Pedro França Pinto (1950-2010)

Algumas lembranças fortes ficaram me perseguindo no dia em que morreu meu amigo Pedro França Pinto. Duas delas têm a ver com morte. A outra, que na verdade é mais de um período que de um momento, é gostosa, prazerosa, agradável.

Fiquei lembrando do dia em que morreu o pai dele. O velório foi na Beneficência Portuguesa, e o enterro, no Cemitério da Consolação, lá pela metade do dia. Eu estava perto dele quando chegamos ao cemitério, um dos mais antigos da cidade, onde estão dezenas de pessoas que são nomes de ruas; Pedro apontou para umas pessoas que trabalhavam perto do jazigo, e disse uma frase assim: “Olha lá: estão tirando um Pedro França para poder botar outro.”

A outra lembrança é um tanto enfumaçada. Foi o dia em que morreu Regina Lemos. Mary, Fernanda e eu estávamos, por mero acaso, recebendo naquele dia a visita da minha sogra, Dona Lúcia. Dois amigos, colegas, vieram ficar comigo: Elói Gertel e Pedro França. Chegaram depois do trabalho, já tarde, e ficaram do meu lado, me apoiando, me dando força, me dando um ombro. Jamais seria capaz de agradecer a eles como deveria.

O período que me dá prazer relembrar foi aquele em que nos encontrávamos muito no Guarujá, em meados dos anos 80; eu tinha comprado um apartamentinho no Tortuga, e íamos bastante para lá, Regina, eu e as meninas, Fernanda e Inês. Pedro passava todas as suas folgas no Guarujá, e então sempre que íamos, nos encontrávamos.

Naquela época, estava reformando a casa da avó, no Jardim Virgínia.

Pedro era um eterno reformador de casas, de apartamentos. Estudou História, virou jornalista, foi um bom jornalista, mas acho que a rigor aquilo de que mais gostava na vida era reformar construções. Não saberia contabilizar quantas casas ele reformou na vida.   

Reformava casas com o cuidado de ourives de um Dorival Caymmi, de um Paul Simon. Levava anos em cada reforma. Acho que, na verdade, não queria nunca terminar uma reforma: seu grande prazer era o caminho, não o ponto de chegada. Era mexer, remexer, elaborar, ter uma idéia, comprar uma determinada peça, escolher um lugar para ela – e às vezes se arrepender, desfazer o que estava feito, começar de novo, tentar de novo.

Acho que era isto: ele gostava era do caminho, não do ponto de chegada. Bem-aventurados os seres que sentem prazer no caminho, que não passam a vida a pensar no dia de amanhã.

Um ourives jamais satisfeito com sua obra

Ao nos visitar no apartamentinho do Tortuga que caberia em um décimo da casa que reformava no Jardim Virgínia, uma vez me elogiou porque eu tinha um filtro, desses antigos, de vela. “Pô, Servaz, eu tô mexendo em tudo mas ainda compro água mineral. Você já tem um filtro!”

Jamais estava satisfeito com sua obra. Uma vez, no início dos anos 2000, recebeu um grupo pequeno de amigos da Agência Estado em seu recém-reformado apartamento da Praça Amadeu Amaral; o lugar estava absolutamente imaculado, mas ele já via uns pequenos problemas, aqui e ali, que queria atacar de novo.

Uma década antes, em visita a Florianópolis, carreguei toda a família de Mary até a pizzaria que ele havia comprado na região de Sambaqui. Era um prédio antigo, em região nobre, dessas protegidas pelos conselhos do patrimônio, e ele estava em meio a uma gigantesca reforma. Botava a rigor tudo abaixo, para começar do zero. Brincávamos, nós, os amigos dele, que na época ele bebeu todo o FGTS; estávamos errados – ele torrou o FGTS dele numa reforma.  

Foi meu maior incentivador quando comecei a perpetrar “críticas” sobre MPB, no tempo em que Sandro Vaia editava a Variedades do Jornal da Tarde. Dizia que a gente tinha que encontrar um caminho, um nicho, para poder ser reconhecido. Me repetiu isso ao longo de décadas, como um mantra: procure se especializar, fazer seu nome. Nunca me especializei, nunca fiz meu nome – assim como ele sempre passou longe, na prática, do que ele teoricamente achava que devíamos fazer.

Uma vez perdi a calma e quase a razão por causa dele. Um colega de trabalho falou mal dele dentro da minha casa. Botei-o pra fora com berros de que só bêbado é capaz, do tipo: “Ele é meu amigo, ele é uma excelente pessoa, um excelente profissional, e na minha casa ninguém fala mal dele”.

