Samba do crioulo doido

O casamento entre a princesa Leopoldina e Tiradentes, que acaba em proclamação da escravidão – paródia do jornalista Sérgio Porto na sua genial encarnação como Stanislaw Ponte Preta – é fichinha perto da balbúrdia da política paulistana, essa sim, o expoente do samba do crioulo doido que se esparrama pelo país.

Do ex-presidente Lula ao prefeito Gilberto Kassab, do governador Geraldo Alckmin a José Serra, todos, sem exceção, agem na lógica do avesso.

Kassab, que diz preferir Serra como candidato à sua sucessão, se enlaça com Fernando Haddad do até então adversário Lula. Possivelmente, quer ficar com Lula, mas não pode desagradar seu padrinho Serra. Com isso, faz Alckmin sair em defesa aberta de Serra, seu desafeto íntimo, agredindo – para tentar consertar depois – os candidatos à primeira prévia a que o PSDB se arrisca, tida hoje como ponto de honra para os que crêem no partido.

Enquanto isso, a mosca que não se cansa de zumbir na orelha dos tucanos lembra o apreço do governador por Gabriel Chalita, hoje no PMDB de Michel Temer, vice-presidente de Dilma Rousseff.

Incrível imaginar que um partido possa expor três secretários de Estado – Andrea Matarazzo, Bruno Covas e José Aníbal – e um deputado federal, Ricardo Trípoli, a um constrangimento desses. Mas hoje, fora eles próprios, todos faltam à verdade quando defendem a manutenção das prévias.

No PT – fidelíssimo a tudo que Lula elucubra -, a impensável aliança com Kassab ganhou sabores picantes. Mesmo difícil de engolir por alguns, não formalizá-la depois do envolvimento pessoal de Lula será uma derrota. No mínimo fragiliza a campanha, dificultando-a a sovar o mesmo Kassab para quem Lula fez a corte.

Serra não deu um pio. A disputa à Prefeitura de São Paulo não lhe seduz e pode lhe imputar prejuízo enorme.

Como sempre, tenta-se repetir a lenga-lenga que Serra conhece e até gosta. Que ele é essencial, que o partido dele necessita. Resta saber se o PSDB, Alckmin à frente, entraria de corpo e alma em uma campanha serrista. E, sem gás total, não são remotas as chances de Serra vir a perder para o novato Haddad. Essa sim, uma glória que não tem preço para Lula.

Em qualquer cenário, Kassab ganha. Alckmin, mais ainda. Na hipótese de Serra concorrer e vencer, seu aval terá sido crucial. Se derrotado for, imputa-se a culpa à rejeição do candidato. E, se tiver de sair com o nome oriundo da prévia, receberá todos os louros se vencer e cobrança alguma pela derrota de um candidato de primeira viagem.

Para Lula e Haddad, esse descompasso atravessa o ritmo da campanha. Não podem colocar o bloco na rua sem saber qual fantasia usar.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 19/2/2012.

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