Conversa antiga

(Sábado frio, chuva fina, melhor sossegar em casa, ler um livro. Antigo, de preferência. Combina com dias assim, mais sombra que luz.

No fundo da estante, atropelado por obras mais recentes, enxergo o Diário de um Magro – 1997 –, de Mario Prata.

Dentro, dobrada, amarelada, uma página de jornal. Uma crônica.

Escrita logo após o lançamento do livro – noite fria de um sábado de maio –, e publicada em um jornal de Minas que, então, se interessava por meus textos, não me lembro porque terá ficado ali, dobrada, esquecida, talvez guardada.

Talvez eu quisesse enviá-la ao Mario. Falta de endereço, de telefone, sei lá – computadores ainda não faziam parte –, o certo é que ela ficou ali, dobrada, guardada, talvez esquecida.

Trago-a de volta, tanto tempo.)

Conversa de mineiro

Apesar do sábado e do frio, dois bons motivos para se ficar em casa, enfrento a rua.

Apostando corrida com o vento úmido e insistente, chego à livraria onde Mario Prata autografa o livro novo, Diário de um Magro.

Com meu exemplar já aberto para o autógrafo, ele pergunta se posso esperar. Um pouquinho só. E chama a irmã:

— Rita, olha quem chegou. O Ricardo, nosso primo do lado dos Campos…

Rita, olhos surpresos e curiosos voltados para o irmão e o primo, ri de maneira simpática, própria de parentes que se querem.

Enquanto espero, ouço, maravilhada, uma daquelas conversas em que nomes e fatos, há muito esquecidos, são rememorados. Conversas que costumam trazer de volta certos tios engraçados, outros nem tanto, alguns primos queridos, outros nem tanto, cunhados, padrinhos, sogros. Afilhados.

Percebendo meu interesse, Mario toma, da mão do primo, um de seus últimos livros, Filho é bom, mas dura muito. Na capa, em preto e branco, uma fotografia.

Como se o tempo andasse pra trás, ele vai me mostrando, um a um, os integrantes daquela árvore familiar. O pai, o primo, a mãe…

— Cadê você? – pergunto.

— Aqui, no colo da minha mãe.

— E o Leonel? – quero saber do editor Leonel Prata, gente boa, com quem trabalho, de vez em quando.

— O Leonel? Ainda não tinha nascido, ficou de fora.

Enquanto Mario autografa meu livro, eu lhe digo que valeu a pena enfrentar o frio. Sobretudo pelas conversas.

— Conversa de mineiro, ele diz.

Mario Prata nasceu em Uberaba, onde Minas sabe que está seu nariz.

A crônica original foi publicada em um jornal de Minas. A crônica que a reconta, no primeiroprograma.

 

 

 

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