A última edição

Os jornalistas do Jornal da Tarde fecharam a última edição da publicação, ontem (terça-feira, dia 30 de outubro), com moral alta – e dois furos. “Queremos fazer um jornal memorável”, disse um deles. Não só isso. “Alcançar um final digno, que não pareça um simples abandono.”

O derradeiro exemplar, que chega hoje (31) ao leitor, tem uma entrevista grande, exclusiva, com Ana Estela, mulher do prefeito eleito de São Paulo Fernando Haddad. O eleito passou o dia cercado de repórteres. Mas só o JT se preocupou com a primeira-dama.

Outra matéria exclusiva é a revelação de como será a nova comunicação visual do metrô, as placas, sinalizações. O interesse pela matéria pode ser medido pelo número de usuários desse meio de transporte (3,7 milhões, em média, nos dias úteis).

O JT traz também uma edição histórica, de pelo menos duas páginas, com as capas mais notáveis do jornal, em seus 46 anos de existência. “Estamos procurando viver o momento, vai ser uma edição muito bonita”, disse uma jornalista.

O ânimo da redação foi estimulado, também, pelo número de telefonemas e mensagens recebidas, com solidariedade e protestos pelo fim do jornal. Na página do Facebook da publicação avoluma-se um abaixo assinado contra o fechamento. Perto das cinco horas da tarde, as assinaturas estavam em 490.

Entre as mensagens, chegou esta, de Sérgio Scatolin: “Estou triste, de luto, pelo jornal que leio desde os doze anos e agora vai deixar de circular.” Diz que comprou o JT pela primeira vez em 1970, para acompanhar a Copa do Mundo no México. Agradece, despede-se. “Desculpo os erros, e valorizo os acertos.”

Na quinta-feira , o editor Marcelo Moreira, que também é roqueiro, promoveu um Tributo ao JT. O evento, animado por uma banda de rock, lotou o Johnny, bar vizinho ao jornal, no Bairro do Limão. Pelo menos duzentas pessoas, muitas que trabalharam na publicação em tempos mais recentes, participaram.

O JT fecha as edições às 11 horas da noite. É quando todo o material está pronto, e já foi mandado para os setores que preparam a impressão. Ontem, devia fechar nessa mesma hora – mas definitivamente. Até o fim da tarde, os jornalistas e funcionários não sabiam o que iria acontecer hoje. Todos devem chegar normalmente à empresa. A expectativa era de que se iniciassem negociações.

No fim da tarde, todos os jornalistas e funcionários do JT foram reunidos no meio da redação, sob o pretexto de ouvir algumas informações. E começaram a acontecer coisas. Os fotógrafos da empresa surgiram e começaram a fotografar o grupo. Os integrantes da redação do Estadão, que fica ao lado, e dos suplementos, também apareceram.

E todos passaram a aplaudir os colegas do Jornal da Tarde. Tratava-se, na verdade, de uma homenagem. “Foi emocionante”, disse uma homenageada.

 

Um jornal que nasceu premiado

 

O Jornal da Tarde nasceu premiado. Sua primeira edição, em 4 de janeiro de 1966, foi às bancas com um furo: “Pelé Casa no Carnaval”. A reportagem levou o Prêmio Esso de Jornalismo daquele ano.

A diagramação do JT era inovadora e sem limites. Os fotógrafos preferencialmente não usavam flash, nem mesmo à noite. O que garantia imagens em claro e escuro, obras de arte bem abertas na capa e nas páginas internas, naqueles tempos de preto e branco.

Texto e títulos não eram apenas criativos, mas muitas vezes experimentais. Um repórter resolvia escrever sem aspas. E assim um personagem surgia, falava, e saía de cena na mesma frase que descrevia um fato. Título para a morte do mestre catalão (1973): “Morreu Picasso. Se é que Picasso morre”.

O novo jornal da família Mesquita estava nas mãos de Ruy Mesquita. A redação teve como diretor Mino Carta e, dois anos depois, Murilo Felisberto. Os repórteres representavam uma fornada de novos talentos, muitos vindos de outros Estados.

O trabalho que faziam muitas vezes surpreendia. A edição de julho de 1969, que anunciou a chegada dos americanos à lua, tinha um texto mandado do meio da selva amazônica pelo enviado especial do jornal. Mostrava a reação de índios que adoravam a lua, ao saber (pelo repórter) que tinha gente pisando nela.

Aí pelo início da década de 1970, um avião brasileiro, que saíra dos Estados Unidos, foi desviado para Cuba. Não se sabia se, ao ser liberado, faria escala em Manaus ou Belém. O jornal mandou um repórter e um fotógrafo para cada uma das duas capitais. A escala foi em Manaus. O dois jornalistas que foram a Belém fizeram apenas um passeio.

Nos momentos decisivos para o País, redobrava-se o empenho. A reportagem sobre o comício das Diretas-Já, em abril de 1984, está assinada por 45 repórteres e 15 fotógrafos. Elói Gertel, que comandou o trabalho, recorda. “Fiquei alguns dias preparando a pauta especial para que fizéssemos, como sempre, o melhor trabalho. Éramos imbatíveis nas grandes coberturas e sempre me chamavam para planejar toda a pauta com repórteres e fotógrafos.”

