Em defesa da tomada jabuticaba

Tenho lido, principalmente nas redes sociais digitals, queixas e comentários sobre o novo padrão de tomadas recentemente adotado no Brasil. Como é de hábito, culpa-se o governo pelo aparente desatino.

Chamam-na ‘a tomada jabuticaba’.

E por que jabuticaba? Como a dita fruta é nativa (e ao contrário do que se pensa, não é só) do Brasil, é comum apelidar de jabuticaba coisas criadas — e usadas — unicamente aqui. Até existe um ditado popular que diz: ‟Existe só no Brasil e não é jabuticaba? Não presta”. A partir desse, digamos, consciente coletivo, a metáfora é usada todas as  vezes em que um produto ou serviço, aparentemente inusitado, surge no mercado como genuinamente brasileiro, encontrável em nenhum outro lugar.

Uma das mais famosas jabuticabas técnicas foi o famigerado PAL-M, sistema de televisão em cores adotado como padrão brasileiro na década de 70. Com resolução do sistema americano NTSC e codificação de cores do europeu PAL, é compatível somente em preto-e-branco com o primeiro e em absolutamente nada com o segundo. Virou único no mundo.

Outra jabuticaba técnica foi a famigerada familia de plugs e soquetes Telebrás para aparelhos telefônicos. A esquisita criação não suportou a enorme tendência ao uso do padrão americano e sucumbiu.

Na política econômica, como já é tradição, temos um extenso jaboticabal. Alguns dizem que muitas “heterodoxias” aqui criadas foram depois copiadas com algum sucesso em outras partes do planeta. Pode ser. De todo modo, muitas jabuticabas econômicas — sucessos e fracassos— foram plantadas e frutificadas e testadas aqui, nos pomares da Terra de Vera Cruz. Em qualquer hipótese, quem pagou pela experiência foi o contribuinte e quem se beneficiou…

Voltemos à tomada.

Até há bem pouco tempo, tínhamos perto de uma dúzia de configurações e modelos de tomadas domésticas, machos e fêmeas, uma bagunça que pretendia atender a tudo que aparecesse. E o plug que mais aparecia era o “tipo americano”; com dois pinos chatos ou com dois pinos chatos mais um terceiro em forma de ‘U’. Com a popularização dos computadores pessoais, mesmo os made in Brazil, esses chatos ficaram cada vez mais comuns.

Adaptadores em profusão solucionavam (e ainda solucionam) as incompatibilidades.

Não havia mais um padrão: importava-se padrões e adaptava-se o que era possível adaptar. Havia a necessidade de uma regra nova, um padrão de verdade, que atendesse grande parte dos problemas e que apresentasse melhor segurança.

Em 1963, um novo padrão é proposto na Europa com a finalidade de dar mais segurança aos plugs e maior compatibilidade com outros padrões europeus. Nascia alí o Europlug (1).

Em 1986 é proposto pela International Electrotechnical Comission (2) o padrão internacional IEC 60906-1, que tem como base o Europlug. Este, adotado em praticamente toda Europa desde 1975, tornou-se padrão europeu em 1990. A ABNT (3) publica a primeira versão da NBR 14136, com base no padrão IEC em julho de 1998.

O INMETRO (4) formaliza a política industrial para o novo padrão de tomadas, incluindo a obrigatoriedade legal para aterramento doméstico (2006) e vendas de eletrodomésticos com o novo plug (2004) e proibição de venda de qualquer tomada (plug e soquete) fora do padrão a partir de 2011

Se prestarmos a devida atenção, vemos que as tomadas macho (de dois pinos) de eletrodomésticos produzidos (e importados formalmente) de alguns anos para cá são compatíveis com as novas tomadas fêmeas de recesso hexagonal. O plug em si é derivado do Europlug e mantém o diâmetro dos pinos em 4mm para tomadas de 10A (as mesmas dimensões da sua tomada atual) e de 4,8mm para tomadas de 20A.

Uma das reclamações mais frequentes é que a tomada fêmea (de parede ou nas extensões) baseada na nova norma, não permite que plugs fora da norma encaixem.

