O mestre da música

Meu irmão me presenteia com um DVD raro e fascinante. Uma minissérie alemã e húngara sobre a vida e a obra de Johann Sebastian Bach. Aproveito o dia, curto o dia. Durante seis horas me rendo à música maravilhosa do mestre, que viveu entre 1685 e 1750, e até hoje nos surpreende, arrepia, espanta e encanta.

Produção primorosa com gravações de alta qualidade, trilha sonora para encenação da vida e do trabalho de Bach. Bom entrar nesse mundo sonoro e esquecer o que se passa lá fora, mesmo por poucas horas.

Não existe o massacre desumano na Síria e em tantas partes do mundo. Fica fora desse meu filme a condenação que o tirano Putin impôs às três meninas cantoras russas. E as guerras e ditaduras que se espalham pelo planeta.

Fico pensando, agora que vi todo o DVD e volto à realidade cotidiana, que o poder não apenas corrompe. Seu poder venenoso vai muito além.

A Síria pastou debaixo do poder dos otomanos durante séculos e, em vez de se libertar, vive há sessenta anos sob as botas sanguinárias da família Assad. A Rússia e seus agregados na União Soviética, mais de setenta anos reprimidos e violentados pelo chamado regime comunista, saem de um laço e caem em outro.

Que destino mais torpe. O mesmo se deu, em vários níveis, nos países africanos. Livres das colônias, viram-se depenados e massacrados por libertadores que não passavam de novos ditadores .

Assim a barca do mundo, pelo menos nesse tempo em que me cabe em sua história, segue condenando a maioria dos povos à infelicidade.

Volto meus olhos para o meu país e assisto ao desfilar dos velhos e novos coronéis do atraso nos postos chaves. Ao lado deles, dogmáticos ideólogos da irreflexão, reacionários que se dizem revolucionários e socialistas. Socialismo privado, somente para os seus, pois os atos e hábitos que consagram impedem o Brasil de crescer como pode e deve. Trata-se da política, que deveria ser algo maior, como uma atividade menor e particular, coisa de torcida de futebol. Paixão e prato feito para serem degustados ao longo da vida, mesmo que essa e os fatos desmintam a cartilha. Livre pensar, pensar, esse é o caminho pessoal e político. Consciência, raciocínio, discernimento, sensatez.

Todo manifesto, todo catecismo deve passar pela prova do pensamento. Nosso governo continua para poucos, apenas os mandatários foram mudados. Abrir a cabeça para descobrir, sem conceitos prévios, qual é a melhor direção para se alcançar o objetivo de distribuir bem-estar para todos. É do que precisamos.

Um rádio, no meio da rua, executa uma canção que não me emociona, não agrada aos meus sentidos. Luto pela liberdade de todos ouvirem o que lhes parece ser melhor. Minha arma, contra os ditadores da realidade e a música que me incomoda, é voltar a Bach.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em agosto de 2012.

2 Comentários para “O mestre da música”

  1. Grande Brant, realmente nosso governo continua para poucos. Mudaram os mandatários,Castelo,Costa e Silva, Médice,Geisel,Figueiredo,Tancredo,Sarney,FHC,LUla,Dilma,etc. Gerentes de poucos em detrimento de muitos. O SISTEMA continua escravizando.

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