Mr. Bojangles, dance!

Existem apenas duas música que não de autoria de Bob Dylan que ele e Nina Simone gravaram. Só por isso – o fato de que esta exata música tenha sido uma das única gravadas tanto pelo mais extraordinário compositor quanto pela mais extraordinária cantora do século XX – torna “Mr. Bojangles” uma canção absolutamente especial.

Mas tem mais. Bob Fosse coreografou “Mr. Bojangles”.

“Mr. Bojangles” é a única canção que jamais uniu Bob Dylan, Nina Simone e Bob Fosse – três gênios absolutos, dos maiores que já houve.

Para muitos estilos

“Mr. Bojangles” foi gravada por muita gente, de diversos estilos. Robbie Williams, o cantor inglês, fez uma versão gingada, um tanto teatral, algo vaudeville antigo – e, ao vivo, apresentou um sapatadeor, sensacional, maravilhoso. A brasileira Jane Duboc gravou num jeito que queria ser alegre, brejeiro. O veterano, venerando guitarrista Chet Atkins fez uma gravação esplêndida da canção. Sammy Davis Jr, feio, preto e judeu de fé quando ainda não havia o politicamente correto, showman como poucos que já passaram por este planeta, cantava magnificamente a canção nos grandes cassinos de Las Vegas. Neil Diamond gravou no auge de seu sucesso.

Grandes artistas adoram “Mr. Bojangles”, cantam “Mr. Bojangles”. Mas a canção nunca foi propriamente um imenso sucesso popular. Ou, no mínimo, não é uma daquelas canções que ficaram como os grandes clássicos populares.

Consulto um velhíssimo – mas absolutamente confiável – alfarrábio, The Billboard Book of US Top 40 Hits: “Mr. Bojangles”, com Nitty Gritty Dirt Band, ficou 13 semanas entre os 40 discos mais vendidos nos Estados Unidos em 1971, e chegou ao sexto lugar. A Nitty Gritty Dirt Band, uma banda texana que transitava entre o folk e o country, foi provavelmente o primeiro grupo a fazer um cover da canção escrita por J.J. Walker, Jerry Jeff Walker. Esse senhor, J.J. Walker, na verdade Ronald Clyde Crosby, mesmo tendo feito sua carreira no Texas, nasceu no Estado de Nova York, em 1942 – um ano depois de Bob Dylan e Joan Baez. Fez um monte de coisa na vida, mas – fazer o quê? – ficaria para sempre conhecido, entre os aficionados, como o autor de “Mr. Bojangles”.

A quebra do dique que separava as pessoas pela sua cor de pele

Até uns 50 anos atrás, a música americana era segregada como eram segregados o Sul dos Estados Unidos, a África do Sul, com leis severas contra a mistura entre a música “negra” e a “branca”. As paradas de sucesso subdividiam os gêneros musicais, que deveriam ser como água e óleo, não se misturando nunca, jamais. Abençoadamente, o rock’n’roll iria romper esses diques raciais, na metade dos anos 50, unindo os brancos Elvis, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, ao som dos negros Chuck Berry, Little Richards.

De alguma forma, “Mr. Bojangles” tem a ver com essa história, o rompimento da segregação, a quebra do dique que separava as pessoas pela cor de sua pele.

Não é nada à toa que Bob Fosse tenha incluído a música em um de seus shows mais famosos. Bob Fosse, como mostram todos os seus filmes, dedicou o melhor de seu talento a combater os preconceitos – contra raça, contra o tipo de arte que se faz.

Mr. Bojangles é tudo isso: um hino à mistura, às misturas. À falta de supremacia.

Junho de 2011

Um P.S.:  Quando fiz este texto, achava que Mr. Bojangles era a única canção não assinada por Bob Dylan gravada por ele e por Nina Simone. Na época, me esqueci de “Let it be me”, versão em inglês de “Je t’appartiens”, de Gilbert Bécaud e Pierre Delanoë. Faço agora a correção.

Mr. Bojangles

(J.J. Walker)

I knew a man Bojangles and he’d dance for you

In worn out shoes

With silver hair, a ragged shirt, and baggy pants

The old soft shoe

He jumped so high, jumped so high

Then he lightly touched down

 

I met him in a cell in New Orleans I was down and out

He looked to me to be the eyes of age

as he spoke right out

He talked of life, talked of life, he laughed clicked his heels and stepped

 

He said his name “Bojangles” and he danced a lick across the cell

He grabbed his pants and spread his stance,

Oh he jumped so high and then he clicked his heels

He let go a laugh, let go a laugh

and shook back his clothes all around

 

Mr. Bojangles, Mr. Bojangles

Mr. Bojangles, dance

 

He danced for those at minstrel shows and county fairs throughout the south

He spoke through tears of 15 years how his dog and him traveled about

The dog up and died, he up and died

And after 20 years he still grieves

 

He said I dance now at every chance in honky tonks for drinks and tips

But most the time I spend behind these county bars ‘cause I drinks a bit

He shook his head, and as he shook his head

I heard someone ask him please

 

Mr. Bojangles, Mr. Bojangles

Mr. Bojangles, dance.

 

 

3 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 16/06/2011 às 10:26 pm | Permalink

    Fiquei espantado com a interpretação pelos
    “Nitty Gritty Dirt Band”. Não conhecia.
    Gosto muito de os ouvir e tenho um album duplo já antigo – “Will the Circle Be Unbroken” que estimo muito.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 17/06/2011 às 1:10 pm | Permalink

    E eu fiquei espantado foi em ver que você vê também o 50 Anos de Textos, José Luís. Achei que você só conhecesse o 50 Anos de Filmes…
    Um grande abraço!
    Sérgio

  3. José Luís
    Postado em 17/06/2011 às 1:36 pm | Permalink

    Venho cá quando me lembro e já li muitas coisas mas parece-me que é o primeiro comentário que faço.
    Um grande abraço também para si caro Sérgio!

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*