O dia em que Anélio Barreto parou as máquinas

O Jornal da Tarde estava às vésperas de completar dez anos, e a data pedia uma comemoração. Eu era subeditor da Reportagem Geral, mas já tinha feito uma ou duas coisas que chamaram a atenção do redator-chefe, o inesquecível Murilo Felisberto, e ele determinou que seria eu o editor de um suplemento especial celebrando a data.

Não me lembro como a idéia me ocorreu, mas sendo o JT um sucesso editorial por seu conteúdo e forma (um sucesso indiscutível que, infelizmente, não resultava em vendas – o jornal era deficitário), decidi que o suplemento deveria ter a cara de cada um daqueles dez anos, uma vez que, graficamente, ele mudava quase que diariamente.

Escalei os editores para que cada um escrevesse um texto – curto – sobre cada um dos anos, resgatei tipologias antigas, particularmente a das manchetes dos primeiros anos, sempre em maiúsculas, condensadas – um espetáculo. Desenhei tudo, fechei o caderno, com a ajuda do Sérgio Vaz, meu copydesk predileto e mão para toda obra (talvez eu até abusasse um pouco dele, mas, vá lá).

Na noite da véspera do aniversário, terminada a edição do suplemento e das páginas normais da Geral, fui para casa. Ou melhor, não fui para casa, mas para um dos botecos que freqüentávamos, provavelmente o Mutamba, que ficava logo ali ao lado, na Major Quedinho.

Lá pelas tantas, duas, três horas da manhã, senti uma súbita ansiedade que me levou à oficina do jornal (jamais conseguirei entender, muito menos explicar, o que motivou aquilo).

Aquela inquietação tinha toda a razão de ser. O suplemento de dez anos estava sendo impresso completamente fora de ordem, as páginas todas embaralhadas, sem a seqüência normal, o que matava toda a idéia original de mostrar a evolução gráfica do jornal.

Eu ali, na oficina, não tinha qualquer autoridade, mas consegui que interrompessem a impressão. Expliquei o problema e logo um engenheiro se apresentou. Vivíamos o início da época dos engenheiros, com eles se multiplicando ao longo do processo de elaboração do jornal, para desespero de todos nós amantes da perfeição – ou melhor, do mais próximo que se podia chegar dela.

Um jornal é tanto melhor quanto o tempo que ele tiver para ser feito – o que, desculpem, é óbvio. No início, o JT fechava às dez horas da manhã do dia em que circulava, por isso o nome, Jornal da Tarde. Mas nem isso se cumpria. Uma manhã, lá pelas dez, onze horas, na época em que o redator- chefe ainda era o Mino Carta, um dos diretores foi perguntar a ele, angustiado, a que horas o jornal fecharia. “Eu não sei” – respondeu o Mino – “o Percival ainda está na rua”.

Com a chegada dos engenheiros esse tempo foi se encurtando. Quanto mais o jornal se “modernizava”, menos tempo havia para que ele fosse feito. Mas isso é outra história.

Estamos agora na madrugada do aniversário de dez anos do jornal e o suplemento comemorativo está sendo impresso desastradamente, as páginas todas fora de ordem. O engenheiro que se apresentou ouviu o problema e foi checar a distribuição das matrizes na rotativa. Estava errado, concluiu. E deu suas ordens: esta vai para lá, aquela para cá, etecétera.

E mandou rodar. Um desastre. A ordem se alterou, mas continuava tudo errado.

Então fiquei conhecendo o Boi. Um sujeito magro, um tanto alto, vestido de macacão, velho funcionário da impressão, embora provavelmente não tivesse mais do que 35, 40 anos. Ele olhou para a rotativa, para a posição das matrizes, e sentenciou: “Num tá bonito”.

O engenheiro mandou mudar tudo outra vez, assim como ainda faria mais umas duas ou três vezes, e quando a máquina rodava eu gritava: – Pára! E o Boi repetia: “Num tá bonito”.

O engenheiro não queria entregar os pontos, mas eu o convenci, já que o homem estava aos pedaços. “Vamos deixar que o Boi faça como acha que deve ser, não custa tentar”, eu disse.

E o Boi fez gestos de maestro. “Essa vai para lá, aquela para ali,…”

Quando terminou, perguntei: “E agora?”. “Agora tá bonito”.

Mandaram rodar, devagarzinho, para que eu checasse. Quando peguei o primeiro exemplar e folhei, gritei: “Manda o pau”.

Ainda havia um problema: e os exemplares que já haviam sido impressos? Não sei quantos, mas certamente mais de três mil. E o pessoal da impressão dizia: têm que ser distribuídos. A única coisa que eu poderia fazer, fiz. Disse que não tinha autoridade para isso, mas, se dependesse de mim, não distribuiria. Eles balançavam a cabeça e afirmavam: iam distribuir.

Então um sujeito baixo, um tanto gordo, acho que também vestindo macacão, me puxou pelo braço. Era o chefe da distribuição. E disse:

– Acha que eu vou distribuir um jornal dos Mesquita desse jeito? Já mandei jogar tudo no lixo.

Março de 2012.

Em Histórias que os jornais não contam mais, uma coletânea de reportagens de Anélio Barreto.

 

3 Comentários

  1. Mary Zaidan
    Postado em 26/03/2012 às 10:40 pm | Permalink

    Delícia pura!

    E não há meias palavras: fazer jornal assim era, sem dúvida, mais trabalhoso, mas muito, muito mais empolgante.

    Ri alto com a história; adorei o texto. Maravilha.

  2. Valdir Sanches
    Postado em 28/03/2012 às 10:39 am | Permalink

    Anélio, esta foi a melhor história, na forma e no conteúdo, que já li sobre o JT. A entrada do Boi em cena, e depois a do gordo, estão magistrais. Vou dar uma busca nos meus guardados para ver se acho esse jornal.

  3. Melchíades Cunha Jr
    Postado em 28/03/2012 às 12:40 pm | Permalink

    O Boi leu a matéria do AB e ficou balançando a cabeça em vertical, como um pica-pau: “Tá bonito”

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