Tinham mães que os amavam

A calva e res­plan­de­cente cabeça de Luis de Pina, então direc­tor da Cine­mateca, pai­rava sobre um tor­men­toso mar punk. Já volta­re­mos à sua cabeça. Antes, deixo-vos com uma pérola de filo­so­fia social: desiludam-se os pro­ac­ti­vos, não cria como­ções soci­ais quem quer e, às vezes, nem quem pode.

O João Bénard con­ce­bera um mega­ló­mano Ciclo do Cinema Musi­cal. Sonhá­va­mos com pla­teias a can­tar e dan­çar o “Sin­gin’ in the Rain”. Entre as obras-primas esco­lhi­das para ova­ção e acla­ma­ção, o João dei­xou escor­re­gar um filme mais recente, pis­ca­dela de olho a mino­ria com algum bri­lho metálico.

Era o The Great Rock and Roll Swin­dle e foi pro­gra­mado para a sala da Barata Sal­gueiro, de uns com­pos­ti­nhos 250 luga­res. O que acon­te­ceu foi tudo menos com­posto. O filme era o dos alu­ci­nan­tes Sex Pis­tols de que faziam parte o mal­cri­a­dís­simo e mal-cheiroso Johnny Rot­ten e o negra­mente len­dá­rio Sid Vicious.

De repente, duas da tarde no pala­cete da Cine­ma­teca, da rua emer­gem vagas tam­bém mal­cri­a­dís­si­mas e mal-cheirosas. Onda a onda, iam-se acas­te­lando miú­dos e miú­das de furi­o­sos cabe­los espe­ta­dos, far­pas negras ou de cores néon, mil brin­cos a ras­gar ore­lhas. Ves­tiam de negro, um negro que de luto nada tinha.

Comiam pas­téis de baca­lhau, arroz que a mãe de algum fizera (tinham mães que os ama­vam, claro), e bebiam litro­sas de tinto. Punks. Está­va­mos, até à rua, inun­da­dos de punks. Já tínha­mos visto meia-dúzia. Des­co­bría­mos que eram um exér­cito e não cabiam no cinema.

A Cine­ma­teca não tinha telha­dos de vidros, mas eram de vidro as por­tas da sala. A pres­são das botas negras da infan­ta­ria punk fez-se sen­tir. O nosso por­teiro teria pouco mais de metro e meio. A ele podia eu gabar-me, mas não muito, da minha altura; voluntariei-me para par­la­men­tar à massa ulu­lante. Observaram-me com curi­o­si­dade ento­mo­ló­gica: um coro de arro­tos e outros fla­tos fez-me recuar.

Com o seu amá­vel cor­pan­zil de Robert Mit­chum, sur­giu o Luis de Pina. Olhar e pala­vras doces, ape­lou à com­pre­en­são cicló­nica dos punks por­tu­gue­ses. A um ligeiro movi­mento de alí­vio e apa­rente con­ci­li­a­ção seguiram-se ultra­jan­tes mani­fes­ta­ções de ale­gria que com­pre­en­diam homé­ri­cas cus­pi­de­las e – volto a ver aqui a calva cabeça – uma escura bota a cru­zar os ares, visando o meu direc­tor. Não sei o que é que eles res­pi­ra­vam, mas os vidros fica­ram afli­tos e emba­ci­a­dos e o da bilhe­teira esta­lou com estrondo. A ale­gria punk é assim, física, cor­po­ral, sem dua­lis­mos car­te­si­a­nos: o corpo é a alma. Che­gou a polí­cia, o sos­sego do cassetete.

As pri­mei­ras ima­gens do filme man­da­ram a sala ao chão. O que lá den­tro se ber­rou, lá den­tro ficará para sem­pre e o triunfo da esca­to­lo­gia que se seguiu teve de ser lavado durante uma semana. Sim, era o público entregar-se a um filme! Não há enge­nheiro social que invente uma como­ção daquelas.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

msfonseca@netcabo.pt

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia

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