Dúvidas metafísicas sobre os discos

Há semanas vinha pensando vagamente em escrever – mais uma vez – sobre isso que agora se chama suporte físico.

É um tema recorrente. Um ano atrás, em julho de 2012, questionei: “Guardar ou não guardar, eis a questão”. Antes, em janeiro de 2010 escrevi um texto com o título de “Vem cá, quem toca a flauta em ‘London, London’?”, em que comentava sobre o tão falado e tido como iminente fim dos discos; contava que, uns dois anos antes, meu genro Carlos, “até então um comprador de discos fanático, mais até do que eu”, tinha anunciado que pararia de comprar.

Uns três ou quatro meses atrás, Carlos tomou uma decisão ainda mais radical: desfez-se da imensa maior parte da preciosíssima coleção. Vendeu (a preço de banana; a rigor, deu de presente, e ainda por cima por minha indicação) mais de 800 CDs, a maior parte deles obras raras, importadas, caras, de grupos contemporâneos, um tanto vanguarda, um tanto experimental, world moderno tipo Ali Farka Toure, coisas da sétima geração do rock pós-punk, mas também muita coisa mais palatável para meus ouvidos velhinhos, como, só para dar alguns exemplos, Bill Frisell, Piazzolla, Omara Portuondo, Benny Goodman, Michael Nyman, Naná Vasconcellos. Carlos sempre foi muito mais eclético do que eu, que me considero razoavelmente eclético, aberto a quase tudo.

Fora dezenas e dezenas de DVDs.

Por falta de tempo, só consegui me apropriar de uns 50 discos da coleção que ele iria botar fora. Exatamente os dos músicos citados acima, entre muitos outros.

Tivesse tido um pouco mais de tempo antes da mudança deles para a casa nova, teria tomado posse de muito mais que cinco dezenas de bolachinhas.

Não é só o Carlos. Meses atrás, quando trocou o apartamento de Perdizes por um na frente do mar em Pitangueiras, meu amigo Elói Gertel se desfez de centenas de DVDs. Gravou tudo numa maquininha. Trocou o suporte físico – que ocupa espaço – por bits e bytes.

Parece uma tendência irreversível.

***

Eu mesmo tenho – para minha imensa surpresa – me pegado pensando, às vezes, em me desfazer de parte dos meus discos. De pelo menos parte deles.

É um pensamento assustador – mas ele vem de vez em quando na minha cabeça, apesar de mim mesmo.

Porque, afinal, tá tudo na nuvem.

Boa parte está no computador, no iTunes, nos iPods.

Nos últimos tempos, um dos jeitos que eu mais gostava de ouvir discos era botar cinco deles no toca-CDs Denon providenciado pelo Fabio De Domenico e botar no modo shuffle. Assim tinha variedade dentro das coisas escolhidas para aquele determinado dia, para aquele momento específico.

Aí a josta do Denon parou de funcionar. Me sobra, enquanto não me animo a levar o toca-CD de carrossel para consertar na Santa Ifigênia, ouvir um disco inteiro a cada vez, tocado no DVD ou no Blu-ray.

Faço isso, sim – mas a preguiça de escolher um disco só e mais o costume de ouvir no modo aleatório, randômico, shuffle, acabam me fazendo botar o iPod no receiver.

E aí o pensamento esquisito me vem à cabeça: se é assim, por que não desfazer de parte dos discos?

Até porque não cabe mais disco e DVD e livro na casa. Há estantes em todas as paredes, e estão todas abarrotadas, com disco e DVD e livro saindo pelo ladrão. A casa parece a Compact Blue, a loja do Joel; ainda se parecesse com a Pop’s do Ademir e da Regina, toda organizadinha…

***

Mas que discos botar fora?

Mas e se, depois de botar parte dos discos fora, der uma vontade irrefreável de ouvir justamente um deles?