Tão firme nos ódios quanto nas devoções

Era, ele próprio, dado a ódios. Um lord inglês, a educação, a fineza, a elegância em pessoa, tinha um lado emocional que não podia ser contido, e às vezes espalhava merda a seu redor.

Tão firme nos ódios quanto na devoção aos amigos, defendia-os com todas as armas possíveis e imagináveis.

Trabalhamos juntos durante décadas numa empresa, a S.A. O Estado de S.Paulo, que era ao mesmo tempo um porto seguro e um campo minado. De uma estranha maneira, Pedro e eu – tão absolutamente diferentes em quase tudo, um quatrocentão paulistano e um pobre mineiro migrante – tínhamos uma estranha semelhança. Fomos capazes de, cada um de seu jeito, cada um com seu estilo, nos mantermos amigos de todos os diferentes lados em luta. Amigos, no caso dele – ou, no meu caso, pelo menos merecedor de algum respeito.

Como disse o Sidney Mazzoni, “nos reencontraremos um dia, em algum Pilão, em algum lugar”. Até lá, ou até depois, vou ter sempre lembranças fortes de Pedro França.

Pedro sempre demonstrou um carinho especial por Fernanda, desde os tempos em que ela era pequenininha, e a gente a carregava, junto com Inês, para os bares do Guarujá, da Praia do Tombo ao Perequê. Vejo agora que Fernanda, pessoa maior, guarda boas lembranças daquele tempo.

Minha amiga Viviane Kulczynski, que tem a mesma idade de Fernanda, e não conheceu direito o Pedro, me ligou perguntando se eu poderia fazer o texto sobre ele para o Estadão. Não sei como agradecer a ela, ou ao Roberto Gazzi, que talvez tenha autorizado Vivi a me fazer a proposta.

Por um lado, foi bom: as primeiras horas após a morte de Pedro, passei trabalhando, sem ter tempo para sentir a dor. Tá, quando a gente adia, a tristeza vem pior depois. Mas tudo bem. Enquanto está adiando, tá bom.

 Que a gente não seja enterrado com um texto anódino

Mas tem um outro lado. Jornalista quando morre merece no mínimo, no mínimo, um texto de alguém que o conheceu, que gostou dele. Uma das piores coisas do mundo para um jornalista é ser enterrado com um texto anódino, sem emoção – ou simplesmente ruim.

Nem interessa se o texto que fiz é ruim – pelo menos ele tem emoção. Também nem interessa se vai sair no Estadão como eu fiz, e como saiu, na íntegra, no estadao.com.br que chefiei durante um tempo. Não interessa como vai sair. A gente escreve é para escrever, não para ser publicado.

 Este foi o texto que mandei para o Estadão:

“Pedro França, o único jornalista rico, fino e chique de São Paulo…” Essa expressão foi publicada diversas vezes, no Jornal da Tarde, nos anos 70 e início dos 80, nos textos assinados por seu amigo Telmo Martino, na editoria de Variedades – textos carregados de humor e muito veneno, uma espécie de coluna social sobre os famosos da época que não era assinada como coluna social.

Pedro França Pinto, morto ontem em São Paulo, aos 59 anos de idade (completaria 60 no próximo mês de março), fez Direito na PUC (Pontifícia Universidade Católica) e História na Universidade de São Paulo (USP), mas tornou-se jornalista logo que deixou o curso. Trabalhou no Grupo Estado por mais de 25 anos. Foi repórter, redator, subeditor e editor no Jornal da Tarde, a partir de 1974, onde começou como setorista do Palmeiras (embora fosse torcedor fanático da Portuguesa) e passou pelas editoriais de Esportes, Reportagem Geral e Variedades. Deixou o jornal por alguns anos no final da década de 80, para o que costumam chamar de período sabático – uma temporada em Florianópolis, distante do jornalismo diário.

Retornou ao Grupo em meados dos anos 90 para a Agência Estado, onde trabalhou em diversas áreas, inclusive no início do pioneiro site da Agência na internet, em 1995. Participou diretamente da integração do portal estadao.com.br, até então de responsabilidade da Agência, à redação do jornal O Estado, em 2002. Foi um dos editores-executivos do portal, e posteriormente trabalhou como redator do Caderno 2.

