Nara e Elis

As coincidências. Neste dia 19 de janeiro, quinta-feira, faz 30 anos que Elis Regina morreu, e completam-se 70 anos do nascimento de Nara Leão.

É extraordinariamente fascinante que uma única data una essas duas cantoras excepcionais, tão distintas, tão distantes uma da outra, embora com muitas coisas em comum.

Em comum: nasceram na mesma década, Nara em 1942, Elis em 1945. Começaram as carreiras na mesma época, a primeira metade dos anos 60. Rapidissimamente, tornaram-se duas das artistas mais importantes do Brasil na segunda metade do século XX. Gravaram canções dos mesmos compositores. Cada uma delas foi a primeira cantora importante a gravar compositores novos, até então desconhecidos do grande público. Foram contratadas pela mesma empresa – a Philips, que depois virou PolyGram, que virou Universal. Tiveram programas na mesma emissora de TV, a Record de São Paulo. Passaram pela vida como cometas, e desapareceram cedo demais – Elis em 1982, aos 37 anos, Nara em 1989, aos 47.

Tão distintas, tão distantes. Para começo de conversa: nunca se bicaram, nunca foram amigas. Ao contrário. Há quem diga que a rivalidade, quase inimizade entre as duas começou quando Elis passou a namorar Ronaldo Bôscoli, ex-namorado de Nara.

Tinham temperamentos opostos. Nara sempre foi mais tímida, low profile, Elis sempre foi explosiva, expansiva. No seu programa da Record, O Fino da Bossa, Elis e Jair Rodrigues eram show-woman, show-man. Sobre o programa que Nara dividiu com Chico Buarque na mesma Record, e que durou pouco, dizia-se que eram desanimadores de auditório.

Elis tinha voz possante, poderosa; de Nara sempre se disse que tinha voz pequena.

Elis mudava de idéia como quem muda de roupa. Começou cantando versões de canções americanas de sucesso (seu primeiro disco, de 1961, se chamava Viva a Brotolândia), e só depois chegou ao samba e à MPB. Em 1968, liderou uma passeata em São Paulo contra a guitarra elétrica na música brasileira. No auge da ditadura militar, no final dos anos 60, cantou numa festa organizada pelo Exército. Poucos anos depois, passou a cantar músicas de protesto.

Nara teve uma trajetória exemplarmente reta, coerente, em termos de idéias. Esteve contra a ditadura desde o primeiro momento, e jamais arredou pé dessa posição. Musicalmente, no entanto, sempre foi aberta a tudo, a todos os estilos, desde sempre. Tida como musa da bossa nova, não gravou uma música de bossa nova no seu primeiro disco, Nara, de 1964, em que reuniu canções de mestres do samba tradicional, do morro – Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho – a canções modernas de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, Edu Lobo e Ruy Guerra, Baden e Aloysio de Oliveira.

Enquanto Elis marchava contra as guitarras elétricas, Nara se unia a Caetano Veloso e Gilberto Gil no tropicalismo; participou do disco-manifesto Tropicália – Panis et Circensis, de 1968. No documentário Uma Noite em 67, Caetano conta se lembrar de ter olhado a passeata de uma janela do Hotel Danúbio, na Brigadeiro Luiz Antônio, ao lado de Nara, e Nara dizia para ele: “Parece coisa de fascista!”

Elis virou uma grande estrela popular. Nara jamais teve o mesmo sucesso popular de Elis.

As imensas distâncias entre Nara e Elis se evidenciam também agora, quando se aproximam as duas efemérides, os 70 anos de nascimento de uma, os 30 anos da morte da outra. Elis será lembrada “em shows, CDs, livros e exposição, numa reunião inédita de acervos que fãs preservaram por conta própria para manter viva a memória da cantora”, como informa o Segundo Caderno de O Globo, numa edição que dedica quatro páginas à cantora gaúcha.

O mesmo Globo, tão arraigadamente, bairristamente carioca, praticamente ignorou a outra efeméride, a que diz respeito à carioquíssima (embora nascida em Vitória) Nara. Apenas registrou, em notinha na coluna de Ancelmo Gois, o lançamento do site oficial de Nara, o naraleao.com.br.

O site é uma maravilha. Contém os 23 discos oficiais de Nara: o visitante pode ouvir todas as faixas de todos eles. Reproduz com rigor as fichas técnicas de cada disco, os textos da contracapa – vários deles da própria Nara, que escrevia muitíssimo bem. Traz ainda vídeos, alguns deles bem raros, como uma bela interpretação de “As tears go by”, rica galeria de fotos. Foi feito por Isabel Diegues, uma dos dois únicos filhos de Nara, de seu casamento com o cineasta Cacá Diegues – e Isabel não usou um tostão de órgão ou empresa oficial, nem recorreu a patrocínios de empresas interessadas em fazer deduções de seu imposto de renda. É um trabalho independente – tão independente quanto Nara sempre foi.

(Em tempo: postei este texto pouco antes das 2 horas da terça, 17. É preciso acrescentar, a bem da verdade, que, nesta terça, o Segundo Caderno de O Globo trouxe matéria de meia página sobre o site criado por Isabel Diegues. O Estadão e a Folha tinham publicado matéria no sábado passado.)

***

O 50 Anos de Textos traz oito sobre Elis e sobre Nara. Faço aqui um pequeno índice-propaganda deles.

* Elis, querendo ser livre, leve e solta.

Resenha sobre o disco Elis, de 1980. Publicada no Jornal da Tarde, em 10/2/1981.

* Nara, num momento especial.

Uma reportagem minha, a partir de uma entrevista que tive a sorte de fazer com a cantora, no apartamento em que ela morava em Ipanema, em 1981, na época do lançamento do disco Romance Popular. A reportagem foi publicada no Jornal da Tarde, em 27/6/1981.

