Quando o grande músico deu destaque à palavra

Caçador de Mim, 15º LP em 14 anos de carreira profissional de Milton Nascimento, é um disco musicalmente riquíssimo. Os arranjadores, os regentes, os instrumentistas são alguns dos melhores do País: Wagner Tiso, Hélio Delmiro, Robertinho da Silva, Mauro Senise, Luiz Alves, para citar apenas alguns dos mais conhecidos.

Mais: é um disco de produção rica, pródiga. Apesar dos tempos de crise na indústria fonográfica, a Ariola não faz qualquer economia na arregimentação dos músicos. Há de tudo, desde os instrumentos mais tradicionais na música popular, como violões, baixo e bateria, até uma orquestra de cordas de 21 membros, passando por metais (trompetes, trombones, flautas) e os instrumentos experimentais feitos com tubos de PVC, panelas, caçambas e quetais pelo Grupo Uakti – e até mesmo o chicote de um domador do Circo Garcia.

Tudo isso, é claro, bem usado, aproveitando as sempre ricas melodias desse artista maior da música brasileira (Milton é autor de seis das dez músicas do LP) e as de outros compositores que ele escolhe para interpretar.

Mas a riqueza musical de Milton Nascimento não chega a ser novidade.

A característica mais marcante deste novo LP – mais do que a própria música – é a palavra. Caçador de Mim, certamente mais que todos os outros trabalhos deste mineiro nascido no Rio de Janeiro, é um disco que privilegia a palavra, o discurso.

Não que a palavra não fizesse parte das preocupações desse músico bem-dotado, desde o início de sua carreira. A questão é que sua carreira ganhou impulso e floresceu numa época pouco dada ao discurso. Pelo menos aquele que Milton Nascimento e seus parceiros tinham para oferecer. Seu primeiro disco, Travessia, apareceu em 1967. Os outros surgiram depois do dia 13 de dezembro de 1968, sob o império do AI-5.

Era o tempo das metáforas, para Milton e seus amigos. Eles eram obrigados a escrever imagens sinuosas, como esta, por exemplo: “O que vocês diriam desta coisa que não dá mais pé? O que vocês fariam pra sair dessa maré? Sair desta cidade, ter a vida onde ela é: subir novas montanhas, diamantes procurar no fim da estrada e da poeira um rio com seus frutos me alimentar” (“Saídas e bandeiras”, Milton-Fernando Brant, 1972, governo Médici).

Houve um tempo em que sequer as metáforas foram permitidas. Depois desse disco de 1972, o álbum duplo Clube da Esquina, Milton gravaria Milagre dos Peixes. São 11 músicas; apenas três são cantadas. No encarte que acompanha o disco, está escrito, em várias delas: letra de fulano de tal. Só que no disco não há letra. Um crítico observou, na época, que Milton Nascimento conseguiu fazer da censura do regime Médici um excelente parceiro – porque ele gravou o disco mesmo assim, sem letras, apenas cantarolando, fazendo improvisos com a voz magnífica, enchendo de sons o vazio das palavras. E o resultado foi brilhante.

Interessante: uma das letras que a censura permitiu fosse gravada naquele disco foi a da música “Sacramento”. O autor era o próprio Milton, letrista bissexto – nos 14 discos anteriores a este Caçador de Mim, tem-se notícia de apenas oito letras feitas por ele. “Sacramento” é uma obra pesada, sombria, quase funérea. A letra, esmagada pelas metáforas, é quase desesperadora: “Com o pranto calado me casei, um banho de cinzas batizou o quarto fechado que afastei. No crisma de busca assumi dois olhos que ainda não achei”.

É curioso lembrar aqueles tempos sombrios ao se ouvir agora este Caçador de Mim, um disco que privilegia a palavra, o discurso. Aqueles tempos parecem incrivelmente distantes, quando se ouve o novo LP.

