Bandidos da bola

O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol… (Albert Camus)

Claro que os torcedores das organizadas nunca ouviram falar de Albert Camus e muito menos ele saberia, antes de morrer, que o futebol, muitos anos depois, deixaria de ser guia da moral e das obrigações do homem para transformar-se, por força do desvio comportamental de alguns celerados, em viveiro de bandidos.

A dois anos da realização da Copa do Mundo, prestes a levar um pontapé no traseiro recomendado por um vice-presidente da Fifa por negligenciar suas obrigações de organizador do evento, o Brasil não pára de dar maus exemplos.

Em mais um conflito entre torcidas organizadas delinquentes, dois rapazes morreram no final de semana passado, em São Paulo, poucas horas antes de um jogo entre Palmeiras e Corinthians.

Independente da cor da camisa, não se pode chamar de vítima quem se envolve de livre e espontânea vontade num duelo onde arriscar a vida é uma regra implícita do jogo.

Ninguém é inocente quando se deixa envolver num aluvião de estupidez e vai armado para uma batalha agendada onde a paixão pelo futebol, embora seja o primeiro dos pretextos, é a última das razões.

Lamenta-se a morte dos rapazes como se lamenta a morte de qualquer ser humano, mas é difícil sentir pena de quem fez uma opção deliberada por participar desse circo de selvageria.

O mais extraordinário é que as batalhas campais entre essas gangs organizadas se repetem cada vez com mais intensidade sem que o poder público seja capaz de encontrar o fio da meada para dar-lhes um fim.

Inventaram cadastros de torcedores, proibiram a entrada de torcidas uniformizadas nos estádios (ignorando que não são os uniformes que gritam, duelam, brigam e matam, mas as pessoas que os vestem), elaboraram-se mil planos inócuos e nada funcionou.

Os bandidos fantasiados de torcedores continuam matando uns aos outros, enquanto a polícia e a Justiça olham impotentes, apatetadas e acima de tudo incompetentes e incapazes de cumprir a sua obrigação de prevenir, reprimir e punir o vandalismo e o crime.

Um promotor de Justiça disse a um jornal, depois da última briga que provocou duas mortes, que a culpa é do Código Penal, que é excessivamente “frouxo” e estimula a impunidade.

Muitas vezes uma tentativa de assassinato paga-se com serviços comunitários ou cestas básicas.

Esta é, sim, uma parte da verdade. A leniência com o crime estimula o crime.

A outra é a incompetência operacional da polícia para pelo menos copiar as medidas preventivas e repressivas que acabaram, por exemplo, com a epidêmica delinquência dos hooligans ingleses.

Ou será que a polícia e a Justiça precisam também de um pontapé no traseiro para poder dar conta de sua obrigação de acabar com esse tipo de crime organizado que se disfarça com os uniformes, os hinos e as bandeiras dos times de futebol?

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 30/3/2012.

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