As lágrimas de Fuller

Um carteirista é o seu melhor herói. Precisávamos de um herói que tivesse o orgulho que Richard Widmark tem nos seus dedos. Nem mesmo Maria João Pires tem os dedos desse herói de Samuel Fuller ou o seu profissionalismo amoral. Orgulhamo-nos demasiado das nossas paixões. Talvez devêssemos ter vaidade numa calculada frieza.

Não sei se Pick-up on South Street, belo e cínico como qualquer Caravaggio, é o melhor Fuller. E ninguém pode jurar que um carteirista seja o seu Ulisses. Mas juro que Fuller era o único cineasta capaz de fazer deste nosso último ano em Portugal um filme.

Fuller tinha o sonho de filmar um Vasco da Gama a que De Niro daria a pele. Vi-o rodar em Lisboa Street of No Return. Uma das cenas era boa. Numa noite sebastiânica, a protagonista nua cavalgava pelo arco que ladeia a Igreja de São Vicente. Raro relâmpago de nudez em Fuller. E minto. Nada mais nu do que os seus filmes de guerra. O meu improvável favorito é Merrill’s Marauders. Revi-o agora e é o retrato dos nossos dias. Desengane-se a patrulha do óbvio: não vivemos uma crise, vivemos uma guerra.

Na Birmânia, 3.000 voluntários, os “marauders” do general Merrill, infiltram-se nas linhas japonesas para lhes rebentar a base de abastecimento. Avançam furtando-se ao combate directo. É a nossa história colectiva dos últimos meses. Deu com os homens de Merrill em doidos, dá connosco em doidos.

Que alívio quando chegam a combater. Os soldados de Fuller matam com gosto. Cortam gargantas à faca e disparam sem piedade. Não é um gosto bárbaro, apenas a simples alegria de serem eles a ficar vivos. E nós, chegaremos a combater?

Ganha a batalha, os soldados (diria heróis se houvesse heróis em Fuller) só querem voltar a casa como prometido. Mas dão-lhes nova missão: é preciso avançar e são eles que estão ali. Também nós sabemos que não voltaremos a casa. Há uma mais dura missão: a artilharia da crise vai matar, estripar. Não somos o Gama, mas temos de avançar porque nos calhou estar aqui.

Nos soldados de Fuller antecipo o nosso retrato futuro. Enfrentam pântanos, malária, tifo, fome. Já nada os move, nem o amor à pátria, nem o ódio ao japonês. São espectros que respiram e põem um pé à frente do outro. Bestas da sua besta, roçam o absurdo: um deles carrega alforges para salvar a mula exausta que lhes leva os mantimentos.

E voltam a combater. Os sobreviventes descobrem que nem agora voltarão a casa: dão-lhes outra impossível missão. Na mais bela cena do cinema de Fuller, um desengonçado sargento ruivo, abandonado a uma desmesurada fadiga física e moral, acorda com um miúdo birmanês a enfiar-lhe grãos de arroz pela boca abaixo. Arrebata-o um choro convulsivo. Também nós não voltaremos à mesma casa. Guardemos as lágrimas para o dia em que dedos birmaneses nos levem a comida à boca.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

msfonseca@netcabo.pt

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia

Pick-up on South Street no Brasil teve o título de Anjos do Mal; Street of no Return, Uma Rua Sem Volta; Merrill’s Marauders, Mortos Que Caminham.

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