O lixo

O caminhão que recolhe o lixo passa cedo. Para dormir um pouco mais, coloco na rua, de véspera, o saco com as sobras produzidas nos últimos três dias. Constato que ele está pesando uma enormidade. Não estaremos exagerando no consumo e produção de resíduos? Se cada residência recolhe quantidade semelhante, e se somos mais de dois milhões só em nossa cidade, haja trabalho para o pessoal da limpeza urbana.

 Tento argumentar que o produto de hoje é uma exceção, pois, além dos jornais de muitos dias e de uma quantidade de ração canina que mofou, itens não costumeiros encheram a embalagem. E como não temos ainda a coleta seletiva, vai tudo no mesmo saco. Será que o mundo vai se afogar em cordilheiras de lixo?

 Penso que cuidar de ensacar é uma boa maneira de contribuir para a higiene doméstica e coletiva. É um momento em que penso naqueles que fazem das ruas suas lixeiras, que cevam ratos e doenças e chamam as enchentes pelo entupimento dos bueiros, esgotos e ribeirões. Prefiro ser esse colaborador do lixeiro anônimo que, com hora marcada, religiosamente, como se dizia, coleta o que deixo ao lado do portão. Há um acordo tácito para que o material esteja bem embalado e não contenha cacos ou pontas que possam feri-lo. Ao longo dos anos vimos cumprindo o que nos cabe nesse compromisso. E, no fim do ano, entro com minha parte em suas festas.

 Pensando no lixo, entro no mundo do lixo. Os detritos mais asquerosos estão nos jornais de todos os dias que escancaram injustiça, violência, corrupção, mentiras, preconceitos. A desumanidade impera nas páginas. Ou então, essas se calam diante dos poderosos, aceitando passivamente a mentira, a ignorância e idiotia de mitos fabricados para enganar a maioria. O que vale para a imprensa escrita se multiplica quando assistimos aos meios audiovisuais. E as opiniões descabeladas que circulam pela rede digital? Será que o país foi sempre assim, desmiolado e sem qualidades, incapaz de pensar e produzir idéias, políticas, obras e espetáculos inteligentes?

 É bom então que eu jogue ao lixo esses cadernos jornalísticos imprestáveis. E que emudeça o televisor, jogue fora o controle remoto que nos oferece um circo de horrores e mau gosto. Parar de gastar o tempo de viver com o que não é essencial. Aproveitar o dia e a vida.

 Não sei por onde anda meu companheiro de peladas de rua que, adolescente, encontrei trabalhando num caminhão de lixo. Pensando nele e nos profissionais da boa limpeza urbana, gostaria que houvesse, também, um serviço de coleta de porcarias culturais, políticas e sociais.  

 Enquanto esse sonho não se realiza, entro em meu refúgio e mergulho em leitura e releitura de Guimarães Rosa. Isso sim, um luxo.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

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