Um fim de semana com Godard

Havia sangue no asfalto e cadáveres espalhados pela berma, junto ao mato europeu. Sangue e cadáveres desfilavam a 24 imagens por segundo num cine-esplanada do Lobito. Ao contrário do Miramar, debruçado sobre a fingida Guanabara que é a baía de Luanda, o Flamingo virava as costas ao mar para que os espectadores se concentrassem na tela. O filme, Weekend de Godard, projectava-se no escuro de África, o tutelar Cruzeiro do Sul a preguiçar altíssimo, num céu que os espectadores ignoravam.

Foi, depois do meu inaugural Pierrot le fou, o segundo filme que vi dele. Weekend era de 67, o último filme normal antes do autor entrar nos seus “anos Mao” furiosamente militantes e palestinos. Nesse ano, 1975 digo agora, andava também eu em êxtase revolucionário e independentista. Perdidos no cosmos, como diria Godard, Unita e MPLA preparavam os dias e noites de facas longas em que se iriam trucidar fraternal e impiedosamente. Porventura mais Truffaut do que Godard, já eu acreditava que o sexo e a poesia eram as coisas mais importantes da vida. Bem entendido, só depois da revolução que, a meu ver, conjugava os dois e não negava nenhum. A ver se me desculpam: eram os meus 20 anos.

E vi Weekend. Godard, no mais longo travelling da história do cinema, filmava carros destroçados, feridos ensanguentados, corpos a arder. Prenúncio de morte.

À minha volta havia um mundo em desagregação: os portugueses partiam, colonos, chicoronhos, os nossos pais, os pais dos nossos pais. Alguns filhos, muito poucos, ficavam, querendo ser tão filhos da terra como os indesmentíveis filhos da terra.

Lembro-me que tínhamos um olhar firme. Um olhar aprendido no cinema. No filme, nesse filme, Weekend, Godard obrigava-me a ver, de cabeça levantada, terroristas revolucionários que praticavam o canibalismo. Parecia só cinema, o cinema de Godard, refractário da vida, ou pelo menos do que chamávamos a vida burguesa.

Alguns dias depois, vá lá um mês, a Unita aprisionou um comandante do MPLA e os tiros das akás encheram de ecos a amena vastidão da praça que era o Terreiro do Pó. Filhos e enteados da terra, rastejámos para ir ver. Mas nesse fim de tarde, no Terreiro do Pó, ao lado do Chá Para Dois, doce pastelaria, não se conseguia, como ao olharmos para o ecrã do Flamingo, levantar a cabeça do chão. Depois, dias depois, libertado o guerrilheiro, soube-se, disse-se ou mentiu-se, que a Unita o tinha obrigado a comer as próprias barbas. Onde é que começava o cinema, onde é que acabava a vida?

Foi a primeira vez que escrevi sobre um filme. Escrevi, escrevia-se à máquina, com papel químico, e passavam-se as cópias de mão em mão. Em liberdade, para logo aprender que liberdade é violência, como da tela do Flamingo me disse Saint-Just, feito personagem nesse Weekend de Godard.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

msfonseca@netcabo.pt

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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