Eternidade

Passamos três dias no interior de Minas, minha irmã, meu irmão e eu. Na fazenda onde crescemos, sonhamos, aprendemos, desaprendemos. Vivemos.

Faltou o irmão mais velho, oitenta anos. Justamente o que mora perto, de lá da porteira. Logo depois da árvore torta.

Estava na capital, como dizia nosso pai. Indo a médicos, que ninguém é de ferro. Nem ele, adepto de longas caminhadas e leituras. Guimarães Rosa, de preferência. Nada mais natural. Falam a mesma linguagem, irmanados.

Irmanados, três dias afora e três noites adentro, minha irmã, meu irmão e eu falamos muitas linguagens. Ora a das lembranças, ora a dos sonhos, ora a do espanto. Sempre a da saudade. Nada mais natural. Durante os três dias e três noites, na casa grande, colonial, paredes brancas, janelas azuis, finitas e infinitas imagens iam e vinham, presentes, ausentes, próximas, distantes.

Pais, avós, bisavós, filhos, netos, tios, sobrinhos, cunhados, empregados, um desfile sem fim de fatos e figuras que nem sabíamos que sabíamos, nem lembrávamos que não esquecêramos.

Na mesa grande da cozinha, nós três éramos muitos. Ora com vinte anos, ora com mais de cem, éramos muitos. Inúmeros.

Compramos e vendemos fazendas, plantamos aqui e ali, escalamos árvores, ouvimos músicas, lemos livros, andamos a pé, a cavalo, de trem, de jipe, atravessamos rios, pontes, porteiras, saímos pra não mais voltar. Voltamos sempre.

Na mesa da cozinha, muito maior que nós, nós três, que éramos tantos, dividimos, na primeira noite, o presente e o passado, as idas e vindas, a vida e morte com alguém que, continuação de nós todos, tantos, inúmeros, tinha dupla função: filho e sobrinho.

Filho de meu irmão, sobrinho de minha irmã – e meu, claro –, ele ouvia, falava, lembrava. Algumas de suas lembranças pareciam incorporadas, coladas, herdadas. Nada mais natural. Família é mundo múltiplo, múltipla multidão. Mistério palpável, insondável.

Mistério palpável, herdado de avós ou bisavós, de pais ou tios, o sobrinho carrega o estranho – e bendito – dom, reservado a poucos, de saber alimentar os famintos.

Quase madrugada, um prato feito com antigos e cuidadosos costumes familiares e artesanais surgiu à mesa, fechando a conversa, segurando o tempo, unificando as épocas, sacramentando os laços. Irmanando.

Ao lado de minha irmã, meu irmão, meu sobrinho, enquanto degustava e revivia sabores inesquecíveis, ouvi, pertinho, um sussurro amigo.

A voz de Carlos Drummond de Andrade, mineiro do interior, cidadão universal, me segredava, como se não soubéssemos:

“Há sempre uma família na conversa.

Aqui presentes avós há muito falecidos. Mas falecem deveras os avós?

Alguém deste clã é bobo de morrer?

A conversa o restaura e faz eterno”.

Esta crônica foi originalmente publicada no primeiroprograma, em junho de 2011.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*