Historinhas de redação (11): o capital e o trabalho

Pessoinha chacoalhou o gelo do copo de uísque, na sala da casa do dr. Ruy Mesquita, olhou nos olhos do patrão, apontou contra ele o indicador, e disse:

– ‘Ruy, você é o capital. Eu sou o trabalho.”

Era o momento da pacificação, após a greve dos jornalistas, em 1979.

E aí seria necessário explicar um pouco da greve dos jornalistas de 1979 – embora não haja nenhum tipo de explicação lógica para o fato de os jornalistas de São Paulo termos feito aquela greve suicida.

Mas esta é só uma historinha de redação, e não uma análise sobre a greve.

E então deu-se o seguinte: naquele momento em que tudo conspirava para que os jornalistas de São Paulo decretassem uma greve suicida, o editor-chefe do Jornal da Tarde era Fernando Mitre. Fernando Mitre é um jornalista brilhantíssimo – mas também um homem político, um autêntico prócer do PSD mineiro. Não o neo PSD do Gilberto Kassab, que não é de esquerda, nem de direita, e muito menos de centro, mas o velho PSD de JK, Benedito Valadares.

Mitre sabia que a greve era inevitável, e preparou o jornal para ela. Se ela viesse de fato a ser aprovada em assembléia do Sindicato, liberaria para fazer greve praticamente toda a redação; ele e mais uma meia dúzia de pessoas dos mais altos postos da redação e os filhos do dr. Ruy Mesquita fariam o jornal nos dias que a greve durasse.

A greve foi aprovada numa memorável, lamentável assembléia na Igreja da Consolação, pertinho do Sindicato. (O editorialista Lenildo Tabosa Pessoa iria se referir para sempre à Igreja da Consolação como a Discoteca do Evaristo, referência ao cardeal dom Paulo Evaristo Arns.)

E aqui eu precisaria confessar que na Igreja da Consolação, votei, junto com a maioria da assembléia, pela greve – votamos, Regina e eu, jovens e inconsequentes que éramos, assim como alguns colegas da Reportagem Geral, Durval Braga, Thales Alvarenga, Bob Jungmann, Nivaldo Nottoli. Muitos da redação, no entanto – certamente a maioria – votaram contra a greve, diferentemente do que cheguei a escrever aqui. (Anélio Barreto me chamou a atenção para o erro, que estou agora corrigindo. Sérgio Rondino também me enviou mensagem esclarecendo como foi o processo de decisão sobre a greve dentro da redação do JT, e tomo a liberdade de reproduzir seu esclarecimento mais abaixo.)

A greve não começou após a assembléia na Igreja da Consolação. Ainda haveria uma outra assembléia, no Tuca; a greve foi aprovada pela combinada e exigida maioria de dois terços.

Greve aprovada, fomos beber no Alemão, como fazíamos toda santa noite após o fechamento. E no Alemão tivemos que engolir o sapo: lá pelas 2 da manhã, chegaram Ruyzito, Fernão e Rodrigo, carregando diversos exemplares do JT com a manchete “Jornalistas em greve”. Os filhos do dr. Ruy se divertiam com a greve de merda que não impedia o jornal de circular.

De que serve uma greve de jornalistas se o jornal continua saindo?

***

Passada a greve, Fernando Mitre, o Grande Conciliador, o PSD mineiro personificado, negociou um encontro de todos os editores, pauteiros, chefes de reportagem do jornal com o dr. Ruy, para selar a paz, para explicar que a redação não tinha absolutamente nada contra a empresa. Que havia aderido à greve porque não há coisa pior que o epíteto de fura-greve, mas que todos queriam o bem do jornal.

O dr. Ruy recebeu a corja toda em sua casa da Rua Angatuba, no Pacaembu.

Algum dia alguém deveria escrever a história daquela noite memorável.

Se tivéssemos anotado as histórias do Jornal da Tarde – eu disse isso trocentas vezes nos botequins pós-fechamento –, teríamos um livro que seguramente seria um best-seller. Mas somos umas bestas, nunca anotamos as histórias. Perdemos a oportunidade de escrever um best-seller. Existem no Brasil umas 13.298 faculdades de jornalismo – o livro teria seguramente sido um sucesso fantástico.

