Dylan e Joan Baez cantam na Casa Branca as músicas que mudaram os EUA

Bob Dylan e Joan Baez, e mais diversos grandes nomes da música americana, vários deles ligados diretamente à luta pelos direitos civis que resultou no banimento das leis segregacionistas que estiveram em vigor em vários Estados do Sul até meados dos anos 60, reuniram-se na Casa Branca, e cantaram as canções que ajudaram a mudar os Estados Unidos.

Aconteceu na terça-feira, 9 de fevereiro. Na quinta, dia 11, emissoras públicas em todo o país transmitiram na íntegra as apresentações de Dylan, Joan Baez, Bernice Johnson Reagon e os Freedom Singers, Smokey Robinson, Jennifer Hudson, John Mellencamp, Yolanda Adams, Natalie Cole, os Blind Boys of Alabama and o Howard University Choir. O ator Morgan Freeman – que acaba de interpretar Nelson Mandela no filme Invictus, de Clint Eastwood, focalizando um episódio na vida do estadista que fez ruir o regime racista do apartheid na África do Sul – leu trechos de discursos de personalidades que fizeram ruir o regime racista vigente no país mais poderoso do mundo até uns poucos anos atrás.

As apresentações, é claro, já estão no YouTube. O fascinante é que estão lá com excelente qualidade de som e imagem. Não é pirata – é oficial; foi filmado pelo PBS, o Public Broadcasting System.

Bob Dylan – num palco bem pouco iluminado, com apenas um suave facho de luz sobre seu rosto, lateralmente – cantou os versos de um dos hinos daqueles tempos de mudança, “The Times They Are A-Changin’”. “Venham, senadores, congressistas, por favor atendam ao chamado. Não fiquem parados no umbral da porta, não bloqueiem a entrada da sala.” A poucos metros do palco, sob os candelabros de cristal do East Room da Casa Branca, estavam diversos senadores, congressistas, o presidente Barack Obama, sua mulher Michelle, e o vice Joe Binden e sua mulher, notou Jon Pareles, veteraníssimo crítico de música do New York Times.

Dylan – que jamais tinha se apresentado na Casa Branca – tinha uma cara de jogador de pôquer, descreveu Pareles. “Seu tom era áspero mas quase suplicante; ele havia transformado sua velha exortação à luta numa valsa outonal. Depois, ele desceu do palco e apertou a mão do presidente Obama.” O título do New York Times foi feito por alguém de talento (seria o próprio Pareles?): “Música que mudou a História e ainda ressoa”.

A descrição feita por Joe Pareles é excelente, acurada, sensível: de fato, para essa apresentação sob os candelabros de cristal da Casa Branca, Dylan, aos 68 anos (fará 69 no dia 24 de maio de 2010) transformou sua música-manifesto num suave valsa. Só gostaria de acrescentar que ele – que já usou sua voz de uma dezena de maneiras diferentes – estava aqui circunspecto, cuidadoso. Não mordia, não engolia partes das palavras, como fez em diferentes estágios da carreira prodigiosa. Cantava pronunciando nítida, claramente, cada sílaba – como fez depois do acidente de moto do final dos anos 60, nos discos John Wesley Harding e Nashville Skyline.  

Joan Baez cantou outro hino dos anos 60, “We Shall Overcome”, que ela cantou em diversas marchas e manifestações exigindo o fim da discriminação racial, vários deles ao lado do reverendo Martin Luther King. Antes de começar a cantar, disse ao casal Obama: “Vocês são muito amados”. No meio da apresentação da música, propôs que todos cantassem juntos. Já que comentei sobre a voz de Dylan, comento sobre a voz de Joan. Aos 69 anos, completados no dia 9 de janeiro de 2010, não tem mais aquele soprano puro como cristal, naturalmente; sua voz está bem mais grave do quando começou a carreira, 50 anos atrás. Tive a impressão de que Joan, que tem uma história de vida tão rica quanto é possível imaginar, já viveu tudo o que um ser humano pode esperar viver, e muito mais, estava de fato emocionada com aquela situação, aquele momento. Sua voz estava suavemente embargada – linda como sempre, mas suavemente embargada. (A foto acima foi copiada diretamente do site oficial da Casa Branca, que traz uma galeria de fotos do evento.)

Obama subiu ao palco para cantar no meio de todos os artistas convidados “Lift Ev’ry Voice and Sing”, uma canção que é conhecida como o hino nacional dos negros americanos.  

“Não existe raça alguma a não ser a raça humana, e não temos outro lugar para viver”

Antes, o presidente Obama havia lembrado, num discurso, que anos atrás aquelas mesmas canções foram cantadas quando era difícil defender os direitos civis de todas as pessoas; quando os negros e os defensores do fim das leis racistas eram atacados, espancados, e muitos foram mortos. “É música que não apenas se inspirou no movimento (da luta pelos direitos civis), mas que também deu a ele força. Que essa música nos faça caminhar para a frente. Como um povo. Como uma nação”, disse Obama.

Um pouco antes do espetáculo, durante a tarde, Smokey Robinson, uma lenda da música negra, da fase áurea da gravadora Motown, havia falado para um grupo de 120 estudantes ginasianos de diversos grupos étnicos e diversos lugares do país, escolhidos para participar de um workshop em Washington, que eles eram felizes por não ter que enfrentar o racismo que ele e seus companheiros de gravadora vivenciaram durante as viagens ao Sul dos Estados Unidos nos anos 60. “Não existe raça alguma a não ser a raça humana”, disse Robinson aos jovens. Que grande pena que os ativistas do racialismo protegidos e abençoados pelo governo Lula não ouviram, e não ouvirão nunca essa lição. “Somos todos iguais, e não temos outro lugar para viver.”

Há no YouTube diversos, diversos vídeos dessa apresentação absolutamente memorável e emocionante.

As apresentações musicais na Casa Branca começaram na era de Jimmy Carter, nos anos 70. A tradição vem sendo mantida. É uma tarefa assumida pelas primeiras-damas. Michelle Obama, no primeiro ano do governo do marido, já havia organizado apresentações de jazz, de country, de música erudita e de latinos.

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Este não é um lugar para dar notícias. A rigor, eu deveria estar apenas comentando o fato e dando links para alguns dos vídeos. Mas, como não vi ainda notícia alguma sobre esse “In Performance at the White House: A Celebration of Music from the Civil Rights Movement” nem nos jornais, nem nos portais mais importantes da imprensa brasileira, me senti obrigado a contar um pouco sobre o evento.

Mas isso não importa. Importa é o evento em si – e está tudo lá no YouTube, no portal da Casa Branca, no portal dos jornais americanos. Já está na História.

12 de fevereiro de 2010.

Este post é da Geléia Geral anotações curtas sobre os mais variados assuntos.

Não fui de todo verdadeiro ao dizer aí em cima que a imprensa brasileira não noticiou o evento do dia 9. O portal do Estadão deu uma notinha de umas 15 linhas; o G1 deu alguns dias atrás uma notinha anunciando que Bob Dylan iria participar de um evento na Casa Branca. No portal do Globo, não achei nada. As edições impressas do Estadão e do Globo não deram uma linha. Ou pelo menos não achei lá.  Mas há sempre a esperança de que eu não tenha lido direito os jornais…