A briga lennonistas x macartnistas? Tô fora

O disco novo de Madeleine Peryroux, Standing on the Rooftop, de 2011, abre com uma música dos Beatles. A moça (e põe moça nisso: ela nasceu em 1973, três anos depois da separação do grupo) escolheu para abrir seu novo disco “Martha, My Dear”, assinada por Lennon-McCartney.

Assinada por Lennon-McCartney, porque, como até cada tecla do meu toca-CD Denon sabe, os garotos tinham feito um pacto de assinar em conjunto suas canções, fossem feitas por Lennon, por McCartney, ou pelos dois juntos – assim como firmaram o mesmo pacto os jovens Roberto e Erasmo.

Mas, como até cada folha morta do Hyde Park ou do Ibirapuera está cansada de saber, “Martha, My Dear” é Paul McCartney puro. Não tem absolutamente nada de John Lennon.

A rigor, não houve nenhuma canção Lennon-McCartney depois de Rubber Soul, que é de 1965. Houve canções de John Lennon e canções de Paul McCartney, assinadas como Lennon-McCartney.

Então, voltando ao início, temos que Madeleine Peyrox escolheu para abrir seu disco novo uma canção de Paul McCartney.

Madeleine Peyroux é uma figura. Para começar, nasceu em Atenas, Grécia, com esse nome francês. Seu timbre vocal faz lembrar ninguém menos do que Billie Holiday, a mais deusa de todas as deusas do jazz, mais ainda que a mais perfeita Ella Fitzgerald. Ao contrário de Billie Holiday, que sofreu demais por ser negra e feia e dedicar-se à heroína, Madeleine Peyroux, branca e bela, tadinha, ao contrário das Amy Winehouse e Lady Gaga de sua época, optou por não industrializar a feiúra, a repelência, o nojo. Optou por cantar bem, pra ver no que dava.

E, quando escolhe o que vai cantar, além dos grandes standards, das pérolas da Grande Música Americana, opta por Paul McCartney.

Não só Paul McCartney, é claro. Madeleine Peyroux é uma jovem (que pena, nestes tempos das cotas, dos privilégios, que ela seja branca, e linda, e não drogada) que, quando não canta os velhos clássicos, canta Leonard Cohen, Tom Waits, Serge Gainsburg, Bob Dylan, Joni Mitchell.

***

Bem, mas e vai daí?

Vai daí nada.

Longe de mim querer entrar na briga lennonistas x macarthistas. De forma alguma quero entrar nessa briga Fla-Flu, quem seria melhor, maior, Paul ou John. De jeito nenhum.

Este post aqui não pretende dar opinião alguma. Só resolvi fazer este post para lembrar fatos.

Em 2011, Madeleine Peyroux abriu seu disco com uma canção de Paul McCartney.

Em 1998, John Pizzarelli gravou um disco só com canções dos Beatles, Meet The Beatles. Das 12 músicas que ele escolheu, uma é de George Harrison, “Here Comes the Sun”. Uma é mais Lennon que McCartney, “You’ve got to hide your love away”. Uma é Lennon-McCartney, “Things we said today”. As demais nove músicas são de Paul McCartney: “Can’t buy me love”, “I’ve just seen a face”, “Eleanor Rigby”, “And I love her”, “When I’m 64”, “Oh Darling”, “Get back”, “Long and winding road”, “For no one”.

Em 2003, outra jazzista, Connie Evingson, gravou seu tributo ao conjunto, o belo disco Let it be jazz: Connie Evingson sings The Beatles. Das 13 canções, duas podem ser atribuídas a Lennon-McCartney: “Wait” e “From me to you”. As outras 11 são de Paul McCartney: “Blackbird”, “Can’t buy me love”, “Fixing a Hole”, “When I’m 64”, “I’m looking through you”, “For no one”, “I Will”, “Oh darling”, “Got to get you into my life”, “Good day sunshine”.

Voltando mais no tempo:

Em 1983, a grande Sarah Vaughn fez seu álbum de tributo aos Beatles. Gravou um George Harrison (“Something”), dois John Lennon (“Come together” e “I want you (she’s so heavy)”) e dez Paul McCartney (“Get back”, “Eleanor Rigby”, “The Fool on the Hill”, “You never give me your money”, “Blackbird”, “Here, there and everywhere”, “The long and winding road”, “Yesterday”, “Hey Jude”).

***

Insisto: longe de mim querer entrar na briga entre lennonistas e macartnistas. Tô fora deste fogo cruzado.

Eu, hein? Não sou doido, nem nada…

***

Sobre Standing on the Rooftop, o disco de Madeleine Peyroux, posso dizer pouco. Estou ainda começando a ouvir. Comprei agora no domingo, na Clássicos, excelente loja de discos e filmes da Sala São Paulo, essa magnífica criação de Mario Covas, onde Mary e eu fomos para, junto com mais umas 1.500 pessoas, ouvir um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (uma suíte de Alberto Nepomuceno, belíssima, que me surpreendeu, e a Sinfonia nº 4 de Mendelssohn), e depois, junto com a Osesp e as 1.500 pessoas, cantar, com a maior alegria, parabéns a você para Fernando Henrique Cardoso.

Não que isso indique que tomei partido, que fiz uma opção política. Não sou lennonista nem macartnista, nem tucano nem petista – como este site muito bem prova.

Junho de 2010

 

2 Comentários

  1. Rafael
    Postado em 23/06/2011 às 10:08 pm | Permalink

    Acho que pelo texto fica bem claro que você não é nada macarthista, ehehehehehheeheheh
    Dificil essa disputa, hein? Na dúvida, nao sou nenhum dos dois, sou Dylanesco, eheheheheh

    Abraço!

  2. Emerson
    Postado em 07/10/2011 às 7:28 pm | Permalink

    Acho que as musicas de paul sao de maior apelo comercial sem deixar de ser grandes cançoes .
    John tinha algo a mais, que fujia do trivial. Sem deixar de ser bom.

    Viva os beatles.e a paz tbm

2 Trackbacks

  1. […] Paul McCartney, o imenso, gigantesco, inigualável Paul McCartney tem paixão por “Live and Let Die”, especialmente composta para o James Bond de 1973, no Brasil Com 007 Viva e Deixe Morrer. Nos seus shows, é uma das músicas clímax, acompanhada por uma festa de fogos de artifício. Como macarthista de carteirinha, confesso: não só acho a música uma josta absoluta como não consigo compreender que Sir James Paul tenha cometido essa asneira, esse elogio aos assassinatos em série. Bob Dylan puxou devidamente as orelhas dele na canção “License to Kill”. […]

  2. […] My Mind (ela com William Galison) e Careless Love (ambos de 2004), Half the Perfect World (2006) e Standing on the Rooftop (2011). Não há como resistir, e então comprei. (Quer dizer: ganhei de presente, porque meu […]

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