Diário de viagem

Estava eu descansando da tortuosa subida à Torre de Belém quando, ao olhar para o lado, vejo o nosso governador Antônio Anastasia. Ao me aproximar vi que não era ele, naquele momento certamente despachando em seu gabinete na Cidade Administrativa. Se pelas costas o sujeito se parecia com ele, pelo rosto e pela roupa que usava um nada tinha do outro. Pouco depois, no hotel em que me hospedara, lá estava o meu eterno companheiro Milton Nascimento, sentado em um sofá, com ares bem conhecidos. Pura ilusão, não era ele.

Acontece isso em viagens, ter a impressão da presença de gente conhecida. Afora isso, lá íamos nós, mais uma vez, percorrendo as terras lusitanas. Não da maneira que eles, conquistadores, retiraram de nossos rios o ouro e o diamante que levaram para o outro lado do Atlântico. Nos intervalos de vôos e das caminhadas pelas ladeiras de Lisboa, eu ia lendo o livro de Lucas Figueiredo, Boa Ventura. Impressionante a descrição da busca dos metais preciosos, as entradas e as bandeiras paulistas desbravando as matas e escravizando índios, matando os primeiros brasileiros e sendo mortos por eles, pelas doenças e pela cobiça.

Descoberta a riqueza, Portugal teve cerca de cento e vinte anos e mais de um milhão de toneladas de oportunidades para se fazer uma nação próspera para seu povo. O livro narra a longa temporada de desperdício, esbanjamento inútil, fortuna jogada fora. O que aqui nas Minas se colheu serviu para impulsionar a revolução industrial inglesa, movimentou a economia da Europa, mas quase nada ficou para os portugueses.

Reis irresponsáveis, cruéis com o nosso e o seu povo, jogaram no lixo as possibilidades futuras do povo e do país que se tornaram nossos irmãos. O fato é que muito de nós, Brasil e brasileiros, além da língua que nos une, está presente naquelas ruas e cidades queridas. E antes que chegasse a semana de trabalho na Bélgica, melhor era colher o que restou de bom na História, do passado e do presente. As igrejas, os monumentos, a cultura.

A temperatura amena convidava aos passeios e às mesas de boa comida e ótimos vinhos. Os alentejanos são muito bons e eu pretendo saber deles melhor, mas eu me curvo, e tenho procurado conhecer, os que vêm do Douro. É uma tarefa que pede tempo, mas essa busca de sabedoria vinícola é uma tarefa agradável. Gosto muito do jeito encorpado, do sabor e do perfume desse ouro líquido de Portugal. Foi muito boa a noite passada na Casa do Presunto, especial. Mas devo confessar que o Gambrinus, mais uma vez, me encheu de contentamento. Todos os meus sentidos estão, até hoje, dia de Santo Antônio e de Fernando Pessoa, agradecidos

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em junho de 2011.

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