Esquerda e direita se encontram no infinito

Duas linhas paralelas se encontram no infinito.Os votos da extrema direita e da extrema esquerda na França estão sendo disputados pelos dois candidatos, Sarkozy e Hollander, como se fossem oxigênio. Dependem deles para ganhar o segundo turno.

Pela lógica pedestre aritmética e pelas afinidades ideológicas básicas que existem entre os protagonistas, seria muito simples apostar no resultado. Bastaria somar os 27% de Sarkozy aos 18% da direitista Marine Le Pen e teríamos 45% para o atual presidente.

Os 28% de Hollander somados aos 11% do esquerdista Melenchon produziriam 39% para o socialista. Os 8% de Bayou seriam dividos igualmente entre eles e estaria garantida a reeleição de Sarkozy.

Mas a vida não é tão fácil, muito menos na complexa e temperamental França e menos ainda na traumatizada Europa de hoje.

A lógica elementar da conta aritmética acima mostra que Hollander, o socialista, só vencerá a eleição – e as pesquisas indicam que ele vencerá – se uma parte dos votos da direita protofascista, racista e xenófoba de madame Le Pen migrarem para ele.

Em resumo, para espanto dos nossos ralos maniqueístas que enxergam o mundo em branco e preto, os socialistas só chegarão ao poder na França com a ajuda de parte de quem vota nos extremistas de direita – ou algo parecido com isso.

Na verdade, o que está em jogo na França não é o velho conflito esquerda/direita que alimentou de fogo e sangue o debate político, ideológico e intelectual de uma grande parte do século XX.

O tempo e a realidade sepultaram essas visões, aproximaram e anularam de tal maneira essa dicotomia, que somente na periferia intelectual do mundo seus conceitos fundadores ainda são levados a ferro e fogo.

Norberto Bobbio reduziu à essência o que significa ser de direita ou de esquerda nos dias de hoje. Para a direita, é priorizar o valor liberdade. Para a esquerda, é priorizar o valor igualdade. Todo o resto deriva dessas linhas mestras.

Na França, como de resto em toda a Europa em crise, o que está em jogo é a sustentabilidade do Estado de Bem Estar Social, que provocou crises fiscais e políticas profundas, que derivaram para manifestações de racismo e xenofobia.

Reza o velho ditado popular: em casa onde não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão. A primeira vítima dessa escassez de pão é o imigrante, que tende a ser visto como o intruso que vem roubar o emprego dos nacionais; da competição à xenofobia há um caminho que tende a se encurtar cada vez mais.

Partidos de esquerda e de direita criaram plataformas comuns de resistência ao sonho da Europa unida, e a única coisa que os diferencia é o tratamento ético que dão à questão da imigração.

No resto, estão unidos contra a burocracia de Bruxelas, o centro administrativo da UE, e contra os planos de austeridade receitados pelos organismos financeiros internacionais.

As paralelas que se encontram no infinito têm, neste momento, duas grandes questões a resolver: 1) manter ou não a Europa unida e 2) como não perder o doce sonho da vida boa construída no pós-guerra e onde arranjar dinheiro para pagar essa conta.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 27/4/2012.

 

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