Atolados na Transamazônica

Sim, lá estava o grandioso Tocantins, com a ponte por onde passa o trem de Carajás. E, formando um Y, seu belo afluente, o Itacaiúnas. Com tanta beleza, por que essa cidade do sul do Pará – Marabá – tinha um apelido tão marcante – Marabala?

A violência era tal que os pistoleiros andavam à vontade pela cidade. Isso foi até que a autoridade considerada “o juiz mais macho do Pará’ – a juíza Marta Antunes Lima – começou a limpar o lugar. Ela já havia deixado sua marca (e sobrevivido a quatro atentados a bala) em Altamira, a 500 quilômetros. Foi por aqueles dias que Paulo César Bravos e eu desembarcamos no aeroporto de Marabá. Nosso propósito, no entanto, não era falar de pistoleiros e xerifes. Mas encarar uma aventura.

Tínhamos a pretensão de viajar pela Transamazônica, a estrada inaugurada em 1972 pelos militares para promover a ocupação do Norte. Deveria unir o Piauí ao Amazonas – mas, dizia-se, ligava o nada a lugar nenhum. Por ela queríamos ir de Marabá a Altamira – ou até onde desse.

Paulinho era um mestre das lentes, grande repórter fotográfico. Produziu um belo material para a revista Afinal, onde trabalhávamos. Mas me aprontou uma…

Em Marabá uma Belina nos esperava. A perua da Ford estava na moda, naquele ano, 1986. O importante para nós é que, se não era um jipe, pelo menos tinha tração nas quatro rodas.

A Amazônia só tem duas estações: seis meses de verão, seco; outro tanto de inverno, com chuvas abundantes. A estrada que íamos percorrer era precária, de terra, mal-afamada, com atoleiros capazes de reter vários caminhões. Um dos mais famosos, o Buraco da Aparecida, tinha metro e meio de fundo por quinhentos de comprimento (Aparecida era uma mulher que instalara uma vendinha, para atender os encalhados). Felizmente estava em outro trecho. E nós, todo animados, em pleno inverno, em um carro de passeio.

O asfalto chegara à Marabá um ano antes. Com isso, o trecho da Transamazônica que cortava a cidade tinha o benefício. Em uma manhã, deixamos o hotel, carregamos a Belina, e embarcamos. Seguimos até o fim do asfalto, fronteira com a realidade de terra. Bem ali, havia um buraco no qual, escrevi, “poderiam boiar uma dúzia de vitórias-régias”.

Presságio, aviso? Ignoramos. Puxei uma garrafa de uísque, e demos um gole pelo sucesso da empreitada. Partimos. Viajamos até bem pelos primeiros 40 quilômetros. Depois foi na base do Deus ajuda. A tração nas quatro rodas nos salvou nos primeiros atoleiros. Atolamos em outro, um pessoal nos ajudou a desencalhar. Seguimos em frente, vai que vai.

Teríamos rodado uns 90 quilômetros, quando chegamos ao acampamento de uma empreiteira. Um grande plástico preto, sustentado por estacas, oferecia teto a uma dúzia de homens. Esses peões e operadores de máquinas eram vítimas de um jogo de desmancha-prazeres. A duras penas arrumavam minimamente um trecho da estrada; vinha a chuva e desarrumava.

Ficamos com dó daquela gente, isolada em instalações tão precárias. Redes para dormir, um prato e uma colher para o boião (a comida), banheiro nem pensar. O chefe do acampamento era o Chaparral, que dispensava a colher – comia com as mãos. Ele e outros que ali estavam nos aconselharam a não prosseguir. Mas nós, repórteres, pessoas determinadas, especiais, nos safamos daquele lugar horrível. Demos adeus e seguimos em frente. Quatro quilômetros depois atolamos em um aterro que parecia uma montanha de lama.

Em pouco tempo surgiu um cortador de banana disposto a nos ajudar. Tinha um facão e estava bêbado. Depois, apresentou-se um lavrador com sua enxada. O trabalho deste homem nos deu esperança. Liguei o carro, acionei a tração, acelerei e… The End. A fricção, peça da embreagem, quebrou.

Passado algum tempo, Paulinho pôs o pé na estrada, com uma missão. Voltaria quatro quilômetros até o acampamento, para pedir socorro a Chaparral. Na boca da noite, voltou com uma promessa um pouco vaga de ajuda no dia seguinte, se não chovesse.

O trecho onde estávamos margeava a reserva dos índios paracanãs. O lavrador nos tranquilizara: não mexiam com brancos, a não ser que tentassem entrar na reserva. Juro que não tentamos. Ao anoitecer, a mata se encheu de sons. O mais impressionante eram rugidos que pareciam de onças alucinadas, mas vinham dos macacos guaribas. Jantamos dentro do carro, no melhor estilo náufrago. Roupas molhadas e enlameadas, sardinhas em conserva e biscoitos.

