Os tempos são dunguistas

É preciso que haja um pouco de moral, grandeza e fantasia na vida, caso contrário de que valerá vivê-la?

A pátria vestiu as chuteiras, esta semana, preparando-se para entrar em campo daqui a mais ou menos um mês, e gastou a sua primeira dose de adrenalina esperando a convocação dos 23 guerreiros que tentarão trazer a Copa do Mundo.

A metafísica vigente no universo do futebol brasileiro, neste momento, se aproxima muito da metafísica geral que envolve o País: governar pro gasto, fazer música pro gasto, escrever literatura pro gasto, jogar futebol pro gasto.

Nenhum grande projeto de País, a não ser o de ganhar as eleições, custe o que custar. Nenhum grande projeto de deslumbrar o mundo com o futebol, a não ser o de ganhar a Copa, custe o que custar.

Dunga, ex-jogador aplicado tornado técnico por um capricho do atual proprietário do futebol brasileiro, convocou 23 dungas para uma empreitada que envolve a pragmática tarefa de enfrentar 7 adversários num torneio fulminante cheio de som e fúria, e trazer pra casa uma taça e um título de Campeão do Mundo, o sexto da história do futebol brasileiro.

É provável que Dunga consiga executar com precisão a tarefa que lhe deram. Ele é um C.E.O pragmático de uma empresa destinada a ganhar títulos com o mínimo dispêndio de talento e graça. O padrão não é mais a beleza, a alegria, a joie de vivre, mas uma soturna eficiência.

O técnico abriu mão da dose de criatividade e fantasia que jovens brilhantes e talentosos, como Neymar e Paulo Henrique, poderiam acrescentar à esperada eficácia de seu time, e durante a encenação burocrática da convocação, usou os jargões que veio acumulando ao longo de sua carreira de amanuense da bola – e trocou a dose de fantasia que nos falta pelos seus parâmetros de comportamento: comprometimento, grupo fechado, coerência, responsabilidade, patriotismo. Uma mistura indigesta de futebolês com patriotês.

Enfrentou os questionamentos da imprensa com a determinação de um guerreiro, que nos comerciais de cerveja troca o sentido lúdico de uma competição esportiva pelo espírito combativo de quem vai a um confronto onde querem nos fazer crer que a honra da Pátria está em jogo.

O futebol é apenas um jogo – um lindo jogo – onde se exibem as características marcantes do caráter de um povo, seu estilo, sua alegria, sua maneira de encarar a vida. Ao transformá-lo numa competição de vida ou morte, ou numa empreitada comercial onde só o resultado interessa, os defensores do medíocre e tosco estilo dunguista de ver a vida estão transformando um universo de sonho e fantasia numa batalha vulgar, sem nenhum outro objetivo que não seja o de esgotar-se a si mesmo na esterilidade do resultado pelo resultado.

Não é coincidência que neste momento em que o rebaixamento dos valores morais e éticos do País transforma a luta política num embate sem grandeza, o futebol esteja condenado a imitar a vida.

 Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat

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