A cabeça na bandeja

Na gestão de Roger Agnelli, a Vale cresceu 17 vezes e se tornou uma das maiores mineradoras do mundo. No universo corporativo, os indicadores de crescimento, faturamento e lucro que proporciona aos seus acionistas são usualmente considerados fatores decisivos para avaliar o desempenho de um executivo.

Por esses parâmetros, Roger Agnelli é um executivo extremamente bem sucedido. Seria, no jargão empresarial, um prato cheio para a garimpagem de um headhunter que procurasse um executivo para qualquer empresa do ramo de mineração no mercado mundial.

A verdade é que a demanda mundial pelo minério de ferro fez com que o preço subisse em dez anos de 27 para 190 dólares a tonelada, e isso com certeza ajudaria a compor o perfil de qualquer gestor que não seja totalmente néscio.

Mas o que está em jogo aqui não é a competência gerencial do executivo Roger Agnelli, mas a estranha conduta do governo que tenta há anos defenestrá-lo do cargo, o que finalmente conseguiu, depois que o acionista que garantia a sua permanência no cargo, o Bradesco, desistiu de continuar essa espécie de guerra de posições com o governo, e finalmente cedeu às pressões cada vez mais explícitas dos que queriam a sua cabeça – antes Lula, depois Dilma.

O estranho capitalismo para-estatal brasileiro, que tem em alguns aspectos certas semelhanças com o “socialismo de mercado “ chinês, faz com que o governo se intrometa abertamente na gestão de uma empresa privada, com ações negociadas na Bolsa, como se fosse propriedade sua, e sem despertar no mercado e na própria sociedade reações mais intensas do que alguns cenhos franzidos e alguns editoriais manifestando polidas estranhezas, e nada mais.

A implicância do governo com Agnelli, segundo a ligeira cobertura da imprensa diária, teria começado durante a crise de 2009, quando a Vale demitiu 1.300 funcionários, no momento em que o presidente Lula se empenhava em divulgar a sua retórica que transformava a crise numa “marolinha”. Teria continuado depois com a assinatura de um contrato para a compra de dois grandes navios da japonesa Mitsui, quando o governo estava empenhado em estimular a indústria naval brasileira. A demissão de Demian Focca, amigo de Guido Mantega, de uma das diretorias da Vale, teria aumentado o contencioso entre o executivo e o governo.

Enfim, como administrador de uma empresa privada, Agnelli procurava fazer o que costumam fazer os administradores de empresas privadas: procurar os melhores resultados para os acionistas.

Mas no peculiar capitalismo brasileiro, essa regra tem um peso relativo. Mais importante que apresentar resultados para os acionistas é ficar bem com o governo. Em homenagem a esse preceito é que a cabeça do executivo, finalmente, depois de uma longa queda de braço, foi servida numa bandeja.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat.

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