Más notícias do país de Dilma (101)

Um dos muitíssimos problemas de Dilma Rousseff é que ela acha que entende de economia.

É necessário admitir: enquanto Lula deixou a economia nas mãos de seu então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e a política monetária com quem de direito, o Banco Central, então presidido por Henrique Meirelles, não houve grandes sustos. Nos seis primeiros anos do governo Lula, Palocci e Meirelles mantiveram as bases da política econômica herdada do governo Fernando Henrique Cardoso, e a coisa não degringolou. Aí veio Guido Mantega.

E depois veio Dilma Rousseff. Ela se acha o máximo. Resolveu mudar.

Acha-se uma “desenvolvimentista”. Entende que esse negócio de Banco Central independente, câmbio flexível, contas públicas sob controle é coisa de “neoliberais”.

Que mal faz uma inflaçãozinha um pouco maior? Mas que austeridade, o cacete. O negócio é o país crescer. E vamos baixar os juros a pau, a porrada. Vamos mostrar como é que se faz, vamos ensinar ao mundo. Olha aí, Merkel, aprenda comigo, tá?

Deu no que deu. A inflação está perigosamente alta faz vários trimestres, e o tal do crescimento simplesmente não pintou.

Nesta quarta-feira, dia 29 – um dia que deveria entrar para a história econômica do Brasil –,  o IBGE mostrou o PIB cresceu apenas 0,6% no primeiro trimestre de 2013. A indústria encolheu 0,3% – apesar de todas as desonerações, todos os puxadinhos inventados pela equipe da Fazenda e do Planejamento dos geniais ministros Guido Mantega e Fernando Pimentel. Se não fosse o crescimento da agropecuária – o agronegócio que o PT tanto critica -, a alta do PIB como um todo teria sido de apenas 0,2%.

O governo vinha apostando todas as suas fichas no consumo interno. Mas é o óbvio: com inflação em alta, e endividamento alto, as famílias consomem menos. O aumento do consumo no trimestre foi de apenas 0,1%. Elementar, meu caro Mantega.

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A presidente se acha um gênio em economia, e deu no que deu. Imagine-se em política, matéria que até seu inventor, criador, o ex, sabe que ela desconhece absolutamente.

Cerca de 80% dos deputados e senadores pertencem a partidos que fazem parte da base aliada do governo. É a maior base aliada de toda a História. Nunca antes na história deste país, etc e tal. E, no entanto, o governo Dilma sofre derrotas vexaminosas. Incapaz de ter uma articulação política, movendo-se com uma soberba absoluta, o governo foi derrotado pelo partido do vice-presidente da República, o PMDB: o Senado decidiu não votar uma medida provisória que garantiria a redução da energia elétrica.

(O tal telefonema da ministra Gleise Hoffman para Renan Calheiros, na terça, dia 21, à noite, descrito em O Globo, é de chorar de tanto rir.)

O governo é incompetente na condução da economia, é incompetente para articular os votos dos 80% dos parlamentares de sua própria base.

O governo é tão incompetente no seu relacionamento com o Congresso que não precisa de oposição.

O governo é tão incompetente que consegue arranjar uma gigantesca confusão com seu principal instrumento de garantir votos, o Bolsa Família. Enrola-se com o episódio da corrida aos caixas eletrônicos por milhões de beneficiados em 13 Estados do país, não consegue explicar o que aconteceu. Uma ministra da equipe de 39 sai acusando a oposição de ter espalhado o boato que provocou a correria, depois pede desculpas. A outra ministra da equipe de 39, a ministra específica da área, esta não diz nada, porque está de férias na Disneylândia.

Este governo não é de verdade, não pode ser de verdade. É um governo da Terra da Fantasia!

Ah, mas há uma boa notícia nesta semana. Magnânime, a presidente Dilma anunciou que não vai cobrar os empréstimos de US$ 900 milhões a diversos países africanos. O Brasil é grande, aqui tudo vai muito bem, não temos problema algum na saúde, na educação, na segurança pública, e então podemos abrir mão desse dinheirinho, para ajudar nossos irmãos mais pobres.

(Na verdade, como mostrou Elio Gaspari, para ajudar os ditadores milionários dos países miseráveis da África, mas isso é só um detalhe.)

O país é grande, e Dilma também.

Aí vai a 101ª (centésima-primeira!) compilação de notícias e análises que comprovam a incompetência do lulo-petismo como um todo e do governo Dilma Rousseff em especial. Foram publicadas entre os dias 24 e 30 de maio.

Devo dizer que tive que deixar várias coisas de fora – por absoluta exaustão. É má notícia demais no país de Dilma.

Inflação alta, crescimento baixo

* Envididadas, e com a inflação alta, as famílias perdem a confiança e consomem menos

“O crédito continua a crescer, mas cautela é a palavra de ordem no mercado, segundo os números de abril divulgados na sexta-feira (24/5) pelo Banco Central (BC). A inadimplência, medida pelos atrasos superiores a 90 dias, é menor que no ano passado, mas ainda preocupa, dizem especialistas, tanto os fornecedores quanto os tomadores de empréstimos. O saldo das operações de crédito aumentou 1,1% no mês, 3,6% no ano e 16,4% em 12 meses, passando de 53,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em março para 54,1%. A expansão perde velocidade, refletindo, segundo o BC, a atividade econômica moderada e as expectativas de empresários e consumidores, mas, ainda assim, continua superando o aumento da produção.

“Qualquer evolução nos próximos meses – maior moderação ou reaceleração das operações de crédito – poderá complicar o quadro econômico, derrubando o consumo ou, inversamente, realimentando as pressões inflacionárias. O mais seguro para o governo, e para o País, seria uma reorientação mais firme da política econômica.

“O saldo total dos empréstimos chegou a R$ 2,45 trilhões em abril. Esse resultado reflete as novas concessões de financiamento e as liquidações de compromissos pelos devedores. As concessões aumentaram 5,7% em abril, totalizando R$ 297 bilhões, com expansão de 7,7% nos desembolsos para pessoas físicas e de 3,9% nos empréstimos para pessoas jurídicas. A taxa média de juros para empresas vem-se mantendo em 14% ao ano desde janeiro, mas recuou 3,4% desde abril do ano passado. O custo para pessoas físicas diminuiu 0,1 ponto porcentual em abril e 5 pontos em 12 meses, mas continuou bastante elevado, em 24,3% ao ano.

“A inadimplência das famílias caiu 0,1 ponto no mês, mas a taxa de 5,3% ainda é considerada alta e explica, em boa parte, a cautela dos tomadores de crédito e a busca de novos empréstimos para renegociação de compromissos em atraso.

“As últimas pesquisas sobre confiança do consumidor e intenção de consumo têm apontado uma atitude bem mais cautelosa que a observada até recentemente. Segundo levantamento divulgado na sexta-feira pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, o índice de confiança do consumidor paulistano caiu 6,2% em maio, para 146 pontos. O dado mais notável foi a redução de 15% na confiança dos consumidores com renda superior a 10 salários mínimos, de 162,9 pontos para 138,4. Com números diferentes, os dados dessa pesquisa confirmaram a tendência apontada uma semana antes por um relatório da Associação Comercial. Nesta pesquisa, a perspectiva de consumo aumentou levemente (0,2 ponto), num cenário negativo sobre crédito e expectativas profissionais.

“Em escala bem mais ampla, a piora do quadro foi confirmada por uma sondagem da Confederação Nacional do Comércio. Dados levantados em maio e divulgados no dia 21 indicaram intenção de consumo 2,2% mais baixa que a de abril e 6,2% inferior à de um ano antes.

“A piora do sentimento, segundo os autores da pesquisa, reflete o nível ainda elevado de endividamento e de inadimplência, a corrosão da renda pela inflação e a menor segurança em relação ao emprego. Indicadores acima de 100 (127,7 no caso da intenção de consumo) ainda refletem algum otimismo, mas a deterioração das expectativas parece indiscutível.

“Interpretação semelhante – insegurança quanto à inflação, aos juros e ao mercado de trabalho – foi oferecida pelos autores da pesquisa sobre o consumidor apresentada na sexta-feira pela Fundação Getúlio Vargas. O estudo mostrou um recuo de 0,4% na confiança, em maio, depois de estabilidade em abril.

“O governo correrá um grande risco se continuar confiando no consumo como propulsor da economia. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o crescimento dependerá em 2013 basicamente do investimento. O IBGE mostrou maior produção de máquinas e equipamentos no primeiro trimestre, mas falta muito para o País voltar ao nível de investimento de dois anos atrás – e mesmo esse era insuficiente.” (Editorial, Estadão, 27/5/2013.)

* Nunca antes na história deste país as famílias estiveram tão endividadas

“As famílias brasileiras nunca estiveram tão endividadas quanto no fim do primeiro trimestre deste ano. De acordo com o Banco Central (BC), o índice de endividamento subiu de 43,79% para 43,99% em março. Isso significa que as famílias devem às instituições financeiras quase a metade do que ganham durante o ano. O endividamento chegou ao maior nível desde quando a autoridade monetária começou a registrar os dados, em 2005. Naquela época, as famílias tinham um endividamento de 18,39% da renda bruta anual.

“Para o economista-chefe do Conselho Federal de Economia, Júlio Miragaya, o aumento do endividamento das famílias é um reflexo da facilitação de acesso ao crédito bancário no país. De 2005 para cá, o volume dos empréstimos no país saltou de 28,1% para 54,1% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país). No entanto, segundo o especialista, essa alta não deve continuar. Pelo menos, não no mesmo ritmo. ‘Houve um grande aumento por causa da facilitação do crédito vista nos últimos anos, mas chegou a um limite’, aposta Miragaya, que explica que o crescimento da renda do trabalhador e a estabilidade do mercado de trabalho devem segurar o endividamento da população.

“Segundo os dados do BC, se for excluído o crédito habitacional, o nível de endividamento caiu em março. Passou de 30,54% para 30,48%. Isso significa que a compra da casa própria foi a grande responsável pelo aumento do endividamento.

“O número que não leva em conta o financiamento imobiliário é usado pelo governo como referência para saber se a população está muito endividada. Para o BC, o empréstimo para pagar a casa própria é visto como bons olhos, já que significa deixar o aluguel — uma despesa corrente — para investir em patrimônio.

“Outro dado confirma que o brasileiro tem feito operações com prazos mais longo, como o financiamento imobiliário. Apesar da alta do endividamento, houve queda do comprometimento da renda, que, em março, passou de 21,84% para 21,66%. Isso significa que a parcela que as famílias comprometem da renda mensal para pagar dívidas voltou a cair, ou seja, mesmo devendo mais, as pessoas desembolsam menos durante o mês.” (Gabriela Valente, O Globo, 28/5/2013.)

 * Dilma, Mantega e seus asseclas conseguiram a proeza de um pibinho de 0,6%

“Mais uma vez o resultado da economia brasileira frustrou governo, empresários e mercado financeiro. O Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) medido pelo IBGE cresceu apenas 0,6% no primeiro trimestre de 2013, em relação aos últimos três meses de 2012 (já descontados efeitos sazonais), no piso das estimativas de analistas e abaixo da previsão oficial, de alta de 0,9% a 1%. A taxa de 0,6% é exatamente a mesma do quarto trimestre do ano passado, indicando que não ocorreu, até o momento, a esperada aceleração do crescimento. Nos últimos 12 meses, o PIB cresceu só 1,2%. E, frente ao primeiro trimestre do ano passado, a expansão da economia foi de 1,9%.

“Após a divulgação do PIB do primeiro trimestre, analistas do mercado reduziram suas projeções para o resultado fechado do ano e já há quem estime uma expansão de só 2% em 2013, dado que será conhecido em março do ano que vem, ou seja, às vésperas das eleições presidenciais.

“Em valores, o PIB somou R$ 1,11 trilhão. Além de ter crescido pouco, o PIB teve uma composição ruim no primeiro trimestre.

“Se não fosse a forte expansão da agropecuária, que avançou 9,7%, o PIB teria crescido só 0,2% no primeiro trimestre. A indústria caiu 0,3%, devido sobretudo à piora na extrativa mineral.

“A alta de 9,7% na agropecuária foi a maior desde o segundo trimestre de 1998. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o setor avançou 17%. Além das safras recordes de soja e milho, o resultado foi influenciado pela fraca base de comparação. ‘Tivemos um ganho de produtividade frente a 2012, graças a um clima mais favorável. A partir de agora, os ganhos serão menores’, afirmou Lucilio Alves, professor da Esalq/USP.