O encarte que acompanha o disco, com uma bela foto de uma paisagem colorida de azul, traz de início um texto de Fernando Brant, parceiro de Milton desde os primeiros tempos de fama, a partir de 1966, e um dos letristas mais assíduos nos discos do músico. O pequeno texto chama-se “A caminho da utopia”, e diz: “A semente do amor, dignidade e justiça que recebemos frutifica e também estende seus braços. Está plantada nos corações dos jovens. Esteve e está em todos os nossos discos. Como sempre, continuamos a repetir palavras essenciais: justiça, crença, esperança, alegria”. E finaliza: “Apostamos tudo na utopia”.

Assim como muita gente gastou energia cobrando de Caetano Veloso e Gilberto Gil declarações políticas, certamente haverá quem vá criticar Milton Nascimento por atacar de discurso. E o artista já sabia e sabe disto. Por isso, ele diz, um “Sonho de Moço” (música do parceiro novo Francis Hime, letra dele mesmo, o poeta bissexto Milton Nascimento): “Pensam que não vale mais eu vir cantar rumos de povo, coisa e tal, e sonhos de moço pensam ser devagar, morreram com quem já não é. É hoje, é sempre, amanhã, sempre está; sou homem, sou jovem, menino, sou eu. Por mais que me mate o amanhã, a fé me transborda esta manhã”. Para mais adiante dizer, sem qualquer metáfora: “Que importa se estou a repetir sessenta e oito, qualquer dano, o dano todo. Quero acreditar”.

O letrista Milton Nascimento está presente em outra faixa do disco (ele é também o autor da música), “De magia, de dança e pés”. “Ninguém pode impor, meu irmão, o que é o melhor pra gente”, diz ele, a voz junto com o som estranho e bonito dos instrumentos do Grupo Uakti.

As outras faixas inéditas do disco são “Amor Amigo”, “Vida”, “Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)”, e “Coração civil”, todas as quatro da parceria Milton-Fernando Brant. Destas, as duas primeiras, mais lentas, com o acompanhamento de orquestra de cordas, são belos poemas de amor. (“O amor bateu na porta; eu de dentro respondi: minha casa é aberta, pode entrar, estou aqui”, diz ele, em “Vida”). As outras duas falam de utopia, justiça, Brasil (“o Brasil não é só litoral, em muito mais, é muito mais que qualquer zona sul”); nelas, o andamento é mais rápido, o ritmo mais marcado, a voz de Milton mais leve, alegre.

As quatro músicas restantes são regravações. “Caçador de Mim”, a faixa que dá título ao LP, de Sérgio Magrão e Luís Carlos Sá, já está no segundo LP do conjunto a que pertencem os autores, o 14 Bis. A voz de Milton casa-se perfeitamente à melodia e à bela letra – como milhares de paulistas puderam ouvir no show “Sentinela”, no Ibirapuera, no primeiro semestre, mas é impossível deixar de assinalar a magnífica guitarra de Hélio Delmiro.

“Bela bela”, poema de Ferreira Gullar que Milton musicou, já estava no LP Assim seja, de Wagner Tiso, e no disco de estréia do conjunto Viva Voz. E “Nos bailes da vida” foi lançado por Joanna em seu terceiro LP, que chegou às lojas em julho deste ano – mas a interpretação de Joanna parece pálida e sem emoção, depois da gravação de Milton.

Finalmente, há a música que abre o disco – “Cavaleiros do céu”, versão de Haroldo Barbosa para a balada “Riders in the Sky”, de um certo Stan Jones. As pessoas com mais de 30 anos certamente se lembrarão dela – uma música desagradável que o hoje esquecido Carlos Gonzaga, cantor especializado em versões de músicas de categoria duvidosa, obrigava os ouvintes de rádio a tolerar, no final da década de 50, início dos anos 60. A música tem um sentido especial para Milton – como ele disse à repórter Maria Amélia Rocha Lopes. E, de fato, só um motivo pessoal poderia explicar a sua inclusão no disco.

Não faz mal. Basta pular a primeira faixa, e ir direto à segunda. Aí o disco mostra-se impecável.

Esta resenha foi publicada no Jornal da Tarde, em 26/9/1981.

 

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