Quando Gal Costa provou que era também superstar

Gal Costa já não precisa mais provar que é uma cantora maior, afinadíssima, versátil, que domina perfeitamente a técnica e possui uma das vozes mais belas da música brasileira: o reconhecimento de que ela é uma das duas melhores cantoras surgidas no País nas últimas duas décadas é praticamente unânime. Assim, o show Festa do Interior, que ela apresentou sexta, sábado e domingo passados no Anhembi (o texto é de março de 1982), e volta a apresentar hoje e amanhã, e também no próximo final de semana, comprova mais do que isso. Comprova definitivamente que Gal Costa é, além de uma cantora maior, uma grande estrela. Uma superstar, como existem poucas no ramo.

Assim como já havia acontecido na sua única apresentação no Rio (25 mil pessoas no Maracanãzinho) e nas outras capitais por onde já passou com este Festa do Interior, Gal lotou inteiramente os quatro mil lugares do Anhembi em todas as três apresentações do fim de semana passado – e certamente voltará a lotá-los neste agora e no próximo. Os ingressos são caros (o mais barato, que os jornais anunciaram ao preço de 500 cruzeiros, estava sendo vendido na última quinta-feira por 1.500 cruzeiros, não pelos cambistas, mas pela própria bilheteria do Anhembi); de poucos lugares se tem uma boa visão do palco; dezenas das cadeiras de couro do Palácio de Convenções do Anhembi foram destruídas, nos últimos meses, sendo substituídas por cadeiras duras, de plástico, mas altas do que as originais (tornando, assim, ainda mais difícil a visão do palco gigantesco); o sistema de som apresentou problemas graves na noite de estréia; em alguns momentos, os arranjos estridentes de Lincoln Olivetti quase encobrem a voz da estrela.

Apesar de tudo isso, no entanto, Gal faz lotar a nossa maior sala de espetáculos. E mais, muito mais que isso: deixa inegavelmente satisfeita à multidão que paga caro para vê-la. E faz os quatro mil espectadores de cada show ficarem de pé para dançar (ou simplesmente aplaudir) durante o festivo encerramento, que reúne quatro sucessos carnavalescos do repertório da cantora.

Todo o repertório do show, aliás, foi escolhido para isso: para obter uma resposta garantida da platéia. Não se ousou um milímetro, não se experimentou nada – não há muito lugar para ousadias e experiências em um espetáculo feito somente para grandes platéias (o Anhembi é o menor local em que o show se apresentará; nas outras cidades, são ginásios, ou teatros ainda maiores). Gal canta apenas o que o público quer ouvir – ou seja, músicas que as rádios mais tocaram de Fantasia, seu último LP, lançado em novembro passado, e outros sucessos anteriores. Na sua maioria, músicas rápidas, alegres, festivas, carnavalescas.

Já na terceira música que cantou, “Meu bem, meu mal” (Caetano Veloso), Gal pediu a participação do público: no refrão, afastava o microfone sem fio da boca e o colocava na direção da platéia, para ela cantasse em coro. Muita gente cantou junto, mas não chegou a ser uma reação impressionante. Quando, depois de “Açaí”, de Djavan, ela cantou dois frevos – “O bater do tambor”, de Caetano, e “Vassourinha elétrica”, de Moraes Moreira, e que ela não gravou em disco – boa parte da platéia ficou de pé, dançando e aplaudindo. Mas ainda sob os protestos da outra parte da platéia, que preferia ver o show sentada.

O momento de maior emoção, no entanto, viria depois dessa sessão de frevos, quando Gal homenageou nossa outra cantora maior, Elis Regina, e dedicou-lhe a música “Força estranha”. Gal precisou esperar um minuto inteiro de muito aplauso para poder começar a cantar. E a linda música que Caetano fez para Roberto Carlos ficou ainda mais linda, na voz brilhante de Gal, acompanhada, então, apenas por um violão e um baixo. E, infelizmente, também por um alto e insistente zumbido em uma das caixas de som à direita do palco, que começou já na terceira música e prolongou-se até o fim do show.

Igualmente emocionante foi a interpretação, a seguir, de “O amor”, que Gal gravou em Fantasia e que Elis planejava gravar no seu próximo disco. Depois dessas músicas mais lentas, a grande cantora deu lugar novamente à superstar, com o xaxado “Sebastiana” e o rock “Bem me quer, mal me quer”, com que homenageou essa “Maria-sem-vergonha do jardim da música popular brasileira”, Rita Lee.

Durante todos os 60 minutos e as 18 músicas do show, Gal, aos 36 anos, exibiu um vigor e uma garra dignos de uma adolescente: dançou, correu por todos os lados do palco, requebrou, exibiu as pernas deixadas à mostra pelo vestido aberto do lado, suou muito, encharcou o peito fartamente exibido pelo decote. Foi uma Gal já muito suada – mas sem dar mostras de cansaço – que chegou à apoteose final, sob uma chuva de confetes e serpentinas, para cantar, de um fôlego só, seus sucessos “Chuva, suor e cerveja”, “Massa real”, “Balance” e, obviamente, “Festa do interior”. A partir do primeiro destes quatro números finais, já não havia ninguém sentado no Anhembi. E a platéia continuaria de pé, dançando, até exigir que ela voltasse ao palco pra bisar “Festa do interior”. Gal Costa voltou com um rosto feliz, exuberante, seguro de si. Uma superstar. Merecidamente.

Esta resenha foi publicada no Jornal da Tarde, em 12/3/1982, com o título “Afinadíssima, versátil, alegre: Gal, a nossa superstar”.

 

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