A criança e o brinquedo (primeira parte)

Dia das crianças, dias das mães e dos pais, dia do índio, dia da mulher, dia do negro. Uns foram criados pelo comércio, ávido de aumentar seu faturamento. Outros lembram lutas centenárias. Mas confesso não assimilar bem essas efemérides. Todo dia é dia da criança, da mãe e do pai. Todo dia é dia do índio, da mulher e do negro. Todo dia é dia de todo mundo. Para que inventaram isso, eu me pergunto?

Começo com a data em que as crianças são festejadas. Penso nos brinquedos que já comprei e nos que comprarei. No tempo em que minhas filhas eram pequenos amores a enfeitar a minha vida, eu dedicava a elas todo o meu calendário. Beijos, abraços e carinhos. Presença, muita presença, o que era bom para elas e para mim. Minha profissão, sem burocracia nem horários rígidos, ajudava. E assim, estamos aqui, em pleno mil novecentos e doze, respirando uma cumplicidade que é fonte para a minha existência.

Comprei para elas brinquedos que nunca imaginara ter. Quando eu era a criança, tudo era mais artesanal. Já existiam, ó modernos, bicicletas, velocípedes e os melhores jogos de mesa. Nem sonhava com os aparatos tecnológicos de hoje.

Mas o que eu gostava mesmo era de brincar na rua com os amigos. Futebol, bente altas, finca, bolinha de gude. Fora as doideiras, quem não malucou quando criança?

Ficava horas em frente à basculante da janela de casa imaginando que era motorneiro de bonde. Percorria em pensamento todo o percurso, rua após rua, parando a cada ponto de embarque e desembarque, que eram chamados de abrigos, apesar de serem descobertos e não protegerem os passageiros nem sol nem da chuva. Como eu viajei pelas ruas de Belo Horizonte na imaginação. Imitava a cada movimento todos os barulhos que a máquina fazia. Pois eu era um conhecedor daquele veículo, amigo dos que trabalhavam na minha linha.

Anos mais tarde, a lembrança forte do que foi o meu maior amigos entre os que conduziam o bonde do bairro da Serra, me deu a ideia de escrever uma das minhas canções que mais me agradam: “Saudades dos aviões da Panair – Conversando no bar.”

Ao lado do Zé Motorneiro, admirando os movimentos de acelerar e frear que ele executava, eu ouvia as histórias que ele contava sobre a segunda guerra mundial. O frio da Itália, as batalhas e perigos que viu e enfrentou, o tiro que ele não levou.

O que eu sou hoje devo muito aos Zés motorneiro, açougueiro, barbeiro e sapateiro. Os zés e as marias que povoaram minha infância me ajudaram a acreditar na simplicidade, no trabalho, na honestidade, no carinho e na alegria diante da vida, esse presente que recebemos para compartilhar com muito amor.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em outubro de 2012.

 

Um Comentário

  1. Miltinho
    Postado em 24/10/2012 às 12:51 am | Permalink

    Sua memória é a minha memória. Que tempos. A primiera coca cola nas asas da Panair. Aguardo ansioso a segunda parte.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*