Dificilmente algo no mundo se parecerá com a Vila Itororó

Seria um absurdo alguém, em pleno centro de São Paulo, ter a sensação de que chegou a uma civilização perdida do fim do mundo. Mas dificilmente, em qualquer parte do planeta, algo se parecerá com o palacete da Vila Itororó. E mesmo o caminhozinho incerto que leva à vila, com suas casinhas de fachada deteriorada, fortalecem essa sensação. No entanto, as cores fortes dos grafites, pintados em muitas fachadas, em muros e por todo lado, trazem de volta à realidade: estamos em São Paulo.

No bairro da Bela Vista, o tradicional Bexiga. O estilo do palacete, que pode ser chamado eclético, mas bem comportaria a pecha de bizarro, revela na verdade um Frankenstein, feito com restos de demolição. Não é tão raso assim. O material foi o que sobrou do notável Teatro São José, depois que um incêndio o destruiu, em 1917.

Entenda-se: é uma construção fora de qualquer padrão, mas bela em sua caótica concepção. As colunas trazidas do teatro, que a envolvem, as carrancas e adornos, dão-lhe, à sua maneira, um ar nobre.

O palacete pertenceu a um rico tecelão português, Francisco de Castro. Ele levou os salvados do teatro para seu terreno de 5 mil metros quadrados, no Bexiga. Ali construiu primeiro, com material do comércio, 37 casas, com duas portas no térreo. A primeira serve à moradia do próprio térreo. A segunda abre para uma escada que leva à outra moradia, no andar de cima.

A história registra que, com o dinheiro dos aluguéis, ergueu então seu palacete, de quatro andares. O ano da inauguração está escrito em alto relevo, solenemente, na fachada: MCMXXII. Por acaso, e só por isso, 1922 é o ano em que São Paulo viveu a Semana da Arte Moderna.

Outra singularidade do palacete é ter entradas independentes para cada um de seus quatro andares. Um andar não comunica com outro. A obra foi construída ao pé de uma escarpa de uns dez metros, na margem direita da Rua Martiniano de Carvalho. Aqui em cima, há quatro entradas.

Uma, diretamente para o quarto e último andar. As outras três servem escadas que levam, cada uma, a um dos três andares restantes. Em alguma época, foram construídas passarelas para ligar a rua com os andares. As escadas, hoje deterioradas, perderam seu uso.

Quando chega em casa, muitas vezes vindo dos ensaios da escola de samba Vai-Vai, André Tavares dos Santos, de 22 anos, abre um velho portão de ferro. A peça está na calçada da Martiniano de Carvalho. Transposta, André passa por um leão de pedra, hoje tomado pela hera. O leão fazia par com outro, que se desfez (mas Antonia Souza Cândido, da associação amigos do bairro, guardou seus pedaços).

Caminha então, André, pela passarela que o conduz à área externa que circunda todo aquele andar, o quarto. Encostada à parede da casa, espera por ele a estátua de ferro de uma mulher, sentada, com um cacho de uva em uma mão, e ramos de trigo na outra. É a Deusa da Fartura, embora muita gente insista em dizer que é a Princesa Isabel.

Em outra face da parede, há pequenas janelas circulares com vitrais, cada uma homenageando um Estado da União.

Vê-se também um pequeno tocheiro, que, na verdade era uma das luminárias do teatro.

Nosso André gira então a grossa maçaneta, grande, de bronze trabalhado, e abre a porta (nesta existe também um puxador do mesmo material, que compõe com a caixa de correio). Entra na sala assoalhada, com forro de madeira. Ali estão, entre os móveis, os instrumentos de percussão que o sambista toca na Vai-Vai.

 Na sala seguinte há duas colunas impressionantes. Uma cariátides, em forma de mulher. E um atlante, com forma de homem. Suportam o peso do telhado, ao tempo em que decoram com surpreendente beleza o aposento. Há um janelão, fechado pela persiana. Mas outros dois vitrais redondos deixam entrar uma luz coada e agradável.

Como é morar num palacete de 88 anos? “É muito bom, a gente se sente parte da História”, André responde. Está aqui há 12 anos, com a mãe, a tia e dois outros parentes. A tia, Rita, chegou há 40 anos. O aluguel, quanto é? Um salário-mínimo.

Na verdade, era isso em 2006, quando a Prefeitura decretou a desapropriação da vila. As famílias deixaram de pagar o aluguel, enquanto se define se serão mudadas para um prédio de apartamentos. Pagam suas contas de água e luz, para comprovar que vivem lá. Esperam também o julgamento de uma ação de usucapião, movida pela associação de moradores.

Bem perto da cariátides e do atlante, à frente do sofá, ao lado da mesa, na sala de André, há dois grandes vasilhames. Destinam-se a aparar a água que vem das goteiras. André diz que já gastaram bom dinheiro para consertar o telhado e as calhas. Mas não resolveram o problema.

A área externa que circunda a casa (dividida para duas famílias), nesse quarto andar, tinha como proteção uma cerca de madeira de lei trabalhada. Hoje, só restou um pequeno pedaço. Uma mureta de tijolos a substituiu. Quem olha lá de cima vê, quatro andares abaixo, o jardim do palacete. Muito verde, e um leão grande, de cimento, deixado.

A impressão de que se chegou a um lugar perdido é de quem vem pela ruela que nasce na Rua Maestro Cardim. Ali estão as casinhas, uma em cima da outra, cada qual com suas janelas pequenas, com veneziana. A de cima, com uma grade de ferro, ao modo de sacada.

Nesta parte da vila, a vida está mais exposta. Uma mulher pendura roupa lavada num varal em frente a sua casa (na rua, portanto). Numa moradia nos baixos do palacete, uma cariátides, a coluna com figura de mulher, recebeu um toque inusitado. Pintaram-lhe um vestido azul, e uma máscara vermelha.

Em outra casa, outra dessas colunas adorna a cobertura de um galinheiro. Sob um impermeável, vivem um pomposo galo e sua companheira, uma galinha.

Este texto foi originalmente publicado no Diário do Comércio

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