destacar. Ronan tentou ajudar: “Paulinha, sabe quando o bonzinho do filme enfrenta um monte de dificuldades? Então, a gente está agora naquela parte chata do filme.” É neste momento da história que Genoino, que comandava o PT em 2003, avaliza empréstimos feitos pelo partido nos bancos Rural e BMG, apontados como fraudulentos pela Justiça. Nove dos dez ministros da Suprema Corte acataram a tese de que o então presidente do PT tinha ciência do esquema de distribuição de dinheiro a partidos e parlamentares para assegurar apoio político ao governo Lula – o que caracteriza o mensalão, segundo a denúncia formulada pela Procuradoria-Geral da República e julgada no STF. O petista alega que assinou empréstimos legais, para saldar dívidas do PT, que foram aprovados pelo Tribunal Superior Eleitoral e pagos aos bancos (ainda que sete anos mais tarde, bem depois que o escândalo veio à tona).

    Na foto do dia em que deixou o sobrado do Butantã para se entregar à PF, Genoino parecia ter encarnado o personagem criado pela família, enrolado num pano branco, como se fosse a capa de um super-herói. Aquele pano, explicou Miruna, era a cortina da casa, bordada por Rioco por quase um ano – desde o dia em que saiu a condenação do marido, em novembro de 2012. Por doze meses, Rioco bordou passarinhos no tecido. Centenas de amigos e familiares que passaram pela casa neste período, convidados a ouvir a versão de Genoino sobre os fatos, recebiam linhas, agulhas, lições básicas de bordado e deixavam ali, registrados, seus desenhos de aves. A inspiração vinha do verso de Mario Quintana – “Eles passarão, eu passarinho” –, citado por Genoino na carta de 10 de outubro de 2012, quando entregou o cargo de assessor especial do Ministério da Defesa, emparedado pela condenação do STF.

    No dia da prisão do avô, Paulinha fez poucas perguntas. Teve febre 24 horas depois. Luis Miguel abraçou a mãe e chorou copiosamente.

    utorizado pelo STF a permanecer temporarimente em prisão domiciliar, Genoino, já com a pressão arterial sob controle, deixou no último dia 24 o Instituto de Cardiologia e foi levado a uma casa secreta em Brasília. Os netos viajaram à capital para uma visita. Perguntaram incansavelmente se ele estava bem e se voltaria com eles no avião. Ouviram,mais uma vez, que teriam de esperar pacientemente pelo retorno do avô. Paulinha mostrou os presentes que tinha ganhado no aniversário, dois dias antes. A festinha, que seria em São Paulo, foi feita de improviso em Brasília. “Mas meu pai não estava numa situação de muita interação”, disse Miruna. Apesar disso, naquele domingo eles viveram a última cena que mais se aproximava da antiga rotina familiar.

    É Miruna quem lida com advogados, médicos e, ocasionalmente, enfrenta a imprensa. Entrevistas, só as autorizadas pelo pai e, via de regra, para os chamados “blogs de esquerda”. No domingo, 24, quando se preparava para voltar a São Paulo e retomar minimamente a rotina tanto profissional como materna, ela passou as funções para Ronan. Ele é o “assessor de imprensa” da família: acompanha os jornais, as redes sociais, e repassa para os mais próximos o que de importante vê sobre o mensalão e sobre seu pai. Miruna não tem estômago para tanto. Não esconde certo asco pela imprensa, apesar de em alguns momentos falar com respeito e compreensão sobre a atividade dos jornalistas. Rioco é quem faz os contatos políticos. Mariana, a irmã de Miruna e Ronan só por parte de pai, tem fobia de repórteres. Com a vida exposta nos últimos dias, Mariana, fruto de uma relação extraconjugal de Genoino, revelou aos irmãos, num e-mail enviado no dia 25, o desconforto de ver seu nome nas páginas dos jornais.

    Genoino revelou o caso amoroso aos filhos e a Rioco só em 1999: “Essa não é uma história para a gente se envergonhar. Foi uma história como todos os dramas familiares, com seus momentos de tensão, de crise. Foi difícil para todos. Mas a gente tem uma relação de profundo amor e respeito”, disse Miruna. Toda a imprensa informou que Genoino ficou na casa de Mariana com o aval do Supremo. “Ele não está na casa da filha”, disse, categórico, o advogado Luiz Fernando Pacheco. Miruna também me contou que seu pai não foi levado para a casa da irmã, e logo emendou: “E eu vou falar o mínimo possível sobre isso.” Quando conversamos, ela via como “um milagre” que os jornalistas ainda não tivessem descoberto o endereço do esconderijo do pai.

    Em seu escritório na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, o advogado também se policiava para não revelar o paradeiro do petista, a quem acompanha desde 2005. Pacheco se assustou quando foi levar Genoino para a sede da PF em São Paulo, no fatídico dia 15. No carro, dirigido por ele, também estavam Rioco e Veridiana, a mulher do advogado. “Era coisa de paparazzi maluco.”