“Até mesmo os segmentos que vinham sustentando a alta do PIB decepcionaram. O setor de serviços cresceu apenas 0,5%, com quase todas suas atividades com resultados mornos.

“Pelo lado da demanda, o consumo das famílias, que até então era o motor da economia, teve uma alta de apenas 0,1%, ou seja, viveu um quadro estagnação em relação ao fim do ano passado.” (Henrique Gomes Batista, Clarice Spitz e Renata Cabral, O Globo, 30/5/2013.)

* Com a inflação alta, famílias gastam menos, o que ajuda a manter PIB  fraco

“Sob efeito da inflação, da recomposição das alíquotas de IPI sobre automóveis e eletrodomésticos e de um crescimento mais modesto do crédito e dos salários, o consumo das famílias, um dos motores da economia brasileira, ficou praticamente estável no primeiro trimestre do ano. Ele saiu de uma alta de 1%, no quarto trimestre de 2012, para um avanço de apenas 0,1% nos três primeiros meses deste ano, na comparação com o período imediatamente anterior, já com ajuste sazonal.

“Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o consumo das famílias apontou a 38ª alta seguida, mas também com perda de fôlego: passou de um avanço de 3,9% para alta de 2,1%.

“Para os economistas, a inflação foi um dos maiores freios ao consumo. Segundo Rafael Bacciotti, analista da Tendências Consultoria Integrada, a alta dos alimentos, que ficaram em média 13,99% mais caros nos últimos 12 meses encerrados em abril, é um dos principais freios: ‘Principalmente a alta dos preço dos alimentos restringe muito o poder de compra.’” (Nice de Paula, Clarice Spitz e Henrique Gomes Batista, O Globo, 30/5/2013.)

* E o Banco Central, depois de muitos meses, resolve combater a inflação

“O Banco Central escolheu combater a inflação a tentar preservar o crescimento que, durante o dia, teve um número decepcionante. Foi uma atitude corajosa que provocará muitas críticas dos empresários e dentro do governo, mas o que está derrubando o PIB é a inflação. Esse foi o entendimento. O PIB começou o ano crescendo, mas num ritmo abaixo do previsto. Apesar disso, a inflação tem estado alta, resistente e espalhada.

“Há fatores que vão derrubar a inflação nos próximos meses, mas há pontos que podem complicar, como, por exemplo, o dólar, que ontem subiu bastante. A economia americana em recuperação, com redução dos estímulos monetários, pode mesmo produzir mais inflação. De qualquer maneira, o que o BC quis deixar claro é que tem autonomia para lutar contra a alta de preços e quer que a queda de preços no atacado seja repassada ao varejo. A decisão unânime fortalece ainda mais a instituição.

“A decisão acontece num dia difícil. O PIB divulgado pelo IBGE ficou abaixo do que o governo gostaria, o mercado previa, e o BC tinha calculado. A economia brasileira parece um carro sem potência tentando subir uma ladeira. Os dados dos trimestres anteriores mostram isso. (…)

“A taxa de investimento, como proporção do PIB, foi a mais baixa para um primeiro trimestre desde 2009, em 18,4%. A taxa de poupança é a menor desde 2003, em 14,1%. Esse é o resultado de anos de política econômica que deu prioridade ao consumo e criou instabilidade regulatória para as empresas. Mas a maior das incertezas é a inflação. Ela reduz o consumo e dificulta o planejamento das empresas. Foi isso que levou o BC a acelerar a alta de juros para 8%.” (Míriam Leitão, O Globo, 30/5/2013.)

Eles ainda não aprenderam que não se segura inflação a laço

* O uso político de tarifas públicas sempre dá errado. Os paulistanos vão pagar por ele

“O anúncio da nova tarifa dos três meios de transporte coletivo da capital paulista – ônibus, metrô e trem -, que vai vigorar a partir do dia 2 de junho, deixou bem claro o caráter predominantemente político desse aumento. Ela passa de R$ 3,00 para R$ 3,20, um reajuste de 6,7%, muito abaixo da inflação no caso do ônibus, serviço gerido pela Prefeitura, cujo índice acumulado desde o último aumento foi de 14,4%. No caso do metrô e do trem, estes de responsabilidade do Estado, a diferença foi menor (inflação de 7,2%). Os paulistanos terão a ilusão de que estão sendo favorecidos, mas acabarão por perceber que não existe nada de graça e eles é que, de uma forma ou outra, pagarão a conta desse artifício.

“Por interferência direta do governo federal – que com isso tenta conter a escalada da inflação e favorecer a reeleição da presidente Dilma Rousseff -, o prefeito Fernando Haddad concordou com um aumento irreal, que deveria ficar entre R$ 3,20 e R$ 3,30. Constrangido, o governador Geraldo Alckmin teve de aceitar também a proposta. Se não o fizesse, pagaria um preço político alto, pois certamente seria apontado como o responsável pela adoção impopular de uma tarifa maior.

“Para forçar a opção pelo valor mais baixo, de R$ 3,20, o governo federal prometeu editar Medida Provisória suspendendo a cobrança de dois impostos – PIS e Cofins – sobre a tarifa de ônibus, metrô, trens e barcos. Como isso não pode ser feito apenas para esta ou aquela cidade isoladamente, ela atinge todo o País. Essa renúncia fiscal, portanto, é parte do preço a pagar para evitar que o aumento realista das tarifas de transporte coletivo nas capitais, a começar por São Paulo, que tem um peso grande no índice inflacionário, prejudique projetos eleitorais. O alvo não é domar a inflação – com o que toda pessoa sensata estaria de acordo -, mas abrir caminho para as ambições políticas da presidente e seu partido.

“Essa intenção já tinha ficado evidente, quando o governo federal interveio com êxito junto a Haddad e Alckmin, meses atrás, para conseguir deles o adiamento do reajuste daquela tarifa, normalmente feito em janeiro ou fevereiro, para junho. Não contente, agora ele resolveu jogar mais pesado e novamente obteve o que queria. O prejuízo, que tinha sido grande com o dinheiro que deixou de entrar por causa do adiamento, ficou ainda maior com o aumento abaixo da inflação.

“Os cálculos feitos pela própria Prefeitura, como mostra reportagem do Estado, indicam que a conta vai ser salgada. Os subsídios ao serviço de ônibus devem chegar a R$ 1,25 bilhão este ano, valor que é o dobro do previsto no orçamento. Maior também do que o que foi pago no ano passado – R$ 960 milhões. Esse dinheiro vem dos impostos, ou seja, os bilionários subsídios aos ônibus serão pagos por todos os paulistanos, não apenas pelos que usam esse meio de transporte. Com a agravante de que o serviço prestado pelas empresas concessionárias é, notoriamente, de péssima qualidade.

“Outro aspecto negativo do aumento considerável dos subsídios, provocado pelo reajuste irreal da tarifa, é que, como esse dinheiro não cai do céu, ele terá de ser tirado de outros setores da administração. A capacidade de investimento da Prefeitura, que já está muito abaixo das necessidades, como não se cansa de reclamar o atual governo, sofrerá novo baque, de algumas centenas de milhões de reais. Embora os dois tenham sido envolvidos na manobra eleitoral da presidente, a ênfase vai para o prejuízo da Prefeitura, porque ele é maior que o do Estado.

“O uso político de tarifas de serviços públicos sempre dá errado. O ex-prefeito Gilberto Kassab também congelou a tarifa de ônibus por mais de dois anos, com objetivos eleitorais, com as mesmas consequências de agora, e sofrendo de seus adversários – nesse caso com toda razão – as mesmas críticas.

“Essa lição, apesar de tão recente, não foi aprendida. Haddad, pressionado pela presidente Dilma, e Alckmin, constrangido pelos dois, estão repetindo o erro, pelo qual, é claro, os paulistanos vão pagar.” (Editorial, Estadão, 25/5/2013.)

* Para manter artificialmente baixa a tarifa de ônibus, Prefeitura de São Paulo gastará R$ 1,25 bilhão

“O aumento da passagem de ônibus de R$ 3 para R$ 3,20, divulgado anteontem (22/5), ficou bem abaixo da inflação (que foi de 14,4% desde o último aumento, em 2011) porque a Prefeitura pretende gastar R$ 1,25 bilhão do Orçamento da cidade no chamado subsídio do sistema. Diante disso, o Estado levantou, com a administração e com especialistas, razões para explicar por que o subsídio é tão caro.

“1. Integração. A idéia do bilhete único é cobrar a mesma tarifa tanto para quem usa um só ônibus quanto para quem usa até três. Na prática, essa conta não fecha porque passageiros que fazem percursos maiores consomem mais combustível e tempo de serviço do motorista, por exemplo. ‘Se não fosse assim, as pessoas que moram mais longe – e são as menos favorecidas – pagariam mais’, diz a arquiteta Klara Kaiser Mori, especialista em planejamento de transportes da FAU-USP. Com quase 3 bilhões de viagens feitas por ano, em média, o dinheiro da venda de passagens não dá para bancar a integração.O subsídio completa a diferença.

“2. Benefícios. As planilhas que a Prefeitura enviou ontem à Câmara Municipal para justificar o aumento da passagem mostram que o preço exato da passagem teria de ser de R$ 4,13. Mas não são todos os passageiros que pagam a tarifa. ‘Na conta, cada cem estudantes (que pagam meia) geram a mesma receita de 50 passageiros de tarifa cheia’, diz o diretor de Gestão Econômico-Financeira da SPTrans, Adauto Farias. O subsídio completa a passagem de quem recebe os benefícios – cerca de um terço do total de passageiros.

“3. Equilíbrio. Outro fator é a remuneração para os empresários de ônibus. Os recursos precisam tentar equilibrar as diferenças de dentro da cidade. ‘A tarifa única é uma média. Se fôssemos remunerar as empresas de forma igualitária, algumas regiões iriam à falência’, explica Farias. É que cada bairro tem suas características. Uns têm mais trânsito, outros têm menos passageiros, e o subsídio é usado para equilibrar as contas.

“4. Desperdício. O trânsito, por si só, faz todo mundo perder dinheiro. Estudo da Fundação Getúlio Vargas, divulgado na semana passada, mostrou que o custo é de R$ 40 bilhões por ano em São Paulo, entre combustível e tempo perdidos nas filas. Se circulassem em corredores exclusivos, sem interferências, os ônibus gastariam menos dinheiro porque o desperdício de insumos seria menor. E os custos para operar também.

“5.Tempo. Presos no trânsito, os ônibus deixam de ser atrativos. No ano passado, o sistema deixou de transportar 24 milhões de passageiros na comparação com 2011. Mas as empresas têm de manter o mesmo número de veículos circulando. Com menos bilhetes vendidos, o subsídio tem de ser maior para que as contas fechem.” (Bruno Ribeiro, Estadão, 24/5/2013.)

A maior base aliada da História, articulação política zero

* “Não dá para imaginar traço de espírito público nas relações entre este governo e os partidos que o apóiam. Não pode dar certo”

“Porque se sustenta apenas sobre o terreno cediço das conveniências do varejo político, a mastodôntica base de apoio governista no Congresso Nacional vive criando problemas para o Palácio do Planalto, com demonstrações reiteradas de que o ‘presidencialismo de coalizão’ de que o lulo-petismo tanto se orgulha acabou criando um aparentemente admirável, mas, na verdade, frágil gigante com pés de barro.

“Como resultado, a governabilidade, em nome da qual há 10 anos se fazem todos os tipos de concessão ao que a política tem de pior, esvai-se pelo ladrão.

“Ilustra essa deplorável realidade a decisão do principal aliado do governo, o PMDB, de colocar mais um cravo na coroa de espinhos de Dilma Rousseff, ainda mal refeita dos sobressaltos que o mesmo aliado lhe impôs, dias atrás, na votação da Medida Provisória dos Portos. Desta vez, o PMDB comandou, na Câmara dos Deputados, a apresentação do requerimento de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar irregularidades na Petrobrás.

“Dois terços da bancada de 82 peemedebistas assinaram o pedido. E, com requintes de malícia, o líder do PMDB na Casa, Eduardo Cunha (RJ), absteve-se de subscrever o documento, enquanto o presidente nacional da legenda, senador Valdir Raupp (RO), declarava-se ‘surpreso’ com a adesão em massa de seus correligionários à iniciativa.

“Não é que a Petrobrás não esteja realmente merecendo uma atenta investigação sobre seu funcionamento desde que o presidente Lula a transformou em poderoso instrumento do projeto petista de perpetuação no poder.