Me lembro de um caso que aconteceu não muito tempo depois que Mary e eu nos casamos. Sei lá; deve ter sido em meados de 1990. Me deu uma necessidade urgente, louca, de ouvir “Another day in Paradise”, a canção maravilhosa de Phil Collins. Era como uma vontade de mulher grávida – e era fim de semana. Botei Mary pra dirigir pelos lugares onde antes havia lojas de discos que funcionavam até tardão da noite – e nada. Fui dormir bastante bêbado, mas com a clara sensação do viciado em heroína que está tendo cold turkey, a febre da falta de, da necessidade de.

Tudo bem, mas isso foi antes do YouTube.

Hoje em dia é só entrar no YouTube, ou comprar aquela determinada faixa na iTunes Store.

Tá. Mas e aí como a gente fica sabendo quem tocou o baixo? Quem fez o arranjo?

“Quem tocou o baixo?” é uma frase do meu amigo Fabio De Domenico. Fabio é sujeito de ouvido apuradíssimo – se não fosse, não seria o técnico de som tão absolutamente competente que é, com um longo currículo de projetar e executar a instalação de som em lugares que dependem de um bom sistema de som como as lojas da 2001 Vídeo e/ou refinados como o apartamento de FHC em Higienópolis.

Me permito recontar a história que relatei no tal texto de janeiro de 2010:

Um dia, alguns anos atrás, quando a febre do iPod ainda não tinha se espalhado muito, Fabio e eu conversámos tomando um uisquinho. E ele me contou, estarrecido:

– O cara tem uma puta apartamento, coisa de nego muito rico. Comprou um som caríssimo. Instalei, um som da pesada. Aí perguntei pra ele onde ele guardava os discos, e ele ficou me olhando como se eu tivesse acabado de cair da lua. E falou: ‘Discos? Eu não vou ocupar espaço com discos; boto tudo em MP3.’

Tomou mais um gole, e arrematou, absolutamente chocado, estarrecidíssimo:

– Como é que o cara vai saber quem toca o baixo?

***

As dúvidas sobre suportes físicos podem ser mais estratosféricas ainda do que sonha a nossa vã filosofia. Às vezes não basta ter o disco para saber quem toca o baixo – ou, por exemplo, quem toca a maravilhosa flauta em “London, London”, na gravação original, feita em Londres, e que está no disco de Caetano de 1971, aquele excelente em que ele aparece com um casaco de pele – um baiano sofrendo no inverno inglês – com uma barbicha um tanto ridícula. Tenho ainda o LP, e depois comprei o CD. Nenhum deles informa o nome dos músicos. Nem a internet, que tem tudo, absolutamente tudo, tem o nome do cara que toca a maravilhosa flauta em “London, London”. Melchíades Cunha Júnior, que me fez a pergunta – quem toca a flauta? – em janeiro de 2010, tentou pesquisar, descobrir o nome do cara. Chegou a escrever para jornais, para jornalistas, mandou e-mail para o próprio Caetano. Nem Melchíades, nem eu, nem a internet – ninguém parece saber quem tocou a flauta em “London, London”.

Bem, então eu poderia jogar fora o disco de Caetano de 1971 – tanto o LP quanto o CD. Na hora que eu quiser ouvir uma das maravilhosas faixas do disco, ouço no computador, ou no iPod.

É. Teoricamente, sim. Mas o som do LP é melhor do que o do iPod, ou do computador (embora minhas caixinhas acopladas com computador sejam bastante boas).

***

Mas na internet, na nuvem, não tem os encartes do disco.

Diz o Carlos que muitos discos têm, sim, os encartes disponíveis em PDF.

Devem ter. Mas um encarte em PDF não é a mesma coisa que o encarte em si.

Por exemplo: o disco de 2010 de Mayra Andrade.