***

Não fui ao convescote da Rua Angatuba – era sub-editor, e os sub-editores naquela noite fecharam o jornal. Coisa, aliás, não muito rara, já que os editores, naquela época, deixavam o trabalho duro nas costas dos subs, o que fazia Mario Marinho e eu berrarmos, de diferentes cantos da redação: “Sempre nós!!!” E então eu estava fechando o jornal, porque alguém precisava fechar o jornal, enquanto na Rua Angatuba Mitre tentava demonstrar ao dr. Ruy que os editores, pauteiros e chefes de reportagem tinham feito greve, sim, mas todos amavam profundamente o jornal.

Sandro Vaia, na época editor de Variedades, diz que não ficou até o fim naquela noite. Conta que não chegou a completar sequer uma dose do uísque do dr. Ruy: “Fui salvo pela morte de John Wayne, que me mandou de volta ao trabalho”.

(A página do JT com a morte de John Wayne foi brilhante – como costumava acontecer sempre que havia um grande acontecimento.)

Sérgio Rondino, então editor de Política, viu tudo – e foi uma mensagem recente dele que me deu vontade de escrever esta historinha de redação. Ele se lembra de que, após algumas doses do néctar escocês na casa do dr. Ruy, Pessoinha – Zé Pessoa, Nicodemus Pessoa, jornalista maravilhoso, ser humano melhor ainda – olhou nos olhos do patrão, apontou-lhe o dedo indicador, e proferiu:

– “Ruy…”

Assim mesmo, o desaforado Pessoinha. Não dr. Ruy, mas Ruy, tout court, como se fossem íntimos. Pessoinha gostava muito de beber, mas depois de duas cervejas já ficava em alfa.

– “Ruy, você é o capital. Eu sou o trabalho.”

O dr. Ruy Mesquita, lembra-se bem o Sérgio Rondino, chacoalhou seu copo de gelo e respondeu:

– “Foda-se!”

Um esclarecimento necessário

Sérgio Rondino põe os pingos nos is:

“Creio que sua memória falhou, dada a distância no tempo. Se a minha também não falha, devo esclarecer que a redação do JT NÃO aprovou a greve. Fizemos votação da redação e a maioria se declarou CONTRA, aprovando duas decisões:

Primeira – Ary Schneider, representando a redação do JT, iria à assembléia ler uma declaração de que éramos CONTRA a deflagração da greve. Ele cumpriu a missão.

Segunda – se a decisão da assembléia fosse pela greve, teríamos de acatá-la, como de fato acatamos mesmo sendo majoritariamente contrários.

E combinou-se que os jornalistas do JT deveriam comparecer para votar, cada um de acordo com sua própria convicção. Eu, por exemplo, votei contra, e muitos outros de nós fizeram o mesmo.

Estávamos alinhados com o Emir Macedo Nogueira, que falava por nós nas assembléias, sempre contra a greve. Ele era muito atacado em discursos dos sindicalistas da turma do Jim Jones e radicais da Libelu e outras tendências da época, como o hoje vereador José Américo e aquele comentarista esportivo que acabou se elegendo vereador pelo PT, Juarez Soares. Queriam uma greve de qualquer jeito. Se o Lula fazia greves, diziam eles, a “categoria” dos jornalistas também precisava fazer sua grevinha.

Deu no que deu – e foi aí que o presidente do Sindicato recebeu merecidamente o apelido adequado ao resultado, JIM JONES. Após o retumbante fracasso da direção do Sindicato e sua turma, conseguimos eleger o Emir presidente do Sindicato dos Jornalistas, derrotando o candidato deles, que era o Ruy Falcão.”

Junho de 2011

Se quiser ler mais histórias de jornalistas, clique aqui.

2 Trackbacks

  1. […] de São Paulo teve episódios cômicos, alguns absolutamente hilariantes – como, por exemplo, o diálogo entre o dr. Ruy Mesquita e Nicodemus Pessoa, os dois chacoalhando o gelo em seus copos de uísque, ou o refrão berrado pelos piqueteiros […]

  2. […] a greve terminou, Mitre, eterno apaziguador, promoveu o encontro entre o capital e o trabalho. Fomos todos para a casa do dr. Ruy na Rua Angatuba, e bebemos o uísque que ele mandou nos […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*