“A crônica da economia brasileira na última década está repleta de exemplos de como a maior estatal do País se tornou uma arma da propaganda lulo-petista, frequentemente ao arrepio de seus próprios interesses empresariais. Toda a Nação se recorda do espalhafatoso anúncio da conquista da ‘autossuficiência’ em petróleo – e das sucessivas quedas da produção, que fizeram da empresa grande importadora de derivados.

“A CPI agora proposta se destina a apurar a venda de ativos da Petrobrás no exterior. Mas ninguém deve se iludir com a possibilidade de que eventuais irregularidades nessa ou em qualquer outra área de atuação da estatal venham a ser investigadas. O pedido de criação dessa CPI não é para valer. Há pelo menos mais 10 requerimentos relativos a outras CPIs na frente deste, o que significa que a votação do pedido pode ser tranquila e indefinidamente postergada, ao sabor das conveniências políticas do comando da Câmara, que está nas mãos do PMDB. E é claro que Dilma Rousseff já entendeu claramente o recado.

“O partido de Michel Temer, José Sarney, Renan Calheiros, Henrique Alves e Sérgio Cabral, depois de ter abrigado, em suas origens, um amplo arco de democratas empenhados no combate ao regime autoritário que se instalou no País por mais de 20 anos, acabou se transformando, depois da redemocratização, em legenda a serviço dos governantes de turno, e hoje tem ojeriza aos ônus da oposição. Assim, a ameaça de criação da CPI da Petrobrás é, nas palavras de um parlamentar do partido, ‘mais uma demonstração de insatisfação da base’. E explicou: ‘Como é que vamos segurar a base, se você não a atende?’.

“A existência de uma base parlamentar de apoio ao governo tão sólida quanto possível é, mais do que compatível com regimes democráticos, indispensável à sua estabilidade. Mas alianças políticas, mesmo não dispensando um inevitável quinhão de fisiologismo, devem ser construídas sobre bases mais consistentes do que o mero toma lá dá cá. Alianças políticas duradouras se fazem em torno de propostas, de programas de governo resultantes de um consenso mínimo entre os aliados. Assim, mesmo sabendo que para conquistar e se manter no poder Lula e o PT ‘flexibilizaram’ sem nenhum constrangimento suas mais arraigadas convicções políticas, é realmente muito difícil de imaginar algum traço de espírito público nas relações entre este governo e os partidos que o apoiam. Não pode dar certo.” (Editorial, Estadão, 26/5/2013.)

* “A administração federal se esfarela a olhos vistos”

“A verdade irretocável é que a administração federal se esfarela a olhos vistos, em larga medida – já não bastassem os seus vícios estruturais – pela forma como a presidente funciona. O seu, digamos, estilo de gestão é um entrave ao desempenho, que já não é lá essas coisas, de sua equipe. Centralizadora, obsessivamente detalhista, Dilma quer saber de tudo e nada delega. Trata os subordinados com uma rudeza que inibe as aptidões que possam ter. ‘Todo mundo morre de medo dela’, disse ao Valor um alto executivo, familiarizado com os bastidores do Planalto, ecoando o que é voz corrente em Brasília. Um auxiliar da própria Dilma lembra que, depois de um primeiro ano de mandato praticamente perdido, ela fez saber, na primeira reunião ministerial de 2012, que governaria ‘como uma prefeita’ e anunciou o monitoramento de todos os programas do Executivo. Ela ‘questiona, pede correções, reorienta’, descreve a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Faltou dizer que isso faz os dias durarem 48 horas.

“Parece uma forma perversa de compensar a falta de um atributo que muda de figura o exercício do poder: a aptidão para liderar. Cada qual a seu modo, Fernando Henrique e Lula da Silva lideraram os seus governos. No ano que vem, se o legado do petista for pouco para dar a Dilma o segundo mandato, sobrará para ele, em pessoa, a missão de reeleger o ‘poste’. (Editorial, Estadão,  28/5/2013.)

A infra-estrutura em frangalhos

* Rodovias para o Porto de Santos voltam a ficar congestionadas

“As rodovias que dão acesso ao Porto de Santos (SP), o maior do país, voltaram ontem (24/5) a ter longas filas de caminhões que tentavam chegar ao terminal. De acordo com a concessionária EcoVias, por volta das 8h da manhã o congestionamento chegou a 11 quilômetros na rodovia Cônego Domênico Rangoni, que leva aos terminais da margem esquerda, no Guarujá.

“Na Via Anchieta, que dá acesso aos terminais da direita, em Santos, o congestionamento chegou a seis quilômetros.

“Para reduzir os transtornos nas estradas locais, desde abril o Porto de Santos passou a funcionar 24 horas por dia. E há duas semanas foi inaugurado um viaduto que permite aos caminhões chegar aos terminais da

margem esquerda sem ter que cruzar a linha férrea. Medidas aparentemente insuficientes para eliminar os gargalos logísticos.” (Ronaldo D’Ercole, O Globo, 25/5/2013.)

* O governo já começa a procurar culpados por um eventual desastre na Copa, e o TCU tem sido há tempos o vilão preferencial

“O Brasil está a poucos dias do primeiro dos grandes eventos esportivos que colocarão à prova a capacidade do País de receber bem milhares de visitantes. A Copa das Confederações, de 15 a 30 de junho, é considerada apenas um ‘teste’ para a Copa do Mundo, de 12 de junho a 13 de julho do ano que vem, porque deverá atrair somente uma fração dos esperados 600 mil turistas estrangeiros no Mundial. Ainda assim, já há motivos para muita preocupação, porque o próprio governo federal, tão afeito a malabarismos retóricos para negar a realidade, acaba de admitir que é pequena a capacidade de investimento na infra-estrutura dos aeroportos e, por isso, suas reformas estão bastante atrasadas.

“No caso do Galeão, por exemplo, foram gastos em dois anos somente cerca de 5% do que estava disponível, conforme informou o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco, no seminário ‘Desafios da Aviação Civil no Brasil’, promovido pela Câmara dos Deputados. Moreira Franco disse que há atrasos nas obras da maioria dos 23 aeroportos incluídos no Programa de Aceleração do Crescimento. São reformas que estão sob responsabilidade da Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero), porque os aeroportos em questão são todos administrados pelo Estado. Nessa lista estão aeroportos de cidades-sede da Copa de 2014, um indicativo de que haverá muita correria nos próximos meses para respeitar o cronograma.

“‘Não existe plano B, só plano A’, disse Moreira Franco. ‘A Copa está com o calendário definido e todos os esforços precisam ser feitos para cumprir os prazos.’ Considerando-se que a escolha do Brasil para sediar a Copa foi feita em 2007 e que o calendário da competição foi anunciado em 2011, não é possível falar em surpresa ou em imprevisto, mas apenas em incompetência.

“Na opinião de Moreira Franco, os problemas nas reformas dos aeroportos não se devem à falta de recursos, mas a projetos ‘de baixa qualidade’. O ministro responsabilizou diretamente o Tribunal de Contas da União (TCU) pelo problema. Segundo sua lógica, o TCU, ao barrar projetos que preveem custos considerados muito altos, acaba obrigando o poder público a buscar alternativas mais baratas, mas que não são, necessariamente, as melhores. ‘Temos de entender que gastar não é pecado. Se quisermos fazer um grande projeto, temos de ter as melhores empresas de engenharia, os melhores projetistas. Só se faz isso gastando’, afirmou o ministro. Com isso, Moreira Franco tenta convencer o País de que o problema é meramente técnico, e não de gestão, e que basta gastar mais para ter resultados satisfatórios. Trata-se de uma falácia.

“O trabalho do TCU é fiscalizar se o gasto previsto em determinada obra pública corresponde ao projeto. Os engenheiros do tribunal – que, segundo Moreira Franco, são mais bem remunerados que seus colegas que trabalham nas reformas do aeroportos – verificam se o edital foi respeitado, se houve aditivos desnecessários e se há irregularidades. A ação do tribunal gera economia – no caso das reformas de portos e aeroportos para a Copa, ela é da ordem de R$ 400 milhões – porque simplesmente se evitou desperdício de dinheiro público, e não porque o TCU tenha feito alguma pressão para que se optasse por serviços mais em conta.

“O fato é que o governo já começa a procurar culpados por um eventual desastre na Copa, e o TCU tem sido há tempos o vilão preferencial – quando era presidente, Luiz Inácio Lula da Silva criticou diversas vezes o tribunal por paralisar obras sob suspeita e chegou a questionar sua credibilidade. Enquanto isso, o governo petista, que vive de marketing, já começou a espalhar pelos aeroportos os adesivos alusivos à sua campanha ufanista ‘A Pátria de Chuteiras’, com mensagens de boas-vindas aos turistas que virão para a Copa das Confederações. Quem sabe se, com a simpatia brasileira patrocinada pelo Ministério do Turismo, os visitantes esqueçam um pouco os dissabores que enfrentarão nos aeroportos.” (Editorial, Estadão, 28/5/2013.)

As obras sempre atrasadas, sempre muito mais caras

* 65% das obras de saneamento estão atrasadas; a loquacidade do governo petista sobre o fim da miséria simplesmente não se sustenta

“Em 2006, o governo petista prometeu, com a fanfarra habitual, que até 2024 todos os brasileiros teriam acesso a saneamento básico. Agora, esse objetivo – que, é bom que se diga, já deveria ter sido atingido há 50 anos – ficou para 2033. E no que depender da agilidade e do empenho do governo, não será surpresa se o prazo for esticado até o próximo século.

“Uma pesquisa do Instituto Trata Brasil mostra que nada menos que 65% das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a construção de redes de coleta e tratamento de esgoto em 18 Estados estavam atrasadas, paralisadas ou nem sequer haviam sido iniciadas até dezembro de 2012.

“O andamento dessas obras segue o padrão geral do PAC – um programa considerado essencial desde o governo Lula e que foi usado na campanha de Dilma Rousseff à Presidência para atestar sua alardeada capacidade gerencial, mas cujos balanços são frequentemente maquiados para disfarçar a lentidão que lhe é característica. Atrasos viram ‘redefinição de prazos’, na peculiar linguagem dos burocratas petistas quando flagrados no pulo. A demora em concluir os projetos de saneamento, no entanto, significa bem mais do que prejuízo financeiro, porque contribui decisivamente para perenizar a pobreza, que se enraíza em ambientes nos quais faltam condições para a manutenção da saúde.

“No caso da primeira fase do PAC, que teve início em 2007, apenas 19 das 112 obras observadas na pesquisa foram concluídas. Já no chamado PAC 2, que começou em 2010, 16 das 26 obras ainda não foram iniciadas. Segundo o Trata Brasil, o governo liberou apenas 47% dos recursos destinados ao PAC 1 e estima que nem metade das obras esteja pronta até 2015. Em relação ao PAC 2, foram liberados cerca de 50% das verbas. No total, estão previstos gastos de R$ 6,1 bilhões nas 138 obras analisadas no estudo.

“O problema, como sempre, não é de falta de dinheiro, e sim de mau gerenciamento, e nesse quesito devem ser incluídos as prefeituras e os governos estaduais. No caso do PAC, os recursos são liberados conforme as obras são executadas; logo, se nem metade das verbas da primeira fase do PAC foi autorizada, é porque simplesmente as obras ‘não andam’, disse o presidente do Trata Brasil, Édison Carlos.

“As explicações para o atraso variam. Há demora na obtenção de licenças ambientais, falhas nas licitações e erros de projeto – que, em alguns casos, são constatados quando a obra já está perto de ser concluída, ampliando o prejuízo, pois os recursos já foram usados e o projeto tem de ser refeito. Um caso crítico é o de Teresina (PI), que tem uma cobertura de rede de esgoto de apenas 17% e cuja obra de ampliação do sistema foi interrompida por erro de concepção.

“Os números mostram também que os atrasos estão se ampliando. No caso do PAC 1, as obras cuja situação é considerada ‘normal’ caíram de 38 para 22 entre 2011 e 2012, ao passo que as obras paralisadas subiram de 32 para 45. Já no PAC 2, o andamento das obras é considerado ‘normal’ em apenas seis casos, e somente uma havia sido concluída. No Sudeste, o porcentual de construções em atraso entre 2011 e 2012 saltou de 16% para 31%, enquanto no Sul passou de 5% para 35% e no Nordeste, de 27% para 41%.

