Mudei eu

Há algum tempo, década de noventa, publiquei, durante dez anos, sei lá quantas mil crônicas em um jornal semanal. Os assuntos, sedutores, sobravam.

Alguma coisa mudou, porque escrever anda muito difícil. Não que faltem assuntos, eles continuam sobrando. Entretanto, não seduzem. Não mais.

Machado de Assis, que jamais errava, sabia o que estava fazendo, ao indagar, no verso final do conhecido soneto:

“Mudaria o Natal ou mudei eu”?

Nos dez anos da década de noventa, eu me ocupei, frequentemente, de temas que julgava procedentes.

Assim, lá estavam, crônica após crônica, as caminhadas diárias do presidente que usava camisetas – “o tempo é o senhor da razão” – com recados aos súditos; a ministra da Fazenda dançando “Besame mucho” com o ministro da Justiça; as desavenças conjugais da primeira-dama, chorosa porque o ilustre mandatário do país havia comparecido, sem aliança, a um evento social de suma importância.

Bobagens. Puras bobagens sem a mínima importância.

O país continua o mesmo, claro, mas me recuso a registrar o apartamento de não sei quanto, de sei lá quem; o sigilo eterno – ou de 50 anos – de sei lá o quê; o estádio que vai inaugurar a Copa de sei lá quando; o banco que vai bancar a fusão de sei lá quais e quantas empresas.

Se Machado de Assis me fizesse a pergunta que tem atravessado décadas e décadas sem envelhecer, eu responderia, sem pestanejar: mudei eu.

O mundo continua o mesmo, assuntos sobrando. Assuntos que não mais me seduzem. Não devo ter aprendido a conviver com fatos carregados de constante desencanto.

Mudei eu, sim. Não completamente, graças a Deus e aos anjos que me guardam. Ou é um anjo só?

Por mais difícil que seja seguir escrevendo, jamais deixarei de lembrar amigos eternos, familiares queridos, paixões inesquecíveis.

Amigos eternos, como citá-los? Nem precisa, eles se sabem, se conhecem, se garantem.

Familiares queridos? Vivem por aqui, sondando, rondando, vigiando, guiando. Escrevendo comigo.

Paixões inesquecíveis? O tempo há muito me reafirma quais são, pouquíssimas. Nara, Paulinho, Pena Branca, Graciliano, Karl May, Cortázar, Galo, Guga, Giba.

Mais: ovo, uma coleção de lápis, outra de caixinhas.

Esta crônica foi originalmente publicada no primeiroprograma.

2 Comentários

  1. Roberto Gonçalves
    Postado em 16/06/2016 às 12:27 pm | Permalink

    Querida e sempre lembrada amiga Vivina.
    O tempo passou, mas não teve o poder de retirá-la de nossas lembranças. Saudosas lembranças.
    Abraços,
    Roberto Gonçalves

  2. Postado em 16/06/2016 às 12:29 pm | Permalink

    Vivina,
    Tenho um site no Recanto das Letras:
    http://www.robertogoncalves.prosaeverso.net
    Abraço,
    Roberto

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