* Um grande disco da cantora de sensibilidade rara.

Resenha sobre o disco Romance Popular. Publicada no Jornal da Tarde, em 27/6/1981.

* Elis, brilhante. Até no disco que ela não quis.

Resenha sobre o disco Elis Regina – 13th Montreux Jazz Festival. Publicada no Jornal da Tarde, em 10/4/1982.

* O belo disco de uma Nara alegre e segura.

Resenha sobre o disco Nasci para Bailar. Publicada no Jornal da Tarde, em 1º/10/1982.

* Recordações de uma final de festival.

Texto de Laïs de Castro, especialmente para o 50 Anos de Textos, sobre o Festival da Record de 1967, que a autora cobriu como repórter da revista Intervalo.

* Eu vi “Disparada” tomar forma (e outras histórias dos festivais).

Texto de Laïs de Castro, especialmente para o 50 Anos de Textos.

* O fim do Fino.

Laïs de Castro conta como invadiu o apartamento de Elis Regina em 1967 e conseguiu uma entrevista exclusiva com ela.

17 de janeiro de 2012

Agradeço aos autores das fotos das quais me apropriei. E à Mary, que fez essa beleza de trabalho com elas, coisa que eu jamais vou saber fazer.

 

10 Comentários para “Nara e Elis”

  1. Sérgio Vaz, li seu texto enxuto, rico e cristalino, e subitamente fiquei muito bem informado sobre as duas cantoras. A coincidência de datas, que você sacou, é uma dessas coisas impressionantes, de arrepiar. Posso estar enganado, mas seu gosto musical o leva mais para a Nara. Eu sou Elis. Qual é a maior? Qual merece a glória? Marlene ou Emilinha?

  2. Hêhê… Nara ou Elis? Marlene ou Emilinha? Chico ou Caetano? Lennon ou McCartney? FHC ou Lula?
    Boa brincadeira essa, Valdir, já que nós, brasileiros, todos nós, adoramos um Fla x Flu.
    Eu também adoro um Corinthians x Palmeiras, é claro.
    Mas, nessa briga aí, Nara x Elis, não vou entrar, não, de jeito nenhum. Jurei de pé junto que não ia entrar…
    Abração!
    Sérgio

  3. Eu estava lá nos ensaior dos shows do Teatro Record, na Rua da Consolação. Nara era mais recatada, menos conversadeira, mas também tinha um talento infinitamente menor… ela só cantava porque era dona do apartamento onde a turma da Bossa Nova se reunia no Rio. Elis não, soberba, perfeita, jogava com a voz o jogo que inventasse, teria sido uma grande jazzista se vivesse mais dez anos (pode-se ouvir isto já em algumas das suas últimas gravações). E o Cesar Camargo Mariano – que aliás chegou apenas duas horas após da morte dela em Sampa e foi direto ao Hospital das Clínicas, sabe porque? Porque ele já estava no aeroporto quando soube da morte. Ele viria a São Paulo para participar dos arranjos do próximo disco da menina… ela nunca passou de uma menina crescida. Foi cantar para os militares por conta do empresário Marcos Lázaro que disse que não havia problema… O Henfil a enterrou no Pasquim (lembra das tiras do Henfil?) mas depois ela se explicou e foi ressucitada por ele, até porque gravou a música que pedia pela volta do irmão dele. Preciso defendê-la, porque ela era um ser humano impulsivo, mas justo, mais do que justo!
    Elis e Cesar fizeram FALSO BRILHANTE sem nenhum financiamento oficial. Venderam a casa da Rua Califórnia (a única que tinham e onde moravam) para financiar o show…

  4. Pronto. Olha aí: a Laïs, minha amiga do peito, autora de três dos textos deste site sobre Elis, entra na briga Fla x Flu de Nara x Elis. E entra estourando a porta com um pontapé pesado, dizendo que Nara tinha talento infinitamente menor…
    Não vou entrar na briga. Jurei que não ia entrar na briga…
    Laïs, eu te amo mesmo assim!
    Sérgio

  5. Oi, Sérgio.
    Pretendo estar fora da briga mas sempre fui mais Nara. Será que é por causa dos dias do Guabirotuba? Quaquaraquaquá, isto é pra pouco entendedor!. Sobre Elis, de quem gosto muito, sempre pensei o seguinte: quem se exibe mais se arrisca a levar mais pedrada. Ela tinha uma liberdade admirável. Perigosa, portanto.

  6. Olá, Sérgio,
    tenho a pretensão de não ser de briga, você sabe, mas não vou ficar fora dessa, pô!
    Sou Nara desde que nasci, isto é, antes ainda do nascimento da própria…
    Do mesmo modo que você, continúo gostando – e muito – da Laís, mas Nara é Nara, e a força dela tá justamente na vozinha fraca, quase nada. “Quase”.
    Noa idos de 60, em BH, quando tive a sorte de ser sua professora, quem nós ouvíamos, exaustivamete, na república de estudantes em que eu morava? Você se lembra de, algum dia, termos ouvido Elis?
    Ela é uma grando cantora,
    jamais discutiria isso, viu Laís? Entre outras coisas, porque não tenho elementos para tanto, claro. Mas já que o enfoque aqui é de paixão, Flá x Flu, Galo x Cruzeiro, insisto: sou Nara desde sempre, e morro de saudade.

    Sérgio, seu texto é lindo, mais uma vez.

    Beijo antigo, “republicano”
    Vivina

  7. Olá, Vi!
    Tava estranhando sua demora…
    E aproveito para desdizer o que disse antes e entrar na briga.
    A Laís que me perdõe, mas prefiro, aí, a companhia de Caetano e Vivina. Sou Nara desde criancinha.
    Sérgio

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