“Os principais atingidos pela demora das obras são os cidadãos que convivem diariamente com o esgoto a céu aberto na porta de casa. ‘Não aguento mais as promessas. Não temos esgoto tratado, água potável. Não temos nada’, disse ao jornal O Globo (18/5) uma moradora de São Gonçalo (RJ) ao falar da estação de tratamento que foi prometida em 2007, mas cujas obras estão com apenas 30% concluídos.

“Diante da constatação de que uma parte considerável dos brasileiros ainda não tem acesso a serviços essenciais, como água tratada e coleta de esgoto, mesmo com todas as promessas de palanque e os slogans marqueteiros, parece claro que a loquacidade do governo petista sobre o fim da miséria simplesmente não se sustenta.” (Editorial, Estadão, 26/5/2013.)

* Obra da Transnordestina nem chegou à metade, mas orçamento quase dobrou

“Com dois anos e meio de atraso, as obras da Ferrovia Transnordestina, uma das grandes promessas do governo Lula, ainda não estão nem na metade, mas o orçamento não para de crescer. Começou com R$ 4,5 bilhões, em 2007; foi reajustado para R$ 5,4 bilhões, em 2010; e acaba de ser revisto para R$ 7,5 bilhões. O detalhe é que o aumento do custo não vai parar por aí: por contrato, o valor é corrigido pela inflação e, segundo pessoas envolvidas no projeto, já estaria em mais de R$ 8 bilhões.

“Embora seja uma obra privada, a Transnordestina nasceu como um projeto para ser executado pelo governo federal. Sem verbas e enrolada na burocracia, a obra nunca saiu do papel e foi repassada como uma missão à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), do empresário Benjamin Steinbruch. Ele já tinha a concessão de uma ferrovia no Nordeste e o direito de operar a nova Transnordestina.

“A estrada de ferro começa no sertão do Piauí e seus 1.728 km de trilhos passarão por cerca de 80 cidades em três Estados, até chegar aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE). Foi desenhada para escoar a produção de novas fronteiras agrícolas da região e incentivar investimentos no semiárido, como exploração de ferro e gesso.

“Ao transferir o projeto para a CSN, a administração federal prometeu financiamentos de bancos e órgãos públicos, como o (BNDES) e o Banco do Nordeste. Por esse motivo, a revisão do orçamento, pleiteada desde 2011, dependia do aval do governo.

“O acordo fechado com a CSN vai além do preço da obra e inclui ainda a prorrogação do contrato de concessão da Transnordestina por mais três décadas, novo prazo para entrega das obras, renegociação de dívidas e a criação de uma nova estrutura empresarial. O Ministério dos Transportes confirmou o acordo, por meio de nota. A CSN não quis se manifestar.

“Além da complexidade de lidar com vários pontos em aberto, as negociações se arrastaram também por causa da irritação da presidente Dilma Rousseff com a CSN. Desde que era ministra da Casa Civil, ela reclamava e ameaçava retomar a concessão por causa dos atrasos nas obras. Na visão da presidente, a CSN fazia corpo mole para forçar a renegociação do contrato. Sem ser atendida, a CSN reduziu o ritmo das obras.

“No início, as obras atrasaram por dificuldades nas desapropriações – que eram responsabilidade dos Estados – e porque as liberações de verbas do governo foram feitas de forma irregular, ditando o ritmo da construção. E o custo do empreendimento estourou porque o orçamento foi feito com base em avaliações irrealistas desde o começo. Os primeiros estudos já apontavam que o valor mais razoável da obra girava em torno de R$ 8 bilhões. Só que o governo pediu mudanças no projeto e reduziu o valor para R$ 4,5 bilhões. É uma repetição do que tem ocorrido com a usina hidrelétrica de Belo Monte, cujo investimento começou com R$ 16 bilhões e já está em R$ 30 bilhões.” (Renée Pereira e David Friedlander, Estadão, 26/5/2013.)

Desordem nas contas públicas

* O governo faz malabarismos para que os números não pareçam com o que realmente são.

“O governo aprova um orçamento inflado, parte de premissas de crescimento econômico que não se realizam. O Congresso eleva essas previsões de arrecadação para incluir as emendas dos parlamentares.

“Há um momento no ano em que os ministros do Planejamento e da Fazenda juntos anunciam os cortes — ou contingenciamentos. O que tudo isso significa? Pouca coisa.

“As emendas são incluídas pelos parlamentares para mostrar para as suas bases que estão trabalhando, embora não pareça, e o governo as corta para dar a impressão de austeridade.

“Em momento de necessidade, o governo pode usar isso como parte da negociação política da liberação. Semana passada, foi encenado esse teatro mais uma vez. Ele é velho, mas o que era antes um fato excepcional, uma exceção, virou o hábito.

“A imprensa registrou este ano que o governo ‘contingenciou’ metade do que no ano passado. Está, portanto, mais gastador.

“O economista Mansueto de Almeida diz que o mecanismo de contingenciamento não permite dizer se o governo está sendo mais ou menos econômico: ‘Tanto é que o gasto público do Brasil aumenta desde sempre, apesar da prática corrente do contingenciamento anual. O que arriscaria a dizer é que desta vez há mais uma prova de que o governo está mesmo abrindo as torneiras.’

“Sobre a antiguidade do instrumento de nome esquisito que, na prática, significa deixar em reserva parte do que o governo está autorizado a gastar, a leitura indicada é a das páginas 145-147 do livro ‘As Leis Secretas da Economia’, de Gustavo Franco.

“Ele lembra que, em um diálogo público entre o poeta Carlos Drummond de Andrade e o economista Eugênio Gudin, a estranha palavra foi o tema central. ‘Com o intuito de exaltar a prosa de boa qualidade de Gudin, o poeta debruçou-se sobre um texto de uma portaria interministerial em que havia a expressão ‘operacionalização do contingenciamento’ e exclamou: que bicho é esse, evadido de que reserva léxica?’

“Assim é o economês com o qual os brasileiros já se acostumaram. Gudin respondeu ao poeta: ‘Nem tudo pode ser claro, um pouco de confusão talvez seja bom no caso’.

“Esse velho diálogo serve perfeitamente para o momento atual. Porque ninguém está interessado em ser claro, do contrário o governo não garantiria que vai cumprir o superávit de R$ 155 bilhões ou 3,1% do PIB. Ele sabe que não vai cumprir.

“Vai descontar os investimentos que forem feitos no PAC, não vai compensar com recursos federais a frustração da meta fiscal dos estados, e ainda vai descontar as desonerações. Essa última decisão é realmente notável.

“O governo desonerou, ou seja, autorizou empresários a não pagarem alguns impostos. Logo, o dinheiro não vai entrar nos cofres públicos. Mas essa não receita será considerada receita.

“Na hora de fazer a conta das despesas e receitas ele não vai descontar esse dinheiro que receberia e não recebeu. Ou seja, é preferível mesmo que bichos evadidos de reservas léxicas exógenas ocupem o diálogo econômico, porque a confusão é providencial.

“Por que o governo não faz simplesmente um orçamento mais realista, já negociando as emendas de parlamentares que são de bons projetos e assim aprova o que de fato será executado?

“Mansueto explica que isso tiraria do governo poder de barganha e aumentaria a transparência da formação da base aliada, a quem ele atende e a quem não atende. A confusão, portanto, é deliberada. ‘Quando o governo faz contingenciamento do Orçamento e libera recursos apenas nos últimos dois meses, não há mais tempo hábil para ser executada a despesa e tudo se transforma nos ‘restos a pagar’’, diz o economista.

“Assim, quando o ano começa, o governo já tem ‘restos a pagar’. Se ele for executar tudo e mais o que estiver orçando para aquele período, não haverá dinheiro que chegue: ‘Neste ano, o investimento aprovado do Orçamento Geral da União foi por volta de R$ 82 bilhões, mas já havia inscrito como restos a pagar algo próximo de R$ 67 bilhões. Como o contingenciamento foi de apenas R$ 28 bilhões, o governo apenas cortou uma parte do que ele não terá capacidade de executar.’

“Todos os governos contingenciam e deixam restos a pagar. Mas este ainda faz malabarismos para que os números não pareçam com o que realmente são. O ideal mesmo é que nada nesse léxico seja claro.” (Míriam Leitão, O Globo, 26/5/2013.)

Tudo errado nas decisões sobre a economia

* Desalentadoras amostras de como o governo administra mal os investimentos

“O noticiário das últimas semanas deixou entrever um quadro desalentador da forma como o País vem administrando seu parco esforço de investimento. Basta ter em conta o mosaico de desacertos que emerge das notícias abaixo.

“Incúria. Seis anos após ter sido iniciado com todas as fanfarras, o projeto de transposição do Rio São Francisco ainda está muito longe do fim. E não é só uma questão de atraso. Reportagem especial sobre a obra (Estado, 19/5) dá conta de um quadro de abandono, longos trechos inacabados, canais de concreto estourados e poucos canteiros de obras ainda em atividade. No biênio 2011-2012 o governo investiu no projeto 35% menos do que tinha sido investido no biênio anterior. E agora promete que ‘os problemas do passado não vão se repetir’, que novos contratos serão assinados em breve, que o que estiver danificado será refeito e que em 2015 a transposição estará concluída e a água do São Francisco poderá afinal chegar às regiões que serão beneficiadas pelo projeto. Mas com base no deplorável padrão de gestão dos últimos anos é pouco provável que esse novo prazo venha a ser cumprido.

“Custos. Os custos de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, vem estourando por larga margem os valores inicialmente orçados (Estado, 12/5). Entre as várias razões para o estouro de custos, num canteiro de obras marcado por relações muito tensas, têm sido mencionadas as sucessivas interrupções das atividades em decorrência de invasões de índios e paralisações promovidas pelos trabalhadores. As grandes construtoras vêm-se queixando também da baixa produtividade do trabalho. Alegam que, ao contrário do que se deveria esperar, tendo em vista a intensidade da inovação tecnológica e da mecanização observada nas últimas décadas, as obras de construção pesada têm exigido mais mão de obra do que no passado. Arguem que obras similares, feitas há mais de 30 anos, requeriam um contingente de mão de obra 30% menor do que hoje se faz necessário (Estado, 15/5). São alegações intrigantes que merecem análise mais detida.

“Esferas. Na semana passada, por determinação judicial, a Petrobrás viu-se obrigada a interromper as obras do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), gigantesco projeto iniciado em 2008 com previsão de investimento de mais de US$ 8 bilhões. Um juiz federal de Itaboraí havia acolhido uma ação que contestava a suficiência da emissão de licenças ambientais na esfera estadual e arguia que um órgão federal, o Ibama, teria de se ter pronunciado sobre o projeto. Com a interrupção, 15 mil trabalhadores tiveram de voltar para casa. As obras só puderam ser restabelecidas dias depois, quando a Petrobrás conseguiu decisão cautelar da Justiça (Estado, 16 e 18/5).

“Prioridades. Mobilizado com a reeleição, o governo agora se deu conta de que pouco ou nada fez nos últimos dez anos para enfrentar a vergonhosa carência de saneamento básico que ainda se vê no País. Cerca de metade da população não tem acesso à rede de esgoto. Como, no plano das ações, não há mais tempo para providências concretas, o governo resolveu mostrar-se preocupado com o problema no plano das intenções. A presidente pretende anunciar em junho, com o alarde de praxe, um amplo programa de investimento em saneamento básico (Estado, 15/5). A idéia é prometer universalização do serviço até 2033. Isso mesmo, daqui a 20 anos. Tempo suficiente para que uma menina de 7 anos, que hoje brinca no esgoto a céu aberto, ainda possa ver sua filha, com a mesma idade, na mesma situação. Causa espanto que um governo que alega representar os interesses das classes mais desfavorecidas entenda que, após tanto tempo de descaso, a universalização de serviços de saneamento ainda possa ser adiada por mais 20 anos. Mas a verdade é que Brasília tem outras prioridades. Basta lembrar a lamentável fixação do Planalto no projeto do trem-bala, roseamente orçado, por enquanto, em nada menos que R$ 35 bilhões.”  (Rogério L. Furquim Werneck, economista, Estadão e O Globo, 24/5/2013.)