Não era rico, ao contrário do que dizia a frase bem-humorada do colunista do JT, embora viesse de importante família paulista. Mas seguramente era fino e chique, segundo atestam diversos dos muitos amigos que fez ao longo de várias décadas no Grupo Estado. A discreta elegância de suas roupas e de suas maneiras era a mesma que dedicava aos textos e ao trabalho de edição. 

“Pedro França foi o jornalista mais rico, fino e chique que eu conheci em meus 40 anos de carreira”, diz Sandro Vaia, ex-diretor de redação de O Estado, que trabalhou com Pedro ao longo de boa parte dessas décadas. “Rico de humor , fino de espírito, chique de talento. A presença dele dava dignidade e altivez a um treino da Portuguesa ou a uma guerra no Líbano. Nunca conheci uma alma tão generosa, uma presença tão doce, um ser humano tão digno.Vou plagiar aqui um título antológico que o saudosissimo Guilherme Cunha Pinto escreveu quando morreu Picasso: morreu Pedro França, se é que Pedro França morre”.

“Era impressionante a facilidade com que ele editava e fechava as páginas”, recorda-se Valter Pereira de Souza, o Valtinho, que trabalhou ao lado de Pedro França na Variedade do Jornal da Tarde durante vários anos, na década de 80, como diagramador. Mais tarde, Valter tornou-se editor de arte do JT, e continuou sendo um dos amigos mais chegados de Pedro França. “Ele tinha um ótimo texto, e era rápido e preciso na hora da edição. Durante todo o tempo em que ele foi editor de Variedades, não atrasamos um dia sequer o fechamento. Estou muito chocado com a morte dele”, disse, com dificuldade para conter a emoção.     

O corpo de Pedro França Pinto será velado no Cemitério do Araçá, e sepultado no jazigo da família, no Cemitério da Consolação, às 14 horas de hoje (12/2/2010).

12 e 13 de fevereiro de 2010

8 Comentários para “Pedro França Pinto (1950-2010)”

  1. Pedro era tudo isso mesmo. Adorava reformas e nem sei se deu ou não tempo de ele instalar uma lareira elétrica com cara de original que recomendei na última vez que nos encontramos. Acho que foi em novembro do ano passado. Na época, ele deliciava-se com as minúcias da reforma que tocava em seu novo apartamento, no mesmo prédio do antigo, mas bem maior, o que tornava a obra ainda mais complexa. Detalhes de acabamento e das peças de arte – de um quadro tosco para marcar pontos na sinuca que ele garimpou em uma bar perdido no interior de Minas a lalique francês.

    França e Pedro França combinam. Na verdade, Paris e Pedro combinam. Há alguns anos, passamos juntos uma tarde inteira no Deux Magots a nos deliciar com o frio da cidade. Além de Nando e Bia, amigos eternos, estava lá minha mãe e minha amiga Andrea, uma amante da cidade das luzes. Ambas se encantaram com ele.

    O Pedro era mesmo assim – chique, fino, gentil e encantador. Vai fazer falta num mundo onde esse tipo de gente é cada vez mais raro. Grande Pedro!

  2. Vai deixar saudades Padrinho.
    Queria tanto dizer que comecei a fazer história na UFSC.
    O que dizer além desse enorme coração?
    Por favor, mandem-me e-mails falando do pedro, adorarei lembrar todos os dias desta grande pessoa!
    Obrigado!

  3. Sim, o Pedro era acima de tudo um reformador. E, nas reformas, tinha, às vezes, decisões difíceis pela frente. Como na casa do Jardim Virgínia, por exemplo. No jardinzinho ao lado dela havia uma areca cinquentenária. Pedro mandou retirá-la. Nós dois, Vaz, pegamos no pé dele, lembra-se? E ele respondia: “Tinha que decidir entre a areca e um gramado. Escolhi o gramado”. Nós dois continuamos pegando no pé. Uma vez, eu e ele a sós, ele disse: “Você já foi à casa do Servaz? Não tem sequer uma samambaia lá, e ele fica me gozando por causa da areca”. O engraçado é que a pessoa que removeu a areca deixou as raízes dela, enormes, na frente da casa, para os lixeiros, mas estes não passavam. E as raízes gigantes ficaram dias lá na frente. Pedro olhava com desgosto e comentava: “O pior é que quem passa aqui na frente vê isso. É desagradável.”

  4. Sergio, não sei como nem por que, acabei chegando a este texto, publicado há mais de dois anos. Só posso dizer: é necrológio que qualquer um gostaria de ter. Em algum lugar, o Pedro deve ter lido e dado aquele seu sorriso contido…

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