Os donos da crise

Um dia depois de o líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vacarezza (PT-SP), afirmar que o Congresso “corre risco quando o governo perde”, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Brasília aludindo à possibilidade de “crise institucional de consequências imprevisíveis”.

 

Mesmo ditas em contextos diferentes, as frases convergem para o mesmo lugar: a lama no poço. E em um buraco muito, mas muito mais fundo do que se poderia imaginar.

Fora as façanhas não explicadas que permitiram ao ministro Antonio Palocci multiplicar espetacularmente o seu patrimônio e a inabilidade com que o governo trata seus partidários e aliados, a que crise se refere Lula? E Vacarezza? A que riscos se remetem esses expoentes do petismo?

Afinal, à exceção da Presidência da República, ocupada por uma mandatária inapetente para a política, que se esconde e esconde as peripécias de seu ministro e prefere viver à sombra do ex, não há nada no Judiciário e no Legislativo – mesmo que este tenha pouco apreço por si – que aponte para uma crise institucional.

Todos os atores estão cansados, exaustos de saber que a crise que embaraça o governo em seu quinto mês nada tem a ver com a estabilidade das instituições. Tem coração e alma no Planalto e é irrigada com sangue do PT e do PMDB.

A crise ao governo pertence, foi por ele consentida e só ele a alimenta. Não adianta tentar socializá-la. E poucas serão as chances de contorná-la se Dilma não começar a fazer política, ainda que a fórceps.

Assim sendo, o sucesso da fórmula de taxar as denúncias como “terceiro turno”, intriga da oposição ou da imprensa, pode não se repetir. A receita sempre funcionou para Lula. Mas não é ele, para a tristeza dele, que preside o país. Ainda que Lula protagonize o absurdo de comandar a República como fez na última semana, agora não será tão fácil inverter os fatos, ludibriar, mentir.

Está claro também que o tempo nem sempre é um aliado confiável para contornar dissabores. Ao contrário de aliviar, a cada minuto que passa a pressão aumenta.

Não há como tergiversar, para usar um termo do agrado da presidente. Mais cedo ou mais tarde, Palocci terá de falar. E não a portas fechadas, como fez para os senadores petistas. Não só por escrito, como fez para a Procuradoria Geral da República e pretende fazer para o Ministério Público Federal. Mas à nação. Sem o que pode se colocar em risco a instituição Presidência da República. Aí, sim, com conseqüências imprevisíveis.

Ou previsíveis. Talvez seja esse o temor

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 28/5/2011.

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