* O governo faz como no filme Fargo: erra, aí tenta consertar o erro e erra muito mais, e erra de novo, e torna a errar

“Acostumado a escrever torto por linhas tortas, o governo federal, incapaz de combater a inflação por métodos sérios, convenceu o governador paulista e o prefeito de São Paulo a limitar o reajuste, já com atraso, das tarifas de trens, metrô e ônibus. Já havia feito isso, no começo do ano, quando a alta de preços acumulada em 12 meses furava o limite de tolerância, 6,5%. Agora, o aumento nominal nem de longe acompanha a inflação, mas a perda será atenuada com a suspensão da cobrança de PIS/Cofins sobre o transporte coletivo. A medida valerá para todo o País, em mais uma improvisação.

“Cortar tributos pode ser muito bom para consumidores e empresas, mas só um governo irresponsável e trapalhão age dessa forma. É mais uma demonstração de como os erros tendem a amontoar-se e a gerar mais distorções quando as pessoas preferem cuidar dos problemas pelo facilitário. (…)

“No Brasil, o alto nível de emprego e a expansão da massa de rendimentos têm resultado em maiores importações, porque a política oficial, embora o governo afirme o contrário, tem estimulado muito mais o consumo que a produção. A capacidade produtiva continuará baixa por alguns anos, porque o investimento, mesmo com alguma expansão em 2013, permanece inferior a 20% do produto interno bruto (PIB). Com isso o potencial de crescimento sustentável dificilmente passará de 3,5% ainda por alguns anos. Se nada mudar para valer, continuarão as pressões inflacionárias e a deterioração das contas externas, Mantidos os vícios, o governo continuará improvisando remendos tributários e intervindo nos preços, inspirado, talvez, pelo exemplo argentino, mas sem condições políticas de falsificar estatísticas e controlar o varejo.

“Os governos argentino, brasileiro e venezuelano têm seguido um roteiro comum, abandonado por outros países da região. A linha básica é a do filme Fargo, dos irmãos Coen. Um vendedor de carros em apuro financeiro contrata dois bandidos para forjar um sequestro de sua mulher. O plano é pedir ao sogro um resgate de US$ 1 milhão. O plano dá errado, ocorrem três mortes e cada nova mentira para contornar a burrada complica a situação. É um tratado notável de política econômica.” (Rolf Kuntz, Estadão, 29/5/2013.)

* Dilma parece supor que o empresário privado trapaceia e, para conter sua ganância, cabe ao governo decidir por ele. Assim não há quem queira investir

“A presidente Dilma Rousseff quer e precisa que o investimento – público e privado – prospere, ganhe força e se multiplique. Para isso, reduziu a taxa de juros Selic; distribuiu incentivos fiscais para indústrias escolhidas; desonerou a folha de pagamento de 42 setores de empresas; lançou uma política industrial e de investimento com o Plano Brasil Maior; criou inúmeros programas de crédito subsidiado no BNDES, alguns até com juros negativos de 2,5% ao ano; e, na linha de mostrar ao mundo a potência do ‘Brasil grande’, fez do BNDES sócio de empresas que se tornariam campeãs nacionais, players globais que, em seus segmentos, dominariam o mercado mundo afora. Por fim, Dilma ainda cedeu à privatização, prometendo entregar para empresas privadas a exploração de portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, geração e transmissão de energia.

“Com tudo isso, nosso raquítico Produto Interno Bruto (PIB) cresceu só 2,7% em 2011, caiu para 0,9% em 2012 e, para 2013, as estimativas começaram em 4,5%, desabaram para 3,5% e, agora, para 3% ou até abaixo disso. Com tudo isso, nossa taxa de investimento – que precisa chegar a pelo menos 25% do PIB para garantir crescimento econômico contínuo – recuou de 19,5%, em 2010, para 19,3%, em 2011, e 18,1%, em 2012.

“Há algo esquisito que fez frear, em vez de acelerar, investimentos produtivos nestes dois anos e cinco meses de governo Dilma. Algo muito esquisito, que deveria levar a presidente a refletir e indagar por quê. Toda essa hiperatividade, essa profusão de ações de estímulo, resulta em queda do investimento? Afinal, o que está havendo? Por que não dá certo? O que está emperrando?

“O ex-ministro Delfim Netto, conselheiro dos governos Lula e Dilma, identifica o problema no que chamou de ‘uma relação desconfortável de desconfiança mútua entre o setor privado e o governo’, em artigo publicado há dias no jornal Valor Econômico. Antes, Delfim já havia criticado o modelo de licitações de projetos de infra-estrutura: ao definir e tabelar o lucro do negócio o governo afasta, em vez de atrair, investidores privados. Mas os conselhos do conselheiro não têm sido acatados pela presidente.

“Delfim tem razão nas duas vezes. Dilma Rousseff sempre viu os empresários como ‘classe dominante’, portanto, inconfiável. Desde 2003, quando ainda era ministra de Minas e Energia, ela manifestava esse sentimento nas reuniões do setor elétrico: considerava mentirosos os números levados pelas empresas. Na época, os investimentos pararam à espera das novas regras da ministra. Dez anos de experiência em posições de comando de uma economia capitalista privada e o fantasma da ‘classe dominante’ continua presente.

“O modelo de licitação das rodovias é sintomático. Em vez de criar regras inteligentes e atrativas para acirrar a disputa no leilão e deixar por conta dos consórcios definirem a menor taxa de lucro, o governo a engessou e fixou-a em 5,5%. Resultado: interesse zero do setor privado, o que levou Dilma a recuar, elevando a taxa de remuneração, mas sem abrir mão de fixá-la.

“Dilma parece partir da convicção de que empresário privado trapaceia, engana, não joga limpo e, para conter sua ganância, cabe ao governo decidir por ele. E descarta conceber regras que tornem possível obter resultados até melhores deixando fluir a livre concorrência, a disputa entre eles para vencer o leilão – modelo bem-sucedido no passado e adotado no mundo inteiro.

“Por sua vez, o empresário também desconfia do governo. Desconfia da competência da equipe econômica, de mudanças de regras no meio do caminho que prejudiquem seu negócio, acha que a presidente intervém com enorme frequência na economia privada, criando incertezas que impedem o planejamento de longo prazo das empresas. Alguns desistem do investimento, outros engavetam seus planos e esperam, poucos arriscam. Por isso nossa taxa de investimento caiu nos dois primeiros anos de governo Dilma, mesmo com o BNDES emprestando dinheiro barato.

“A decepção com os investimentos é reconhecida mesmo dentro do governo. Em entrevista ao Broadcast (serviço em tempo real da Agência Estado), o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), senador Lindbergh Farias (PT-RJ), afirmou: ‘Vou insistir muito para tentar salvar esta reforma do ICMS, porque, sinceramente, já há um clima de paralisação de investimentos e os empresários não vão investir se não tiver uma definição muito clara sobre isso’.

“Apesar disso, não há nenhum movimento para mudar o que está errado. Pelo contrário, a cada resultado econômico ruim, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, entra em cena descrevendo o melhor dos mundos: ‘A economia vem mostrando reações positivas aos incentivos que criamos e vai continuar mostrando com mais força’, repete, como se habitasse outro país.” (Suely Caldas, Estadão, 26/5/2013.)

* “A presidente se mete em tudo e se dedica a despachar intervenções pontuais destinadas a corrigir distorções que provocam novas distorções

“O Brasil está mesmo perdendo o bonde do desenvolvimento? Esta foi, em síntese, a advertência feita por editorial do dia 19 do Financial Times, um dos mais importantes diários de Economia e Negócios do mundo. Foi, também, o tema central do rico debate que foi ao ar neste fim de semana no Globo News Painel, conduzido pelo antenado âncora William Waack.

“O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, do Instituto de Economia da Unicamp, observou que o governo brasileiro perdeu a capacidade de coordenar a agenda de crescimento e de investimentos do setor privado.

“Para o professor Samuel Pessoa, da Fundação Getúlio Vargas, o problema está no fato de que, uma vez esgotado o modelo nacional desenvolvimentista, em que o Estado tomava a iniciativa de induzir o desenvolvimento, a sociedade decidiu se voltar à formação do Estado do bem-estar social. A prioridade deixou de ser o crescimento e passou a ser a distribuição de renda.

“Este é um debate que começou no governo Médici, quando o então poderoso ministro da Fazenda Delfim Netto declarou, para espanto geral, que não se pode comer o bolo antes de produzi-lo. De maneira a justificar a não recondução de Delfim ao comando da economia, o então presidente Geisel disse nos anos 70 que o bolo tem de ser distribuído ao mesmo tempo que é produzido.

“Hoje, a administração Dilma está exposta à corrosão. Não consegue entregar um razoável crescimento econômico, enfrenta inflação acima do tolerável e começa a assistir à deterioração das contas externas – como analisou o professor Eduardo Giannetti da Fonseca, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

“Consequência da política adotada, de distribuir um bolo maior do que aquele que vai sendo produzido, na medida em que exige crescente importação de poupança, que vai para o consumo. Enquanto isso, o investimento continua parado, à altura dos 18% do PIB, nível de longe insuficiente para garantir um crescimento sustentável, de 3% ou 4% ao ano.

“Samuel Pessoa tem razão quando afirma que, ao adotar um modelo distributivista, os governos Lula e Dilma desmontaram o pouco do sistema que buscava institucionalizar mecanismos (sobretudo pelas agências reguladoras) que transferissem para o setor privado a capacidade de investir e de desenvolver o País.

“Nos anos 80, a economia mundial iniciou a formação de uma rede global de produção e suprimentos, na qual as indústrias de todo o mundo procuraram se inserir. Mas o Brasil não se empenhou em se incorporar no processo. Continua sendo uma economia fechada, com uma indústria pouco competitiva.

“Enquanto isso, a presidente da República se mete em tudo e se dedica a despachar intervenções pontuais destinadas a corrigir distorções que, no entanto, provocam novas, como é o caso das desonerações setoriais iniciadas em 2012.

“Uma das maiores esperanças do País, as riquezas do pré-sal, que só podem ser arrancadas do subsolo a altos custos, estão agora ameaçadas pela revolução do gás nos Estados Unidos. É o fato novo, que promete energia e insumos a baixos preços, fator que ameaça alijar boa parte da indústria brasileira do mapa econômico mundial, se uma drástica mudança de rumos não for decidida já.

“Quando havia bondes, quem perdia um esperava pelo seguinte. Como não há mais, tudo fica mais complicado.” (Celso Ming, Estadão, 28/5/2013.)

A desorientação na área de energia

* A Petrobrás admite erros graves de planejamento. Apenas um deles deu um prejuízo de mais de U$ 1 bilhão

“A presidente da Petrobrás, Graça Foster, admitiu ontem (23/5), em audiência pública na Câmara dos Deputados, que a estatal não adquiriria, hoje, a Refinaria de Pasadena, no Texas. Deu mais um passo rumo ao reconhecimento de que a aquisição da refinaria, na gestão Gabrielli, por US$ 1,18 bilhão, foi uma operação injustificada. Mais cedo ou mais tarde, a Petrobrás poderá ser obrigada a esclarecer o mau passo – por exemplo, caso se instale a CPI subscrita por 199 parlamentares, e se o tema for corretamente levantado pela oposição.

“A Refinaria de Pasadena foi adquirida em 2006 por uma trading belga (Astra/Transcor) por apenas US$ 42,5 milhões e revendida à Petrobrás, em 2007, por quase 30 vezes mais. No balanço do quarto trimestre de 2012 a estatal reconheceu uma perda de US$ 465 milhões e retirou a refinaria da lista de ativos que seriam postos à venda. Hoje, para não ter mais prejuízo, Pasadena precisa de mais recursos, diz Foster.

“Nas últimas semanas, graças à comunicação mais clara de sua presidente, a Petrobrás recuperou um pouco seu valor de mercado e volta a atrair investidores. Não teve dificuldades para colocar US$ 11 bilhões no exterior, dos quais US$ 5 bilhões serão empregados no pré-pagamento de dívidas mais caras. Mas os recursos são uma fração dos investimentos de US$ 236,7 bilhões previstos no quinquênio 2013/2017.

“A Petrobrás já admitiu outros erros graves de planejamento, como na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, em que o custo inicial de US$ 2,5 bilhões foi multiplicado por sete (US$ 17,35 bilhões).

“Agora começa a desfazer-se de ativos não estratégicos, em especial no exterior, ao mesmo tempo que procura corrigir as falhas operacionais que levaram à estagnação da produção, há já quatro anos.

“O que se deve discutir, tanto no caso da Petrobrás como em grande parte dos investimentos comandados pelo setor público, é a qualidade do planejamento e o custo dos investimentos. O melhor caminho para saber se as previsões são realistas é verificar quanto custaram projetos semelhantes feitos por outras empresas ou entes públicos. O Brasil não é exceção em obras caríssimas.

