O treino para o Mundial de Dominó é no bar

Entre bolinhos de bacalhau e coxinhas, a Federação Paulista de Dominó forja seu destino. Sua sede não tem pompa, mas o agradável clima de uma confraria de vizinhos de bairro. Onde os vizinhos se encontram? No Bar do Valdeci. Pois o bar, em Cidade Patriarca, na zona leste, é a sede da Federação.

O dominó, em São Paulo, sempre foi um jogo agradável e descompromissado. Aposentados são vistos à sombra de árvores, em praças, distraindo-se com ele. Pois hoje é um esporte, com Estados brasileiros preparando-se para disputar o campeonato mundial. Como o de futebol, o Mundial de Dominó de 2014 será no Brasil. Pena que, por aqui, esse esporte não seja reconhecido oficialmente.

Cidade Patriarca fica adiante da Penha, zona leste adentro. Não tem agência de banco, nem de correio; o comércio, disperso, oferece apenas um pequeno supermercado. Mas o bairro pode se orgulhar de ter uma federação paulista, justamente a de dominó. No começo eram meia dúzia de pessoas que, aos domingos, se distraiam com o jogo. Em 2000, resolveram disputar campeonatos. Fundaram o Unidos do Dominó, no ponto de encontro – o Bar do Valdeci.

Hoje, como antes, o Valdeci prepara pessoalmente os petiscos. Quando há reunião de diretoria da federação, ocupa seu posto de diretor financeiro. O presidente da entidade, por sua vez, perfila-se entre os que aperfeiçoam sua técnica nas mesas do bar. É Manoel Mendes Vieira, o Nildo, um representante comercial em vias de se aposentar.

Muitas vezes Nildo mais atua como presidente do que joga dominó. A luta da federação é consolidar o dominó como esporte oficial, e conseguir patrocínios para disputar campeonatos pelo País, e fora dele. Tarefa complicada.

No ano passado, em janeiro, foi fundada a Confederação Brasileira de Dominó, com sede em Brasília. Em novembro, teve lugar, na cidade, o 1º Torneio Oficial de Duplas. De Cidade Patriarca partiram o que Nildo chama “os dez heróis”. Ele e os outro nove foram à capital do País, participar do torneio, “por conta própria”, como diz Nildo. Ou seja, com dinheiro do próprio bolso.

Comerciantes do bairro, em todo caso, “entraram com alguma coisa”. Os nomes deles estão estampados nas costas da camisa oficial da Federação Paulista de Dominó, envergada pelos jogadores durante a disputa. Ela tem 13 listras pretas e gola vermelha, “as cores da bandeira paulista”. No torneio, Brasília ficou com o primeiro lugar. São Paulo, com o sétimo.

A pedida, agora, é o campeonato mundial de duplas da Jamaica, no Caribe, em junho. Os jogadores classificados em Brasília (não é o caso de São Paulo) terão recursos para ir? As experiências anteriores não recomendam nada.

O dominó tem dois mundiais por ano. Os brasilienses participaram dos da Costa Rica e na Abcácia, na ex-União Soviética, ambos no ano passado. O critério foi o “vai quem pode”. Os próprios competidores pagaram passagens e hospedagem. As entidades do dominó têm buscado patrocinadores, mas é tarefa inglória. As empresas não se animam porque ainda vêem o dominó como um passatempo de idosos.

Em maio do ano passado, entidades estaduais foram recebidas pelo então ministro interino do Esporte, Vicente Neto. O ministro prometeu apoiá-las institucionalmente. Em termos práticos, o que isso significa? “Apoio moral”, diz Nildo. Orientação, por exemplo, para montar processos de acesso à Lei do Incentivo ao Esporte, caminho para atrair patrocinadores.

O ministro não se comprometeu com o reconhecimento oficial do esporte. “Disse que para ser reconhecido basta jogá-lo.”

Entre os dominoístas, como chamam a si próprios, estava o presidente da Federação Internacional de Dominó, FID, Lucas Guittard. Citou Nildo, por ter sido o primeiro brasileiro a fazer contato com a federação, hoje sediada nos Estados Unidos. “Dei o pontapé inicial”, diz o referido, na mesa da diretoria, no Bar do Valdeci. Em janeiro último, os representantes dos Estados estiveram com o ministro dos Esportes Aldo Rebelo. Tratou-se do campeonato mundial de 2014 no Brasil. Rebelo elogiou a iniciativa, e prometeu apoio institucional.

Enquanto isso, os dias passam tranquilos no Bar do Valdeci, há 17 anos na mesma rua. “Este bairro parece uma cidadezinha do interior, todos se conhecem”, diz o proprietário, de trás do balcão. “Se um estranho entra no bar, é trazido por um conhecido nosso.” Os que jogam dominó ocupam as mesmas mesas que a freguesia comum, entre as que ficam nos fundos da casa. O lugar é adornado por troféus, alguns grandes, conquistados nas partidas de dominó na região.