Semanas atrás, o Márcio Zaidan ouviu no meu iPod tocado no somzão da sala uma faixa da Mayra Andrade e ficou embasbacado. Perguntou quem era, de onde era, o que ela já havia gravado. E – estranhíssimo – eu não sabia! Não tenho a menor idéia de como vieram parar no meu iTunes quatro faixas do disco Storia, Storia, de Mayra Andrade. Deve ser coisa da época em que andei baixando música via internet no Soulseek. Baixei muita música durante um ou dois anos via Soulseek, depois parei e voltei à legalidade. Já até comprei dois ou três CDs, legalmente, via iTunes Store.

Mas então não sabia responder às perguntas aflitas do Márcio sobre quem era Mayra Andrade. Viemos para o computador, vimos um monte de vídeos dela no YouTube. Poderia ter comprado as músicas via iTunes Store, mas pensei: cacete, eu quero ter o suporte físico, a capinha original, o encarte com as fotos da moça bonita, as informações sobre os músicos, os autores.

Aí encomendei ao Joel da Compact Blue. Na sexta passada fui lá pegar o primeiro disco de Mayra Andrade que chegou – e aí olhei para o novo CD de Madeleine Peyroux, e peguei também.

O primeiro disco de Mayra Andrade que comprei, o Studio 105, de 2010, vem numa capa desdobrável em quatro, cheia de fotos da bela cabo-verdense cidadã do mundo. Não tem encarte com as letras, mas tem os nomes de quem toca o baixo, quem toca a guitarra, o cavaquinho. Tem os nomes dos autores de cada faixa. E tem um DVD com o show inteiro que também está no CD. Se eu tivesse comprado via internet, teria recebido também o DVD? Talvez – mas e a capa linda? Imprimiria o PDF? Coisa mais sem graça.

E se tivesse comprado via internet The Blue Room, o disco de Madeleine Peyroux, poderia até baixar as informações do encarte em PDF – mas teria perdido a beleza gráfica do encarte bem cuidadíssimo.

Ter ou não ter o suporte físico. Eta dúvida hamletiana.

15 e 16 de julho de 2013

Compact Blue: Rua Augusta, 1.371, loja 116, fone (11) 3251-5248. www.compactblue.com.br

Pop’s Discos: Rua Teodoro Sampaio, 763, loja 4, fone (11) 3083-2564. www.popsdiscos.com.br

6 Comentários

  1. MILTINHO
    Postado em 16/07/2013 às 7:49 pm | Permalink

    Cheio de razão meu guru.Não sabemos quem tocou o baixo e a flauta em “London, London”.
    Sou fã de rádio, sempre fui. Sou mais antigo que cagar de cócoras, mas gosto de rádio. Com a internet dá para escutar rádios de todo o Brasil e exterior. Mas as rádios suprimem os créditos dos autores, dando importância aos intérpretes.Ao ouvir uma música no rádio, ao final o locutor creditava: de Lennon e Macartney, de Adoniran Barbosa, de Paulinho da Viola, de Cole Porter, de Rogers e Hart, de Jimmy Web, de Chico Buarque, de Sidney Muller, de Torquato Neto, etc…etc… e tal.
    SE não sabemos quem fez a música, baixo e flauta são detalhes.

  2. Postado em 17/07/2013 às 3:33 am | Permalink

    muito bom texto, Sérgio. obrigado pela citação.
    pra mim, designer gráfico que sempre apreciou o papel, a arte impressa, é complicado também. pq me desfazer de um disco significa, não só não mais saber quem tocou baixo (embora seja cada dia mais fácil descobrir isso, pelo celular, em poucos segundos – fora a flauta de “London, London”), mas também me afastar da obra de um artista gráfico que se preocupou com tipografia, diagramação, estrutura, tipo de papel, etc.
    tanto que muitos dos discos que não passei pra frente estão comigo pela obra visual e não (só) pela música.

    hoje vejo sua questão como um bom meio termo: guardo os discos que significam muito pra mim, estética ou musicalmente, e me livro dos que o suporte não adiciona muito à música. e você sabe, como eu, quantos discos compramos sem antes ouvir ou apenas conhecendo alguns minutos deles na loja, e quando chegamos em casa, não era tão bom quanto esperávamos. ou ouvimos uma ou duas vezes mais.

    todos, 100% dos discos que vendi, estão digitalizados e ouço eles a qualquer momento, quando quiser.
    e continuo comprando discos! só que agora digitais.