“Mas é possível identificar referências, obter estatísticas sobre o que ocorreu em projetos semelhantes e fazer planejamento realístico. Executivos privados – ou governos – costumam subestimar custos e superestimar receitas. Bancos de dados geridos por órgãos independentes poderiam ajudar a evitar erros.” (Editorial, Estadão, 24/5/2013.)

* Documentos internos da Petrobrás indicam que houve uma série de erros na compra de refinaria texana que deu prejuízo de mais de US$ 1 bilhão

“Documentos internos da Petrobrás sobre a compra da refinaria de Pasadena (EUA) pela estatal, obtidos com exclusividade pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, sugerem uma série de falhas por parte dos gestores da companhia na confecção do negócio. As decisões fizeram com que a Petrobrás pagasse US$ 1,18 bilhão pela compra da refinaria que, oito anos antes, valia US$ 42,5 milhões. E, no fim da aquisição, no ano passado, valia quase um décimo do que foi pago.

“Os documentos mostram que a Petrobrás se comprometeu a vender, por 15 anos, petróleo a um preço que garantisse aos belgas um retorno mínimo no negócio de 6,9% ao ano, já excluindo taxas e impostos. Ou seja, em caso de cenário adverso, o que posteriormente acorreu, a estatal ficaria com o ônus e teria de vender petróleo à sócia por preço fora de mercado.

“Também sugerem que a Petrobrás pagou duas vezes pelos estoques da refinaria, estimados em US$ 170 milhões. A companhia também assumiu praticamente sozinha o risco do negócio, oferecendo benesses desproporcionais à sócia belga, a comerciante (trading) de energia Astra/Transcor, com quem repartia o negócio. Ofereceu, por exemplo, um direito de retirada em que a estatal seria obrigada a comprar os 50% da Astra em condições favoráveis.

“A presidente da Petrobrás, Graça Foster, passou seis horas quase ininterruptas na quarta-feira (22/5) prestando esclarecimentos na Câmara de Deputados. O convite para ir a Brasília teve como motivação o escândalo da compra da refinaria, revelado pelo Broadcast em julho de 2012, após a estatal fechar a aquisição de 100% do ativo.

“Na quinta-feira (23/5), 199 deputados, a maioria do PMDB e partidos da base aliada, assinaram requerimento para protocolar pedido de instauração de uma CPI da Petrobrás. O movimento foi freado pelo presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB/RN). Para ele, Graça já prestara os esclarecimentos e não havia fato determinado para justificar a CPI. Procurada pela reportagem, a Petrobrás afirma não ter identificado ‘falha no contrato’.

“Mas a análise do contrato de compra da refinaria e do acordo de acionistas com a Astra mostra que ainda há muitas questões sem reposta. E que, mais do que azar em relação ao momento da compra – um dos argumentos da Petrobrás para explicar o prejuízo -, houve uma série de falhas por parte dos gestores na elaboração do negócio. Autoridades e parlamentares investigam o caso, querem entender se houve má gestão ou má-fé no negócio. Ou motivação política.

“Graça reconheceu que a Petrobrás não teria investido no ativo caso tivesse as informações de que dispõe hoje. A crise de 2008, um fato inesperado, reverteu o quadro e transformou o cenário de refino, disse ela.

“Mesmo críticos ferrenhos do negócio concordam com a análise de Graça. O momento era de alta e inflou o preço da compra.. Porém, não a ponto de explicar os US$ 820 milhões pagos num acordo extrajudicial há um ano.

“Fontes ligadas ao negócio dizem que o acordo foi inicialmente feito pela área Internacional da Petrobrás, sem conhecimento de detalhes pelo conselho de administração, na época presidido pela então ministra Dilma Rousseff. A disputa Petrobrás versus Astra foi para arbitragem, e se aprofundou em 2009, quando o conselho já tinha conhecimento do conteúdo do acordo.

“Em abril de 2009, o processo arbitral determinou que a Petrobrás pagasse US$ 639 milhões aos belgas. A Petrobrás não cumpriu a decisão. Em 2010, outra corte confirma a determinação, a petroleira tampouco pagou. Em junho de 2012, a Petrobrás anunciou o acordo extrajudicial em que arcaria com US$ 820 milhões para encerrar a disputa e tomar o controle da refinaria.

“O Tribunal de Contas da União (TCU) remeteu em fevereiro representação sobre o caso à Procuradoria da República do Estado do Rio. O caso também é investigado pelo Congresso.” (Sabrina Valle, Estadão, 27/5/2013.)

* Governo adia aposta em energia limpa e abre espaço para térmicas a carvão

“Em nome da garantia de abastecimento de eletricidade, o governo federal decidiu, por ora, abrir mão da expansão da matriz energética com base apenas em fontes limpas.

“A crise dos reservatórios no início do ano acendeu a luz amarela do Ministério de Minas e Energia e evidenciou a necessidade de ampliar a participação das térmicas na matriz. Sem gás natural barato disponível, a solução foi recorrer ao carvão, uma das mais poluentes fontes de geração. Esse movimento diminuirá o espaço para as eólicas, que há quatro anos vêm dominando os leilões do setor.

“A tendência ficou clara quando a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) excluiu as usinas eólicas do leilão de energia nova que contratará a demanda das distribuidoras em 2018 (A-5), marcado para agosto. Isso foi significativo porque o leilão A-5 aponta para os agentes a direção da expansão da matriz energética no País. O temor do governo era de que, ao misturar eólicas e térmicas na licitação, apenas as eólicas fossem contratadas, dado o baixo custo de geração. ‘Esse é o momento de equilibrarmos a matriz e darmos mais espaço para as térmicas’, afirmou o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim.

“Segundo ele, a montagem da matriz energética é um processo artesanal, no qual a EPE olha as necessidades do País para definir a expansão das fontes. Por falta de projetos hídricos, o ministério permitiu a contratação de um grande volume de termelétricas para o atendimento da demanda nos leilões até 2008.

“Em 2009, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir emissões de gases de efeito estufa, e a EPE passou a desestimular a contratação das térmicas, principalmente as mais poluidoras – a carvão, óleo combustível e diesel. Nesse meio tempo, avanços tecnológicos reduziram substancialmente o preço da energia eólica, produzindo um avanço notável da fonte na composição da matriz brasileira.

“O saldo dos leilões mostra que as eólicas representam 11% da energia contratada pelo governo desde 2005, com 7,04 mil MW. Isso produzirá um salto na capacidade da fonte, dos 2,5 mil MW para 8,83 mil MW. Além disso, a energia eólica se consolidou como a segunda fonte mais barata do País, com valor médio nos leilões de R$ 137,01/MWh, atrás somente das hidrelétricas.

“Ainda que a expansão tenha contribuído para limpar ainda mais a matriz brasileira, a predominância da eólica trouxe preocupações sobre a operação do sistema por ser uma fonte intermitente de energia. Uma das principais vozes a manifestar essa apreensão é o próprio diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp. Há tempos ele vem alertando sobre a perda gradual de regularização dos rios brasileiros com a construção das hidrelétricas a fio d’água (sem reservatório). Além de perder a capacidade de armazenar água, essas usinas têm alto nível de variação na produção de energia por depender da vazão dos rios.” (Wellington Bahnemann, Estadão, 26/5/2013.)

Máquina inchada e gastadeira

* Governo gasta demais e gasta mal com passagens aéreas, mostra levantamento

“Um levantamento da Controladoria-Geral da União (CGU) encontrou indícios de desperdício e falta de planejamento generalizados na compra de passagens aéreas pelo governo, um tipo de despesa que vem crescendo desde o início da gestão Dilma Rousseff e já consumiu R$ 1,2 bilhão. Ao analisar uma amostra de 49,5 mil bilhetes emitidos para servidores e autoridades, os auditores descobriram que a maioria dos órgãos federais adquire os vôos a preços inflados e com pouca antecedência.

“A CGU fez um pente-fino em viagens dos três trechos mais requisitados do País (Brasília-São Paulo, Brasília-Rio e Rio-São Paulo). Foram analisados dados do segundo semestre de 2011 pelo Observatório da Despesa Pública, braço da CGU que monitora como o governo faz determinados pagamentos. Os dados terminaram de ser compilados no fim de abril deste ano.

“No trecho Brasília-São Paulo, com 18,1 mil vôos, as distorções nos preços alcançam 155%. Enquanto o Ministério do Turismo, o mais econômico nas compras, paga R$ 181 por bilhete, em média, com 24 dias de antecipação, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que figura como a mais perdulária, gasta R$ 461 – comprando passagens com nove dias de antecedência, em média.

“No Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit), cada bilhete custou R$ 389, com antecipação média de cinco dias. A aquisição a valores mais altos é uma conduta padrão: no trecho Brasília-São Paulo, nada menos que 49 dos 62 órgãos pesquisados gastaram ao menos 50% mais, em média, que o Turismo.

“No eixo Brasília-Rio, as diferenças alcançam 146%. Na Fundação Nacional de Saúde (Funasa), cada vôo custou R$ 220, com 10 dias de antecedência média, ante R$ 543 no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ligado ao Ministério do Meio Ambiente, e R$ 525 na Agência Nacional de Cinema (Ancine). O Jardim Botânico e a Ancine adquiriram as passagens apenas dois e quatro dias antes das partidas, respectivamente. Nessa rota, a mais solicitada pelos servidores e autoridades, 40 dos 78 órgãos federais fiscalizados gastaram, em média, 50% mais que a Funasa, a mais franciscana ao voar.

“Para a CGU, afora a sazonalidade dos preços e a necessidade de compras emergenciais, a falta de gestão e de planejamento tem turbinado os gastos com passagens.

“Embora uma portaria do Ministério do Planejamento determine que as compras sejam feitas ao menor preço e que os vôos sejam registrados com antecedência mínima de 10 dias no Sistema de Concessão de Diárias e Passagens, o levantamento da CGU mostra que 85% dos órgãos emitem os bilhetes em prazo menor. Aquisições de última hora só são admitidas em caráter excepcional, desde que autorizadas pela autoridade máxima do órgão em questão. O objetivo é justamente evitar a gastança, pois, em geral, os valores disparam às vésperas da decolagem.

“Quando o governo compra a tarifas mais altas, não promocionais, o contribuinte perde, mas o servidor tem a chance de ganhar mais pontos nos programas de milhagem e de fazer remarcações sem o pagamento de taxas extras.

“Na ponte Rio-São Paulo, com 5,8 mil vôos, houve órgão que comprasse com antecedência média de três dias, caso do Ministério do Esporte. Não por acaso, cada vôo da pasta custou ao contribuinte R$ 591, mais que o dobro do pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que antecipou as emissões em oito dias. Reservando quatro e cinco dias antes, respectivamente, a Ancine pagou R$ 616 e a Fundação Nacional de Artes (Funarte), a menos econômica no trecho, R$ 683.

“Como os valores são médios, não é raro o pagamento de preços ainda mais altos, principalmente pelos chefes dos órgãos federais. Em 15 de dezembro de 2011, o então presidente do Jardim Botânico do Rio, Litz Benjamin, gastou R$ 1,1 mil para voltar ao Rio de Brasília, onde participara de uma reunião e da entrega de um prêmio – o preço médio pago pelo governo pela passagem, segundo a CGU, era de R$ 341.

“O presidente da Ancine, Manoel Rangel, chegou a pagar R$ 1,5 mil para voar de São Paulo ao Rio, em 6 de julho de 2012, para participar do Seminário Internacional de Legislação Cinematográfica e da 22.ª Reunião Ordinária da Conferência de Autoridades Cinematográficas de Iberoamérica, preparados com semanas de antecedência. Em outras ocasiões, gastou R$ 1,4 mil pela passagem, para integrar reuniões e fazer despachos internos.” (Fábio Fabrini, Estadão, 26/5/2013.)

* Gasto com passagem aérea subiu 25% no segundo ano de Dilma

“Os gastos com passagens aéreas para autoridades e servidores federais aumentaram 25% no segundo ano do governo Dilma, em comparação com o anterior. Em 2012, foram R$ 606,1 milhões por bilhetes nacionais e internacionais, ante R$ 481 milhões em 2011. A variação ficou bem acima da inflação de 2012, de 5,84% (pelo IPCA). O crescimento contraria orientação da própria presidente, que pediu parcimônia no gasto com bilhetes e com diárias. Nem a própria Presidência seguiu a diretriz: seu gasto nesses itens subiu 41% – R$ 24,4 milhões em 2011 e R$ 34,6 milhões em 2012.

