O bocejo das urnas

Para quem se dedica a olhar o mundo pelo universo das redes sociais, ou até mesmo da imprensa convencional, o segundo turno das eleições, principalmente as de prefeito de São Paulo, parece antecipar a batalha do Armageddon – o conflito final.

O mundo parece dividido irremediavelmente entre dois exércitos, e só um deles sobreviverá, enquanto o outro será extinto e eliminado da face da Terra.

Enquanto o povo se espreme em meios de transporte sujos, lotados e ineficientes, ou perde horas para se deslocar de casa ao trabalho, numa cidade graciosamente inóspita como São Paulo, o mundo no qual os políticos gravitam parece resumir-se ao mensalão e ao kit gay.

Sim, são batalhas de valores, e um povo deve preocupar-se com os valores de quem pretende governá-los.

Mas acreditar que a vida em comunidade se resuma a isso tem um efeito devastador sobre o ânimo do eleitor, que poucos se dedicaram a estudar em profundidade.

A verdade é esta: num lugar onde o voto é obrigatório, 1.592.722 dos 6.128.657 eleitores simplesmente não apareceram para votar.

Ou seja: 18,5% deles. Pode-se conjecturar sobre doentes, incapacitados de se locomover, pessoas viajando, ou simples indiferentes e preguiçosos.

Mas dos que se deram ao trabalho de ir às urnas, ou por fervor cívico ou por preguiça de enfrentar as sanções aos faltosos , 381.407 (4,4%) votaram em branco e 576.364 (6%) anularam o voto.

A verdade é que os dois principais candidatos, José Serra e Fernando Haddad, que representam os exércitos do Armageddon, juntos tiveram 42,5 % da votação do eleitorado total da cidade. Ou seja: 6 em cada 10 eleitores de São Paulo aptos a votar não votaram em nenhum dos dois.

Mesmo que se criasse uma entidade única chamada Serrahaddad ou Haddadserra, ela nao atingiria o coeficiente necessário para eleger alguém.

Isso quer dizer que a polarização política que tanto aflige os militantes, a ponto de quase transformá-la, em alguns casos, em razão de vida ou morte, passa ao largo do eleitor comum.

A eleição se tornou uma guerra aborrecida de facções fanatizadas e, enquanto uns se matam por ela, outros preferem bocejar de pura indiferença.

Dos eleitores de São Paulo, 2,5 milhões (28,9%) não votaram em ninguém.

Não é um bom presságio para o desenvolvimento da democracia, e é um sintoma de que a vida política se tornou uma atividade que interessa aos governantes mas é desprezada pelos governados.

Depois de 20 anos de ditadura militar, é assustador que uma democracia tão jovem apresente sinais tão latentes de senilidade. Os políticos precisam tratar de restabelecer a honra da sua atividade.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, erm 19/10/2012

2 Comentários

  1. Miltinho
    Postado em 19/10/2012 às 7:33 pm | Permalink

    O texto do Sandro Vaia é preciso, matemático, conclusivo. Realmente os antagônicos políticos que se degladiaram nos estúdios da TV Bandeirantes deveriam levar em conta o desprezo que causam a 2,5 milhões de eleitores. A cada dia, mais e mais, se faz necessária uma profunda reforma política, reforma pra consolidar a democracia. A batalha final, não será a a disputa pela prefeitura de São Paulo, ela se dará quando o povo cansado de representações pseudo democráticas alinhar seus exércitos contra os governantes do mundo. Haddad x Serra é uma batalhinha de nada, maior é Obama x Romney que decidirá os destinos da maior república/economica em crise. Estamos longe da batalha final, as regras eleitorias ainda fazem com que 63% de “imbecis úteis” legitimem um processo político/eleitoral desgastado e ignorado por uma maioria silenciosa, por enquanto silenciosa. Corremos sério perigo que reacionários, sempre a espreita, resolvam dar um golpe na democracia. Isto seria pior que deixar de votar. Vamos votar, não por ser obrigatório, mas para mostrar as reacionários que estamos alertas.

  2. Miltinho
    Postado em 19/10/2012 às 11:20 pm | Permalink

    NO PAÍS DA PREGUIÇA.
    Esta semana foi marcada pelo sexto pecado capital: a preguiça.
    Começou com a compreensível preguiça do editor de 50anosdetextos, que chutou o balde e foi descansar, de frente para o mar,dez dias de férias em Juquehy(não seria Juqueí mais preguiçoso?). Depois foi o Sandro Vaia que descobriu 16,5% de preguiçosos eleitores paulistas. José Dirceu a estrela má do mensalão acusado de querrilheiro preguiçoso.Por derradeiro a oposição em seu dilhema(infame trocadilho, mais preghuiçosa e incompetente conseguiu a façanha de perder as eleições municipais, desempenho preguiçoso dos tucanos. Editor preguiçoso, Guerrilheiro preguiçoso, Eleitor preguiçoso,Oposição preguiçosa. VIVA A PREGUIÇA NACIONAL!

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