Fazemos reformas demais e educamos de menos

A imprensa brasileira foi ágil, extremamente ágil, diante do acordo ortográfico firmado pelas oito nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Pelos termos do acordo, as novas normas passaram a vigorar a partir de 1º de janeiro de 2009, com o prazo de três anos – até 31 de dezembro de 2011 – para que se faça a transição.

Como num passe de mágica, todos os grandes jornais e revistas brasileiros passaram a escrever na novilíngua já no primeiro dia.

Houve pouquíssimas exceções – este Jornal da ABI foi uma delas.

A agilidade é, sem dúvida alguma, característica importante do jornalismo. Mas não é a principal. Antes de ser ágil, e dar em primeira mão a notícia, é preciso checá-la. Analisar sua veracidade.

Do contrário, corre-se o risco de, perseguindo a agilidade, cair na afoiteza. O risco é imenso – está aí o caso da Escola de Base que nos deveria manter sempre alertas.

Jornais e revistas brasileiros foram afoitos na adoção imediata, precipitada, sem qualquer análise, sem que tivesse havido uma discussão ampla, do novo acordo ortográfico. Agora, completada a primeira metade dos três anos dados para se fazer a transição, é possível ter a clara certeza disso. Avolumam-se as críticas às normas adotadas pela CPLP – o Jornal da ABI, por exemplo, apresentou diversas delas, em excelente reportagem no número de fevereiro deste ano.

Mais ainda: ao contrário dos órgãos de imprensa brasileiros, jornais e revistas de Portugal simplesmente recusaram-se a adotar as novas normas.

Há, talvez, fatores históricos que possam explicar como e por que a imprensa brasileira, ao contrário da portuguesa, foi com tanta sede ao pote da novidade. Somos um país jovem, em que a mobilidade é muito maior, mais intensa, que nos países de mais séculos de civilização. Trocamos de moedas tantas vezes, num período tão curto de tempo – se, depois dos réis que valeram até os anos 1930, passamos três décadas com uma única moeda, o cruzeiro, que perdia o valor a cada mês, de 1967 até 1984 mudamos, freneticamente, para o cruzeiro novo, o cruzeiro de novo, o cruzado, o cruzado novo, o cruzeiro mais uma vez, o cruzeiro real, até chegar ao real. Sete moedas diferentes, num brevíssimo período de 17 anos.

Os jornais e revistas brasileiros costumam fazer reformas gráficas com a mesma velocidade com que o Ministério da Fazenda e o Banco Central criam novas notas. A cada um ano ou dois, os órgãos de imprensa passam a adotar os fios, quando não os têm, ou tiram fora os fios, quando os têm, e fazem mais uma e outra alteração no visual na ânsia de atrair de algum modo novos leitores.

Talvez essa nossa afeição às mudanças explique a pressa com que todos passaram a escrever frases absurdas e literalmente incompreensíveis como “Defesa da Seleção para goleadores adversários”, ou “Intervenção da ONU para a guerra”.

Enquanto isso, a pátria mãe da língua permaneceu exatamente onde estava.

A verdade é que o acordo, que teoricamente viria para unificar, aprofundou a divisão do Português.

A verdade é que o acordo ortográfico é inútil, desnecessário, inócuo, contraproducente, oneroso.

É impossível unificar por decreto hábitos, costumes centenários.

Ao longo de séculos, Brasil e Portugal, para tomar só os exemplos dos dois países mais importantes da comunidade lusófona, desenvolveram vocabulários diferenciados – usamos palavras e expressões diferentes, e acordo algum conseguiria alterar essa realidade.

Usamos grafias diferentes em uma infinidade de palavras que não foram contempladas nesse acordo.   

Usamos acentuações diferentes em uma outra infinidade de palavras que não foram contempladas nesse acordo. (Ver quadros.)

E, a rigor, isso não é um problema. Muito ao contrário: isso é bom, bom demais. Enriquece a língua, torna-a mais larga, mais amazônica, mais tejamente ampla. Somamos à língua expressões gaúchas, paulistas, mato-grossenses, piauienses, além-tejanas, algarvianas, douras. Nenhum português que teve a oportunidade de aprender sua língua deixará de compreender uma frase do curitibano Dalton Trevisan, assim como nenhum goiano deixará de compreender um parágrafo de Eça de Queiroz, nascido na região do Grande Porto. Não é um c ou um p a mais ou a menos que nos separa da compreensão.

O que é danoso a essa língua maravilhosa, que os portugueses doaram ao mundo, é o excesso de decretos e a falta de boa educação.

***

Fazemos no Brasil reformas demais, e educamos de menos.

Todos os estudos, as análises, os levantamentos mostram que a educação é uma das maiores fragilidades do Brasil. Temos imensas legiões de analfabetos funcionais – alunos do quarto ano do ensino básico, ou até mais, que não sabem escrever uma frase, que não sabem compreender um parágrafo. Temos universitários formados em jornalismo que cometem erros absurdos de Português, que não conseguem expressar com clareza uma idéia simples. Fazer essas alterações só complica as coisas, atrapalha, cria gastos desnecessários num momento em que todas as atenções deveriam estar voltadas para dar eficiência à educação.

Gastos desnecessários: dá para imaginar o custo de repor todos os livros didáticos, todas as bibliotecas, num país de dimensões continentais, com 190 milhões de habitantes? Em seis outros países – todos ainda pobres – que herdaram a língua dos portugueses? Dá para imaginar o desperdício que é tornar obsoletos todos os dicionários editados de 1971, ano da última (agora penúltima) alteração da ortografia da Língua Portuguesa, até agora? Dá para imaginar como retreinar professores que já têm uma formação capenga?