    Aos 40 anos, e com uma carteira de sessenta clientes (entre pessoas físicas e jurídicas), Pacheco nutre um dos hábitos que agravou o quadro de saúde do hoje amigo Genoino: também é um tabagista voraz. Em duas horas de conversa, fumou quatro cigarros e bebeu dois cafés expressos. Ao mencionar o esforço de Genoino para deixar de fumar após a cirurgia (vício que abandonou com disciplina, diz a família), o advogado confessou um deslize: “Quando estávamos nos dirigindo para a PF, eu disse a ele: Genoino, me desculpe, mas preciso de um cigarro. E ele, daquele jeito: o que é isso, companheiro? Fique à vontade.”

    inha relação com meu pai é muito, muito, muito forte”, repetiu Miruna. E completou: “Vem desde o meu nascimento.” Presa política no regime militar e militante do Partido Comunista do Brasil, Rioco foi torturada, assim como Genoino. Quando Miruna nasceu, quase uma década depois, ela de alguma forma associou o parto às sevícias do passado. Caiu numa grave depressão pós-parto e rejeitou a filha. Não conseguiu amamentar a primogênita no primeiro mês. A mãe de Rioco se ofereceu para cuidar do bebê. Mas Genoino objetou: a garota ficaria com os pais, até que Rioco restabelecesse sua conexão com a filha. Assim foi feito. “Na minha cabeça, acho que meu pai foi fundamental para isso, por ela ter reconstruído a relação comigo”, disse Miruna.

    A figura do paizão desde o nascimento não apagou da memória de Miruna as intermináveis ausências dele no cotidiano familiar por causa da política. “Meu pai foi diferente dos pais das minhas amigas. Só o fato de estar fora a semana inteira o impedia de viver coisas corriqueiras, como a natação, o jantar ou a lição de casa. Agora, quando estava com a gente, o meu pai era de uma qualidade que compensava tudo.”

    Miruna morou na Espanha de 2006 a 2009 depois de se casar, bem no auge da descoberta do mensalão. Foi pedida em casamento por Juan no mesmo dia em que Genoino deixou o PT. “Eu estava em Granada quando meu marido me pediu em casamento. Fomos visitar a casa do García Lorca. Na hora em que eu entrei, estava tocando a música do filme 1492 – A Conquista do Paraíso e eu pensei: aconteceu alguma coisa com meu pai. Fui para a praça, achei um orelhão, liguei para o Brasil e ele me contou [que deixava a presidência do PT].” A trilha sonora de Vangelis é uma das preferidas de Genoino.

    Entre várias divagações, com dificuldades para reconstruir as últimas semanas da família Kayano Genoino, Miruna diz não sentir raiva. Mas está, como define, “desapegada da vida, vivendo um momento cru”. Não nutre nenhum otimismo sobre o destino do pai. “Nossas perspectivas são sempre pessimistas.” Essa conversa aconteceu às vésperas da divulgação do laudo feito por cardiologistas da UnB e do parecer solicitado pela Câmara. Nos dois casos, diagnosticou-se que Genoino não é portador de cardiopatia grave. Sendo assim, segundo os laudos sugerem, ele poderia receber cuidados médicos na prisão e se recuperar, o que, por conseguinte, não justificaria uma aposentadoria por invalidez.

    No dia seguinte ao que estive em sua casa, perguntei a Miruna, por e-mail, se ela já tinha visto o resultado dos últimos laudos médicos. No dia 27, às 7 horas, chega à caixa postal a resposta: “Deve ser muito chato me conhecer nesse momento. Porque é muito chato ser eu mesma nesse momento. E porque sempre é melhor olhar para o lado do que parar e pensar no que fazer quando algo muito grave está acontecendo. Com a minha família, claro.” No texto, que pouco depois ela colocou nas redes sociais e foi reproduzido pelos “blogs de esquerda”, Miruna pondera que os laudos foram feitos quando seu pai estava medicado, bem alimentado, em contato com a família e, portanto, com o nível de estresse relativamente sob controle. “Ele quase morreu em julho, venceu os 10% de chance de sobreviver, teve uma dor que só o fazia pensar em morrer e não, ele não tem nada grave.” Ela ironiza que “é possível” que o pai seja “bem cuidado” na Papuda. Ao admitir que está “com o coração sangrando, no fundo do poço”, indaga se os médicos que avaliaram seu pai conhecem as instalações do presídio, se já provaram a comida lá oferecida e usaram o banheiro do local. Sem muito a fazer, Miruna pretende abrir no dia 25 de dezembro as cartinhas que Luis Miguel e Paulinha colocaram em meio aos arranjos na árvores de Natal. Os pedidos dos dois não são difíceis de adivinhar

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  1. […] é que os últimos sete dias tenham sido escassos de Más Notícias do País de Dilma. Teria, sim, farto material para ser compilado nos jornais entre os dias 13 e 19 de dezembro. Mas […]

  2. […] vai a 127ª compilação de notícias e análises que comprovam os malefícios e a incompetência do lulo-petism…. Foram publicadas entre os dias 10 e 16 de janeiro de […]

  3. […] Volume 126: Notícias de 6 a 12/12/2013. […]

  4. […] Volume 126: Notícias de 6 a 12/12/2013. […]

  5. […] Volume 126: Notícias de 6 a 12/12/2013. […]

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