Os meninos e Juan Miró

As crianças de cinco anos aprendem na escola a magia do traço de Juan Miró. São pequenas, mas falam com uma desenvoltura admirável sobre o que aprenderam. As características essenciais da pintura surrealista contrastando com o olhar real de um outro artista, que retrata animais e objetos que todos conhecem. A simples percepção da diferença de foco já é um achado.

A sensibilidade menina percebe a estrela sempre presente nas obras do pintor catalão. E vê que as pessoas que ele traça na tela são desconstruídas, misturadas, todos os pedaços lá estão mas de forma desorganizada, diferente. Agora eles vão tentar reproduzir o que aprenderam. E vários Mirós surgem na sala feliz. Pais e avós, orgulhosos, sorriem pelos olhos e pelas bocas.

A arte educa. Um dos caminhos é a música. E como a meninada gosta de cantar. Há, desde alguns anos, um movimento de criação de canções de qualidade para eles. De várias cidades do país chegam melodias e letras, para a garotada, superiores ao que é oferecido aos adultos nos meios de comunicação de massa. Cantando e contando histórias vai-se construindo uma possibilidade de criação de melhores cidadãos. Pelos que estão no meu raio de influência eu procuro fazer a minha parte.

O desenho é outra vereda para se atiçar a sensibilidade dos pequenos. Eles movem suas mãos conduzindo lápis, giz e pincéis, e preenchem o vazio do papel de acordo com seu controle motor, sua personalidade e imaginação.

Muitas escolas, hoje, não querem repetir o erro cometido contra os que são pais e avós agora. Os meninos vinham da infância cheios de vontade de invenção e eram jogados em um ensino formal que lhes tirava toda sede de criar. As aulas de desenho que tive no colégio fizeram com que eu odiasse aquela matéria. Professor é essencial, mas é uma profissão que pode abrir ou fechar, encaminhar ou desviar o rumo de seus alunos.

Mas o que eu sinto nesta escola, que visito sempre, é que se usa arte e beleza para fazer a criançada crescer. A educação tem de ser um jogo agradável, um despertar para o conhecimento. E quando se dança, se canta, se pinta e se brinca; quando há sensibilidade nos mestres, pois são mestres essas moças que cuidam dos primeiros passos dos que amamos, toda esperança e otimismo têm razão de ser.

Os desenhos desses menino me lembram os que eu nunca mais consegui fazer. Eu admiro a inocência e a coragem implícita que eles possuem de se aventurar entre rabiscos que se tornam coisas belas. Dou um beijo na menina que me fez vir a esse encontro e saio pela rua inundado de felicidade.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em dezembro de 2011.

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