  3. LUIZ CARLOS
    Postado em 18/07/2013 às 5:07 am | Permalink

    Sergio, se a flautista não foi a Ângela Ro Ro, bem que poderia ter sido. Ela morava em Londres na época, cantava e tocava na noite e foi apresentada a Caetano por ninguém menos do que Glauber Rocha. Tocou flauta e/ou gaita no disco Transa, gravado logo depois. Veja:

    http://martafeld.blogspot.com.br/2012/05/album-transa-de-caetano-veloso-e.html.

    Encontrei também várias entrevistas de Caetano lamentando a falta de hábito de se colocar fichas técnicas nos discos daquela época, e também fazendo menções à participação de Ângela Ro Ro, Macalé e outros artistas brasileiros nos dois albuns gravados em 71 e 72. Mas ele não deixa claro se Ro Ro participou do que continha London, London, ou se somente do Transa. Em uma dessas entrevistas ele relaciona de memória todos os músicos que participaram do Transa. Afirma que apesar de ter sido creditada como flautista numa edição posterior do Transa, Ângela, na verdade, tocou gaita.

    http://oglobo.globo.com/cultura/caetano-veloso-reencontra-musicos-de-transa-5030725

    http://blogdomauroferreira.blogspot.com.br/2006/12/um-papo-com-caetano-sobre-crditos-e.html.

    http://programastudio.com.br/andre/artigo-caetano-

    Caetano chamou músicos brasileiros para os dois álbuns, Ro Ro estava por lá e tocava flauta, gaita e piano. Daí a ter sido ela a flautista de London,London, bastaria um lapso de memória dele sobre fatos acontecidos há mais de 40 anos. Será que o nosso Miltinho não teria a cara de pau de perguntar isso ao Caetano?

  4. LUIZ CARLOS
    Postado em 21/07/2013 às 12:17 am | Permalink

    Já que o preguiçoso Miltinho não se mexeu, eu perguntei à própria Angela Ro Ro, via Facebook, se ela tinha tocado flauta em “London, London”. Ela respondeu que tocou apenas no disco Transa. E foi gaita, não flauta. “Eu era novinha. Toquei gaita de blues no ‘That’s what Rock ‘n Roll is all about’ ou ‘Nostalgia’ no disco Transa de Caetano Veloso, gravado em Londres, que tinha Jards Macalé produzindo. Toquei junto de Gal, maravilhosa abrindo a faixa imitando uma gaita com a voz…Gil e creio que o Perinho. Foi muito bom e importante na minha vida e para a minha experiencia musical”.
    Como podemos notar, caro Sérgio, apesar do meu esforço de reportagem, continuaremos sem saber quem tocou a flauta de “London,London”. A minha esperança é que o Miltinho resolva perguntar ao próprio Caetano.

  5. MILTINHO
    Postado em 21/07/2013 às 2:13 am | Permalink

    LUIZ CARLOS vou ficar devendo, há anos que não falo com Caetano em função de pequeno desentendimento até hoje não esclarecido.
    A flauta em “London,London” é cercada de mistério, aguça nossa curiosidade,faz a gravação mais valiosa, enfim nos aproxima.
    Saudações!

  6. Sérgio Vaz
    Postado em 22/07/2013 às 2:41 pm | Permalink

    Carlos, muito obrigado por enviar seu comentário!
    E agradeço também ao Miltinho e ao Luiz Carlos. Belo agito vocês fizeram aqui! O Luiz Carlos fez até o esforço de reportagem que eu deveria ter feito!
    Um abraço a vocês.
    Sérgio

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