“Este ano, até o dia 15 de maio, os vôos de toda a administração haviam consumido R$ 132,7 milhões, segundo o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). Para evitar abusos, a CGU diz ter recomendado aos órgãos federais maior rigor na aprovação das viagens e ‘compartilhamento de informações gerenciais’.

“Os gastos com diárias também subiram. De 2011 para 2012, o aumento foi de 22% – R$ 609,7 milhões para R$ 744,9 milhões. Despesas com táxis ou carros de agências mais que dobraram, saltando de R$ 73,8 milhões para R$ 197,2 milhões.

“O gasto crescente com passagens e diárias se soma ao uso, cada vez maior, de aviões da Força Aérea Brasileira por ministros e altas autoridades. Como o Estado mostrou em abril, as decolagens a bordo da frota oficial cresceram 5% de 2011 para 2012 e a permanência no ar, 10%.” (Fábio Fabrini, Estadão, 26/5/2013.)

* Radiobrás tem 17 imóveis ociosos que valem R$ 66 milhões

“O governo federal mantém 17 imóveis da Radiobrás sem uso nas capitais de quatro Estados e em Brasília. Levantamento feito pelo Estado com imobiliárias de cada uma das cidades onde estão localizados os apartamentos, salas e um terreno indicam que os imóveis teriam valor somado que pode chegar a R$ 73,5 milhões. Segundo a Empresa Brasil de Comunicação S.A., responsável pelos bens, o patrimônio está avaliado em R$ 66 milhões, com custo anual de manutenção de R$ 83 mil.

“A maioria dos imóveis está fechada desde 1999, quando foram extintas as sucursais da Radiobrás em Belo Horizonte (MG), Manaus (AM), Porto Alegre (RS) e João Pessoa (PB). Segundo dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, nestas capitais estão onze salas comerciais, todas em ‘estado de conservação regular’ e com necessidade de reformas gerais.

“Criada em 1975, a Radiobrás teve seu patrimônio, funcionários, obrigações e outorgas de radiodifusão incorporados pela EBC, vinculada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, após a criação da nova empresa, por meio da Lei 11.652, de abril de 2008.

“Apesar de todas as salas das sucursais da Radiobrás estarem fechadas há 14 anos, apartamentos funcionais na Asa Sul, área das mais valorizadas de Brasília, continuaram sendo usados por ex-diretores da empresa por mais de dez anos. Um deles, de três quartos e 110 metros quadrados, foi desocupado apenas em março passado. Outros dois – um de quatro quartos e 237 metros quadrados e outro de três quartos com área de 133,5 metros quadrados – foram usados até o ano passado. Atualmente, segundo a EBC, os quatro apartamentos, que se encontram em ‘estado de conservação bom’, estão desocupados e são objetos de processos de penhora. De acordo com a EBC, com base na legislação, a empresa autorizou a uso dos apartamentos por ex-diretores mediante pagamento de ‘taxa de ocupação’, cujo valor não foi informado.

“Além dos apartamentos, a EBC ainda ‘herdou’ um terreno de 5,5 mil metros quadrados com um edifício com área construída de 1.459,6 metros quadrados, usado anteriormente pela Superintendência de Suporte da Radiobrás. De acordo com a EBC, o prédio atualmente está desocupado e passa por uma reforma.” (Marcelo Portela, Estadão, 26/5/2013.)

A incrível, fantástica comédia de erros com o Bolsa Família

* “Uma mentira engole a outra, que engole a outra”

“O que foi que na semana passada a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, atribuiu à central de notícias da oposição? O que Dilma, por sua vez, chamou de ‘desumano e criminoso’? Lula, de ação praticada por ‘gente do mal’? José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, de ‘manobra orquestrada’? E Ruy Falcão, presidente nacional do PT, de ‘terrorismo eleitoral’?

“No sábado 18, e no dia seguinte em 13 estados, um milhão de clientes do programa Bolsa Família invadiu agências lotéricas para sacar suas mesadas fora do dia marcado. Boatos davam conta de que o programa seria extinto ou suspenso. Ou que Dilma autorizara o pagamento de um bônus. Houve quebra-quebra. A polícia foi acionada.

“A ministra Maria do Rosário corrigiu-se poucas horas depois de ter pendurado na conta da oposição as consequências dos boatos. Qualificou de ‘singela’ sua própria opinião – não mais do que ‘singela’. E garantiu com a inocência que Deus lhe deu: ‘Não quero politizar’. Ora, ora, ora… Quem por meio de uma ‘manobra orquestrada’ poderia fazer ‘terrorismo eleitoral’?  Aliados do governo? Claro que não. Uma vez politizado o episódio, politizado está. Só que aos poucos ameaça se voltar contra o governo. Na melhor das hipóteses teria sido um caso de má gestão polvilhado com mentiras.

“Entre as tardes do sábado e do domingo, quando pessoas em desespero se empurraram e depredaram agências lotéricas na caça ao tesouro do Bolsa Família, dois gerentes regionais da Caixa Econômica sugeriram que um erro do sistema de pagamento seria o responsável pela liberação do dinheiro em desacordo com o calendário do programa. Um deles, Hélio Duranti, do Maranhão, foi preciso.

“‘Os boatos surgiram após um atraso no pagamento do benefício ocorrido em todo o país. A situação foi normalizada, mas muita gente procurou os caixas eletrônicos ao mesmo tempo e o dinheiro acabou’, disse ele. ‘Quem não encontrou ficou revoltado e quebrou os caixas’. A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, preferiu observar: ‘Não existe qualquer motivação para que a gente pudesse gerar esse tipo de intranquilidade para a população’. Será?

“A direção da Caixa Econômica atravessou a semana negando que tivesse mexido no calendário de pagamento. Até que na última sexta-feira, a Folha de S. Paulo encontrou em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, a dona de casa Diana dos Santos, 34 anos. Na sexta anterior ela fora a um caixa eletrônico sacar os R$ 32,00 do Bolsa Família referentes a abril. Ao inserir seu cartão, sacou os R$ 32,00 de abril e os R$ 32,00 de maio.

“‘Recebo o Bolsa Família há anos e nunca pagaram antecipadamente’, comentou Diana. ‘Acho que outras pessoas receberam também, avisaram aos conhecidos e virou essa confusão’. A Caixa inventou então outra história depois que se desmanchou no ar a história que ela vinha contando. Soltou uma nota dizendo: ‘A Caixa Econômica esclarece que vem realizando, desde março, diversas melhorias no Cadastro de Informações Sociais. Em consequência desse procedimento, na sexta-feira (17), primeiro dia do calendário de pagamentos de benefícios do Bolsa Família do mês de maio, o banco disponibilizou o saque independentemente do calendário individual.’

“O pagamento é feito levando-se em conta o último número do cartão magnético de cada bolsista. A Caixa liberou o dinheiro para pagar de vez a todo mundo, mas não avisou a ninguém. De resto, não explicou como uma operação dessa natureza pode melhorar seu Cadastro de Informações Sociais. É razoável desconfiar que a Caixa mentiu outra vez. Para mudar o sistema de pagamento do Bolsa Família permitindo saques em  outras datas, o Conselho Deliberativo da Caixa teria de ser obrigatoriamente consultado – e não foi, segundo me contou um dos seus membros. Ou informado – e também não foi.A Caixa esconde que houve uma falha no sistema, o que tornou possíveis os pagamentos fora de hora.

“No dia em que a Folha pegou a mentira da Caixa, uma fonte da Polícia Federal, mediante a garantia prévia de anonimato, revelou ao O Globo em Brasília que fora localizada no Rio de Janeiro a central de telemarketing responsável pela difusão dos boatos. Não disse o nome da central. Nem do seu proprietário. Não disse quem a contratou. Nem como a central teve acesso aos números de telefones de inscritos no Bolsa Família. Sem acesso aos números de telefones como a central poderia disseminar boatos? Enquanto a Polícia Federal não revelar o nome da empresa e não apresentar o criminoso que encomendou o serviço, sobreviverá a suspeita de que ela mente para livrar a cara da Caixa Econômica.” (Ricardo Noblat, O Globo, 27/5/2013.)

* Presidente da Caixa passa a dizer que primeiro escalação do governo desconhecia antecipação do Bolsa Família

“O presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Hereda, afirmou ontem (27/5) que a antecipação do pagamento dos benefícios do Bolsa Família foi decidida exclusivamente pela área operacional da CEF, sem consulta à cúpula instituição ou do governo. Ele disse que técnicos do banco chegaram a avisar a colegas da área técnica do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, no próprio dia 17 de maio, uma sexta-feira, quando teve início o pagamento dos benefícios. Mas ressalvou que a ministra Tereza Campello, assim como ele, não foi comunicada.

“Hereda admitiu que o banco divulgou informação errada sobre a liberação de pagamentos antecipados do Bolsa Família. Ele confirmou que a permissão de saques fora do calendário foi feita intencionalmente pela instituição no último dia 17, véspera da onda de falsos boatos sobre o fim do programa, e não por medida emergencial para conter tumultos nos dias 18 e 19, sábado e domingo, quando milhares de beneficiários do programa lotaram agências em 13 estados, inclusive no Rio de Janeiro. Hereda pediu desculpas.

“’Essa imprecisão só se justifica pelo momento que a gente estava vivendo, e eu peço desculpas a todos pelo engano dessa manifestação da gente’ – afirmou o presidente da CEF.

“Ele disse que somente na segunda-feira, dia 20, já após os tumultos, é que ficou sabendo que os saques antecipados tinham sido liberados na sexta-feira e não durante o fim de semana. Naquela mesma segunda-feira de manhã, o vice-presidente de Governo e Habitação da Caixa, José Urbano Duarte, declarou à TV Globo que a liberação tinha sido ordenada no sábado, numa resposta à confusão – naquele fim de semana, cerca de 900 mil beneficiários sacaram R$ 152 milhões, um movimento considerado atípico. O mesmo foi afirmado por Tereza Campello à tarde.

“Ontem, Urbano admitiu que estava desinformado. Ele contou que deu ordem para que os saques pudessem ser antecipados já no sábado. A partir das 13h, a Caixa detectara um aumento incomum de beneficiários retirando dinheiro nas máquinas de agências em todos os estados do Nordeste, no Rio, no Amazonas, no Pará e no Amapá. Sem saber que os saques fora do calendário estavam liberados desde a véspera, Urbano e Tereza teriam determinado a antecipação com o objetivo de evitar um tumulto ainda maior.

“Isso porque os saques costumam seguir um calendário escalonado, com base no último dígito do cartão magnético. A antecipação não significou um benefício extra para ninguém, mas a possibilidade de receber dinheiro alguns dias antes.

“Hereda disse que esperou uma semana para esclarecer o caso porque precisava de tempo para juntar as informações e entender com clareza o que havia ocorrido. Ele disse que estava de posse das informações já na última sexta-feira. A entrevista coletiva de ontem só foi convocada, no entanto, depois que o jornal Folha de S.Paulo revelou, no sábado, que a antecipação de pagamentos tinha começado na véspera dos boatos.

“’Meu amigo, eu sou presidente de um banco. Eu não vou a público dizer uma parte da informação sem ter todas as informações levantadas’,  disse o presidente da Caixa.

“Hereda acrescentou que, se agisse de forma diferente, seria irresponsável. Sentado ao seu lado, estava Urbano, que semana passada deu entrevista com a informação desmentida ontem: ‘É sabido, tem se falado muito que a Caixa mentiu na hora em que ele (Urbano) foi fazer a entrevista. No momento em que estamos vivendo uma crise, o único pensamento que a Caixa tinha era esclarecer as pessoas. Tivemos uma informação equivocada com relação à data em que se abriu o sistema, e isso gerou uma informação imprecisa da Caixa’, afirmou Hereda.

“No último sábado, a Caixa divulgou nota em que dizia que a antecipação era consequência de melhorias no Cadastro de Informações Sociais, sugerindo problema de informática. Ontem, Hereda e Urbano esclareceram que a decisão da área operacional de liberar os saques para qualquer beneficiário já no primeiro dia de pagamento teve como objetivo evitar contratempos a 692 mil beneficiários que apareciam com registro duplo no sistema. Sem a liberação, havia o risco de que essas pessoas fossem ao banco na data marcada e não conseguissem sacar o dinheiro, já que o cadastro foi atualizado. Hereda disse que a equipe operacional imaginou que não era preciso avisar ninguém sobre a antecipação porque, em média, apenas 70% dos beneficiários sacam o dinheiro no dia marcado. Eles têm até 90 dias para fazer isso depois.