Na manhã seguinte encarei os quatro quilômetros. Chaparral disse que o único jeito seria rebocar a Belina com uma motoniveladora. Mas o pneu da máquina estava furado. E os humores do inverno amazônico presentes. Caía tremendo aguaceiro, e parava. O céu limpava, vinha a bonança, o sol surgia quente. O pessoal do acampamento estendia roupa lavada sobre o pára-brisa dos veículos. Secava em minutos. Logo, no entanto, o tempo fechava e lá vinha água.

Andei os quatro quilômetros de volta para a Belina. Encontro Paulinho dentro do carro, com ares de bem-estar. Não estava mais enlameado, como eu o deixara. Mostrava roupa limpa e asseio. Todo animado, contou que havia tomado um belo banho de chuva.

Abri o porta-malas e procurei a garrafa de água mineral. Havíamos subestimado a situação. Aquela era a última garrafa. Procuro e procuro, na bagunça de roupas e bagagens, e não acho. Pergunto a Paulo:

– Meu, quede a garrafa de água?

Ele, firme:

– Estamos sem, acabou.

Eu tinha certeza de que ainda havia uma garrafa. Estava intacta, quando saí para o acampamento. Aperto o amigo, ele tergiversa, mas acaba por confessar:

– Lavei os pés.

A vida no acampamento da empreiteira até que não era mal. Os 12 homens e suas máquinas ficavam parados por longos dias, à espera de condições para operar. Contavam histórias, as proezas que faziam com suas máquinas a diesel. “Somos bons nisso”, diziam. Chaparral incentivava: “Fumaçou, aquele ali dirige até cachimbo”. Dormi na minha rede garimpeira (de nylon, pequeno volume fechada). Como os outros, e como Paulinho, tomei banho na água de uma mina e comi o boião com a colher. Tinha a promessa de Chaparral de que no dia seguinte, se não caísse toró, iria resgatar a Belina.

Às seis da manhã, com o pneu consertado, o chefe do acampamento pulou para o banco da motoniveladora e deu a partida. No lamaçal, manobramos o carro “na mão” e o prendemos à máquina com uma corda. Chaparral precisou de muita habilidade para a volta. Eles eram bons mesmo. Mal chegamos ao acampamento, a tempestade despencou.

À tarde, surgiu um caminhão da sede da empreiteira. Foi na carroçaria dele, com chuva no lombo, que conseguimos voltar até um ponto a uns 20 quilômetros de Marabá. E agora? Lá vinha uma velha caminhonete, carregada de bananas. Estendemos o polegar. O carregamento incluiu dois sujeitos mal ajambrados em cima das bananas. Foi assim que chegamos a Marabá e ao singelo porém maravilhoso hotel com chuveiro quente.

A concessionária que cedera a Belina incumbiu-se de buscá-la quando desse. Nos ofereceu agora uma picape com tração nas quatro rodas. Com ela chegamos, por uma variante, a Tucuruí, onde está a hidrelétrica. E a um lugar chamado Repartimento. Mas essa é outra história.

A delegada Marta Lima e a hidrelétrica foram mostradas em dois boxes.

Novembro de 2011

 

6 Comentários para “Atolados na Transamazônica”

  1. Eu era ainda menina e já se falava, em Belém, da violência em Marabá A estrada, hoje todo mundo bota a boca no trombone e sai xingando os governos etc… mas naquele tempo, os jornalistas estavam bem caladinhos, com medo de que lhes acontecesse o que aconteceu a alguns raros, deles e de outras mais categorias… Então, a Transamazônica sempre foi um estrada que não prestou seu serviço ao Brasil mas, com certeza, prestou “bons serviços” “àqueles” daquele tempo… E o Norte é assim mesmo, sobrevive porquê é “teimoso”.

  2. Foi você o “alemão” nessa viagem?
    Nesse ano eu nascia, mas ouvi muitas histórias sobre essa aventura.

  3. Renata, eis a resposta do Valdir Sanches:

    O Paulo César Bravos, fotógrafo, não me chamava de “Alemão”, mas foi com ele que encarei o lamaçal da Transamazônica. Na mesma viagem fomos a Serra Pelada, a enorme cava de onde garimpeiros extraiam ouro, e a Carajás, colossal mina de minério de ferro explorada pela Vale do Rio Doce.Foi uma aventura e tanto.

  4. Sergio Vaz: Nossa, de alguma forma só cai de volta aqui mais de 4 anos após sua resposta, desculpe a demora.

    Mas gostoso reler tudo isso. Hoje estou saudosa. Já são 11 anos sem meu pai por aqui.

    (O Paulo é meu pai).

    Abraços.

  5. Mas, Renata, é como diz o ditado: antes tarde do que nunca!

    Bem, a saudade aperta… Mas é bom lembrar das muitas coisas boas que ele fez, né?

    Um abraço!

    Sérgio

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