A criança e o brinquedo (segunda parte)

Eu estava ali, avô, entre as prateleiras da loja de brinquedos. Tinha um objetivo: comprar algo que fosse do agrado da Clara e do Lucas. Mas viajei pra longe no tempo, indo parar na contemplação de jogos que nem existem mais. Olhando as novidades de hoje, antes de me afastar mentalmente para época tão distante, eu quis mesmo foi refletir sobre minha entrada no mundo dos pais, quando se deixa de ser recebedor passando a comprador de presentes.

Uma matéria em um jornal falava de um museu de brinquedos, de pessoas que colecionam e consertam o que se brincava nos anos 70 e 80 do século passado. Fiquei com uma vontade forte de saber a localização de tais lugares.

Principalmente por querer rever uma usina de ritmo e alegria que um dia dei para minhas filhas. Era um carrinho a pilha, com um palhaço tocando um bumbo. Ao ser ligado, o carro se movimentava livremente pelo ambiente, o palhaço tocava e o som ritmado era uma festa para a criançada. As meninas dançavam e pulavam, sorrisos abertos. E o pai vibrava.

Várias vezes tentei comprá-lo para presentear outras crianças. Mas ele sumiu do mercado. Elas certamente se divertiram mais com as bonecas, os cadernos e os lápis coloridos, as massas para modelar e a diversidade de jogos que as fábricas inventam para a felicidade da meninada. Mas eu me lembro mesmo é dele, do “tatac”, nome que recebeu em nossa casa.

Voltando à realidade, naquele universo de ofertas, eu deveria escolher algo que agradasse minhas crianças de hoje. Não pode ser muito barulhento, para não encher o saco dos pais. Não pode ter peças pequenas, para que o veloz garoto de um ano e meio não ponha na boca e engula. Tem que ter o selo que indica que o produto não é tóxico. Mas tem de ser algo que seja bom para eles. A sensibilidade de avô pede ajuda ao menino que fui para poder me desempenhar bem da tarefa. Claro que com a ajuda da avó, que reclama que eu não tenha falado no dia dela, na primeira parte desta crônica, quando me referi às varias datas comemorativas que o comércio e a tradição criaram.

Vida de criança tem de ser brincadeira. Brincando, elas aproveitando o melhor de suas vidas e alegram a nossa. Essa manobra imaginária que fiz, esse ir e vir no tempo, de minha infância à das minhas filhas e delas para os dias de Clara e Lucas, me ajudou a me esmerar nas escolhas.

Não foi, no fim, difícil encontrar o que procurava, sem saber antes exatamente o que seria. A prova do acerto é que desconfio que o presente foi amado pelos pequenos, mas não só por eles. Vi interesse nos olhos dos adultos. Pois, enfim, somos frutos das brincadeiras e dos jogos que marcaram nossa meninice. E quem brincou está sempre disposto a voltar a brincar, o que torna mais suportável contemplar o lado cruel do nosso mundo.

“Há um menino, há um moleque, morando sempre em meu coração.”

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em outubro de 2012. 

Um Comentário

  1. Miltinho
    Postado em 29/10/2012 às 3:43 pm | Permalink

    Sempre bom ler O Brant. Sua infancia, sua cidade, seu time de futebol, seus brinquedos, seus filhos e netos retratados em seus textos mostram paralelos entre as vidas dos outrora meninos em BH ou RJ. Sua crônica me fez rever e retomar meu jogo de botões guardado na estante, tal qual a coleção de livros “Os pensadores” do Sérgio Vaz. Foi bom ler o texto e sacudir a poeira das prateleiras que guardam parte importante de nossas vidas.

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