“’Repito: essa não é uma decisão que passa pela diretoria da Caixa. É uma decisão específica de uma área operacional da Caixa que paga Bolsa Família há dez anos. Essa área não procura o presidente nem o conselho diretor da Caixa para pedir permissão para fazer o seu trabalho’, disse Hereda.” (Demétrio Weber, O Globo, 28/5/2013.)

Cortesia para os ditadores africanos, com o nosso dinheirinho

* “Dilma, a mão dos cleptocratas”

“Com a prodigalidade de uma imperatriz, a doutora Dilma anunciou em Adis Abeba que perdoou as dívidas de doze países africanos com o Brasil. Coisa de US$ 900 milhões. O Congo-Brazzaville ficará livre de um espeto de US$ 352 milhões.

“Quem lê a palavra ‘perdão’ associada a um país africano pode pensar num gesto altruísta, em proveito de crianças como Denis, que nasceu na pobre província de Oyo, num país assolado por conflitos durante os quais quatro presidentes foram depostos e um assassinado, cuja taxa de matrículas de crianças declinou de 79% em 1991 para 44% em 2005. No Congo Brazzaville 70% da população vive com menos de US$ 1 por dia.

“Lenda. Denis Sassou Nguesso nasceu na pobre província de Oyo, mas se deu bem na vida. Foi militar, socialista e estatizante. Esteve no poder de 1979 a 1992, voltou em 1997 e lá permanece, como um autocrata bilionário privatista. Tem 16 imóveis em Paris, filhos riquíssimos e seu país está entre os mais corruptos do mundo.

“Em tese, o perdão da doutora destina-se a alavancar interesses empresariais brasileiros. Todas as dívidas caloteadas envolveram créditos de bancos oficiais concedidos exatamente com esse argumento. As relações promíscuas do Planalto com a banca pública, exportadores e empreiteiras têm uma história de fracassos. O namoro com Saddam Hussein custou as pernas à Mendes Junior e o campo de Majnoon à Petrobrás. Em 2010 o soba da Guiné Equatorial, visitado por Lula durante seu mandarinato, negociava a compra de um triplex de dois mil metros quadrados na Avenida Vieira Souto. Coisa de US$ 10 milhões. Do tamanho de Alagoas, essa Guiné tem a maior renda per capita da África e um dos piores índices de desenvolvimento do mundo.

“O repórter José Casado chamou a atenção para uma coincidência: em 2007, quando a doutora Dilma era chefe da Casa Civil, o governo anunciou o perdão de uma dívida de US$ 932 milhões. Se o anúncio de Adis Abeba foi verdadeiro, em cinco anos a Viúva morreu em US$ 1,8 bilhão. Se foi marquetagem, bobo é quem acredita nele.

“O Brasil tornou-se um grande fornecedor de bens e serviços para países africanos e a Petrobrás tem bons negócios na região. As empreiteiras nacionais têm obras em Angola e na Líbia. Lá, tiveram uma dor de cabeça quando uma revolta derrubou e matou Muamar Kadafi, um ‘amigo, irmão e líder’, segundo Lula. Acolitado por empresários, seu filho expôs em São Paulo uma dezena de quadros medonhos. Em Luanda os negócios vão bem, obrigado e a filha do presidente José Eduardo Santos é hoje a mulher mais rica da África, com um cofrinho de US$ 2 bilhões. Ela tem 39 anos e ele está no poder há 33.

“Se o Brasil não fizer negócios com os sobas, os chineses farão, assim como os americanos e europeus os fizeram. A caixinha de Kadafi para universidades inglesas e americanas, assim como para a campanha do presidente francês Nicolas Sarkozy, está aí para provar isso. Contudo, aos poucos a comunidade internacional (noves fora a China) procura estabelecer um padrão de moralidade nos negócios com regimes ditatoriais corruptos.

“A doutora diz que ‘o engajamento com a África tem um sentido estratégico’. Antes tivesse. O que há é oportunismo, do mesmo tipo que ligava o Brasil ao colonialismo português ou aos delírios de Saddam Hussein e do ‘irmão’ líbio.” (Elio Gaspari, O Globo e Folha de S. Paulo, 29/5/2011.)

* O lulo-petismo faz diplomacia de benemerências com o nosso dinheiro. O país não ganha coisa alguma com isso

“A política externa terceiro-mundista, instituída por Lula, chegou a ser interpretada como uma concessão às alas mais à esquerda do PT, a fim de atenuar restrições a uma política econômica sem heterodoxias, imprescindível para debelar a volta da inflação, atiçada pela insegurança criada em 2002 no avanço do candidato petista nas pesquisas eleitorais. Lula venceu as eleições, teve mesmo de adotar um estilo sensato de administração da economia, e deu certo, como previsto.

“A diplomacia não alinhada prosseguiu. Junto com a Argentina de Kirchner, e sob aplausos do bolivariano Hugo Chávez, o Brasil rejeitou, sem negociar, a proposta americana da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). O ‘Império’ deveria ser mantido à distância, também entendia Brasília sob nova direção.

“No comércio, a aposta única brasileira foi na liberalização global acenada pela Rodada de Doha. Deu errado. No plano continental, concessões passaram a ser feitas a regimes companheiros. Evo Morales expropriou refinaria da Petrobrás na Bolívia, sem um resmungo brasileiro. E ainda há uma Argentina, crescentemente chavista e protecionista. Parte da indústria brasileira acumula prejuízos numa Argentina que se fecha, contra as normas do Mercosul, e nada acontece.

“Em recente viagem à África, a presidente Dilma anunciou a anistia de US$ 900 milhões de dívidas de uma série de pequenos países africanos. Geralmente, empréstimos oficiais para obras de empreiteiras brasileiras. Não é o primeiro perdão brasileiro do tipo.

“Esta política pretensamente benemérita pouco tem rendido em dividendos ao país, além de dilapidar dinheiro do contribuinte. A África é estratégica, mas uma coisa é a África do Sul e outra, Guiné Equatorial, uma das ferozes ditaduras do continente. Tudo coerente com o caráter amistoso com que Lula tratou déspotas como o líbio Kadafi.

“A soma das exportações para esses ‘novos mercados’ pode produzir percentuais elevados de aumento nos negócios, porém apenas para marquetagens; em valores absolutos, não conseguem ir contra a maré vazante do comércio exterior brasileiro. Os votos desses países podem emplacar o Brasil na direção da Organização Mundial do Comércio (OMC), pouca coisa mais. E este perdão de dívidas, em especial, é mais do que questionável, porque, além de certamente inflar o patrimônio pessoal de companheiros ditadores na Europa, como anistias anteriores, ocorre quando o déficit externo do país aponta para o alto.

“Na América Latina, esta política terceiro-mundista de bom-mocismo produz outros prejuízos elevados. Porém, 12 anos desta diplomacia causam fadiga de material. Visível quando se observa o rearranjo geoeconômico da região, de que a arejada Aliança do Pacífico é símbolo (Peru, Chile, Colômbia e México), aberta a grandes mercados mundiais, ao contrário do Brasil. O temor é que um bonde da História esteja passando, diante de um governo passivo. Ou perplexo.” (Editorial, O Globo, 30/5/2013.)

 O jeito petista de ser

* Seriam os operários os portadores da nova moral? Lula, por exemplo, o que beija a mão de Jader Barbalho?

“(…) O drama dos portos ocorre num momento de comemoração do partido dominante, que se orgulha publicamente de elevar milhões de pessoas à classe média. Na festa, a filósofa Marilena Chaui disse que odeia a classe média por suas posições fascistas e conservadoras. Então, elevam a vida das pessoas para melhor conseguirem odiá-las?

“Se a classe média é reacionária e fascista, resta procurar uma classe social democrata e progressista, salvadora. Seriam os operários os portadores da nova moral? Lula, por exemplo, beijando a mão de Jader Barbalho e dizendo que Newton Cardoso é o Pelé da política?

“Com seu talento filosófico, Chaui poderia até nos convencer da tese de Lula de que não existiria poluição se a Terra não fosse redonda. Como a Terra gira e a Lusitana roda, slogan que sempre marcou o negócio das mudanças no Rio, o poluído planeta, pelo menos, está em movimento. Cedo ou tarde essa mistificação que vê o fascismo só nos outros e veste de pureza um partido corrompido até a medula pode ser desmascarada.

“O discurso de Chaui, no entanto, é sintomático. Depois de impor a idéia de que a degradação política é essencial para mover o País, está tudo pronto para tratar as pessoas como se tratam os deputados no plenário. O sadomasoquismo nacional entra em nova fase. Os brasileiros da classe média são roubados de dia e insultados à noite nas tertúlias literárias do PT. Se gostam ou não, é problema deles.

“Desde o início da democratização me bati pela liberdade de escolha em questões delicadas, incluída essa de gostar de apanhar. Se os eleitores preferem um Parlamento cheio de Cunhas e os empresários adoram tratar suas questões com eles, temos somente de nos resignar e esperar que combatam entre si e sejam devorados pela própria cobiça.

“Aos poucos, vamos compondo um novo e inquietante dístico para a Bandeira Nacional: ‘Barbárie e Progresso’. Salve, salve.” (Fernando Gabeira, Estadão, 24/5/2013.)

* “Não é aceitável dizer-se democrata em casa e solidarizar-se com toda sorte de arbitrariedades na vizinhança”

“Em sua passagem por Buenos Aires, na semana retrasada, Lula deu endosso público à guerra que a presidente argentina move contra a liberdade de imprensa em seu país. Disse, com outras palavras, que lá, como aqui, a imprensa ‘conservadora’ não se conforma com o sucesso de governos ‘populares’.

“Pelo menos no caso do país vizinho, falar em sucesso é abuso de linguagem. O balanço de dez anos dos Kirchners no poder tem pontos positivos, mas os negativos vêm se multiplicando ao longo do segundo mandato de Cristina. (…)

“As declarações de Lula em Buenos Aires não são surpreendentes. Pouco mais de um mês antes, gravou mensagem de apoio a Nicolás Maduro, herdeiro do projeto chavista do ‘socialismo do século 21’. Quem ainda nutre ilusões sobre o que se esconde por trás dessa fachada deveria ouvir o diálogo gravado entre um assessor cubano e o principal ventríloquo do ‘jornalismo’ chavista, Mario Silva, apresentador do programa La Hojilla. O diálogo tornou-se público na semana passada. Desnuda-se ali o confronto interno entre a facção civil e ideológica e a facção militar-cleptocrática do chavismo, aquela inspirada por Cuba e esta, pelas oportunidades de enriquecimento e poder que um regime arbitrário oferece.

“Pela influência que tem em seu partido e no governo de sua sucessora, a palavra de Lula não é apenas uma opinião singela. As oposições devem cobrar da presidente Dilma Rousseff uma posição clara quanto às manifestações de seu antecessor. Concorda com elas ou não? Basta de ambiguidades em relação a temas tão essenciais à convivência civilizada e democrática: liberdade de expressão, autonomia do Judiciário, para não falar em direitos humanos, área em que Dilma esboçou mudanças ao início de seu mandato para logo voltar à política de vista grossa e boca fechada.

“Não é aceitável dizer-se democrata em casa e solidarizar-se com toda sorte de arbitrariedades na vizinhança. É mais do que hora de acabar com isso.” (Sérgio Fausto, Estadão, 27/5/2013.)

31 de maio de 2013

Outras compilações de provas da incompetência de Dilma e do governo:

Volume 85 – Notícias de 1º a 7/2.

Volume 86 – Notícias de 8 a 14/2.

Volume 87 – Notícias de 15 a 21/2.

Volume 88 – Notícias de 22 a 28/2.

Volume 89 – Notícias de 1º a 7/3.

Volume 90 – Notícias de 8 a 14/3.

Volume 91 – Notícias de 15 a 21/3

Volume 92 – Notícias de 22 a 28/3.

Volume 93 – Notícias de 29/3 e 4/4.

Volume 94 – Notícias de 5 a 11/4.

Volume 95 – Notícias de 12 a 18/4.

Volume 96 – Notícias de 19 a 25/4.

Volume 97 – Notícias de 26/4 a 2/5.

Volume 98 – Notícias de 3 a 9/5.

Volume 99 – Notícias de 10 a 16/5.

Volume 100: Notícias de 17 a 23/5.