Correndo atrás da bola

Vamos aproveitar o espírito de Natal e esquecer de banalidades como o corporativismo da Justiça brasileira e as decisões do STF favorecendo indiretamente juízes do STF.

O momento é muito mais grave.

Estamos a dois anos da Copa do Mundo, temos problemas de estádios, de mobilidade urbana, de aeroportos, de desvios de dinheiro em obras públicas, de venda de cerveja nos estádios, de ingerência da Fifa nas leis brasileiras, mas tudo isso não é nada perto da catástrofe que se desenha.

Depois da mais longa roda de bobinho da história do futebol mundial, no jogo Barcelona x Santos na semana passada em Yokohama, descobrimos que o futebol brasileiro, que era tão sólido, desmanchou-se no ar. E quando Karl Marx inventou essa frase sequer conhecia Mano Menezes.

Desde Zagalo estamos habituados a ouvir, com o sotaque carioca dos passarinhos na boca, que ninguém é capaz de superar a graça,a beleza, a malemolência e a picardia dos nossos craques e que, portanto, somos imbatíveis, capazes de decidir uma copa com um lance genial de qualquer de um dos nossos Van Goghs da bola.

Não tem sido assim desde que geração de daniéis alves veio substituir a de pelés e ronaldos. A camisa amarela perdeu há algum tempo o poder de fazer a terra tremer.

Mano, mais circunspecto do que Zagalo, jamais seria capaz de comemorar um gol imitando um aviãozinho com os braços abertos perto do banco de reservas do time adversário.

Com o ar grave de quem sabe o tamanho do fardo que carrega, Mano foi direto ao ponto, ao falar depois do sublime vareio do Barcelona sobre o pasmo Santos:

“Esse time veio para fazer história. O Barcelona decidiu há 35 anos que queria ser assim. Trabalharam incansavelmente nesse sentido e o resultado está á vista de todos. A capacidade que tem não se discute. Eles são os melhores”.

Mas não era apenas o reconhecimento óbvio de quem é o melhor. Qualquer um seria capaz de reconhecer isso, até Zagalo, num intervalo de seus delírios de patriótica grandeza.

Mano ampliou a sua reflexão para além da simples admiração pela exibição extraordinária de um time:

“Ouço que sempre vencemos da nossa maneira e que os outros fazem da maneira que fazíamos antes. Temos de perceber que eles estão fazendo algo diferente e temos de aceitar, entender e resolver isto. “

De tempos em tempos, como o Honved de Puskas, o Real Madrid de Di Stefano, o Santos de Pelé e a Holanda de Cruyff, aparece um grupo que reinventa o futebol e é sempre uma reinvenção que leva ao mesmo ponto: um time veloz, imprevisível, que troca bolas com uma precisão incrível, onde ninguém guarda posição, formado por talentos individuais fulgurantes mas enquadrados num esquema tático igualitário, consciente e de espírito predominantemente coletivo, onde o talento está a serviço do time.

Eles chegam em avalanche, trocando bolas, abrindo espaços, dispensando chuveirinhos , e preparando o gesto mortífero final que é o gol, que sempre nasce de parto normal, sem os fórceps do acaso ou da sorte.

Mano tem razão: temos que entender isso. E resolver.

Parodiando Churchill , o futebol é uma coisa muito séria para ser deixada na mão dos retranqueiros.

Este artigo foi originalmente publicadno no Blog do Noblat, em 23/12/2011.

Um Comentário

  1. Valdir Sanches
    Postado em 27/12/2011 às 1:27 pm | Permalink

    Sandro, seu artigo prova que, no jornalismo, a situação é bem diferente. Desculpe o lugar-comum, mas você fez um gol de placa.

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