A federação ocupa o andar de cima. Nesse espaço, desimpedido, são jogadas as partidas dos campeonatos. Perto da janela, há uma mesa maciça, guarnecida pelas bandeiras brasileira e paulista. Nela a diretoria despacha. Nildo passa ao visitante um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona, na Espanha, sobre a relação entre o dominó e o mal de Alzheimer. O trabalho diz que a atividade intelectual e a sociabilidade, proporcionadas por esse jogo, podem reduzir o risco de se contrair a doença.

O Valdeci deixa que o presidente Nildo fale sobre dominó. Mas pode dar conselhos sobre sua cozinha. Alerta que o bacalhau congelado, vendido nos supermercados, não é bom para fazer bolinhos.

 

No dominó, não há drible, gol de placa,

exibição de boa forma física.

grande virtude está na concentração

 

É proibido falar, claro. E usar o celular. As mãos têm que estar sobre as pernas, imóveis. Quando a mão se mover para pegar uma pedra, e colocá-la em jogo, o gesto tem que ser direto e determinante. “Pedra pegada, pedra jogada”, diz a tradição, apoiando a regra. Se a mão vacilar, o juiz pune. O faltoso perde pontos.

Nos campeonatos de dominó, os jogadores comparecem com a camisa do clube. Vistosa, como as do futebol. E, como neste, o juiz tem à mão o cartão amarelo e o vermelho. E mais um, o negro. No jogo de duplas, o palco da disputa são uma mesa e quatro cadeiras. Os parceiros, agora como em um jogo de buraco, sentam-se frente à frente.

Duas duplas, 28 peças de dominó, com seus pontinhos desenhados, de um a seis (algumas sem pontinho, valor zero). Sete peças por jogador. No geral, as partidas duram 300 pontos ou 55 minutos. Mas podem ser menores, de 30 a 80 pontos, por exemplo. Em grandes eventos, com 40 mesas, há cinco ou seis juízes de olho. E pessoal da organização do torneio.

A única concessão ao rigor é a “pensada”. Na sua vez, o jogador demora alguns momentos para agir. Isso funciona como um sinal para seu parceiro. Ele tem que entender o que o autor da “pensada” está justamente pensando, o que está querendo. A experiência e a concentração fazem com que isso seja possível. O parceiro, então, joga de forma a favorecer o pensador.

Os juízes e fiscais ficam atentos a outra possibilidade, esta proibida: o trampo. O jogador pode erguer sutilmente um ombro (por exemplo) e assim dar ao parceiro o sinal da jogada a ser feita. No Maranhão, diz Manoel Mendes Vieira, da federação paulista, o trampo é tolerado. Isso, afinal, pode tornar as partidas mais divertidas. Mas está descartado em campeonatos nacionais.

No comum, se o juiz perceber alguma irregularidade levanta o cartão amarelo, como advertência. Na reincidência ou caso mais grave, ergue o vermelho. O infrator perde de 10% a 20% do total de pontos da partida (em uma de 300 pontos, pode ficar sem 60, 20%). O cartão negro expulsa o jogador, em caso de indisciplina. Discutir com o adversário ou o próprio parceiro, por exemplo.

Se o jogador pegar a pedra e a deixar cair, terá que colocá-la sobre a mesa, à vista de todos. Na sua vez de jogar, é obrigado a usá-la assim que for possível. Se a pedra se encaixa em uma jogada, não pode deixar de fazê-la, mesmo que isso lhe seja desinteressante.

No dominó, não há drible, gol de placa, exibição de boa forma física. A grande virtude está na concentração. Se Ronaldo jogasse dominó, com suas excepcionais qualidades, ainda seria o Fenômeno.

 

Tudo é muito novo, na organização do esporte.

A Confederação Brasileira de

Dominó foi criada em janeiro de 2011

 

O Campeonato Mundial de Dominó de 2014, a ser disputado em Brasília, em setembro, deverá contar com mais de 300 duplas de esportistas, vindos de 37 países. Destas, pelo menos cem serão brasileiras. Em junho, o Brasil participa do Mundial da Jamaica, no Caribe, com duas duplas. Depois haverá outro na Venezuela; há dois campeonatos por ano.

Quem serão esses nossos craques? Não há nomes de destaque ou favoritos. As duas duplas vão surgir das disputas em campeonatos estaduais e nacionais. O próximo nacional está previsto para ocorrer em São Paulo, em março. Com essas disputas, a Confederação Brasileira de Dominó, Conbrad, está criando um ranking de jogadores, ainda inexistente. Tudo é muito novo, no esporte. A Conbrad foi criada em janeiro do ano passado.

Os brasileiros que nos representarão certamente são craques, mas isso não basta. Sem patrocínio ou outro apoio financeiro, o jogador tem que custear viagem e estadia. Para o Mundial de Brasília, espera-se que este problema esteja resolvido.

A decisão sobre o Mundial no Brasil foi tomada em junho do ano passado, na Costa Rica, na América Central, que sediou um mundial daquele ano. A Federação Internacional de Dominó, FID, com sede na Flórida, Estados Unidos, nomeou o Brasil como integrante, e deu-nos o mundial.

Esta reportagem foi escrita para o Diário do Comércio, e publicada na edição de 20 de março de 2011.

 

Um Comentário

  1. antonio de oliveira
    Postado em 25/04/2016 às 11:57 pm | Permalink

    gostaria de participar de um campeonato como devo fazer

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