Kits: da tesoura à camisinha

Esta semana lembrei do Código de Trânsito Brasileiro, sancionado pelo Fernando Henrique Cardoso em fins da década de 1990. O presidente vetou inúmeros penduricalhos e exigências plantados por lobbies. Mas ficou um, inesquecível: o kit de primeiros socorros.

Lembrei porque fui trocar de carro e me deparei com uma novidade. Para negociar o carro antigo, é preciso um laudo pericial (R$ 70). A peça tem o propósito de comprovar que o número do motor do carro é o mesmo que está no documento.

A exigência, a meu ver, serve para impedir a improvável possibilidade de que cidadãos honestos cometam fraude. Para a bandidagem do ramo tanto faz. Ela falsifica o laudo, o reconhecimento de firma em cartório, e, se preciso, o próprio documento. 

O kit de primeiros socorros caiu logo, por absurdo. Sobre ele, escrevi, para o Jornal da Tarde, o artigo que se segue com o mesmo título que vai acima.

Um técnico entrevistado na tevê, sobre o kit de primeiros socorros dos carros, cometeu a imprudência de criticar a tesourinha sem ponta (e sem graça) que vem junto. “Se for preciso cortar o cinto de segurança para livrar um ferido, a tesoura não corta.” (Câmera mostra a tesourinha não cortando). Será que esse pessoal não se toca? Uma cena dessas pode estimular mais um lobby, o dos fabricantes de tesoura.

E logo, em nome do atendimento cada vez mais eficiente aos feridos, seremos obrigados a comprar e levar no carro mais uma novidade: o kit tesoura.

O kit pode ter uma tesourinha para cortar bandagens (e outra para as unhas, que higiene sempre é bom), mas conterá também uma maior e mais forte (e mais cara), para cortar cintos de segurança. E como nos casos de ferimento na cabeça o cabelo pode atrapalhar o curativo, nada mais justo que o kit contenha uma tesoura de barbeiro.

Também não poderá faltar uma tesoura de cortar grama, para o caso de o ferido ser atirado para fora do carro, em acidentes na área rural.

Tudo pelo ferido! E se é assim (dirão as pessoas certas, no momento certo) é um absurdo que não se leve no carro um equipamento elementar para primeiros socorros: um tubo de oxigênio (completo com máscara). Também nunca é demais pensar em uma maca, porque não é possível retirar a vítima do carro e deixá-la simplesmente no asfalto.

Os especialistas dizem que nunca se deve remover o ferido, sob pena de causar-lhe males irreparáveis. Mas a lei não vai obrigar ninguém a usar a maca – basta comprá-la.

Uma vez adotados todos esses zelos com os feridos, nada mais natural que os fabricantes de pequenas carretas se mobilizem. Com tal profusão de equipamentos, logo eles não caberão dentro do carro. Será preciso levá-los na carreta, como se faz com material de camping. A idéia certamente terá todo o apoio do governo: criará, rapidamente, o IPVA das carretas.

Os mais empolgados em proteger essa mina – o ferido – podem levantar a idéia absurda de que cada motorista leve em seu carro um paramédico. Homem ou mulher, à escolha. Como homens poderão preferir mulher, e vice-versa, logo haverá uma corrida de fabricantes de camisinha, alegando que sempre pode pintar um clima.

A contratação dos paramédicos seguramente não emplacará. Mas o kit camisinha ninguém segura.

Detalhe impertinente: a frota nacional é de cerca de 28 milhões de veículos. Se um equipamento ou serviço obrigatório der lucro de R$ 1, e considerando a frota toda, estaremos falando em R$ 28 milhões.

Valdir Sanches, jornalista, costumava dirigir um Volks sedã 4 portas que ele chamava de Zé do Caixão.

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