Fizemos uma profunda alteração na ortografia nos anos 30; fizemos outra alteração em 1971, e agora esta outra, em 2008/2009.

É reforma demais, num espaço de tempo curto demais.  

Dá para afirmar, com segurança, que nenhuma outra língua importante passou por tantas modificações num período tão curto de tempo.

Os argumentos contra esse acordo acumulam-se. Transcrevo apenas quatro, esgrimidos por um estudioso, Alessandro Martins, em seu site livroseafins.com:

“1) Não se deve legislar sobre a ortografia, tal como não se legisla sobre a gramática. É totalmente inútil legislar sobre a ortografia. Nada se melhora fazendo tal coisa. (…)

“2) A nova ortografia não unifica a língua portuguesa. Ao passo que antes tínhamos duas ortografias tradicionais, uma brasileira e a outra portuguesa, agora passa-se a ter várias ortografias dentro de um só país, pois a nova ortografia é na prática uma regra que diz que, com poucas excepções, cada qual escreve como lhe der na gana. Portanto, a nova ortografia não unifica; desunifica.

“3) Todas as reformas ortográficas feitas por via legislativa dificultam o acesso à cultura, sobretudo das famílias mais carenciadas dos países mais carenciados, pois nos livros das bibliotecas de que dependem passam a ler uma ortografia errada.

“4) Todas as reformas ortográficas que não surjam naturalmente pela escolha das pessoas que escrevem a língua é uma forma artificiosa de afastar as pessoas das bibliotecas e da história da sua língua, pois torna-lhes cada vez mais difícil ler livros com mais de um par de décadas. Nos países lusófonos, ao contrário do que ocorre noutros países, nenhuma pessoa com um grau médio de instrução escolar é capaz de ler um livro com 80 ou 90 anos, porque a ortografia recebeu tantas mudanças que é como se todo esse legado bibliográfico estivesse na prática escrito em língua estrangeira.”

Isso para não entrar nos aspectos mais técnicos, mais de lingüística, que já foram sobejamente expostos na reportagem “Um Mar de Desacordos”, no número 351 do Jornal da ABI, na qual se reproduziu documento do professor Ernâni Pimentel – especialista com mais de cinco décadas de experiência no ensino do idioma. Pimentel reuniu 25 conjuntos de incoerências do Vocabulário editado pela Academia Brasileira de Letras.

E também para não entrar na comparação óbvia com outras línguas, em especial o inglês e o francês, que, ao contrário da nossa, não ficam sujeitas a modificações decretadas a cada 20 ou 30 anos por uma conjunção de politicagem, autoritarismo e falta de discussão ampla.  

É dificílimo, um ano e meio transcorridos após a entrada em vigor desse acordo mar de desacordos, imaginar o que se deve fazer no futuro, diante do que a imprensa brasileira, de maneira afoita, apressada, tornou realidade.

Não é possível ter certeza de que devemos conclamar os brasileiros, os nossos irmãos portugueses, angolanos, moçambicanos, para um movimento tipo “Vamos resistir ao acordo!”

Mas uma coisa é absolutamente certa: o debate deve se manter aberto. Deve-se discutir, amplamente, nos fóruns mais amplos e abrangentes, saídas para esse impasse que oficializou um enorme fosso – como jamais tinha havido antes – entre a língua portuguesa que se fala e se escreve em Portugal, no Brasil e nos demais países lusófonos.

O Jornal da ABI tem tido um papel importantíssimo ao manter essa questão em pauta. Educadores, escritores, lingüistas devem ser envolvidos no debate.

Difícil imaginar uma saída para esse imenso imbróglio. Mas também não é possível simplesmente dar as coisas como feitas e acabadas. É preciso manter em mente, sempre, que nada é irreversível.

Vamos manter o debate. Ampliá-lo. A língua é muito maior e mais importante que esse acordo torto que só cria desacordo.

 Este texto foi escrito para o Jornal da ABI, e publicado originalmente no número 360, de novembro de 2010.

7 Comentários para “Fazemos reformas demais e educamos de menos”

  1. Podem chamar de burros, retrógrados, topeiras, o que for, aqueles que seguem no navio como se nada tivesse ocorrido. Sou um desses passageiros. Vejo todos os dias conteúdos de jornais lisboetas e do nosso patropi. Sigo escrevendo do jeitinho que aprendi, com tão saudáveis e saudosas lições dos meus professores de Teodoro Sampaio, Bernardino de Campos, Piraju e Curitiba. Ou seja, não deixei de usar circunflexo, hifen e trema onde necessário. Li as análises do professor Bechara e adorei o editorial do “Jornal da ABI”. Não desembarquei do velho navio, mesmo diante de tanto oba-oba de jornais regionais e jornalões batendo palmas para uma reforma que confunde e desagrada.

  2. Grande Montezuma, muito obrigado pelo belo comentário. É exatamente isso. Concordo com você em gênero, número e grau.
    Um grande abraço.
    Sérgio

  3. Caro Sérgio, concordo com o que escreve, embora não esteja muito dentro do assunto.
    Acho que este “acordo” é perfeitamente inútil e desnecessário, como muitas pessoas bem informadas têm dito.
    Em Portugal vai entrar em vigor em 2012 e causa desde já muitas procupações a pais e educadores.
    Mais despesas numa altura em que o nosso País está no fundo.
    Pela minha parte vou continuar a escrever tal e qual faço agora.

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