“Sem celulares e internet, tínhamos que planejar e montar também uma infra-estrutura para que os repórteres pudessem escrever e mandar seus textos, e os fotógrafos suas fotos. Transformamos um escritório de vendas de publicidade e assinaturas que o Estadão e o JT tinham na rua Libero Badaró numa sucursal para atender os dois jornais.”

“Pelo JT, escalamos quase toda a redação (os 43 repórteres e 15 fotógrafos). Elaborei a pauta geral, e uma detalhada para cada repórter. Para os fotógrafos, junto com o Reginaldo Manente e acho que com o Luís Carlos Ramos, do Estadão, planejamos a cobertura de todos os pontos e ângulos possíveis para a época. Enfim, o que fazíamos sempre nas grandes coberturas.”

Elói não sabe como foi a edição das matérias noite a dentro. “Quando o último repórter passou a última linha, fui beber com a turma.” No dia seguinte, chegou às bancas uma edição sem manchete. Bastou a foto que cobria toda a primeira e a última páginas mostrando milhares de pessoas.

 

Por um telefone ao call center, a Redação fica sabendo do fim do jornal

 

A desembargadora que presidia audiência sobre o fechamento do Jornal da Tarde, que hoje tira sua última edição, aos 46 anos de existência, surpreendeu-se: “Mas eu assino o jornal, como vocês vão fechar?”

Rilma Aparecida Hemetério, do Tribunal Regional do Trabalho, recebeu  advogados do Grupo Estado e representantes do Sindicato dos Jornalistas, em reunião de conciliação. Na mesma hora, no auditório da empresa, o diretor de conteúdo Ricardo Gandour falava oficialmente de uma morte anunciada.

Os rumores sobre o fechamento do JT, como muitos o chamavam, vinham de algumas semanas. Os 41 funcionários da Redação buscavam confirmar ou desmentir a informação, mas a empresa, como conta um deles, nada dizia.

Há três semanas, um dos jornalistas ligou para o call center do Grupo Estado, e disse que queria assinar o Jornal da Tarde. Ocorreu uma situação bizarra. O jornalista ouviu da atendente que não podia aceitar o pedido, porque o jornal, em que ele trabalhava, ia fechar. Assim, a Redação confirmou que seu destino estava selado.

“Estamos em choque, pela forma como fomos tratados”, diz um dos profissionais do jornal. “Vivemos um clima de fim de jogo, é muito triste. Não só pela iminência do desemprego, mas também pelo jornal. Acreditamos que ainda tinha um bom potencial.”

Com a confirmação (“Tinha até jornaleiro que sabia”), a Redação cobrou uma posição da empresa, mas não conseguiu uma definição clara. Uma assembléia no sindicato acabou resultando na reunião de conciliação, aquela presidida pela desembargadora Rilma.

O Grupo Estado aceitou proposta do sindicato de que não haverá demissões imediatas. Estão garantidos 30 dias de estabilidade, enquanto correm negociações. Alguns profissionais devem passar para outros produtos do grupo, com o Portal Estadão e o centenário jornal de papel.

Na reunião no auditório, Ricardo Gandour disse que o grupo ia investir no Estadão, como está em uma nota divulgada ontem no portal. O fechamento do JT tem por objetivo “investir na marca Estadão com uma estratégia multiplataforma integrada (papel, digital, áudio e vídeo e mobile), para levar maior volume de conteúdo a mais leitores, sem barreira de distância e custos de distribuição”.

A estratégia, diz Francisco Mesquita Neto, diretor-presidente do Grupo Estado, é de “focar no Estadão, principal marca do Grupo, e de investir em uma plataforma digital mais robusta e avançada”. O Jornal do Carro, um grande sucesso do JT, passará para o Estadão, como a nova marca dos classificado de autos, às quintas, sábados e domingos.

Esta reportagem foi originalmente publicada no Diário do Comércio,  em 31/10/2012. 

A foto da redação, logo acima, foi publicada pelo Diário do Comércio junto desses textos de Valdir Sanches. A legenda diz que a foto foi feita em 1986. Deve ser mesmo, porque não estão aí Fernando Mitre, Sandro Vaia, Anélio Barreto, Ari Schneider, Miguel Ângelo Filiagi e o próprio Valdir Sanches. Nem eu. Todos nós havíamos saído do jornal em meados de 1984 para a aventura da revista Afinal. E não está também Elói Gertel, que saiu na mesma época que nós para a Rede Globo. Nós todos voltaríamos para a S.A., a partir de 1988.

Atualmente, o Diário do Comércio tem grande semelhança com o JT dos tempos áureos: títulos inteligentes, ousados, criativos, diagramação diferenciada, agradável de se ver. Não é à toa: o jornal é dirigido por Moisés Rabinovici, um dos fundadores do JT, que levou para o Diário do Comércio vários colegas que passaram pela redação da Major Quedinho e depois do Bairro do Limão. (Sérgio Vaz

2 Comentários

  1. Miltinho
    Postado em 01/11/2012 às 1:12 am | Permalink

    “O jornalismo tropeça em armadilhas. Nossa profissão enfrenta desafios, dificuldades e riscos sem fim. E é aí que mora o desafio”.
    Carlos Alberto di Franco

  2. Postado em 01/11/2012 às 11:11 pm | Permalink

    Choremos lágrimas de amor. O JT amava seus leitores.

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