Outra reclamação é a respeito do terceiro pino, o pino terra, que é de uso obrigatório para os eletrodomésticos que são produzidos para ambientes com potencial de respingos ou superfícies potencialmente molhadas. Este terceiro pino e sua fêmea correspondente nas tomadas de parede e extensões tem uma geometria nova e o pino macho (no meio do plug) deve ser maior que os outros dois (fase e neutro) para fazer a conexão com o aterramento antes dos outros e proteger contra choques.

Mais poderia ser escrito em defesa da padronização, muitos argumentos técnicos e de prevenção de acidentes poderiam ser expostos. Ainda assim sempre haverá aqueles que achariam um argumento qualquer para serem contra.

Felizmente, temos um padrão de tomadas moderno, mais seguro, que segue uma proposta internacional bem feita. Infelizmente nem todos fomos educados o suficiente para compreendê-lo.

(*) Paulo Drummond é engenheiro e educador ambiental. Trabalhou no Centro de Pesquisas da Eletrobrás, descobriu a habilidade e o gosto pela educação, foi consultor de tecnologias educacionais e professor universitário. 

(1) http://en.wikipedia.org/wiki/Europlug)

(2) International Electrotechnical Commission, é uma organização internacional de padronização de tecnologias elétricas, eletrônicas e relacionadas. A IEC foi fundada em 1906, e sua sede fica em Genebra. (http://www.iec.ch)

(3) A ABNT é uma entidade civil, sem fins lucrativos, credenciada como único Fórum Nacional de Normalização, responsável pela elaboração das normas brasileiras de caráter voluntário. É membro e representante da IEC para o Brasil desde 1940.

(4) O INMETRO é um órgão governamental com a finalidade de formular e executar a política nacional de metrologia, normalização industrial e certificação de qualidade de produtos industriais.

 

5 Comentários

  1. Carlos
    Postado em 23/03/2013 às 1:06 am | Permalink

    Não se esqueça daquela porcaria de cartão telefônico com fusíveis em alumínio depositado. Coisa genial, só que já existia um sitema padrão no resto do mundo baseado em smart-cards. Era tão ridículo que o Brasil não tinha tecnologia para produzir e tinha que ser importado. Eletrobrás, Embratel, CNPq, Telebras sempre com novidades geniais. Não sei como não chegamos na lua antes dos americanos.

  2. MILTINHO
    Postado em 25/03/2013 às 3:12 am | Permalink

    Certamente se a lua chegássemos, plantariamos uma pé de jabuticabana em umas das crateras lunares.

  3. Helvio
    Postado em 10/06/2013 às 6:26 pm | Permalink

    Parabéns! Sempre defendo o padrão adotado pela sua segurança e pela falta de padrão no mundo. Temos que parar de achar que o que não é americano, não é padrão. Muito bom saber que nossa tomada de 2 pinos é compatível com o europlugue.

    Agora, no mesmo nível do cartão telefônico, o Brasil realmente adora reinventar o que já existe no mundo todo. 20 anos depois de todas as cervejas do mundo serem twist-off, “inventaram” no Brasil. Só que a do Brasil, dificilmente sai sem um abridor…

  4. Paulo Cesar Sales
    Postado em 28/07/2016 às 5:23 pm | Permalink

    Se não somos líderes em tecnologia, devemos seguir os que são e, não inventar coisas que não são padrão nos países líderes. Sempre fiz aterramento dos equipamentos em minha casa independente da tomada jabuticaba. Só tive mais trabalho para adaptar os novos equipamentos com os plugues jabuticaba.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 29/07/2016 às 12:47 am | Permalink

    Olá, Paulo Cesar.
    Obrigado pelo comentário.
    Só para esclarecer: eu, o sujeito que faz o site 50 Anos de Textos, sou absolutamente contra a tomada jabuticaba.
    Escrevi sobre ela este texto aqui:
    http://50anosdetextos.com.br/2010/engana-se-quem-pensa-que-eles-so-nos-deixam-grandes-calamidades/
    Esse texto que você leu e comentou é de um amigo meu, que conheci nas redes sociais. O Paulo Drummond me disse que era a favor, por diversos motivos técnicos, se ofereceu para escrever e achei ótimo ter uma opinião diferente da minha no site.
    Um abraço.
    Sérgio

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